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domingo, 29 de junho de 2014

Uma questão de nervos (ou datas)

ou como o lifting pode borrar a pintura


Em Analyze that (2002), Paul Vitti (Robert de Niro) o mafioso nova-iorquino de Analyze this (1999) [Uma questão de nervos] está preso e à beira de um esgotamento nervoso que o deixa quase catatónico. É-lhe dada liberdade condicional sob custódia do seu psicoterapeuta, Ben Sobel (Billy Crystal). O psiquiatra procurará chegar ao fundo da psicose do seu peculiar paciente enquanto o tenta integrar de novo na sociedade e longe do crime… ou antes pelo contrário.
Às tantas, Vitti experimenta o emprego de vendedor de automóveis e esclarece um casal sobre todas as virtualidades de um novo Audi, incluindo o excepcional tamanho da bagageira onde «se podem meter à vontade uns três cadáveres…». Como os compradores não pareçam muito interessados, o empenhado vendedor insiste e força o diálogo: - «E… que carro é que têm agora?» - «Um Lexus…» - «Ou seja, um Toyota.» - «É um Lexus!» - «Toyota, Lexus, é basicamente a mesma coisa, tudo treta japonesa… (e não esqueçamos Pearl Harbor)».


            Na passada semana deu-se a vernissage da nova exposição no chamado Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos.
Um ano após a sua inauguração, então com duas interessantes exposições, já aquiaqui e aqui faladas, previstas para durarem três ou quatro meses e que vicissitudes várias e, assinale-se, a muito boa vontade das instituições e dos particulares detentores das obras expostas obrigaram e permitiram o seu sucessivo prolongar por todo um ano, finalmente nova mostra está ali patente. Esta é igualmente uma interessantíssima exposição.
Denominada «Os Caminhos do Naturalismo em Figueiró dos Vinhos», reúne cerca de quatro dezenas de peças, entre escultura, pintura e desenho, dos autores figueiroenses, por nascimento ou adopção, José Simões d’Almeida Júnior, Manuel Henrique Pinto, José Malhoa e José Simões d’Almeida (sob.º), e ainda um pequeno desenho de arquitectura de Luiz Ernesto Reynaud – um dos alçados para a ampliação do Casulo de Malhoa. Oriundas dos mais importantes museus nacionais e de várias colecções particulares, encontramos ali, pela primeira vez em muitos anos e lado a lado, obras de grande interesse e que vale a pena ver em diálogo. A mostra prolonga-se até ao dia 28 de Setembro e merece uma visita atenta.
Não vale por agora falar do estupendo mármore de Esperança e saudade, 1887, de Simões d’Almeida Júnior – até há pouco esteve lá o gesso patinado, mas este agora é outra coisa! Nem interessa por enquanto referir a feliz reunião de três dos quadros – A caça aos grilos, 1891, Adormecido, 1891, ambos de Manuel Henrique Pinto, e Primeiras tentativas, 1891, de José Malhoa - que deram origem à esdrúxula formulação da «Escola de Figueiró dos Vinhos» [1] . E tal «Escola» ultimamente tão falada, por mais voltas que se queira dar, não terá tido mais que dois mestres e dois discípulos: o sr. Malhoa e o sr. Pinto, o Zé e o Manel. Cabe tão pouco alertar para a possibilidade única de ver ao vivo a magnífica Varanda florida, 1930, de Malhoa, e de perder algum tempo a descortinar o rasto do gato dali erradicado, ou a comparar o resultado final da desgatização com esta foto original de 1931…


          Ou sequer falar da soberba À Lareira (provando a panela), c.1902, de MHPinto, que encantou D. Carlos. Ou do surpreendente Retrato de minha mulher, 1914, de Malhoa e que este fez questão de oferecer ao Museu [2]  logo após a morte dela. Ou da elegante e quase desconhecida Cabeça de estudo | Botão de rosa, 1925, de Simões d’Almeida (sob.º), um mármore encantador. Só por estes, ou cada um de per si, vale bem uma visita.


