à Volta dos quatro Artistas
Provocando, 1905, é um quadro de JMalhoa, um retrato de MHPinto. A propósito ou a despropósito, de um, de outro, ou de qualquer outra coisa, algumas notas ou apontamentos. De modo pessoal, quando e conforme me der na gana...
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sábado, 1 de setembro de 2018
quarta-feira, 1 de junho de 2016
«O Casulo» contado às criancinhas
(a
ver se os crescidos entendem…)
Neste Dia Internacional da Criança deixo-vos com o meu amigo
Figueiredo, o Esquilo Figueiredo. O Figueiredo é, como o nome indica, um
esquilo de Figueiró. Um Sciurus Vulgaris, de Linnaeus, um velho conhecido, um simpático
bicho.
Gosta de me aparecer por lá. Dá-me conta das avelãs, no tempo delas das
nozes e das castanhas, mas principalmente das pinhas. Às vezes
quero acender a lareira ou o fogareiro para assar umas sardinhas e só encontro carolos
das pinhas, que o malandro mas roeu todas. Isto não impede que entre nós se tenha
desenvolvido uma bela e verdadeira amizade.
Quando por lá estou e está tudo sossegado, quando não anda
por lá o gato da Mena ou o canito da Dona Adélia, volta e meia lá me aparece.
Empoleira-se numa ramada, olha para mim, eu olho para ele, e ficamos horas a
conversar. É um bicho esperto. Sabe-a toda!
Mas é bastante reservado, e gosta pouco de trapalhices.
Assustadiço. Se algo o incomoda, se alguém se arma em parvo, a coisa não corre
bem, desaparece num pulo, trepa à copa mais alta dum pinheiro ou dum cedro
grande e nunca mais ninguém o vê. Pelo menos durante uns tempos, até lhe
passar…
Gosta muito de pinhas, mas também de respeito e da boa educação. É
assim.
Apesar do aparente mau feitio, é uma jóia de bicho, um animal
prestável. Bem conversado e longe de confusões, faz tudo o que se lhe pede. E
certinho. Só não faz mais se não puder.
Outro dia, por um acaso, encontrei uns amigos meus às voltas
com um folheto para os meninos das escolas de Figueiró. A ideia era boa, as
ilustrações muito engraçadas, faltava uma história com pés e cabeça. Lembrei-me do
Figueiredo. E ele tratou do assunto.
Basicamente aqui vão a conversa e os desenhos do Figueiredo feitos
especialmente para os meninos de Figueiró. Agora em versão completa, antes de
condensada para caber no papel. Que quando começa, e custa a começar, depois é
difícil pará-lo.
Como parece que a outra custa a sair, lá por coisas, esta nossa versão vai
com outros retratos de outros fotógrafos. – «É pena, pá! Gosto
mesmo dos bonecos da Ana… Mas se se entretêm a engonhar, mete aí outra coisa qualquer.
Enleios é que eu não quero!» – avisou-me logo o bicho. Portanto, os bonecos ficam para
outra vez.
E fiquem com o Figueiredo.
Eram
uma vez (em Figueiró) quatro artistas:
José
Simões d’Almeida júnior, escultor.
Nasceu
em Figueiró dos Vinhos, a 24 de Abril de 1844, e
morreu na Amadora em 13 de Dezembro de 1926.

É do
seu cinzel este mármore de «Luís de Camões», 1892, escultura que o
Artista ofereceu ao «Clube Figueiroense» e que agora podemos ver no Museu.
Manuel
Henrique Pinto,
pintor.
Nasceu em
Cacilhas, em 15 de Março de 1853, e morreu
em 26 de Setembro de 1912, nas Lameiras, no fim
de mais um verão passado em Figueiró.
«A caça
dos taralhões», c.1891, é a primeira de uma série de pinturas,
umas feitas por ele e outras por Malhoa, que
retratam a vida e as brincadeiras de
uns meninos que viviam na quinta da Fonte do Cordeiro, em Figueiró. O quadro foi
logo comprado pelo Rei D. Carlos, chegou a ir a Berlim em 1896, mas depois não
se sabe onde foi parar… Por isso só o conhecemos de fotografia.
José
Malhoa,
pintor.
