quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O António Carlos

e depois, podem chamar-lhe (ou a mim) 
o que quiserem…

          Novembro quase passado. Há muito que lá iam as vindimas. Já eram as broas mais o tempo das castanhas. Nos lagares moíam-se as derradeiras azeitonas.  Aquele ano de 1902 estava a chegar ao fim, e Malhoa ainda se demorava por Figueiró.
Pudera! o «Casulo» aumentado, finalmente com um atelier como devia ser, tudo ainda com as madeiras a cheirar a novo. Houve que aproveitar e trabalhar até mais não. E, para Malhoa, a “colheita” desse ano foi bem boa!
Estava quase «a retirar para Lisboa» levando consigo o produto da sua “safra”. Mas, antes, tinha que satisfazer a curiosidade de alguma daquela gente que andava mortinha por meter o bedelho no «chalet novo do sr. Malhoa» e não havia meio… Malhoa não podia passar mais um ano sem o fazer, ou “o cortar-lhe na casaca” seria ocupação certa nas longas noites do inverno figueiroense…
Assim, numa terça-feira, 25 de Novembro (ora cá está uma boa razão para se evocar a data) mas de 1902, lá se resolveu a convidar «as pessoas de suas relações» a visitarem o atelier «para verem os seus bonecos».
Por certo não estiveram os mais íntimos, os amigos da casa: o Pinto e o Simões há muito que haviam abalado para Tomar e Lisboa, logo que o tempo das aulas a isso os obrigara (embora o «Manel» ainda lá permanecesse em retrato); e o Quaresma, outro grande amigo que conhecia o «Casulo» de trás para a frente, pois havia sido o grande apoio na condução das obras, andava já atrapalhado, coitado, com os achaques que o iriam levar em breve “desta para melhor” - até o jornal falava disso. Terão ido outros e outras, não interessa agora quem. Parece que ficaram todos satisfeitos. E, quatro dias depois, a "vernissage campestre" foi notícia n’ O Figueiroense.

Podemos, agora e aqui, voltar a ler e ficar a saber tudo:





























         E, da mesma página do jornal, a nota sobre a doença do Quaresma. Com a particularidade, pelo menos para mim que sou um pedaço distraído, de ser a primeira vez que o vejo nomeado como presidente da Câmara Municipal. Que este Manuel Quaresma d’Oliveira, quer-me parecer um homem bom, é mais um desgraçado que não caiu em graça da historiografia figueiroense…




















O relato do escriba do jornal é saboroso. Através dele ficamos a saber um pouco mais sobre alguns dos quadros que Malhoa pintou nesse ano em Figueiró: «A procissão», o retrato d’«O António Carlos», «O phosphoro de enxofre», «A apanha das castanhas», a «Descamisada», «Cabeça d’estudo» (o tal retrato do Pinto de que já aqui falámos) e «Ultimos raios de sol». De alguns destes ficamos a conhecer os protagonistas – e de fonte bem mais segura que algumas inquinações posteriores, porque nos é dito em primeira mão e por quem os conheceu realmente. E, sem escusadas erudições, modestamente reconhecido - «que por incompetência nos abstemos» - ali temos também uma descrição sucinta e objectiva de algumas das pinturas de Malhoa.
Deixemos as outras para depois. Detenhamo-nos no intrigante «O António Carlos». 
           O «retrato de um velho d’aquelle nome» - chamava-se António Carlos, está visto - «de 88 annos» - uma provecta idade para esses tempos - «com chapeu na cabeça, capote aos hombros e mãos sobre um apoio» – só faltou dizer mesmo que o «apoio» era um grande guarda-sol azul - «tudo o mais natural que pôde imaginar-se»… Delicioso. Conciso. Sem lugar a dúvidas.

Fica, assim, apresentada a «Cabeça do António Carlos», 1903. Um grande Malhoa! Ei-lo:

José Malhoa. Cabeça do António Carlos / Cabeça de velho / O Regedor, 1903.
ost. 56x46. Casa dos Patudos - Museu de Alpiarça.





































E se dúvidas ainda houver, o próprio Malhoa se irá encarregar de no-las tirar. Prossigamos a nossa história.

