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quarta-feira, 1 de junho de 2016

«O Casulo» contado às criancinhas

(a ver se os crescidos entendem…)


Neste Dia Internacional da Criança deixo-vos com o meu amigo Figueiredo, o Esquilo Figueiredo. O Figueiredo é, como o nome indica, um esquilo de Figueiró. Um Sciurus Vulgaris, de Linnaeus, um velho conhecido, um simpático bicho.

   Gosta de me aparecer por lá. Dá-me conta das avelãs, no tempo delas das nozes e das castanhas, mas principalmente das pinhas. Às vezes quero acender a lareira ou o fogareiro para assar umas sardinhas e só encontro carolos das pinhas, que o malandro mas roeu todas. Isto não impede que entre nós se tenha desenvolvido uma bela e verdadeira amizade.

Quando por lá estou e está tudo sossegado, quando não anda por lá o gato da Mena ou o canito da Dona Adélia, volta e meia lá me aparece. Empoleira-se numa ramada, olha para mim, eu olho para ele, e ficamos horas a conversar. É um bicho esperto. Sabe-a toda!
Mas é bastante reservado, e gosta pouco de trapalhices. Assustadiço. Se algo o incomoda, se alguém se arma em parvo, a coisa não corre bem, desaparece num pulo, trepa à copa mais alta dum pinheiro ou dum cedro grande e nunca mais ninguém o vê. Pelo menos durante uns tempos, até lhe passar…
Gosta muito de pinhas, mas também de respeito e da boa educação. É assim.
Apesar do aparente mau feitio, é uma jóia de bicho, um animal prestável. Bem conversado e longe de confusões, faz tudo o que se lhe pede. E certinho. Só não faz mais se não puder.

Outro dia, por um acaso, encontrei uns amigos meus às voltas com um folheto para os meninos das escolas de Figueiró. A ideia era boa, as ilustrações muito engraçadas, faltava uma história com pés e cabeça. Lembrei-me do Figueiredo. E ele tratou do assunto.
Basicamente aqui vão a conversa e os desenhos do Figueiredo feitos especialmente para os meninos de Figueiró. Agora em versão completa, antes de condensada para caber no papel. Que quando começa, e custa a começar, depois é difícil pará-lo.
Como parece que a outra custa a sair, lá por coisas, esta nossa versão vai com outros retratos de outros fotógrafos. – «É pena, pá! Gosto mesmo dos bonecos da Ana… Mas se se entretêm a engonhar, mete aí outra coisa qualquer. Enleios é que eu não quero!» – avisou-me logo o bicho. Portanto, os bonecos ficam para outra vez.
E fiquem com o Figueiredo.





Eram uma vez (em Figueiró) quatro artistas:

José Simões d’Almeida júnior, escultor.
Nasceu em Figueiró dos Vinhos, a 24 de Abril de 1844, e morreu na Amadora em 13 de Dezembro de 1926.







É do seu cinzel este mármore de «Luís de Camões», 1892, escultura que o Artista ofereceu ao «Clube Figueiroense» e que agora podemos ver no Museu.





Manuel Henrique Pinto, pintor.
Nasceu em Cacilhas, em 15 de Março de 1853, e morreu em 26 de Setembro de 1912, nas Lameiras, no fim de mais um verão passado em Figueiró.

«A caça dos taralhões», c.1891, é a primeira de uma série de pinturas, umas feitas por ele e outras por Malhoa, que 


retratam a vida e as brincadeiras de uns meninos que viviam na quinta da Fonte do Cordeiro, em Figueiró. O quadro foi logo comprado pelo Rei D. Carlos, chegou a ir a Berlim em 1896, mas depois não se sabe onde foi parar… Por isso só o conhecemos de fotografia.


José Malhoa, pintor.
Nasceu nas Caldas da Rainha, a 28 de Abril de 1855, e morreu em Figueiró, no «Casulo», em 26 de Outubro de 1933.







«O Baptismo de Cristo», 1904, é um quadro que Malhoa fez de propósito para a Igreja Matriz de Figueiró. Mostra o S. João Baptista a baptizar Jesus. Está à vista de todos lá na Igreja.


José Simões d’Almeida (sobº), escultor.
Nasceu em Figueiró, ao Cimo da Vila, em 17 de Junho de 1880, e morreu em Lisboa a 2 de Março de 1950.