Nasceu
nas Caldas da Rainha, a 28 de Abril de 1855, e
morreu em Figueiró, no «Casulo», em 26 de Outubro de 1933.
«O Baptismo
de Cristo», 1904,
é um quadro que Malhoa fez de propósito para a Igreja Matriz de Figueiró.
Mostra o S. João Baptista a baptizar Jesus. Está à vista de todos lá na Igreja.
José
Simões d’Almeida
(sobº), escultor.
Nasceu em Figueiró, ao Cimo da Vila, em 17 de Junho de 1880, e morreu em Lisboa a 2 de Março de 1950.

O «Busto da República», 1908, foi modelado ainda durante a monarquia para a Câmara de Lisboa que era já republicana.
Este, que podemos ver no Museu, é talvez o
gesso original que Simões, mais tarde, ofereceu à sua terra.
M. Henrique Pinto e José Malhoa encontraram-se ainda rapazes na Academia das Belas Artes e
ficaram amigos para a vida. Depois, já homens feitos, andavam muitas vezes juntos
a pintar paisagens lá pelas terras à volta de Lisboa. Com cavaletes, telas,
caixas das tintas, farnel, tudo de um lado para o outro.
Um dia, Simões d’Almeida (o tio), que era de Figueiró e tinha sido professor de Desenho de ambos,
disse-lhes mais ou menos assim: - «Deixem-se de andar por aí com a tralha às
costas, e vão mas é para a minha terra que têm lá muito que pintar!...». E
eles vieram.
Isto foi no ano de 1883, vai
para mais de cento e tal…
Gostaram tanto disto, que
passaram a vir todos, mas todos os verões.
Logo, logo o Manuel Henrique se
apaixona por uma moça de cá, uma prima do Simões d'Almeida (o tio) chamada Maria
da Conceição, e dois anos depois casa com ela. Foram padrinhos o amigo Malhoa e
a Júlia, a mulher deste. Foi a 3 de Agosto, na Igreja de S. João Baptista.
O «Zézito» Simões – era assim
que lhe chamavam - tinha então cinco anos, e para além de ser sobrinho e
afilhado do Simões (do tio) era também sobrinho e afilhado da Mª da Conceição. Por
isso passou a chamar ao Manuel Henrique - «o tio Pinto». Parece complicado, mas
não é.
(Isto pode até parecer Quadrilhice
Analítica, que é uma disciplina da História da Arte onde, quando pouco ou nada se tem para dizer, se justifica tudo com umas propaladas e intrincadas amizades
e outras intimidades entre os personagens, alguns que nem para ali são chamados, e se referem uns locais ou viagens que juntos fizeram, mesmo que,
às vezes, as datas não batam lá muito certo…
Pode ser parecido, mas não é! Isto é tudo verdadinha. E da de papel passado.)
Pode ser parecido, mas não é! Isto é tudo verdadinha. E da de papel passado.)
Depois, dois ou três anos
depois, o «Zézito» vai para Lisboa com os pais e as irmãs, fará por lá as Belas
Artes, onde também foi discípulo do Tio, e irá até Paris. Portanto, o Simões
d’Almeida (sobrinho) só voltará a entrar nestas nossas histórias muitos
anos mais tarde… (mesmo que alguém possa achar o contrário).
Ora, se o Pinto casa cá, o Malhoa faz cá casa.
Alguns anos depois Malhoa comprou aqui um terreno (e parece que comprou mesmo…) onde construiu uma
pequeníssima casa[1], apenas com uma divisão. De um lado uma cozinha
minúscula, do outro uma só sala. Para dormirem dividiam parte da sala com dois
biombos, um para fazer o quarto dele e da mulher, outro para o da irmã Maria
Rita. A parte central, no que sobrava, era casa de jantar e de estar. Cá fora,
uma barraca de colmo onde o antigo dono do terreno guardava as coisas da
lavoura servia de atelier.
E de tão pequenino que aquilo
era, o baptizou com o nome de «Casulo».