Finalmente acabada a longuíssima saison figueiroense, Malhoa retira-se para Lisboa e traz os quadros. É natural que ainda trabalhe um e outro no atelier de Campo d’Ourique, os mande emoldurar, os vá assinando e datando. Por isso não estranhemos se, daquela meia dúzia vista em Novembro de 1902 no «Casulo», uns nos apareçam datados de 1902, outros de 1903 ou mesmo 1906… Alguns serão destinados à Exposição da Sociedade Nacional de Belas Artes, outros, os que Malhoa considera mesmo bons, são-no ao Salon de Paris. A bela Cabeça do António Carlos, 1903, tinha todas as razões para o sucesso, e Malhoa sabia-o.


A 30 de Março de 1903, Malhoa assenta no seu livro «Receita | Despeza» - o tal que era mesmo só para si: «Recebi do José Relvas por conta da cabeça do Antº Carlos, pintada em Figueiró dos Vinhos, em Novembro 1902, e agora exposta no “Salon” – 300$000».

Não sabia ainda Malhoa, como o sabemos agora nós, que a sua (e afinal já do Relvas) querida Cabeça do António Carlos havia de ficar às portas do Salon
    Como se confirma pelo Catalogue Illustré, apenas «La procession» (assim, e simplesmente!) - a bem conhecida A Procissão, 1903 - teve direito de acesso.

           Para Malhoa, foi um desgosto!


Como vimos, o quadro da Cabeça do António Carlos foi pago enquanto foi a França e voltou. Voltou e foi direito aos «Patudos», a casa de José Relvas, de cuja colecção ainda hoje faz parte.
Mudou logo de nome – sabe-se lá se por fazer alguma confusão ter a cabeça de um velho aldeão chamado António Carlos na casa afidalgada do filho e pai de outros dois Carlos, e não se querer "certas misturas"… E «Cabeça de velho» simplesmente ficou.

     Este postal ilustrado, enviado pelo Veríssimo ao Malhoa (e é daqueles que eu gosto, onde se tratam por tu, direito ao assunto, sem conversas de circunstância, das que dão aso a interpretações duvidosas a quem pouco jeito tem para ler as cartas embora leia muitas…Eu, um dia destes e a outro propósito,  mostro o resto). O postal, dizia, circulou em 1907, mas é natural que tenha sido editado uns anos antes, e como se vê já lhe chama «Cabeça de velho».

Depois, logo, logo em 1906, no Catálogo da Exposição do Rio de Janeiro, o António Carlos lá aparece, mas desta vez como «O regedor».
Mas não, a Cabeça do António Carlos não foi ao Brasil ! Apenas a sua fotografia, que é uma das que ilustram o catálogo. E tal pode enganar muito boa gente. A escritora brasileira Carmen Dolores foi a primeira – durante a vernissage deve ter estado mais interessada em “tomar um vinho”, “bater um papo gostoso”, e nem olhou os quadros como devia ser… chegada a casa, fez a crónica para O Paiz a olhar os bonecos do catálogo. O resultado até é surpreendente, fala de algumas das obras expostas e doutras que nem sequer pode ter visto, e escreveu sobre a Cabeça do António Carlos 
«Vejam em seguida outro estudo de velho, e que lindo velho também, Regedor , de ásperas sobrancelhas revoltas cujos fios duros como piaçavas tem todavia a sua utilidade: velam um pouco a esperteza aguda dos olhinhos matreiros, de emboscada atrás dessas sarças brancas. | No alto das faces enrugadas, sente-se o belo tom sadio de uma maçã camoesa. As mãos são um prodígio de realidade, com as suas juntas encarquilhadas, toda a rede de grossas veias em relevo sob a pele franzida e lismada.»[1]

Mais tarde, na grande Exposição de Homenagem a José Malhoa, 1928, voltou «O Regedor». Desta vez não só no catálogo, ilustrado com aquela foto do postal ilustrado, mas de tela e moldura dependuradas na parede e tudo.
Terá, alguma vez, o nosso amigo António Carlos sido «Regedor» lá da freguesia? fosse ela qual fosse? ou é como o outro, que é «Juiz» sem nunca o ter sido? Eu disso não sei, e duvido que alguém verdadeiramente o saiba…

Mas chamem-lhe «O Regedor», «Cabeça de Velho», chamem-lhe o que quiserem, aqui o velho António Carlos, menino de mais de duzentos anos, não se deve importar grandemente com isso…

Agora escrever, e com o ar mais sério deste mundo, «o retratado é Joaquim Gabriel, do lugar da Lavandeira» é que já é o …….! com Vossa licença, era mas era a prima!