O «Busto da República», 1908, foi modelado ainda durante a monarquia para a Câmara de Lisboa que era já republicana. 
Este, que podemos ver no Museu, é talvez o gesso original que Simões, mais tarde, ofereceu à sua terra.








M. Henrique Pinto e José Malhoa encontraram-se ainda rapazes na Academia das Belas Artes e ficaram amigos para a vida. Depois, já homens feitos, andavam muitas vezes juntos a pintar paisagens lá pelas terras à volta de Lisboa. Com cavaletes, telas, caixas das tintas, farnel, tudo de um lado para o outro.
Um dia, Simões d’Almeida (o tio), que era de Figueiró e tinha sido professor de Desenho de ambos, disse-lhes mais ou menos assim: - «Deixem-se de andar por aí com a tralha às costas, e vão mas é para a minha terra que têm lá muito que pintar!...». E eles vieram.
Isto foi no ano de 1883, vai para mais de cento e tal…
Gostaram tanto disto, que passaram a vir todos, mas todos os verões.

Logo, logo o Manuel Henrique se apaixona por uma moça de cá, uma prima do Simões d'Almeida (o tio) chamada Maria da Conceição, e dois anos depois casa com ela. Foram padrinhos o amigo Malhoa e a Júlia, a mulher deste. Foi a 3 de Agosto, na Igreja de S. João Baptista.
O «Zézito» Simões – era assim que lhe chamavam - tinha então cinco anos, e para além de ser sobrinho e afilhado do Simões (do tio) era também sobrinho e afilhado da Mª da Conceição. Por isso passou a chamar ao Manuel Henrique - «o tio Pinto». Parece complicado, mas não é.

(Isto pode até parecer Quadrilhice Analítica, que é uma disciplina da História da Arte onde, quando pouco ou nada se tem para dizer, se justifica tudo com umas propaladas e intrincadas amizades e outras intimidades entre os personagens, alguns que nem para ali são chamados, e se referem uns locais ou viagens que juntos fizeram, mesmo que, às vezes, as datas não batam lá muito certo… 
Pode ser parecido, mas não é! Isto é tudo verdadinha. E da de papel passado.)

Depois, dois ou três anos depois, o «Zézito» vai para Lisboa com os pais e as irmãs, fará por lá as Belas Artes, onde também foi discípulo do Tio, e irá até Paris. Portanto, o Simões d’Almeida (sobrinho) só voltará a entrar nestas nossas histórias muitos anos mais tarde… (mesmo que alguém possa achar o contrário).

Ora, se o Pinto casa cá, o Malhoa faz cá casa.

Alguns anos depois Malhoa comprou aqui um terreno (e parece que comprou mesmo…) onde construiu uma pequeníssima casa[1], apenas com uma divisão. De um lado uma cozinha minúscula, do outro uma só sala. Para dormirem dividiam parte da sala com dois biombos, um para fazer o quarto dele e da mulher, outro para o da irmã Maria Rita. A parte central, no que sobrava, era casa de jantar e de estar. Cá fora, uma barraca de colmo onde o antigo dono do terreno guardava as coisas da lavoura servia de atelier.
E de tão pequenino que aquilo era, o baptizou com o nome de «Casulo».

(Isto, mais ou menos, foi escrito pelo meu avô, o Esquilo Figueiroa, que em miúdo vinha às bolotas a um velho carvalho que havia ali ao lado, e viu tudo.) [2]

Era assim. Eu faço um desenho:



Depois, em 1898, Luiz Ernesto Reynaud, o arquitecto que estava cá a fazer as obras de remodelação da Igreja e tinha sido colega deles nas Belas Artes e aluno do Simões (o tio), fez o projecto de ampliação. A antiga casinha (o «Casulo» propriamente dito) ficou para atelier [3], e encostado mesmo ao lado construiu-se uma nova moradia. Também pequena, mas com quartos e tudo.
Por volta de 1901 estava quase tudo pronto.