(Isto, mais ou menos, foi
escrito pelo meu avô, o Esquilo Figueiroa, que em miúdo vinha às bolotas a um
velho carvalho que havia ali ao lado, e viu tudo.) [2]
Era assim. Eu faço um desenho:
Depois, em 1898, Luiz Ernesto
Reynaud, o arquitecto que estava cá a fazer as obras de remodelação da Igreja e
tinha sido colega deles nas Belas Artes e aluno do Simões (o tio), fez o projecto
de ampliação. A antiga casinha (o «Casulo» propriamente dito) ficou para
atelier [3], e encostado mesmo ao lado construiu-se uma nova moradia. Também
pequena, mas com quartos e tudo.
Por volta de 1901 estava quase
tudo pronto.
E ficou assim:
Depois, bem, depois passaram
muitos anos. O senhor Malhoa foi ficando velhinho, os amigos morrendo, e ele
também acabou por morrer. E o «Casulo» foi tendo novos donos, foi servindo para
outras coisas, e foi mudando aos poucochinhos. Mudou mesmo bastante. É giro
descobrirmos as diferenças.
Mas ainda ali está, que as
casas boas resistem a tudo. E podemos vê-lo agora, por dentro e por fora,
descobrir coisas antigas e coisas novas. E voltar a contar histórias.
Ora as histórias podem ser bem
ou mal contadas, das que dá gosto ler e ouvir, ou daquelas trapalhonas e que
não interessam a ninguém. É conforme se queira. Tudo depende do modo como as
deixam contar. Ou de não se armarem em tolos…
1 Jun. 2016.

[1] A casa, térrea, uma porta e
duas janelas, teria para aí 8,10m de comprido por 4,70m de largo, o que dá uma
área bruta de 38m2. Se descontarmos a grossura das paredes, a área útil
rondaria os 24m2.
[2] Aqui, confesso, estou a
usar uma figura de estilo, coisas da literatura. Nem por volta de 1898 havia esquilos em
Figueiró – estávamos então extintos - nem os esquilos vermelhos, os da minha
espécie, vão lá muito por bolotas – deixamos isso para os porcos e para os cinzentos,
os americanos, uns outros esquilos que nalguns países da Europa são já uma espécie invasora. Mas
tudo o resto – o carvalho, o avô, o ter visto, o ter escrito – é tudo verdade.
[3] Se olharem bem para os desenhos, verão que a
porta e as duas janelas do atelier seriam as mesmas do antigo «Casulo». Mas
agora alindadas, com as ombreiras, peitoris e vergas marcadas em massa clara,
contrastando com o revestimento almagre da fachada. O mesmo no tratamento dos
cunhais, entablamento e soco, remetendo para a linguagem da nova ampliação, unificando
todo o conjunto.
Note-se que o atelier continuou
térreo, com o piso numa cota intermédia entre a da loja da nova construção (semi-enterrada pelo
tardoz) e a do andar principal. Mas ganhou pé-direito - toda a altura do novo
entablamento.
A nova cobertura, ainda essencialmente de duas águas mas com uma maior
inclinação, era cruzada no seu eixo transverso por um outro sistema também de duas águas. Esta outra cobertura transversal era telhada do lado da
frente, terminando sobre um tímpano triangular de alvenaria na continuidade do plano da fachada, e onde se abria uma pequena lucarna rectangular. Do lado do tardoz era inteiramente vidrada, suportada por uma estrutura metálica, possibilitando assim a entrada a jorros da luz zenital.
Os panos de tardoz e de
empena mantinham-se cegos, tal como na antiga casinha.
(Pronto: lá tive eu de me armar em
arquitecto… mas dos bons. Também, se quero um ninho bem feito lá no alto dum
pinheiro, tenho de ser eu a fazê-lo. E são muitos anos disso...)
segunda-feira, 30 de junho de 2014
Notícias que o não foram,
mas bem
podiam ter sido…
Fica aqui uma “brincadeira”,
mas uma brincadeira "séria”.
Trata-se de
um conjunto de “notícias” (e das ilustradas) escritas à maneira da época, por um imaginário repórter Fulano de Tal mais ou menos conhecedor do meio e dos protagonistas, e que poderiam ter sido
publicadas num qualquer jornal de Figueiró dos Vinhos entre 1880 e 1904. Pedaços marcantes de um
quarto de século na vida dos quatro Artistas figueiroenses - de nascimento ou
opção - dos seus amigos e familiares, evocados como notícias mais de um século depois. Os factos, as datas, os personagens, os locais e as "premonições" são absolutamente verdadeiros e baseados em documentos ou fontes
credíveis. Como é evidente, adicionou-se algum “romance” facilmente perceptível. Fruí!