E quem copia a asneira | fica também ali à beira» – ditado popular que eu inventei há um bocadinho).

Recorte de uma  fotografia do Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos.



           
          Entretanto, por estes dias e até 21 de Maio de 2016, a Cabeça do António Carlos está de novo em Figueiró dos Vinhos. E muito bem acompanhada!

Só a falar francês, daquele do Salon, encontramos logo dois: L’homme au capuchon / O homem do gorro / Retrato do fotógrafo António Novais (Salon, 1901) e Portrait de Mme C…… / Retrato da Ex.mª Sr.ª P. da C. (Teresa Pereira da Costa) (Salon, 1902). Esta última já havia hablado español, na verdade no ano anterior e com assinalado sucesso (Madrid, 1901). A juntar a estes dois, a Cabeça do António Carlos / Cabeça de Velho / O Regedor que, como foi e veio de Paris sem entrar no Salon (1903) e é campónio, acaba por ser apenas «avec». Não obstante, nada fica a dever aos precedentes.
De um pouco conhecido mas de muito boa qualidade Retrato do Senhor D. Luiz I, 1884, a carvão, ao pastel de O Ventura, 1933; do Retrato de Dona Júlia Malhoa, 1883, à serigaita atrevida de A Provocante, 1914; o Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos exibe por esta altura um excelente conjunto de retratos da mão de Malhoa. Do melhor que se pode reunir. 
           É uma imperdível mostra. Merece a vossa visita.
           O António Carlos fica à espera, com «as mãos sobre um apoio»...


16 Dez. 2015. LBG

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[1] Carmen Dolores. Impressão de luz. in O Paiz, Rio de Janeiro, 26 Jul. 1906, p.3. 
Pode ler a transcrição integral do artigo, bem como outros do referido periódico sobre a Exposição de Malhoa no Rio, 1906, aqui.

...e só mais uma coisinha

Vimos já, através de duas boas fontes - O Figueiroense e o próprio Malhoa - que, inequivocamente, o modelo dCabeça do António Carlos / Cabeça de Velho / O Regedor foi «o Antonio Carlos (...) um velho d’aquelle nome, de 88 annoscom chapeu na cabeça, capote aos hombros e mãos sobre um apoio». 
        Sem tanta certeza, mas com grande probabilidade de ser também verdade, sabemos agora, segundo o tabelião da terra e de "papel passado", que o dito António Carlos era «solteiro, maior, proprietário... morador nesta villa de Figueiró dos Vinhos» e que, pelo menos por duas ocasiões, em 1892 e 1899, compareceu perante o referido tabelião para efectivar a venda de «terras de semeadura» de que era proprietário, situadas em «São Pedro, nos suburbios desta villa». E, pelo original dos assentos, ficamos a saber que era capaz de assinar o nome.
Fica, pois, o autógrafo do nosso amigo António Carlos: 



           O Zilo Alves da Silva, um outro a quem Malhoa também fará o retrato (hoje no acervo do MJM, Caldas da Rainha), assina «A rogo» do comprador. E António d'Azevedo Lopes Serra, o «Serra da farmácia», mais um amigo figueiroense do Pintor, assina como testemunha.
           Isto é coisa que interessa pouco, claro! Mas tem piada. E fica... que não estamos aqui para inventar nada.

23 Jan. 2017. LBG

Breve retrato de Olavo Bilac

num crayon de António Carneiro



Olavo Bilac (Rio de Janeiro, 16 Dez. 1865 - 28 Dez. 1918) foi um grande e respeitável cultor da Língua Portuguesa. Poeta, contista, cronista e jornalista. «A Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo» - teria escrito, talvez ainda antes do outro que todos conhecemos…
Membro fundador da Academia Brasileira de Letras, colaborou em diversos jornais e revistas, entre eles o Diário de Notícias e a Gazeta de Notícias, do Rio. E também nos sucessivos periódicos luso-brasileiros do tempo: A Imprensa (1885-1891), A Leitura (1894-1896), Branco e Negro (1896-1898), Brasil-Portugal (1899-1914) e Atlântida (1915-1920).
 Activo republicano e nacionalista, é o autor da letra do Hino à Bandeira brasileira. Foi inspector de instrução da escola pública e membro do Conselho Superior do Departamento Federal; foi também secretário do Congresso Pan-Americano realizado em Buenos Aires. Entre uma multifacetada intervenção cívica e literária, granjeou o reconhecimento geral e a simpatia popular.
Em Lisboa, em sua homenagem, o jardim frente ao Palácio das Necessidades tomou o nome de «Jardim Olavo Bilac».