E ficou assim:



Depois, bem, depois passaram muitos anos. O senhor Malhoa foi ficando velhinho, os amigos morrendo, e ele também acabou por morrer. E o «Casulo» foi tendo novos donos, foi servindo para outras coisas, e foi mudando aos poucochinhos. Mudou mesmo bastante. É giro descobrirmos as diferenças.
Mas ainda ali está, que as casas boas resistem a tudo. E podemos vê-lo agora, por dentro e por fora, descobrir coisas antigas e coisas novas. E voltar a contar histórias.
Ora as histórias podem ser bem ou mal contadas, das que dá gosto ler e ouvir, ou daquelas trapalhonas e que não interessam a ninguém. É conforme se queira. Tudo depende do modo como as deixam contar. Ou de não se armarem em tolos…





1 Jun. 2016.








[1] A casa, térrea, uma porta e duas janelas, teria para aí 8,10m de comprido por 4,70m de largo, o que dá uma área bruta de 38m2. Se descontarmos a grossura das paredes, a área útil rondaria os 24m2.

[2] Aqui, confesso, estou a usar uma figura de estilo, coisas da literatura. Nem por volta de 1898 havia esquilos em Figueiró – estávamos então extintos - nem os esquilos vermelhos, os da minha espécie, vão lá muito por bolotas – deixamos isso para os porcos e para os cinzentos, os americanos, uns outros esquilos que nalguns países da Europa são já uma espécie invasora. Mas tudo o resto – o carvalho, o avô, o ter visto, o ter escrito – é tudo verdade.

[3] Se olharem bem para os desenhos, verão que a porta e as duas janelas do atelier seriam as mesmas do antigo «Casulo». Mas agora alindadas, com as ombreiras, peitoris e vergas marcadas em massa clara, contrastando com o revestimento almagre da fachada. O mesmo no tratamento dos cunhais, entablamento e soco, remetendo para a linguagem da nova ampliação, unificando todo o conjunto.
Note-se que o atelier continuou térreo, com o piso numa cota intermédia entre a da loja da nova construção (semi-enterrada pelo tardoz) e a do andar principal. Mas ganhou pé-direito - toda a altura do novo entablamento. 
A nova cobertura, ainda essencialmente de duas águas mas com uma maior inclinação, era cruzada no seu eixo transverso por um outro sistema também de duas águas. Esta outra cobertura transversal era telhada do lado da frente, terminando sobre um tímpano triangular de alvenaria na continuidade do plano da fachada, e onde se abria uma pequena lucarna rectangular. Do lado do tardoz era inteiramente vidrada, suportada por uma estrutura metálica, possibilitando assim a entrada a jorros da luz zenital. 
Os panos de tardoz e de empena mantinham-se cegos, tal como na antiga casinha.

(Pronto: lá tive eu de me armar em arquitecto… mas dos bons. Também, se quero um ninho bem feito lá no alto dum pinheiro, tenho de ser eu a fazê-lo. E são muitos anos disso...)



segunda-feira, 30 de junho de 2014

Notícias que o não foram,

mas bem podiam ter sido…

Fica aqui uma “brincadeira”, mas uma brincadeira "séria”.
Trata-se de um conjunto de “notícias” (e das ilustradas) escritas à maneira da época, por um imaginário repórter Fulano de Tal mais ou menos conhecedor do meio e dos protagonistas, e que poderiam ter sido publicadas num qualquer jornal de Figueiró dos Vinhos entre 1880 e 1904. Pedaços marcantes de um quarto de século na vida dos quatro Artistas figueiroenses - de nascimento ou opção - dos seus amigos e familiares, evocados como notícias mais de um século depois. Os factos, as datas, os personagens, os locais e as "premonições" são absolutamente verdadeiros e baseados em documentos ou fontes credíveis. Como é evidente, adicionou-se algum “romance” facilmente perceptível. Fruí!


(Publicado originalmente em Imagens de Figueiró, o jornal da exposição recentemente inaugurada no chamado Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos.)


Um Baptizado
A Igreja Matriz desta Vila, onde se realizou o baptizado.
Gravura do nosso colega lisboeta «O Século» [1]
Figueiró, 29 Julho 1880 – Realizou-se esta manhã, na Igreja Matriz de S. João Baptista, a cerimónia de Baptismo do primeiro filho do nosso amigo sr. Joaquim Simões d’Almeida Fidalgo e de sua mulher D. Augusta da Conceição Almeida. O pequenito, a quem foi dado o nome de José, nasceu de boa saúde pelas nove horas da manhã do passado dia 17 de Junho.
Oficiou e depôs solenemente os Santos Óleos o rev.º pe. José António Pimenta, prior desta Vila. Foi padrinho o tio materno do neófito, o conhecido estatuário sr. José Simões d’Almeida Júnior, actualmente a residir na capital do reino, e que não podendo estar presente foi representado com procuração pelo seu pai, o sr. José Simões d’Almeida, também avó da criança; a madrinha foi a irmã mais nova do pai do rebento, a jovem Maria da Conceição d’Almeida, residente ao Cimo da Vila.
Augura-se um bom futuro ao pequeno José, havendo mesmo quem afirme que seguirá as pisadas de seu tio e padrinho na nobre arte da escultura… FdT.