(Publicado
originalmente em Imagens de
Figueiró, o jornal da exposição recentemente inaugurada no chamado Museu e Centro de Artes de Figueiró
dos Vinhos.)
Um Baptizado
![]() |
| A Igreja Matriz desta Vila, onde se realizou o baptizado. Gravura do nosso colega lisboeta «O Século» [1] |
Oficiou e depôs solenemente os Santos Óleos o rev.º pe.
José António Pimenta, prior desta Vila. Foi padrinho o tio materno do neófito,
o conhecido estatuário sr. José Simões d’Almeida Júnior, actualmente a residir
na capital do reino, e que não podendo estar presente foi representado com
procuração pelo seu pai, o sr. José Simões d’Almeida, também avó da criança; a madrinha
foi a irmã mais nova do pai do rebento, a jovem Maria da Conceição d’Almeida,
residente ao Cimo da Vila.
Augura-se um bom futuro ao pequeno José, havendo
mesmo quem afirme que seguirá as pisadas de seu tio e padrinho na nobre arte da
escultura… FdT.
Lisboa, 27 Abril 1894 (correspondente) –
Encerra
hoje a 4ª exposição de Belas-Artes promovida pelo Grémio Artístico. O certâmen tem
estado patente nas salas da Escola de Belas-Artes desde o passado dia 14 de
Março e foi muito concorrido. Como nota mais saliente, devemos referir o
verdadeiro triunfo que foi a participação do nosso patrício sr. José Simões
d’Almeida Júnior.
De qualquer modo, o facto de o sr. Reynaud se ter ausentado tem causado incómodo e alguns comentários pouco abonatórios e em surdina.
Jun. 2014. LBG
_____________________
[1] Gravura publicada originalmente no jornal lisboeta O Século, de 18 Julho 1897.
De
visita
Figueiró,
Verão 1883 - A convite do nosso conterrâneo sr. José
Simões d’Almeida Júnior, encontram-se de visita a esta vila os srs. José Vital
Malhoa e Manuel Henrique Pinto, promissores pintores da capital. Os referidos
artistas, antigos alunos do sr. Almeida na Academia Real das Belas-Artes de
Lisboa, têm percorrido em jornadas de estudo várias regiões do país na busca de
motivos para os seus quadros. Vindos agora do litoral e da região do Vouga, no seu regresso a Lisboa aproveitaram o conselho e o convite do Mestre para
conhecerem em boa hora a nossa linda terra. Encontram-se alojados numa casa da
tia do sr. Simões d’Almeida lá para os lados de S. Sebastião.
Ao
que nos dizem, ficaram encantados com as paisagens e a luz de Figueiró e não
têm parado de procurar os mais pitorescos recantos da Vila e seus arredores,
realizando inúmeros estudos e pinturas. Os dois artistas têm sido vistos,
agarrados a tintas e pincéis, em vários trechos da Ribeira d’Alge - das Fragas
de S. Simão à Foz e junto à Ribeira da Madre – e também pelo Perrecho ou pelo
Areal. Ficamos curiosos em ver aqueles pedaços de Figueiró dos Vinhos na
próxima exposição de quadros modernos.
Diz
quem com eles lida que para o ano cá teremos de volta os dois jovens pintores...
FdT.
Na exposição
Lisboa, Dezembro 1883 (correspondente) –
Abriu
por estes dias, nas salas da redacção do Commercio de Portugal, o
terceiro salão do denominado Grupo do Leão, agremiação de artistas da
qual fazem parte os já nossos conhecidos sr. Malhoa e sr. Pinto que, como foi
na devida altura noticiado, se demoraram alguns dias deste Verão a pintar aspectos
da nossa Figueiró.
Logo que nos foi possível corremos a ver os
resultados daqueles dias de labuta. E agora, já envernizados e emoldurados a
oiro, os pequenos pedaços de tela ou de tábua pintada parece que ganharam de
novo vida. A quelha do Cortez e Ao cahir da tarde, do sr. Malhoa,
O Areial, do sr. Pinto, os variados aspectos da Ribeira d’Alge, tratados
ora por um ora por outro, ou O Perrecho, um curioso trecho tratado de
diferentes modos por cada um dos artistas, são pormenores de Figueiró que podemos
por estes dias admirar aqui mesmo no coração da capital.