Sobre Bilac, as suas relações e viagens com e a Portugal vale muito a pena ler um interessante texto, intitulado «Bilac em Lisboa» [1], acessível neste PDF.
            Será, por certo, da sua última das viagens a Lisboa, a realizada em 1916, este retrato de Olavo Bilac, um belo desenho da autoria de António Carneiro (Amarante, 16 Set. 1872 - Porto, 31 Mar. 1930).

            Recordemos que já aqui e aqui vimos algumas fotos onde Olavo Bilac está presente. São fotografias tiradas por ocasião da estada de Malhoa no Rio, em 1906, durante a visita social ao Sumaré de 29 de Julho. Oferecidas e legendadas pelo seu autor, Luiz Canêdo, foram trazidas do Rio e bem guardadas por Malhoa. Publicam-se de novo agora. 
               Cento e cinquenta anos após o nascimento de Olavo Bilac.


«Este bloc sinthetiza a Poesia e a Arte - nas suas mais bellas e extraordinarias creações». 
«29 Julho 1906 - Sumaré».                                                      «Luiz Canêdo».
Olavo Bilac será o primeiro da esquerda, seguem-se Joaquim e José Malhoa, Rodolfo Bernardelli, e Gonzaga Duque.


«Lembrança do almoço que o grande industrial Casimiro Alberto da Costa, 
offereceu ao distincto pintor José Malhôa no alto do Sumaré, em 29 de Julho de 1906»  (fotografia: Luiz Canêdo).
Dos cinco sentados na segunda fila, Olavo Bilac será o último mais à direita.























 .


16 Dez. 2015. LBG.


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[1] Dimas, Antonio. «Bilac em Lisboa», in Via Atlântica, nº2, pp.174-189. USP-Universidade de São Paulo, 1999.


sábado, 17 de outubro de 2015

O Ventura

ou 
o modelo e o “curador”

       Fica, sem muitos comentários, um artigo publicado em A Regeneração, jornal de Figueiró dos Vinhos, nº406, 11 de Julho de 1936, e assinado por um tal «Sobe e Desce». Trata-se de uma reportagem sobre o «Museu Regional do Ventura». 
       O Ventura foi um personagem de se lhe tirar o chapéu! um dos derradeiros modelos figueiroenses de Malhoa. Obviamente já o não conheci, mas tive ainda relatos desta sua "obra memorável". Relatos que, no essencial e do que recordo, coincidem ao escrito no artigo, quer quanto ao "acervo" do seu «Museu» quer quanto às patuscas características deste fantástico e bom homem.
            Mas, só lendo, para ficarmos todos a conhecê-lo melhor.
Como se percebe, o escrito é posterior ao desaparecimento de Malhoa, falecido a 26 de Outubro de 1933.
Começamos por uma foto do entrevistado retirada do site da Biblioteca Municipal Simões d’Almeida (tio) e, com quase toda a certeza, posterior àquela data. É uma imagem que existe também reproduzida em postal ilustrado, editado ao tempo pela comissão municipal do turismo.


     Para o fim «O Ventura», 1933, tal como foi retratado por Malhoa. Num dos últimos trabalhos do Pintor, um pastel sobre papel, 33x25, actualmente no acervo do Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha. 
Faria pendant com um outro, igualmente no MJM, deixado inacabado à morte do Artista, designado por «Desalento», e retratando a mulher do Ventura
Os tracinhos na margem superior do papel indicarão o número das sessões de trabalho. É um registo comum em vários trabalhos de Malhoa, talvez para calcular a quantia a pagar ao modelo...


