O que nos traz aqui hoje - a origem da minha questão de nervos - são dois outros quadros de Malhoa. Dois quadros menos falados e que nunca tinha visto ao vivo.
Bem sei que as inaugurações são más ocasiões para se verem as coisas – por isso evito-as sempre que posso – há sempre algo que nos distrai, uma conversa a despropósito, uma observação interrompida. Obrigam-nos sempre a uma segunda visita. Mas já deu para ver. E, nestas coisas, julgo que os meus olhos me não enganaram. Antes pelo contrário, surpreenderam-me. Porque me mostraram que as datas registadas pelo Pintor são diferentes das escritas nas tabelas. Uma vez é distração, duas já é demais. Fiquei a matutar no assunto. E decidi ir ver…

Um dos quadros da questão é esta Paisagem, «1889»[?], um óleo s/ madeira, 23,5x41,5 cm, do acervo do Museu do Chiado, legado de D. Emília Bordalo Pinheiro, viúva de Columbano, em 1945. Um quadro, portanto, da colecção de Columbano, uma possível oferta entre colegas dos tempos do Grupo do Leão.


Conhecido de várias publicações, não me recordo de o ter visto cara a cara. Ou então lavou a cara, que as cores são completamente diferentes das reproduções. É uma interessante pintura. O problema é que eu, em vez do anunciado «1889», olhando com atenção para o que Malhoa ali assinalou, leio 1885. E não é só a data: é a assinatura - que vai subtilmente variando ao longo dos anos e não confere -, é o tipo de pintura – parece-se com algo que já se viu algures… Há ali qualquer coisa que não me “cheira”. Estarei enganado?


Como disse, fui ver… Fui ver o que foi escrito antes, o que dizem os mestres, os que têm outras obrigações e são pagos para isso. Fiquei satisfeito: é que, afinal, não sou só eu e a minha máquina fotográfica a vermos 1885. É também o Prof. França, em 1983  [3], e até a minha amiga Mª de Aires Silveira (a comissária [4] desta excelente exposição, havia esquecido de o referir) que em 1994, num ajuizado juízo que vale a pena reler [5], também o dão como de 1885.


Porque mudou? Que se terá passado? Certo é que década e meia depois, na nova edição do catálogo do MNAC [6], a coisa “vareia”: se no repetido ajuizado juízo de MAS tudo se repete, incluindo a acertada data de 1885, já a ficha da fotografia que acompanha o texto disparata um surpreendente «1889»!? ilusão de óptica? gralha tipográfica? ou, simplesmente, porque sim? Depois, já se sabe, tal como se não olha para os quadros também se não olha os textos, e o mais fácil é copiar as fichas. Num pulo a coisa passa para a “nova bíblia”, onde o que está escrito é a “palavra”. Até a Matriz se converteu.

Ora, tal como um Lexus não é bem a mesma coisa que um Toyota, também neste caso 1885 é bem diferente de «1889». Não se trata apenas de tirar uns quatro anos uma velha tábua que «basicamente não passa de mais um Malhoa». Não. Ao considerarmos a data correcta de 1885 – e nisso julgo estar em boa companhia – podemos e devemos enquadrar esta Paisagem entre as obras apresentadas na 5ª Exposição de Arte Moderna. Acontece que é nesta exposição que Malhoa apresenta uma série de quadros, não pintados em Figueiró como passou a ser hábito após 1883, mas na região vizinha do Pedrógão Grande. E isto faz toda a diferença!
Atendamos agora mais à pintura – na verdade o mais importante – à pincelada, ao modo de fazer. E comparemos com Aldeia do Gravito, 1885, um dos que temos a certeza de ter estado na 5ª do Leão, um dos tais da incursão pelo Pedrógão. Façam o favor de olhar! (...) Percebem o que quis dizer anteriormente? Até as assinaturas são quase iguais!
É pois com grande probabilidade que estaremos perante uma Paisagem pedroguense, perante um dos quadros da Exposição de Arte Moderna de 1885. Embora perceber qual deles é, seja missão praticamente impossível.