O sr. Malhoa em fotogra-
fia realizada no ano pas-
sado pelo conhecido ama-
dor da Golegã, o sr. Carlos
Relvas, e pelo retratado
dedicada e oferecida à sra.
D. Conceição Simões d'Al-
meida que o tem hospeda-
do e ao sr. Pinto numa ca-
sa de sua propriedade.

De visita
Figueiró, Verão 1883 - A convite do nosso conterrâneo sr. José Simões d’Almeida Júnior, encontram-se de visita a esta vila os srs. José Vital Malhoa e Manuel Henrique Pinto, promissores pintores da capital. Os referidos artistas, antigos alunos do sr. Almeida na Academia Real das Belas-Artes de Lisboa, têm percorrido em jornadas de estudo várias regiões do país na busca de motivos para os seus quadros. Vindos agora do litoral e da região do Vouga, no seu regresso a Lisboa aproveitaram o conselho e o convite do Mestre para conhecerem em boa hora a nossa linda terra. Encontram-se alojados numa casa da tia do sr. Simões d’Almeida lá para os lados de S. Sebastião.
Ao que nos dizem, ficaram encantados com as paisagens e a luz de Figueiró e não têm parado de procurar os mais pitorescos recantos da Vila e seus arredores, realizando inúmeros estudos e pinturas. Os dois artistas têm sido vistos, agarrados a tintas e pincéis, em vários trechos da Ribeira d’Alge - das Fragas de S. Simão à Foz e junto à Ribeira da Madre – e também pelo Perrecho ou pelo Areal. Ficamos curiosos em ver aqueles pedaços de Figueiró dos Vinhos na próxima exposição de quadros modernos.
Diz quem com eles lida que para o ano cá teremos de volta os dois jovens pintores... FdT.



Na exposição
«Ribeira d'Alge (Figueiró)»
quadro do sr. Pinto exposto
no salão de quadros moder-
nos do chamado «Grupo do
Leão». Um dos primeiros pin-
tados por aquele artista na 
sua visita, acompanhado pelo
sr. Malhoa, à nossa linda terra.
A gravura é cortezia do nosso
amigo, o sr.Alberto d'Oliveira,
editor do Catalogo Illustrado
 do salão.
Lisboa, Dezembro 1883 (correspondente) – Abriu por estes dias, nas salas da redacção do Commercio de Portugal, o terceiro salão do denominado Grupo do Leão, agremiação de artistas da qual fazem parte os já nossos conhecidos sr. Malhoa e sr. Pinto que, como foi na devida altura noticiado, se demoraram alguns dias deste Verão a pintar aspectos da nossa Figueiró.
Logo que nos foi possível corremos a ver os resultados daqueles dias de labuta. E agora, já envernizados e emoldurados a oiro, os pequenos pedaços de tela ou de tábua pintada parece que ganharam de novo vida. A quelha do Cortez e Ao cahir da tarde, do sr. Malhoa, O Areial, do sr. Pinto, os variados aspectos da Ribeira d’Alge, tratados ora por um ora por outro, ou O Perrecho, um curioso trecho tratado de diferentes modos por cada um dos artistas, são pormenores de Figueiró que podemos por estes dias admirar aqui mesmo no coração da capital.
Como curiosidade, assinale-se que o catálogo ilustrado indica como já pertença do sr. José Simões d’Almeida duas das obras expostas: Uma varanda em Figueiró, trabalho do sr. Pinto, e Atelier de escultura, quadro onde o sr. Malhoa retrata o atelier de estatuária do seu antigo Mestre e nosso conterrâneo.
Na imprensa lisboeta, a crítica não é lá muito generosa para com os dois artistas, em particular com o sr. Pinto. Destaca-se sobremaneira um escriba que muito parece preocupar-se com a «verdade» do que chama «a côr local». Aliás, desconfiamos bem que esta questão de «a côr local» - seja lá o que isso for – ser-lhe-á leitmotiv recorrente durante muitos e bons anos… Todavia, como nunca lobrigámos tal personagem calcorreando os campos de Figueiró, nem cremos que as photographias possam vir algum dia a ser a cores, perguntamos: como raio saberá o erudito indivíduo qual é a verdade da «côr local»? se nunca a pode realmente sentir?! FdT.


