domingo, 16 de setembro de 2012

1906 - Do “Livrinho Vermelho”,

mais fanfarra, foguetes, passo-doble
…e muita “dor de corno”.


Ainda sobre a viagem de José Malhoa ao Rio de Janeiro, a propósito da sua Exposição no Gabinete Portuguez de Leitura em 1906, cabem agora umas notas sobre os seus ecos em Figueiró dos Vinhos. Porque têm graça tais ecos, como já soavam a tacanhez alguns «cavalheiros» ou «taberneiros honrados»…

Socorramo-nos da excelente colecção de imprensa local da  Biblioteca Municipal Simões de Almeida (tio)  e mais qualquer coisinha dos sítios do costume [1].

Logo em 28 de Abril de 1906, O Figueiroense já anunciava o convite feito a Malhoa pelo Gabinete Portuguez de Leitura e dava alarde de conhecer bem os quadros da futura exposição, «sendo a sua maioria feitos em Figueiró dos Vinhos e inspirados nas suas bellezas naturaes»; informava também que a viagem, com a duração de dois meses, seria feita na companhia do irmão Joaquim.


O Echo de Figueiró, 16.8.1906
Durante a estada de Malhoa no Rio, em 16 de Agosto de 1906, O Echo de Figueiró, em correspondência de lá para cá ou aproveitando outra qualquer, noticia o banquete no hotel Paris, o discurso de Coelho Neto e os agradecimentos do homenageado. Como se vê, já naquele tempo, a informação corria rápido e uma vila do interior estava razoavelmente ao corrente.


Depois, O Figueiroense, nas edições de 1 e de 9 de Setembro [2], informava quer do desembarque de Malhoa em Lisboa, ocorrido no dia 28 de Agosto, e da recepção e «affectuosa manifestação dos seus numerosos amigos à sua chegada»; quer, logo na semana seguinte, da sua vinda para Figueiró, onde «chegou no dia 5 do corrente a esta villa, com sua ex.mª familia».


            Mas é a 16 de Setembro, há 106 anos precisamente, que se dá o acontecimento mais curioso.

A crer na notícia publicada pel’O Figueiroense seis dias depois, mas na 2ª página por via das dúvidas, ficamos a saber que naquele domingo «a Philarmonica Figeiroense foi cumprimentar o sr. Commendador José Malhôa e felicital-o pelo seu feliz regresso do Rio de Janeiro á sua patria e, aproveitando o ensejo, a sua direcção offereceu-lhe uma pasta que continha a photographia do seu elegante chalet “Villa Casulo” e um passe double “O Casulo”, por Filipe José da Cruz, regente da philarmonica».
«A pasta, que foi previamente feita em Lisboa, de que foi encarregado o pintor Julio de Menezes, é de velludo carmezim, com a legenda: “Offerece a Philarmonica Figueiroense”, contendo aquella a photographia e a mensagem que em seguida publicamos.»
A transcrição da dita mensagem é fiel [3] e pode ser lida na íntegra. Deliciemo-nos com a prosa, especialmente com o período onde se coloca a hipótese de Figueiró ser «arrazado pelos cyclones e desaparecer pelas evoluções vulcânicas»… - não havia necessidade!

            A notícia continua, indicando as personalidades que se incorporaram no cortejo a convite da Direcção da Filarmónica: para além de Manuel Quaresma Paiva, Joaquim de Souza, João Luiz Júnior  (Agria)  e Amadeu Simões Lopes,  os directores da agremiação e subescritores da missiva, damos conta do Dr. Manuel de Vasconcellos, de dois Lacerdas – Samuel e Padre Acúrcio – de António (Lopes) Serra e mais uma dúzia de homens bons. Depois, descreve-se o acto da entrega da pasta carmesim a Malhoa, as palavras de circunstância, «rompendo em seguida a philarmonica com o referido passe double, e subindo n’essa occasião ao ar bastante fogo»… - foi festa a valer!
            E remata com um comentário onde se lamenta que tal manifestação tenha sido combinada «em segredo», reconhecendo no entanto que tal fora «no intuito de fazer surpreza ao insigne artista», mas que tal aconteceu «n’uma occasião em que muitas pessoas das de maior representação estão fóra…», censurava.

            Todavia, logo nessa mesma edição de O Figueiroense, ainda se pode ler, na pág. 3, um artigo assinado por Augusto d'Araújo Lacerda, embora louvando Malhoa e os seus feitos além Atlântico, onde se percebe o começo de uma grande "dor de corno"... 