(Datá-lo, pelo visto erroneamente, de «1889» é trapalhada que só serve para não mais sabermos como o ordenar…)



Mas deixemos por agora o assunto Pedrógão Grande, que é tarefa agendada, a pedido, a tratar proximamente…

E passemos então ao outro.
«Paisagem com Abóboras, 1898»[?], é um óleo s/ tela, 36x66 cm, assinado e datado, pertença de colecção particular. Estas são, ao que julgo, as escassas e praticamente repetidas referências até agora existentes sobre a obra nas duas publicações  [7] onde se encontra reproduzida. A tabela da exposição repetirá, evidentemente, mais ou menos o mesmo.



É uma bela duma pintura, de boa composição, fortemente marcada pela tensão das diagonais do aboboral com a dos casebres laranja, onde um céu com nuvens bem recortadas mas luminoso projecta belos contrastes de claro-escuro sobre as terras de amanho. E seria pouco mais que isto, «basicamente mais um Malhoa», um bom Malhoa é certo, mas um Malhoa anónimo de «1898», sem mais história…
Acontece que eu vi outra coisa. Em primeiro lugar vi uma pintura bem diferente daquelas dos anos noventas e tais, depois olhei melhor e vi o que o Malhoa lá deixou para nós vermos: uma assinatura, que me pareceu algo mais antiga que o anunciado, e um um e três oitos – juro que vi! E um um e três oitos quer dizer 1888.
Mais uma vez, o problema não está em querer tirar algumas rugas às vetustas abóboras – dez aninhos a menos numa velha tela com cento e vinte e tal anos é quase nada. Mas assim, a trouxe-mouxe, no mais-ou-menos, o único que se consegue é uma entradita a mais lá naquela coisa, no “breviário”, no dito “catálogo razoável” ou como se lhe queira chamar; mais uma entre uma série de entradas absurdas que volta e meia vamos encontrando, qual “milagre da multiplicação dos malhoas”, e cujo destino é ir riscando à medida que se vão descobrindo… hoje foram mais duas, qualquer dia arrancam-se folhas.
Ora, a ser verdadeira a data de 1888, facilmente se chega à conclusão que esta tela corresponde a um quadro exposto na 8ª do Leão (1888-1889) e assim referido no respectivo Catalogo Illustrado: «42 - O aboboral – 67$500». E, fazendo fé no que nos diz João Sincero na crónica  [8] referente à 2ª Exposição do Grémio Artístico (1892), o mesmo quadro voltou então e de novo a ser exposto. Consultado o catálogo de 92, temos: «102 – As abóboras – 67x37 – 45$000». Se aqui as dimensões praticamente coincidem (um centímetro a mais é desprezível) e no anterior coincidirá a data, com quase toda a certeza estaremos perante o referido quadro.
(O mais triste é que tudo isto o tal sabia e até lá tem uma entrada boa à espera de “boneco” - mas não acerta!… É o que dá não olhar para os quadros!)
Esqueçamos portanto «Paisagem com Abóboras, 1898», coisa que nunca existiu. Esta tela, agora à mostra em Figueiró, sempre teve nome e sobrenome, e registo de nascimento passado pelo sr. João Sincero – O aboboral (ou As abóboras), 1888 – e assim é que é bonito.

Já não faz bem é o pendant idealizado com O amanho das abóboras, 1897, de MHPinto, pois já não são seguidinhos. O amanho… de Pinto, já se sabia, tem antes a ver com outras coisas, principalmente quanto ao amanho das telas… Mas por enquanto, pelo menos visualmente, as abóboras continuam das amarelas.

E é assim, graças a uma bela Exposição organizada por Mª de Aires Silveira em Figueiró dos Vinhos, que estes dois quadros de Malhoa voltam a entrar na ordem. 
Repito o que disse acima: não se esqueçam de ir ver a exposição - e, já agora, de olhar para os quadros! Vale a pena e vale a viagem.


Eu, entretanto, vou enfiar um prozac… Ou dois copinhos de vinho branco, que «é basicamente a mesma coisa».