O sr. José Simões Fidalgo,
o pai da noiva, e uma das
testemunhas no assento.
Um Casamento
Figueiró, 3 Agosto 1885 – Na igreja paroquial de São João Baptista realizou-se esta manhã o auspicioso enlace da menina Maria da Conceição Simões d’Almeida com o sr. Manuel Henrique Pinto, um dos pintores que de há três anos a esta parte por cá têm vindo passar parte do Verão a pintar as nossas paisagens.
A noiva, natural desta Vila, é irmã do nosso amigo sr. Joaquim Simões d’Almeida Fidalgo e prima direita do nosso conterrâneo sr. José Simões d’Almeida Júnior, o reputado escultor da capital. O noivo, ao que nos foi possível apurar, é natural de Cacilhas, residindo actualmente em Portalegre onde é professor e director da Escola de Desenho Industrial daquela cidade norte-alentejana.
Presidiu à cerimónia o prior, rev.º pe. Pimenta, e foram testemunhas presentes no assento o sr. José Malhoa, pintor e amigo do noivo, e o sr. José Simões Fidalgo, o pai da noiva.
O novo casal, ao qual desejamos as maiores venturas, irá residir para Portalegre logo que se inicie o novo ano escolar. FdT.


Honra para Simões d’Almeida
«Superstição», o mármore da 
autoria do sr. Simões d'Almei-
da e que foi galardoado com 
Medalha de Honra no 4º salão 
das Bellas-Artes promovido 
pelo «Grémio Artístico».

Lisboa, 27 Abril 1894 (correspondente) – Encerra hoje a 4ª exposição de Belas-Artes promovida pelo Grémio Artístico. O certâmen tem estado patente nas salas da Escola de Belas-Artes desde o passado dia 14 de Março e foi muito concorrido. Como nota mais saliente, devemos referir o verdadeiro triunfo que foi a participação do nosso patrício sr. José Simões d’Almeida Júnior.
Apresentando-se com uma única escultura, a estátua em mármore Superstição, o sr. Simões d’Almeida viu não só a sua peça rapidamente vendida pela significativa importância de oitocentos mil réis – foi adquirida pelo ex.mº sr. dr. João Maria Corrêa Ayres de Campos, reputado colecionador de Coimbra – como, principalmente, viu ser-lhe atribuída a Medalha de Honra da exposição. E tal galardão é tão mais significativo quanto, recorde-se, é a primeira vez que é atribuído nas exposições do novo Grémio Artístico prémio tão elevado.
Se na exposição inaugural não foram atribuídos ainda galardões; na segunda, aquela onde a distribuição de prémios se iniciou, a Medalha de Primeira classe foi entregue ao malogrado artista António Carvalho da Silva Porto pelo celebrado quadro Barca de passagem em Serleis (Minho); já na terceira mostra igual Medalha de Primeira classe foi atribuída, então a José Velloso Salgado, pelo seu Retrato do sr. W. de Lima e que vinha já premiado de Paris. Deste modo assume o maior significado esta inédita atribuição de uma Medalha de Honra ao nosso conterrâneo e conhecido artista sr. Simões d’Almeida.
E não será de mais noticiá-lo aqui, para se não correr o risco de daqui a uns 120 anos já ninguém se lembrar mais desta Medalha de Honra e da estátua Superstição. Ou talvez por isso mesmo. FdT.