Como curiosidade, assinale-se que o catálogo
ilustrado indica como já pertença do sr. José Simões d’Almeida duas das obras
expostas: Uma varanda em Figueiró, trabalho do sr. Pinto, e Atelier
de escultura, quadro onde o sr. Malhoa retrata o atelier de estatuária do
seu antigo Mestre e nosso conterrâneo.
Na imprensa lisboeta, a crítica não é lá muito
generosa para com os dois artistas, em particular com o sr. Pinto. Destaca-se
sobremaneira um escriba que muito parece preocupar-se com a «verdade» do que
chama «a côr local». Aliás, desconfiamos bem que esta questão de «a côr local»
- seja lá o que isso for – ser-lhe-á leitmotiv recorrente durante muitos
e bons anos… Todavia, como nunca lobrigámos tal personagem calcorreando os
campos de Figueiró, nem cremos que as photographias possam vir algum dia a ser
a cores, perguntamos: como raio saberá o erudito indivíduo qual é a verdade da
«côr local»? se nunca a pode realmente sentir?! FdT.
Figueiró, 3 Agosto 1885 – Na igreja paroquial de São
João Baptista realizou-se esta manhã o auspicioso enlace da menina Maria da
Conceição Simões d’Almeida com o sr. Manuel Henrique Pinto, um dos pintores que
de há três anos a esta parte por cá têm vindo passar parte do Verão a pintar as
nossas paisagens.
A noiva, natural desta Vila, é irmã do nosso
amigo sr. Joaquim Simões d’Almeida Fidalgo e prima direita do nosso conterrâneo
sr. José Simões d’Almeida Júnior, o reputado escultor da capital. O noivo, ao
que nos foi possível apurar, é natural de Cacilhas, residindo actualmente em
Portalegre onde é professor e director da Escola de Desenho Industrial daquela
cidade norte-alentejana.
Presidiu à cerimónia o prior, rev.º pe. Pimenta,
e foram testemunhas presentes no assento o sr. José Malhoa, pintor e amigo do
noivo, e o sr. José Simões Fidalgo, o pai da noiva.
O novo casal, ao qual desejamos as maiores
venturas, irá residir para Portalegre logo que se inicie o novo ano escolar. FdT.
Honra para Simões d’Almeida
«Superstição», o mármore da
autoria do sr. Simões d'Almei-
da e que foi galardoado com a
Medalha de Honra no 4º salão
das Bellas-Artes promovido
pelo «Grémio Artístico».
|
Apresentando-se com uma única escultura, a estátua
em mármore Superstição, o sr. Simões d’Almeida viu não só a sua peça
rapidamente vendida pela significativa importância de oitocentos mil réis – foi
adquirida pelo ex.mº sr. dr. João Maria Corrêa Ayres de Campos, reputado
colecionador de Coimbra – como, principalmente, viu ser-lhe atribuída a Medalha
de Honra da exposição. E tal galardão é tão mais significativo quanto,
recorde-se, é a primeira vez que é atribuído nas exposições do novo Grémio
Artístico prémio tão elevado.
Se na exposição inaugural não foram atribuídos ainda
galardões; na segunda, aquela onde a distribuição de prémios se iniciou, a
Medalha de Primeira classe foi entregue ao malogrado artista António Carvalho da
Silva Porto pelo celebrado quadro Barca de passagem em Serleis (Minho); já
na terceira mostra igual Medalha de Primeira classe foi atribuída, então a José
Velloso Salgado, pelo seu Retrato do sr. W. de Lima e que vinha já premiado de Paris. Deste modo assume o
maior significado esta inédita atribuição de uma Medalha de Honra ao nosso conterrâneo
e conhecido artista sr. Simões d’Almeida.
E não será de mais noticiá-lo aqui, para se não correr
o risco de daqui a uns 120 anos já ninguém se lembrar mais desta Medalha de
Honra e da estátua Superstição. Ou talvez por isso mesmo. FdT.