De Niro: « You’re good, Doctor !  You’re good !  You’re very good, you ! »

 29 Jun. 2014. LBG



_______________________

[1] ARTHUR, B. Sesinando Ribeiro - Arte e Artistas Contemporaneos, (1ª serie). Lisboa: Livraria Ferin, 1896. p.195,196 – A segunda exposição do Gremio Artistico. (Reproduzindo artigo anterior, publicado na imprensa da época, 1892)
[2] Museu Nacional de Arte Contemporânea, actualmente ...e do Chiado, entenda-se. Doação feita ainda em 1919.
[3] in catálogo Cinquentenário da Morte de José Malhoa (vol.1). Lisboa: IPPC, 1983. p.68
[4] Que me desculpem, mas prefiro o termo afrancesado, com conotações de hierarquia náutica, «…a quem é dada importante missão», à formulação anglo-saxónica que cheira a éter e sulfamidas. Um tipo imagina logo as couves galegas deste, ou as abóboras do outro, envoltas em ligaduras e agonizando da cura…
[5] in catálogo Museu do Chiado: Arte portuguesa 1850-1950. Lisboa: IPM,1994. p.90 e 91.
[6] Arte Portuguesa do século XIX: 1850-1910. Lisboa: MNAC-Museu do Chiado, 2010.
[7] José Malhoa. Bologna; Lisboa: FMR-Art’è; Arting Editores, 2008. p.175. e SALDANHA, Nuno – José Malhoa, 1855-1933: Catálogo raisonné. Lisboa: Scribe, 2012. p.49.
[8] in O Occidente, nº 482, de 11 de Maio de 1892, p.107.
Nota à nota: 11 de Maio e não «13». Irra! que até nas referências bibliográficas a coisa é trapalhona. Acho mesmo que é de propósito… para me dar cabo dos nervos.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Notas sobre uma Exposição

seguidas de:

O «Desterrado» por terras de Figueiró…?

  
Dar um salto até Figueiró dos Vinhos é sempre agradável. E recomenda-se. Principalmente se amanhece fresco e o dia se põe solarengo, sem aqueles calores que torram a disposição. Sinal que a volta, feita pelo entardecer, terá cenário magnífico. E uma bela viagem é aquela que, sem pressas ou obrigações de chegar, se faz só para ver. Ver, principalmente, e também rever. 
Ver, que há sempre algo que se não viu ou se vê de modo diferente – um pormenor da paisagem, o recorte de um monte, uma outra cor da vegetação. Alguma coisa que ainda não víramos ou que vemos de modo diverso.
O mesmo se passa com os quadros (ou o que for). Olhar de novo, com outra disposição ou outra luz, dá sempre para ver mais qualquer coisa. É também recomendável.

Foi o que fiz um dia destes. Sem pressa de acabar nada, sem o incómodo das inaugurações, só para ver. Ver de novo as exposições do Museu e Centro de Artes, e ver as novas coisas que por lá há. Deu gosto e recomendo uma vez mais.

No edifício do «Casulo», quase, quase de cara lavada (com uma ou outra janela já a empenar, e alguns salpicos de branco sobre o almagre…), dá gosto entrar. Instalar ali o posto do Turismo foi uma boa ideia e, enquanto se mantenha simples e com simpático atendimento, muito apropriado.

foto: Pedro Aboim Borges

Na casa de jantar (onde faltam só uns “finalmentes”) já lá estão, fazendo companhia aos dois frisos em tela de António Ramalho e a orlar as traves do tecto, limpos e mimosos, os quadrinhos oferecidos pela malta das Belas-Artes aquando da primeira recuperação em 1985, a fim de tapar os buracos deixados pelos “desaparecidos”. (Mas urge “dar nomes aos bois” e catalogar devidamente a interessante colecção, antes que seja tarde e se esqueçam os autores – é que todos já não vamos para novos…). 
Faltam ainda a mesa, obra de marcenaria de Joaquim Granada a encomenda de Malhoa [1], as cadeirinhas de rabo-de-bacalhau e o candeeiro [2] - e, já que “miraculosamente” sobreviveram cento e alguns anos, oitenta dos quais longe das mãos de Malhoa, seria lastimável que se perdessem agora.
Subindo ao andar, é simpática a pequena exposição de painéis quase discretos, simples e concisos que mostram, nalgumas boas fotos antigas, parte da história do «Casulo» sem desnecessárias fantasias – sim senhora! E deliciosas as duas cartinhas de Malhoa, uma delas dando resposta conveniente ao delírio de uma terceira, do Vasconcelos do pão-de-ló, que também ali se mostra – sinal que a parvoeira não é coisa nova. «Com esta, o Malhoa acaba de subir dois pontos na minha consideração!» - ouvi de pronto e de pronto concordei.
Mais uma escada. E do sótão, do quarto da «Maria dos Pintaínhos», temos a melhor vista de toda a casa sobre o vale e as serranias do lado de lá do rio. Vale a subida.
Descendo à loja e ao seu recente acrescento, o recém-inaugurado Museu do Xadrez é bonito de ver. Bem pensado, bem iluminado e aproveitando inteligentemente o pequeno espaço disponível, mostra interessantes colecções. (Mas é imperioso tirar os vidros às duas “gateiras” para tudo aquilo poder ventilar naturalmente, ou a humidade dá xeque-mate em três tempos… fica o aviso).