Um dos mais recentes trabalhos do sr. Malhoa, um pe-
quenino óleo que será uma das derradeiras imagens da
nossa Igreja  Matriz tal como hoje é. Pelo que temos ou- 
vido dizer, as obras a iniciar brevemente ir-lhe-ão alte-
rar de tal forma a silhouette que não mais assim a reco-
nheceremos...
Apresentação 
e Boas-vindas
Figueiró, 1898 – A comissão nomeada para tratar dos trabalhos de restauro da nossa igreja matriz, e da qual fazem parte os srs. dr. Manuel Pereira Baeta de Vasconcellos, José Manoel Godinho, Joaquim d’Araújo Lacerda, António d’Azevedo Lopes Serra, Custódio José da Costa Guimarães, Joaquim Fernandes Lopes e Manuel Quaresma d’Oliveira, acompanhada do rev. pe. Diogo de Vasconcellos, prior da freguesia, apresentou as boas-vindas, pouco após chegar na diligência do Paialvo, ao sr. Luiz Ernesto Reynaud, o arquitecto contratado por intermédio do sr. José Simões d’Almeida Júnior, a fim de dirigir os referidos trabalhos.
O sr. Luiz Reynaud foto-
grafado um destes dias em 
Figueiró.
O sr. Luiz Reynaud é, ao que nos foi possível saber, um arquitecto já experimentado. Terá sido da sua prancheta que saiu o traçado do Teatro Dona Amélia, inaugurado vai para quatro anos e que de há dois possui o mais moderno maquinismo de cinematographo da capital. Por muitos ainda julgado de arquitecto francês é, tanto quanto nos foi dado apurar, projecto deste senhor, compatriota, lisboeta de nascimento, contemporâneo na Academia das Belas-Artes dos nossos conhecidos srs. Pinto e Malhoa e possivelmente aluno de desenho de Mestre Simões d’Almeida.
Constou-nos ainda que, a par deste novo trabalho que agora abraça em Figueiró, traz o sr. Reynaud em andamento importante projecto na capital. Trata-se do anunciado elevador mecânico entre a rua Áurea e o Carmo, projecto e iniciativa do sr. Mesnier du Ponsard, reputado engenheiro portuense, e para o qual o sr. Reynaud vem estudando minuciosamente as possíveis decorações exteriores.
Desejando uma agradável e profícua estada entre nós ao sr. Luiz Reynaud, fazemos votos que trabalhos de tanta importância se não atrapalhem um ao outro. FdT.



Um dos desenhos do sr. Reynaud para o projecto
de ampliação do «Cazulo» do sr. Malhoa

Passa o «Cazulo» 
a... «Cortiço»?
Figueiró, Verão 1898 – Todos conhecem a pequenina casa construída pelo sr. Malhoa naquilo que era dos Serras e para onde ele vem passar ultimamente a estação de verão. Porta e duas janelas, quatro paredes e telhado de duas águas, uma só sala e cozinha. Para dormir, dividem o espaço com uns biombos, dizem. De tão pequenino que aquilo é, lhe chama «o Cazulo» - porque aconchegado e pequeno. Talvez demasiado pequeno.
Por isso o barraco de colmo, antigo cómodo da lavoura, mantem-se de pé e serve agora para guardar quadros e tintas em vez de enxadas e ancinhos. Mas, em tempo de chuva, mal se vislumbra lá dentro. É uma maçada.
Aproveitando a estada do seu amigo Luiz Reynaud, o arquitecto que dirige as obras da nossa Igreja, parece que o sr. Malhoa lhe pediu um projecto a fim de aumentar o seu refúgio. Da casinha actual fará atelier, mas a sério, e ao lado nasce uma verdadeira moradia toda nova, com loja, dois andares e um sótão: adega e arrumos, sala e cozinha, dois quartos e retrete, e cómodos para o pessoal nas águas furtadas.
Tivemos ocasião de ver alguns dos desenhos do sr. Reynaud - são um mimo. Pareceu-nos particularmente feliz a varanda alpendrada que abraça a frente do novo edifício, com as suas guardas em troncos de sobro retorcidos e ainda revestidos da cortiça. Será que o «Cazulo» ainda vai passar a «Cortiço»? e se vai encher do zumbido das abelhas laboriosas?! Pois labor é coisa que não falta ao Sr. Malhoa. FdT.


 Um mistério, três versões e o mau-olhado
Figueiró, cerca de 1900 – Correm desencontradas versões quanto às razões do abandono da direcção das obras da igreja matriz pelo sr. Luiz Ernesto Reynaud, o arquitecto que vinha desempenhando tal papel. Uns falam em incompatibilidades e quezílias com alguns membros da comissão, outros em dificuldades desta em satisfazer todos os compromissos assumidos, outros ainda na necessidade cada vez maior de o sr. Reynaud permanecer em Lisboa devido ao adiantado das obras do chamado elevador do Carmo. Tentámos esclarecer e não o conseguimos.
Quanto à hipotética terceira razão, e pelo que nos é dado saber pessoalmente, parece-nos pouco plausível. Chegámos a ver das mãos do sr. Reynaud alguns magníficos desenhos, cópias em papel marion, das várias alternativas de decoração para a estrutura daquela importante obra de engenharia – vimos uma extravagante decoração mourisca, uma outra em estilo gótico e alguns estudos desenvolvidos em renascença. Não sabemos agora qual a versão final adoptada, sabemos no entanto que está encarregue da feitura dos painéis metálicos decorativos a firma Cardoso d’Argent & Cia, e sabemos que até há algum tempo tudo era compatível. Aproveitava mesmo o sr. Reynaud os contactos com a referida firma, então em ensaios para a fabricação dos tais painéis, para ali mandar executar algumas peças para as obras que dirigia aqui em Figueiró. Podemos mesmo assegurar que o grande janelão já instalado no telhado do atelier do sr. Malhoa e algumas outras serralharias tiveram tal origem.