Lisboa, 17 Out. 2015. LBG.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

«O Fado» e os «bilontras»

segundo Aquilino Ribeiro



            Sem mais conversa, que aqui não faz falta alguma, fica um texto do grande Aquilino Ribeiro, publicado em Julho de 1917, a propósito da controvérsia originada pela compra, pela Câmara Municipal de Lisboa, do quadro «O Fado», 1910, de Malhoa.

            Vale a pena ler. Mas devagar, que a prosa de Aquilino dá gosto.













 E pronto! É tudo por hoje.


Lisboa, 5 Out. 2015
LBG

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Hoje, vamos à Praia!… (II)

uma volta mais pela Praia das Maçãs


     Ora vamos lá pegar de novo na sacola e vamos dar mais um salto até à praia… À ida, à boleia do amigo Macieira e do seu Rio das Maçãs.

Para se entender melhor tudo isto nada melhor que começar pelo princípio. E, como «no princípio era o verbo», damos a palavra a quem sabe… (os sublinhados, notas e comentários são, obviamente, meus).


5. A Praia do Keil…

«Foi esta linda praia fundada por alturas de 1886, tendo uma comissão constituída pelos Snrs. Drs. Luís de Almeida Albuquerque, Joaquim  de Vasconcelos Gusmão, António Maria Mazziotti e engenheiros Joaquim de Sousa Gomes e Frederico Ressano Garcia levado a efeito por meio de subscrição pública e com a cooperação da câmara o projecto de uma estrada de ligação entre ela e a verdejante região de Colares.» [6]

É bom que se entenda que ainda antes da abertura da estrada já se desenvolveria sazonalmente alguma actividade piscatória, e há notícia de gente da região a ali ir a banhos.

«Uma vez aberta a estrada, logo algumas casas se construíram, as primeiras das quais foram a do padre de origem espanhola D. Matias del Campo, coadjutor em Colares, a de Manuel Dias Prego, onde hoje está instalado com muitas modificações o Hotel Royal, e logo a seguir a de Alfredo Keil que ali buscava frequentemente o sossego necessário para a concepção de algumas das suas notáveis composições musicais e picturais.» [6]

Alfredo Keil (Lisboa, 1850 – Hamburgo, 1907), poeta, escritor, fotógrafo, coleccionador, mas sobretudo pintor e compositor, autor de «A Portuguesa» e da primeira ópera na nossa língua, «A Serrana», tinha casa de veraneio na região de Colares, na Eugaria, o «Casal da Serrana». Fazia parte do círculo intelectual e mundano colarense que se reunia no Eden Hotel e na Villa Costa. E é considerado o terceiro edificador do novo lugar de Villa Nova da Praia das Maçãs, como foi então conhecida.

«O seu elegante chalet, cuja construcção principiou em Janeiro de 1889 e estava terminada em 1890, é, ainda hoje, a mais bella construcção ali feita. Junto d´elle fez o sr. Keil erigir uma pequena capella, sob invocação da Nossa Senhora da Praia, que um anno depois fazia sagrar, e onde o Padre D. Matias del Campo resou a primeira missa, que o sr. Keil mandou celebrar por alma de seu pae. Desde 1893, e quasi sempre no ultimo domingo de Setembro, alli se tem realizado uma festa, á que concorrem muitos devotos dos logares limitrophes, vendendo-se, como recordação d’essa festividade, um registo com a imagem de Nossa Senhora da Praia.
«Em 1897, todas as familias que no mez de Setembro se encontravam na Praia das Maçãs, combinaram dar aquella festa um maior brilho, e auxiliadas por alguns cavalheiros de Collares, realizaram esses festejos com grandiosidade tal que conseguiram attrahir alli para cima de cinco mil pessoas. 
«Dessa festa o que mais se admirou foi o imponentissimo cirio de Collares á Praia. Sem o aspecto dos antigos cirios religiosos, mas com um cunho moderno, nélle se encorporaram approximadamente duzentos cavalleiros e mais de cem carros artisticamente enfeitados.» [7]


O chalet de Keil, a «Villa Guida», ainda hoje existe, mas já noutras mãos e com naturais alterações. Ei-la aqui, num belo desenho do próprio Keil, acabada de construir, cerca de 1893, a «Vila Guida» e a Ermida de Nª Sª da Praia ainda isoladas, no morro da Praia, vistas do lado Norte.

A mesma «Villa Guida» numa foto da época e com a legenda: «Vista da nossa casa na Praia. Offerecido pelo sr. Alfredo Braga».