          Com prazer, notamos o regresso do antigo banco de ferro do jardim, onde tantas vezes Malhoa assentou o rabinho – mais um “milagre” da sobrevivência. (Mas ali, não! Há que lhe encontrar novo poiso, de preferência sob uma sombra, e assentá-lo convenientemente). Sombra e assentamento, também merece o caramanchão (assim, se nos sentamos, torramos e ficamos de pés no ar). Devolver-lhe a função é coisa simples: enterrar-lhe os pés no chão, e na terra enfiar um ou dois pés de rosas-de-toucar ou da “glicínia-dos-rouxinóis” (da original ainda há – um outro “milagre” de longevidade – e é coisa que se pode arranjar…). Por fim, e já que se não destruiu o laguinho como indicava o plano, que tal voltar a orlá-lo com as pedras originais e deitar-lhe uma pouca de água? Isso é que era!
(Devolver função às coisas e delas usufruir, é bem melhor que as prantar por ali como se fossem esqueletos de um dinossáurio, mesmo que «excelentíssimo».)


Visitemos agora o museu. De novo ou como uma primeira vez.
Passado o atendimento simpático e disponível quanto basta, uma agradável surpresa é o número de visitantes com quem nos cruzamos – filhos da terra em férias, turistas de passagem, nacionais e estrangeiros, em diferentes pequenos grupos. Para um dia de semana, mesmo sob o efeito novidade, não pareceu nada mal. Oxalá…!

Como prometi a mim mesmo não falar de arquitecturas a fazer bicos e com pouca ponta que se lhe pegue, ignoremos o continente, falemos só do conteúdo. Esse, já se sabia, é bom. E, visto com olhos de ver, bastante bom mesmo.


Logo de caras damos com o poderoso retrato a carvão do Senhor D. Luiz I, 1884. É um desenho magnífico, do melhor que Malhoa terá feito por aquela altura. Durante anos meio perdido, meio ignorado, pouco visível lá no alto da parede do Salão Nobre da Câmara, revela-se agora, visto com olhos de ver, como um belo dum desenho! (E é divertido observar um ou outro visitante mais “avisado”, mirando e remirando, entre o quadro e a tabela, sem perceber como o propalado «D. Carlos», de quem sempre ouvira falar, se transformou agora no monarca antecedente – a vida tem destas coisas…)

Quem também se mostra divertido é Zilo Alves da Silva, no seu retrato pintado por Malhoa em 1929. Sem ser grande obra, mostra-nos personagem figueiroense, das relações do pintor, com o seu ar patusco por detrás dos oculinhos redondos.

Obra grande, pelo menos em tamanho, é Clara, 1903, (façam o favor de lá ir confirmar: «José Malhôa | 1903» - não sou eu a teimar, é Malhoa a escrever – esta é outra azarada à qual trocam volta e meia a data, muitas vezes aparecendo por aí como do tal “ano dos prodígios” de 1918 …). Grande, a Clara enche o olho, talvez não o coração. De tão malhoesca que é, irrita um bocadinho… tem lá tudo, mas parece que lhe falta alguma coisa… Até que os nossos olhos vão descendo, descendo, e lhe encontram os pés… e aqueles pés, encardidos, brutos de tanta ribeira e caminho, valem pelo quadro todo – só por isso, é mais uma bela pintura.