Um dos desenhos do sr. Reynaud, cópia em papel marion, para o «Ascenseur du Carmo à Lisbonne: Vue latérale projetée dans un plan paralléle au plan vertical passant par l'axe de rue Stª Justa; Echelle 1/100» e com as seguinte indicação «Projet de Raoul Mesnier du Ponsard (Ingénieur); Décoration de Louis Reynaud (Architecte)». Trata-se de uma das versões, a de carácter renascentista, que o sr. Reynaud em tempos nos mostrou. [2] 














De qualquer modo, o facto de o sr. Reynaud se ter ausentado tem causado incómodo e alguns comentários pouco abonatórios e em surdina.
E deu-se o caso pela última lua nova, bem tarde na noite, na encruzilhada dos castanheiros ali ao Areal: a este repórter foi dado surpreender um grupo de mulheres em estranhas rezas e ladaínhas. Não podemos afirmar com todas as certezas quem elas eram, pois estava breu e todas de capote e lenço, mas não devemos andar longe da verdade se dissermos que seriam algumas senhoras - diz o povo «de certas virtudes» - ali do Cimo da Vila. Abalaram mal se viram descobertas. Mas antes, no meio das lenga-lengas, deu para perceber que pronunciavam o nome do falado sr. Reynaud e prognosticavam coisas como: «deixado no esquecimento» e, no futuro, «o seu trabalho olvidado por todos», de historiadores até seus pares da Associação dos Architectos…
Não acreditamos em tal esconjuro, até porque o trabalho do referido senhor vale por si. Nem cremos que as «virtudes», ao que se diz, de tais senhoras valham assim tanto. Mas, nestas coisas, nunca se sabe… FdT.



«À Paris!»
França, Junho 1904 (correspondente) – Já se encontra instalado em Paris o sr. José Simões d’Almeida, jovem e promissor escultor nascido em Figueiró dos Vinhos, recente vencedor de uma das bolsas do Legado Valmor destinadas à prossecução de estudos artísticos na Cidade Luz, onde chegou no passado dia 7.
Concluído o curso de Escultura na Academia de Lisboa, onde foi brilhante aluno do conhecido estatuário, seu tio, seu homónimo e também ele filho de Figueiró, José Simões d’Almeida, este, o sobrinho, irá durante os próximos dois ou três anos aperfeiçoar a sua arte junto dos maiores mestres franceses. Desejamos-lhe as maiores felicidades e proveitos nessa estadia. FdT.


Grupo de artistas portugueses em Paris. O sr. Simões d'Almeida (sobrinho) é o primeiro da esquerda, com a bengala na mão e identificado com o nº1. Destacam-se ainda: o sr. Costa Motta (sobrinho) com o nº2,  o sr. Acácio Lino com o nº5, e o sr. Sousa Lopes com o nº 9, entre muitos outros.

A gravura que publicamos mais acima representa «La Gaité», uma placa em gesso patinado realizada, neste mesmo ano de 1904, pelo sr. Simões d'Almeida (sobrinho) e com dedicatória «ao ex.mo sr. C. J. de Lima».





















   

Jun. 2014. LBG

_____________________

[1] Gravura publicada originalmente no jornal lisboeta O Século, de 18 Julho 1897.
Reprodução semelhante e recente por Miguel Portela in Cadernos de Estudos Lerienses (vol.1). Leiria: Textiverso, 2014. p.24.
[2] Cópia do Arquivo Histórico da CMLisboa, publicada no catálogo Lisboa de Frederico Ressano Garcia: 1874-1909. Lisboa: FCG; CML, 1989.