segunda-feira, 23 de abril de 2012

Acerca do «Género» (parvo)


Na primeira nota que aqui escrevi, prometi que a este assunto voltaria.
Aproveito para deixar algumas fotos dos retratos dos amigos mais chegados que Malhoa pintou, numa clara evocação “RembrHalsista-Velasquista”, durante a primeira década do séc. XX, e que há dias enumerei.
A dúvida que então ficou era sobre o que seria «Retrato» - do bom, daquele “de ermesinde” – e o que seria «Género» - coisa que, a este propósito, se não sabe bem o que seja.
Se lermos um escrito recente que por aí anda, na tentativa de perceber tão magno problema, ficamos a saber que:


1. Isto é «Género»















2. Isto é «Retrato»











3.Isto volta a ser «Género»





























4. Isto também é «Género»
















5. Isto ainda é «Género»














6. Mas isto volta a ser «Retrato»














7. E, finalmente, isto é «Retrato»


Ficamos a saber, e ficamos em crer. Porque nos diz o autor, porque não o corrigiu quem devia, porque tal premiou a Academia – estas e outras preciosidades semelhantes.
Mas a gente olha, vê, remira, relê… e não percebe!? Não percebe o porquê, nem entende o critério. E pensa – como o Scolari – «e o burro sou eu?!»
Aparentemente, por mais que olhemos, não conseguimos encontrar substanciais diferenças estéticas, de postura, de estilo, psicológicas, um olhar, o que seja… Mas isso somos nós, simples mortais, gente inculta, de fraco grau. Deve haver razões só ao alcance de eleitos…

Insistimos. E olhamos de novo.
Não percebemos porque raio o Manuel Henrique Pinto vestido à séc.XVII é «Género» e o António Novais, em traje semelhante, é «Retrato» - talvez a gola farfalhuda do primeiro justifique… Não entendemos porque o mesmo Pinto continua a ser «Género» e o Lobo da Silveira (Alvito), nos mesmíssimos preparos, já é «Retrato» - estará a diferença do manto de Sant’Iago, na luva ou no título nobiliário? Ainda menos percebemos porque o Novais tanto é «Retrato» como é «Género» consoante se lhe chame Retrato do Fotógrafo Novais ou O Homem do Gorro – mesmo e quando o título aparece em francês, e tem honras de figurar no Salon?!


Ou será que…? Será?!
Será que, afinal, o tal critério é bem mais comezinho, primário, ligeirinho e condicionado pela simples ignorância?!
Quadro que se saiba quem é o retratado, é «Retrato»!
Quadro onde não se sabe bem quem é o “gajo”, em que mal se pôs a vista em cima ou só se conhece de ouvir falar, cujo título soe mais a “gentinha”, pimba! – é «Género»! e vais com sorte!
Só assim se compreende que o Novais “au capuchon” seja «Género» e «Retrato», num difícil exercício de ubiquidade, resultado afinal da mais pura ignorância.
- “Gajo” de gorro? mais um labrego de Figueiró! – pensaste, ou não pensaste?!

E, para dar um ar científico, de coisa estudada e grande pesquisa, nada melhor que uns graficozinhos, umas percentagens, um q.b. de matemática - ciência exacta!
Para levar a sério? Com tais premissas?
Antes para “épater le bourgeois”, aplauso de Catedráticos, prémio da Academia. O que também está certo!





















Para dar importância a quem a tem, ficam os quadros e os artistas a pintá-los.
Repare-se, nestas fotos datadas de 1901, no atelier de Campo de Ourique. Malhoa trabalha o Cavaleiro de Santiago e já lá tem o Baptismo de Cristo para a Igreja de Figueiró quase pronto – ambos só dali sairão em 1904 – que a coisa não era “atar e pôr o fumeiro”… demorava, pois “depressa e bem...”
O discípulo, muito provavelmente Mattoso da Fonseca, retrata “não sei quem”.
Dos convivas, um será o Barão do Alvito, António Lobo da Silveira – diz Malhoa que é o do manto de Sant’Iago… Mas quem será a Senhora e aquele que não sabemos?

Ficam também as legendas dos retratos lá de cima:

1. Cabeça de Velho (provavelmente Francisco Jorge Pinto), 1895, osm 40x32, CMAG.
2 e 3. O Homem do Gorro / L’homme au capuchon ou Retrato do Fotógrafo António Novais, 1901, ost 58x50, MNAC-MC.
Exp. Paris 1901, SNBA 1902, SNBA 1928
4. Cabeça de Estudo (retrato de MHPinto), 1902, ost 45x38, c.p.
Exp. SNBA 1903
5. Provocando (retrato de MHPinto), 1905, p.d.
Exp. Rio de Janeiro 1906
6. Cavaleiro de Santiago / Chevalier de Sait-Jacques / Caballero de Calatrava (retrato de A. Lobo da Silveira), 1904, ost, MNBA, Santiago do Chile.
Exp. Paris 1904, Rio de Janeiro 1906 e 1908, Santiago 1910
7.Veríssimo ou Retrato de Veríssimo (retrato de Veríssimo José Baptista), 1910, p.d.
Exp. SNBA 1910, Paris 1911, Porto 1912, Madrid 1912, Lisboa 1918, SNBA 1928



Publicado originalmente em Jan. 2012. LBG.


* (Ah! e só para avisar alguma alma ainda crédula: no tal escrito, as listas do Rio estão trapalhonas, a de Santiago quase toda mal, e a de Buenos-Aires ficou pela metade. Será que na Academia também servem “meias-doses”?)



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