Sobre tabelas e datas trocadas, há uma que tem “gato” (engano menor, mas engano). Como se pode observar no próprio local, o bronze de Simões d’Almeida (tio) retratando o Comandante Augusto Cardoso está datado, como não podia deixar de ser e tal como o gesso que lhe serviu de matriz, de 1888 (e não com a que a tabela tem escrita). Simões modela-lhe o busto no seguimento da sua consagração. 


Conta-nos um entusiasmado Luciano Cordeiro [3] que numa assembleia solene da Sociedade de Geografia, a 13 de Dezembro de 1886, houve conferência de um ainda jovem Cardoso e do renomado major Serpa Pinto, onde se narraram as aventuras extraordinárias da exploração conjunta por terras do Niassa, do Lienda, do Rovuma e de mais uns nomes esquisitos… Tinha o então Tenente da Marinha, mais ou menos, o parecer desta gravura.
(A presença nesta mostra do Busto do Comandante Augusto Cardoso, 1888, grande amigo de Malhoa e também de Henrique Pinto e já aqui referenciado em artigos anteriores, é coisa de saudar, mas é assunto que fica para depois…)


Manuel Henrique Pinto está representado por dois óleos: Adormecido, 1891, e À porta do Convento, c.1897. Ambos quadros figueiroenses. O primeiro retratando um dos filhos do Eduardo (Dias Coelho), então rendeiro dos Serras na Fonte Cordeiro; o segundo, tomado do fundo da Vila junto à porta do Convento do Carmo, fixa a torre da Igreja Matriz tal como era antes das obras de 1898, e a Torre da Cadeia já sem reboco nos paramentos, mas ainda rebocada e caiada nas ameias do coroamento (um belo documento para acabar com a refilice que dura desde que voltaram a rebocar aquilo tudo…). Ambas são boas pinturas.


O Adormecido, muito bem iluminado e que agora se vê como há muito se não via - quase se não lhe notam as mazelas – parece saído da 2ª Exposição do Grémio Artístico, a primeira aonde foram conferidos prémios. E onde lhe foi atribuída uma Terceira medalha - prémio significativo e honroso, principalmente se recordarmos que a Primeira e Segunda foram para a Barca de passagem em Serreleis (Minho), 1892, de Silva Porto, e para os 16,5 m2 de O último interrogatório do Marquês de Pombal, 1891, de Malhoa, com a controvérsia sabida…


De Simões d’Almeida (sobrinho) podemos ver o incontornável Busto da República,1908 - orgulho do antigo Clube Figueiroense - e outras boas peças de escultura. Uma delas, uma pequena Leoa, rugindo e arrastando a perna, merece apontamento.

Não pela sua importância, que «gesso» não é – se o fosse, talvez outro galo cantasse… Mas por se tratar, sem sombra de dúvida, de mais um exemplar em biscuit de porcelana da Vista Alegre, semelhante a este aqui reproduzido [4] (como bem lembrou já a minha ainda prima Débora). 
O exemplar que podemos ver no museu de Figueiró, só não é igual a este porque lhe partiram a frecha que lhe perfurava o glúteo – todavia não curaram a Leoa ferida, que continua a arrastar a perna e rugir de dor, e no local do tiro lá está a marca da betadine… Em ser ou não ser múltiplo várias vezes reproduzido, não é o mais importante, continua uma bela escultura. E, a crer no que diz o catálogo do leilão, o modelo original de Simões será anterior a 1924. Leoa ferida seu nome.


(No andar superior há uma outra exposição. Dessa já aqui falámos, e com direito a complemento.)


Voltemos ao Simões, mas ao outro – o Tio deste último.