O Figueiroense, 9.9.1906, p.3
E, no número seguinte, a cefaleia córnea continua a exprimir-se  pela pena de «Um cavalheiro» que, na pág.2, resolve desmentir O Século e a sua «correspondencia d’esta villa»,  e mais «Um taberneiro honrado» que, na pág.3, entre vários lamentos e indignações, promete vingança, mais não seja ameaçando com o «baptizado» do vinho a servir aos seus «bem bons freguezes» da facção rival...









Infelizmente, não nos chegaram as correspondentes edições d’O Echo de Figueiró [4] - isso é que deveria ser lindo…!



            Resta acrescentar que, ao contrário do noticiado pel’O Figueiroense, a pasta não era de « velludo carmezim» - é vermelhinha sim, mas é forrada a seda!
E, como se pode ver pela fotografia, pintada cuidadosamente e assinada «MS» - se é a marca do referido «Júlio de Menezes», não sabemos. Com os dizeres «A philarmonica Figueiroense a José Malhoa» - aqui imitando a assinatura do Pintor, portanto uma das primeiras vezes em que comprovadamente esta não é do seu próprio punho… mas, nisto, compreende-se. Com a representação do «Casulo», uma paleta e pincéis, uma lira com palma, e uma faixa datada «16 9 906» - …e ainda queria o Lacerda que adiassem a função e esperassem por não sei quem?! Claro que a pasta tinha de ser entregue naquela data!


No interior da pasta, este forrado a seda branca, lá está a mensagem citada, de caligrafia cuidada, sobre papel papiro dobrado ao meio. A partitura do «passe double», ao que consta, encontrar-se-á na actual Filarmónica Figueiroense [5]. Quanto à alegada «photographia» do «Casulo» - e não se percebe se o articulista se refere a alguma foto que acompanharia os restantes papéis, se à representação pintada na capa – se tal fotografia existiu, pode ser uma qualquer que o tempo se encarregou de misturar com muitas outras…
Como esta, poucos anos depois de prontas as obras de ampliação do Arq. Luiz Ernesto Reynaud, acabadas por volta de 1900 ou 1901. Com o volume do atelier – o primitivo «Casulo» - ainda com os três vãos originais. Com a pequena entrada de luz meridional/nascente na cobertura do atelier que se opunha à grande claraboia virada a norte/poente – não, aquilo não é nenhum «sótão»…! Com os níveis de pavimento entre o atelier e a moradia ainda desfasados, de acordo com a antiga implantação da casinha térrea. A varanda da moradia, então de madeira e ferro, com as guardas em troncos de sobro retorcido e toda aberta a nascente/norte. E o jardim e o lago, aqui acabadinhos de arranjar e todos mimosos…
          Assim era.


Por fim, atente-se ao que está escrito. E perceba-se que a pastinha vermelha, o histórico «passe double» de Filipe José da Cruz, a tocata da Filarmónica, o foguetório no ar, a romagem dos citados cavalheiros e a zanga do Lacerda, ocorreram nesta precisa data, por ocasião e por causa desta homenagem a Malhoa no seu regresso da triunfante “viagem cabralina”. E não por outra razão qualquer. Por mais que se deseje.
Assim é… pelo menos até que algo efectivamente mais palpável, eventualmente, nos possa dizer o contrário.


16 Set. 2012. LBG.


[1] Como em artigos anteriores, do antigo espólio pessoal de Malhoa, actualmente no Museu José Malhoa ou em colecção particular.
[2] A última data muito provavelmente está enganada. O Figueiroense publicava-se aos sábados e no cabeçalho deste nº 469 lá vem: «Sabbado, 9 de Setembro de 1906», só que pelo calendário tal sábado foi dia 8… Coincidência ou não, este será o primeiro de quatro números onde desaparece do cabeçalho do jornal a indicação do antigo «Proprietario e Administrador - Francisco António d’Aguiar». Só a 6 de Outubro, no nº 473, voltará indicação de semelhante teor, mas agora com novo «Proprietario e Director - J. A. Lacerda Junior».
[3]  Uma só ressalva: no original, em papel papiro e de leitura já muito sumida, o membro da Direcção da Filarmónica referido como «João Luiz Agria», assina «João Luiz Júnior».
[4] Jornal rival da mesma época, que no seu início teve como um dos seus redactores e proprietários Carlos Silva Graça, possivelmente ligado por grau de parentesco a José Joaquim da Silva Graça, vizinho pedroguense, director e proprietário do jornal lisboeta O Século.
[5] Sobre a história da Filarmónica pode ainda ver: MEDEIROS, Carlos – Historial das Filarmónicas de Figueiró dos Vinhos. CMFV, 2007




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