Apresentação
e Boas-vindas
e Boas-vindas
Figueiró,
1898 – A comissão nomeada para tratar dos
trabalhos de restauro da nossa igreja matriz, e da qual fazem parte os srs.
dr. Manuel Pereira Baeta de Vasconcellos, José Manoel Godinho, Joaquim d’Araújo
Lacerda, António d’Azevedo Lopes Serra, Custódio José da Costa Guimarães,
Joaquim Fernandes Lopes e Manuel Quaresma d’Oliveira, acompanhada do rev. pe. Diogo
de Vasconcellos, prior da freguesia, apresentou as boas-vindas, pouco após
chegar na diligência do Paialvo, ao sr. Luiz Ernesto Reynaud, o arquitecto
contratado por intermédio do sr. José Simões d’Almeida Júnior, a fim de dirigir
os referidos trabalhos.
![]() |
O sr. Luiz Reynaud foto-
grafado um destes dias em Figueiró. |
O sr. Luiz Reynaud é, ao que nos foi possível saber, um arquitecto já experimentado. Terá sido da sua prancheta que saiu o traçado do Teatro Dona Amélia, inaugurado vai para quatro anos e que de há dois possui o mais moderno maquinismo de cinematographo da capital. Por muitos ainda julgado de arquitecto francês é, tanto quanto nos foi dado apurar, projecto deste senhor, compatriota, lisboeta de nascimento, contemporâneo na Academia das Belas-Artes dos nossos conhecidos srs. Pinto e Malhoa e possivelmente aluno de desenho de Mestre Simões d’Almeida.
Constou-nos ainda que, a par deste novo trabalho que agora abraça em Figueiró, traz o sr. Reynaud em andamento importante projecto na capital. Trata-se do anunciado elevador mecânico entre a rua Áurea e o Carmo, projecto e iniciativa do sr. Mesnier du Ponsard, reputado engenheiro portuense, e para o qual o sr. Reynaud vem estudando minuciosamente as possíveis decorações exteriores.
Desejando uma agradável e profícua estada entre nós ao sr. Luiz Reynaud, fazemos votos que trabalhos de tanta importância se não atrapalhem um ao outro. FdT.
Passa o «Cazulo»
a... «Cortiço»?
Figueiró, Verão 1898 – Todos conhecem a pequenina casa construída pelo sr. Malhoa naquilo que era dos Serras e para onde ele vem passar ultimamente a estação de verão. Porta e duas janelas, quatro paredes e telhado de duas águas, uma só sala e cozinha. Para dormir, dividem o espaço com uns biombos, dizem. De tão pequenino que aquilo é, lhe chama «o Cazulo» - porque aconchegado e pequeno. Talvez demasiado pequeno.
a... «Cortiço»?
Figueiró, Verão 1898 – Todos conhecem a pequenina casa construída pelo sr. Malhoa naquilo que era dos Serras e para onde ele vem passar ultimamente a estação de verão. Porta e duas janelas, quatro paredes e telhado de duas águas, uma só sala e cozinha. Para dormir, dividem o espaço com uns biombos, dizem. De tão pequenino que aquilo é, lhe chama «o Cazulo» - porque aconchegado e pequeno. Talvez demasiado pequeno.
Por isso o barraco de colmo, antigo cómodo da
lavoura, mantem-se de pé e serve agora para guardar quadros e tintas em vez de
enxadas e ancinhos. Mas, em tempo de chuva, mal se vislumbra lá dentro. É uma
maçada.
Aproveitando a estada do seu amigo Luiz Reynaud, o
arquitecto que dirige as obras da nossa Igreja, parece que o sr. Malhoa lhe
pediu um projecto a fim de aumentar o seu refúgio. Da casinha actual fará
atelier, mas a sério, e ao lado nasce uma verdadeira moradia toda nova, com loja,
dois andares e um sótão: adega e arrumos, sala e cozinha, dois quartos e
retrete, e cómodos para o pessoal nas águas furtadas.
Tivemos ocasião de ver alguns dos desenhos do sr.
Reynaud - são um mimo. Pareceu-nos particularmente feliz a varanda alpendrada
que abraça a frente do novo edifício, com as suas guardas em troncos de sobro retorcidos e ainda revestidos da cortiça. Será que o «Cazulo» ainda vai passar a «Cortiço»?
e se vai encher do zumbido das abelhas laboriosas?! Pois labor é coisa que não
falta ao Sr. Malhoa. FdT.