Logo ao começo da visita, no meio dos retratos feitos por Malhoa, há um quadrinho, até agora praticamente desconhecido, de boa pintura, óleo sobre madeira, retratando um homem barbado de olhar sensível e melancólico, com um pequeno gorro avermelhado na cabeça e vestindo um guarda-pó de escultor. Está assinado e aparentemente não datado.
De proveniência incerta - «comprado, não se sabe bem quando, a um antiquário da Figueira da Foz, como sendo do Simões d’Almeida», não é propriamente carta de alforria. É, no entanto, pintura de quem sabia pegar no pincel. E a assinatura, já muito sumida, a precisar de cuidadosa limpeza e talvez de estudo fotográfico sob luz rasante, é muito provável que seja mesmo a de Simões. Tomemos, portanto e com muito poucas reservas, como certa a autoria de Simões. Que o resto pode ser visto olhando.
Tudo isto - que é uma boa pintura, merecedora de figurar na mostra, provavelmente dos tempos de Roma ou Paris, retratando um escultor (quem sabe em «auto-retrato (?)») e que é de Simões d’Almeida – já Matilde Tomaz do Couto, a comissária da exposição, teve o mérito de estabelecer – "o seu, a seu dono". E, com a responsabilidade devida, na tabela acrescentou uma cuidadosa interrogação «(?)» ao suposto «auto-retrato» [5]. Com toda a razão.

Pois esta parte de se tratar do «auto-retrato» de Simões, é coisa que não engoli. E se olharmos para algumas fotografias ditas de Simões d’Almeida e alegadamente datadas por essa altura [6], muito dificilmente poderemos concordar que o retratado seja o próprio – por muito que se queira ou seja isso conveniente.


Resolvido, portanto, olhando com olhos de ver, o cisma se é ou não é um «auto-retrato» de Simões… Resta saber quem é, afinal, o modelo da pequena tábua.

Na senda do «Desterrado»…

Olhar de novo, sem pressas ou preconceitos, tem as suas vantagens… ver o que não vimos outras vezes, rever razões e saberes.

Paris, finais dos anos oitocentos e sessenta - «Foi num daqueles anos de revolta pela liberdade, que [S.] chegou a Paris, tímido e viciado pelo que aprendera lá longe […]. Em pleno vulcão prestes a rebentar, e por entre os folgares da rapaziada boémia e leviana, [S.], taciturno e crente, trabalhador e generoso, produziu as primeiras obras […], frequentando as aulas de Yvon […] e de Jouffroy […] com Simões de Almeida […] assistiu às cultas e filosóficas lições de Mestre Taine, cujo sentido lhes deu as primeiras ganas de irem consultar os museus antigos, e sobretudo a natureza, que é boa conselheira dos artistas […]. O que salvou [S.] foi o seu constante aparafusar nas razões, a sua teima em se guiar só pela própria cabeça, e a sua misantropia de rebelde sonhador, que o libertaram de tanto dogma e tanta falsidade.» [7]

Roma, início de setentas - «… tôdas as manhãs, com um caderno nas unhas, seguia a visitar as estátuas e monumentos romanos, desenhando aqui e ali, e meditando à sombra dos loureiros que brotavam por meio daquelas ruínas. […] Mais tarde, já adaptado aos encantos da cidade […] e pronto a começar obra de vulto, passou-se para os quartos pitorescos de Santo António dos Portugueses […] onde, de colaboração com o camarada Simões de Almeida, que aqui viera topar de novo, executou, em mármore, um medalhão com o retrato de Sequeira [...] cuja memória êles tanto respeitavam. […] Guardada a oficina da Rua de S. Nicolo, ali se foi entregando ao sentir pungente do destêrro. Era essa expressão de resignada dor que êle gostaria de traduzir num mármore. De sofrimento em sofrimento, de meditação em meditação, a inspiração foi esbarrar-se-lhe na concepção do Desterrado, que os versos de Herculano auxiliaram em sugestão. Pensando no exílio e no seu natural desalento, a imagem foi-se-lhe desenhando em claridades, lá no âmago. Para se distrair, ia de quando em vez visitar o colega Simões, que ultimava a sua prova final: Bem me queres, mal me queres, e que, por admiração, o estimulava a começar a derradeira prova. […] O Desterrado é, depois disto, um auto-retrato da nostalgia e dos desassossêgos de Soares dos Reis.» [8]

Como já se percebeu, o Sicrano desta história - tímido, taciturno e crente, trabalhador e generoso, misantropo e sonhador, que se entrega ao sentir pungente do desterro, em expressão de resignada dor, de sofrimento em sofrimento, pensando no exílio e no desalento, o autor sublime de o Desterrado – é o grande António Soares dos Reis (1847-1889). Retratado aqui nas sábias e deliciosas palavras de Diogo de Macedo, talvez o seu melhor biógrafo.