E ainda, um postal da própria Guida [8], datado de 1903 mas editado ainda em 1901, onde esta assinala o local exacto da casa de praia da família.


Se olharmos com mais atenção para esta foto (é de Júlio Novaes), veremos que, por volta de 1900, as construções na Praia das Maçãs ainda se podiam contar pelos dedos das mãos. Mais junto à arriba, no plano mais próximo, vemos um edifício de dois pisos sobre o que parece ser um embasamento, e mais adiante o que parecem ser os «caramanchões do Prego» (a mancha horizontal negra e baixa) com umas casas logo por de trás (já lá iremos); ainda junto ao mar, lá mais acima, já na zona da falésia, um ou dois edifícios de maior porte. O caminho para as Azenhas do Mar é perceptível. À sua esquerda estarão mais algumas casas pouco nítidas na foto; e à direita, um primeiro chalet do qual vemos a empena com três vãos. E só mais ao fundo, no alto, vislumbramos o bico de uma das fachadas da «Villa Guida» assertivamente assinalada pela mão da Guida Keil.


Numa outra tomada de vistas, ainda a Praia das Maçãs na primeira década de novecentos. O reenquadramento de uma foto publicada em 1906, da autoria de Francisco Braga [9] (desconheço se este Braga teria alguma coisa a ver com o da outra foto).


6. …a do «Prego» e a do «Grego»,

Já tivemos notícia do Manuel Dias Prego como um dos edificadores iniciais da Praia. Parece que era de ali perto e ter-se-á estabelecido na Praia com uma taberna, casa de pasto e mais tarde serviço de banheiro. Ainda antes de construir este edifício em tijolo, onde o vemos todo pimpão e de tabuletas sobre a porta - «Prego | Villa Nova da Praia das Maçãs | 1889» e «Banheiro & Cª» -, já num outro estabelecimento abarracado teria iniciado o seu negócio.
E, como parece que o negócio prosperava, logo surgiu concorrência.

«O semanário Correio de Sintra, de 6 de Junho de 1897, dizia que era de lamentar o facto de ser a Praia das Maçãs muito visitada e não existir um estabelecimento conveniente (o do Prego era uma taberna, embora com esplanada), onde os visitantes pudessem tomar  as suas refeições e “descansarem um bocado”. E sugeria que, para isso, serviria uma casa do Padre Matias que, nessa altura, já tinha aumentado o seu património rústico e urbano, o qual, certamente, pediria pouca renda.
«E a coisa resultou.
«O mesmo jornal, em 2 de Abril de 1899, noticiava:
«O sr. Júlio Grego, laborioso e activo proprietário do novo Restaurant Flôr da Praia das Maçãs, instalado na casa que pertence ao nosso amigo Sr. Matias del Campo, vai dotá-lo com novos melhoramentos e já concluiu uns frescos e aprazíveis caramanchões, donde se disfruta vista sobre o mar.»
«Já um mês antes desta notícia se anunciava que o estabelecimento do Grego tinha «bons terraços, abrigo para carros e gado, aceio e boa cozinha».
«Foi neste restaurante que se serviu o primeiro banquete que houve na Praia das Maçãs - um almoço de homenagem ao Visconde de Tojal (…)
«O interior da esplanada do Grego, debruçada sobre a praia, plena de mesas sempre cheia de clientes, foi motivo para uma tela do grande pintor José Malhoa.» [10]


O «Restaurant Flôr da Praia» de «Julio R. L. Grego».
Na «casa que pertence ao (...) sr. Matias del Campo» já com os  seus «aprazíveis caramanchões».
Há diferentes versões sobre a data desta fotografia, mas tudo indica que seja ainda dos finais do séc. XIX.
 À entrada da «Varanda do Grego» teremos Júlio Grego e sua Mulher e, ao colo desta, supõe-se, a sua filha,
a que veremos (ou será outra?) já bem crescidinha na foto de 1912, mostrada aqui anteriormente.

Entretanto, «o negócio do Prego [também] progrediu a ponto de ocupar com mesas um terreno adjacente à taberna, cobrindo-o com um caramanchão, apresentando na Câmara um pedido para o fechar. A Câmara em reunião de 1 de Fevereiro de 1899 reconhecendo que o terreno era municipal, indeferiu o pedido» [10]. Contudo, mais tarde (e resta saber quando...?) [11] tal pedido acabou por ser deferido e Manuel Prego obrigado a requerer uma licença. 