Um
mistério, três versões e o mau-olhado
Figueiró,
cerca de 1900 – Correm desencontradas versões quanto às
razões do abandono da direcção das obras da igreja matriz pelo sr. Luiz Ernesto
Reynaud, o arquitecto que vinha desempenhando tal papel. Uns falam em
incompatibilidades e quezílias com alguns membros da comissão, outros em
dificuldades desta em satisfazer todos os compromissos assumidos, outros ainda
na necessidade cada vez maior de o sr. Reynaud permanecer em Lisboa devido ao
adiantado das obras do chamado elevador do Carmo. Tentámos esclarecer e não o
conseguimos.
Quanto
à hipotética terceira razão, e pelo que nos é dado saber pessoalmente, parece-nos
pouco plausível. Chegámos a ver das mãos do sr. Reynaud alguns magníficos
desenhos, cópias em papel marion, das várias alternativas de decoração para a estrutura
daquela importante obra de engenharia – vimos uma extravagante decoração
mourisca, uma outra em estilo gótico e alguns estudos desenvolvidos em renascença. Não
sabemos agora qual a versão final adoptada, sabemos no entanto que está
encarregue da feitura dos painéis metálicos decorativos a firma Cardoso
d’Argent & Cia, e sabemos que até há algum tempo tudo era compatível. Aproveitava
mesmo o sr. Reynaud os contactos com a referida firma, então em ensaios para a
fabricação dos tais painéis, para ali mandar executar algumas peças para as
obras que dirigia aqui em Figueiró. Podemos mesmo assegurar que o grande
janelão já instalado no telhado do atelier do sr. Malhoa e algumas outras serralharias
tiveram tal origem.
De qualquer modo, o facto de o sr. Reynaud se ter ausentado tem causado incómodo e alguns comentários pouco abonatórios e em surdina.
E
deu-se o caso pela última lua nova, bem tarde na noite, na encruzilhada dos
castanheiros ali ao Areal: a este repórter foi dado surpreender um grupo de
mulheres em estranhas rezas e ladaínhas. Não podemos afirmar com todas as certezas
quem elas eram, pois estava breu e todas de capote e lenço, mas não devemos
andar longe da verdade se dissermos que seriam algumas senhoras - diz o povo «de
certas virtudes» - ali do Cimo da Vila. Abalaram mal se viram descobertas. Mas
antes, no meio das lenga-lengas, deu para perceber que pronunciavam o nome do
falado sr. Reynaud e prognosticavam coisas como: «deixado no esquecimento» e, no
futuro, «o seu trabalho olvidado por todos», de historiadores até seus pares da
Associação dos Architectos…
Não
acreditamos em tal esconjuro, até porque o trabalho do referido senhor vale por
si. Nem cremos que as «virtudes», ao que se diz, de tais senhoras valham assim
tanto. Mas, nestas coisas, nunca se sabe… FdT.
França, Junho 1904 (correspondente) – Já
se encontra instalado em Paris o sr. José Simões d’Almeida, jovem e promissor escultor
nascido em Figueiró dos Vinhos, recente vencedor de uma das bolsas do Legado
Valmor destinadas à prossecução de estudos artísticos na Cidade Luz, onde
chegou no passado dia 7.
Concluído o curso de Escultura na Academia de
Lisboa, onde foi brilhante aluno do conhecido estatuário, seu tio, seu homónimo
e também ele filho de Figueiró, José Simões d’Almeida, este, o sobrinho, irá
durante os próximos dois ou três anos aperfeiçoar a sua arte junto dos maiores
mestres franceses. Desejamos-lhe as maiores felicidades e proveitos nessa
estadia. FdT.
Jun. 2014. LBG
_____________________
[1] Gravura publicada originalmente no jornal lisboeta O Século, de 18 Julho 1897.
Reprodução
semelhante e recente por Miguel Portela in Cadernos
de Estudos Lerienses (vol.1).
Leiria: Textiverso, 2014. p.24.
[2] Cópia do
Arquivo Histórico da CMLisboa, publicada no catálogo Lisboa de Frederico Ressano Garcia:
1874-1909. Lisboa: FCG; CML, 1989.
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