E se Desterrado é «um auto-retrato da nostalgia e dos desassossegos de Soares», este quadrinho, agora mostrado em Figueiró, é bem capaz de ser o outro retrato dessa mesma nostalgia e desassossego, numa expressão de resignada dor, o retrato de Soares dos Reis feito pela mão do camarada Simões, lá pelos anos romanos…



A história acima contada aos pedaços explica ocasião, local e situação. As fotos abaixo reproduzidas [9] admitem parecenças e expressões condizentes (principalmente se imaginarmos barba e bigode com tamanho intermédio entre a foto parisiense e o bigode de “filtrar sopa” das fotos posteriores) e se atentarmos bem nas orelhas, cabelo e outros pormenores faciais.


Claro que isto sou eu a falar, escudado por “irresponsabilidade jurídica” e sem mais “incompatibilidades”. Pode ser que me engane - não o creio.
Fica o grito do rapazinho – «Há lobo, há lobo!» - corram agora a Figueiró, caçadores, feras e demais circunstantes!


Fica também o bem conhecido Retrato de Soares dos Reis, 1881, óleo de João Marques d’Oliveira, existente no MNSR, do Porto. Também com este se podem fazer comparações interessantes…

E, mesmo que não seja nada disto, restam sempre os medalhões em que os velhos camaradas de Paris e Roma se retrataram mutuamente. Fechando um abraço de amizade entre dois grandes Escultores, já pelo final da «vida dolorosa» do maior de todos – António Soares dos Reis. 




15 Ago. 2013. LBG




… e só mais uma coisinha

        Entretanto passou-me à frente dos olhos um outro retrato, julgo que muito pouco conhecido, de Soares dos Reis. 
             Este.



É obra de Columbano, está datada e, embora seja difícil de ler, parece ser de 1887, pela altura em que Soares conviveu mais de perto, e em Lisboa, com os do Grupo do Leão…
          A crer no publicado na revista Serõesnº34, de Abril 1908, onde está reproduzido, é mais um retrato do Escultor portuense.

Vale a pena olhar e com olhos de ver. E comparar com a pintura de Simões d’Almeida Júnior. Mas tendo em conta que possivelmente dezena e meia de anos separam os dois retratos...

20 Nov. 2015. LBG






[1] Diz-nos Malhoa, a este propósito, no seu livro Receita | Despeza: «Maio de 1900 - 1 – Dinheiro que mandei para o Quaresma, importancia de folhas de salario do Joaq.m Carpinteiro [antes identificado como Joaquim Granada] na execução da mesa da Casa de jantar e armario assim como miudezas apresentadas pelo Julio e conta do Teixeira – 33$845».

[2] Sobre a compra do dito, diz-nos igualmente Malhoa: «Março de 1900 – 30 – Candeeiro pª a casa de jantar em Figueiró – 33$390».


[3] In O Occidente, nº291, 21 Jan. 1887, p.19 a 21.

[4] Retirado do catálogo - VIII Leilão Vista Alegre. Lisboa: Cabral Moncada Leilões. 2007. p.79.


[5] Entretanto, no site do MCAFV, a referida cuidadosa interrogação já desapareceu…?! Seja por desejo, descuido ou falta de qualquer coisa, não é por isso que o quadrinho passa a ser mesmo o «auto-retrato» do Simões…


[6] Disponíveis aqui e aqui


[7] MACEDO, Diogo de – Soares dos Reis: Sua Vida Dolorosa. Lisboa: Edições Ocidente. 1943. p.27, 28, 29.


[8] Idem, idem. p. 35, 36, 37.


[9] Retiradas daqui, dalgures, e do livro atrás citado. 


Das restantes fotos, algumas podem ser vistas por aqui e ali.