A «Casa de Pasto - Prego» aqui com a esplanada coberta. 
Numa fotografia, muito provavelmente, ainda do séc. XIX ou dos primeiros anos de novecentos. No terreiro logo abaixo vemos uma série de carros e carroças estacionados. Será muito possivelmente este o terreiro que veremos em 
«A Retardatária», 1924.
 E, lá ao cimo na curva, meio encoberta pelos homens a cavalo, a «Varanda do Grego». Reparemos nas diferenças entre o desenho da fachada (digamos assim) que aqui vemos e o que mostra a foto anterior. E recordemos ainda uma outra versão, a que Malhoa registará em 
«O Caminho do Grego (Praia das Maçãs)», 1922.








Um outro registo fotográfico que mostra a casa do «Prego» (em segundo plano), mas agora sem o caramanchão da esplanada. Vemos a escada de acesso ao andar, possivelmente aos quartos.
Logo atrás, ao fundo, à esquerda, meio cortado pelo enquadramento, vemos ainda parte das letras pintadas na fachada do «Grego»: «...STAURANT FLÔR...»

Não sabemos se por causa das licenças se por efeitos das invernias, a referida esplanada coberta parece não ter sido coisa permanente. Em registos fotográficos que pela evolução do tecido edificado parecem ser sequênciais a dita esplanada ora aparece ora deixa de aparecer… [11]
Por outro lado, seja também pelas invernias ou pela evolução natural das coisas, quer «a esplanada do Prego», quer «a varanda do Grego» parecem sofrer algumas modificações de aspecto ao longo dos anos…
Supostamente, quer um quer outro dos estabelecimentos, para além do serviço de «restaurant» e bebidas, forneceria também serviço de alojamento, «abrigo para carros e gado, aceio e boa cozinha». Daí a designação de «hotel» usada na crónica de Manoel de Sousa Pinto que aqui vimos antes.

A Praia das Maçãs cerca de 1908 (com o Hotel Royal Belle-Vue ainda em construção).
 O «Grego» e o «Prego», neste ângulo vistos logo abaixo do novo hotel, parecem ambos ter as esplanadas cobertas.


Cerca de 1909, com o novo Hotel Royal Belle-Vue já acabado. Claramente o «Prego» apresenta-se sem a esplanada.



















        7. …e como a Praia da moda.

Entretanto outros hotéis e restaurantes haveriam de surgir na Praia das Maçãs, como o da madame «Tapie» e o «Hotel Royal Belle-Vue». Este, mais finaço, lá no alto da falésia, para além de outras histórias [12] que para a nossa interessam nada, tem importância porque ajuda grandemente a datar os registos fotográficos: foi construído por volta de 1908, inaugurado em 1909 e ardeu completamente em Novembro de 1921.

A Praia das Maçãs poucos anos depois (registam-se alguns novos edifícios), talvez cerca de 1910 ou 1911. 
O «Prego» ainda não voltou a construir a sua esplanada coberta...

«A propósito da inauguração do novo Hotel Royal Belle Vue, tiveram eco na imprensa os trabalhos de reforma, organização e modernização levados a cabo na região da Praia das Maçãs.
«O projecto e iniciativa estiveram a cargo de Eugène Levy. Traçaram-se novas ruas, macadamizaram-se estradas, regulamentaram-se as construções, organizaram-se os espaços, e, segundo um projecto do arquitecto Ventura Terra, proveu-se à construção do Hotel Royal Belle Vue, construído por Francisco dos Santos. Esperava-se que o referido Hotel impulsionasse o turismo balnear, tendo-se apostado, por isso, na higiene, elegância e conforto. O Hotel Royal possuía água potável, directamente canalizada para o restaurante, e iluminação eléctrica em todos os quartos.
«Por seu lado, a estação telégrafo-postal, instalada em frente ao Hotel, o telefone Praia-Sintra-Lisboa e o serviço médico permanente existente na região, completavam este empreendimento da Praia das Maçãs.» [13]

Ainda antes destes grandes e inegáveis melhoramentos, um outro grande contributo para a modernização e desenvolvimento da Praia das Maçãs foi a construção da linha do Eléctrico entre Sintra e a Praia. Era uma ideia que, parece, já vinha de 1886, teve avanços em 1898, mas só seria concretizada já nos primeiros anos de novecentos [14]. O último troço, o que de Colares chegou até à Praia, foi inaugurado em 10 de Julho de 1904.

O Hotel Restaurant Royal Belle-Vue, fotografado por Benoliel em 1913. 
Reparemos no grupo de veraneantes chiques que se dirigem para a praia; no carro de cavalos que descarrega umas malas à porta do Hotel;
 e no poste e fios telefónicos que se dirigem ao edifício.

Assim já podiam Duquesas e Marquesas deslocar-se comodamente a banhos e com local decente onde se hospedar. Logo depois, com a República, mudar Marqueses por Ministros, Condes por Conselheiros, foi fácil e natural. E a pequenina Praia das Maçãs entrava definitivamente na moda.


«Mas, e nesta visita quase nunca encontrámos o Malhoa?!» – admira-se o amigo leitor, já meio farto de tanta conversa fiada.
Pois não! – respondo eu. Nem no Hotel Royal Belle-Vue - se calhar porque aquela era «a burguesia que [não] lhe conv[inha]». Nem, por muito que a alguns custe, a comer uns percebes, um arroz de mexilhão ou a virar umas imperiais na companhia do Keil – porque, é bom lembrar, este fina-se em 1907, durante uma viagem à Alemanha, e o outro só aqui haveria de aparecer lá por 1911. E é assim a vida!...

Para essa e outras partes da nossa história aqui à Praia voltaremos mais umas vezes. Qu‘inda o Verão vai a meio.

(continua…)

14 Ago. 2015. LBG.

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[6] Oliva Guerra, in Roteiro Lírico de Sintra, Lisboa,1940. Apud Pedro Macieira, in Rio das Maçãs.
[7] António A. R. Cunha, in Cintra Pinturesca: Memoria descriptiva das villas de Cintra e Collares e seus arredores, 1905. Apud Pedro Macieira, in Rio das Maçãs.
[8] Trata-se de Guida Maria Josefina Cinatti Reis Keil, a segunda filha de Alfredo Keil. Por sua vez, a mãe do Arq. Francisco Keil do Amaral (1910-1975).
[9] In Brasil-Portugal, nº184, 16 Set. 1906, p.244.
[10] José Alfredo da Costa Azevedo, in Obras de José Alfredo da Costa Azevedo III: Litoral e Planície Saloia. C. M. Sintra, 1997. Apud Pedro Macieira, in Rio das Maçãs.
[11] O (ou os) período durante o qual o «Prego» se terá visto privado da sua esplanada coberta não é mencionado em qualquer das fontes consultadas. Contudo, pela análise cuidada dos documentos fotográficos, parece claro que ela aparenta existir nas fotos de finais de oitocentos, de c.1901, c.1906 e de c.1908. Depois, nas fotos supostamente subsequentes, c.1909 e c.1910/11, deixa de existir. E só volta a aparecer, já com uma mais cuidada construção, em registos dos anos 20, como iremos ver depois. Malhoa, por sua vez, parece registá-la no «Retrato de Roque Gameiro», c.1918, em «Praia das Maçãs (estudo)», 1919 (CMAG), etc.  
[12] No «Hotel Royal Belle-Vue» ou «Hotel do sr. Levy», o novo grande hotel da Praia, hospedar-se-ia em 1913 Afonso Costa. Pelo final de Setembro, início de Outubro, é notícia a descoberta de um complot para «assassinar o chefe do governo» durante a sua estadia de veraneio. Pode ler mais aqui.
[13] In Centenário da República,1910-2010. Tendo por fonte O Século, nº 9901, 10 Julho 1909, p.3.
[14] Sobre a história do Eléctrico da Praia das Maçãs pode ler ainda este excelente artigo no blog Alagamares; se procurar bem, no Rio das Maçãs, para lá deste encontra uma boa dezena de outros mais; e pode também ler este outro, que fala um pouco de tudo o que aqui dissemos, em Restos de Colecção (embora lá no fim, na estória do quadro de Malhoa, como é costume, a trapalhada seja para esquecer).