quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O «Crepúsculo» da Dona Amélia (c.1892)

... e a teoria da batata.

 
Prometido é devido. Disse há dias que aqui traria o quadro de JMalhoa, Crepúsculo, c.1892, comprado pela Rainha Dona Amélia na 2ª Exposição do Grémio Artístico. Trata-se de um quadro quase desconhecido. Tem-se dele notícia pelos jornais da época, pelo catálogo da mostra e pouco mais. Que se saiba, nunca ninguém no nosso tempo lhe terá visto a cara… quando dele se fala é por ouvir dizer – lendo, claro está.
Pois aqui vai. Em foto antiga, a preto e branco – sépia, para ser mais preciso - que não deverá haver outra. Dá para ver a assinatura: «José Malhôa» - ainda aquela, a dessa altura – e não se lhe descortina data – ou porque não datado, o mais natural, ou porque a foto a cortou.


E, já agora, vai também a foto [1] do mesmo quadro dependurado nos aposentos de Sua Majestade a Rainha, numa câmara do Palácio das Necessidades,  meia dúzia de anos depois de adquirido. Lá está ele, por detrás da chaise-longue da Dona Amélia, junto ao friso do tecto, nos seus dois metros de largo.



Este é um daqueles quadros das colecções reais a que se perdeu o rasto - tal como A caça dos taralhões, c.1891, de MHPinto, comprado no ano anterior pelo Rei. Que se saiba, não está inventariado em qualquer colecção nacional. E, ou saiu do país, ou se perdeu definitivamente, ou jaz esquecido nalgum buraco de um ministério ou repartição. Pode ser que algum velho contínuo lhe conheça o paradeiro…
De palpável, hoje em dia, somente um estudo – esta pequena tábua, 12x22,5, da antiga colecção AC – Borralheira, c.1890. Sem muitas dúvidas, um belo estudo preparatório para este mesmo quadro.



Sobre o quadro, toda a crítica de então, mais preocupada com O último interrogatório do marquês de Pombal, é parca em descrições e comentários. Dele, João Sincero [2] limita-se a uma pequenina referência: «… a Rega dos alfobres, também de aspecto muito agradavel, assim como o Crepusculo, tira o seu effeito do contraste da luz e da sombra, muito predilecto do artista...». E Fialho d’Almeida [3] presenteia-o com o já anteriormente citado «… e quanto ao Crepusculo, é um pot-pourri do Angelus de Millet, com menos uncção religiosa, e mais batatas».
E, só por isto, vale bem a pena mostrar aqui também o quadro de Jean-François Millet (1814-1875), Angelus, c.1857/59 – os camponeses não tocam viola, mas colhem batatas…  


Voltando à crítica da época. Ribeiro Artur [4], na sua crónica que parece em grande parte decalcada da do Fialho, dá a este quadro algum destaque e esclarece-nos melhor: «É explendido o seu – Crepusculo -. Desce o véu da noite, a penumbra esfuma os objectos. Á direita uns clarões afogueados do occaso, á esquerda um pequeno arbusto torcido quebra a monotonia do horisonte. Dois aldeões no primeiro plano apanham as ultimas batatas. N’um carreiro tortuoso uma figurita, ao longe, tambem curvada sobre o solo. São justos os tons, e a melancolia da hora espalha uma uncção tocante; esquece se a gente a ver os pennachos de fumo esbranquiçado que sobem de umas fogueirinhas e são brandamente levados pela aragem». 
Não haja dúvida alguma que falamos da mesmíssima coisa! 


Depois disto as referências são esparsas, imprecisas e pouco mais adiantam que alguma confusão entre género e paisagem, que falam de ouvir falar. É pois coisa que pouco interessa.


Aqui fica também a folhinha do Catalogo Illustrado da Exposição de Bellas Artes promovida pelo Gremio Artistico em 1892, com as quatorze obras que JMalhoa ali levou. Com o texto de Pinheiro Chagas inspirador do quadro do Marquês, e os nºs de catálogo, títulos, medidas e preços do Crepusculo e dos outros quadros todos.




Por outro lado, consultando o Annuario do Gremio Artistico relativo a 1893-94 [5], confirmamos a compra Real: «Malhôa (J.) - Crepusculo – 200x140 – 500$000 réis. A Sua Magestade a Rainha». Ficamos também a saber que, nesse mesmo ano de 1892, Malhoa, dos 14 quadros expostos, apenas vendeu mais dois - Pensando no caso e As aboboras - a G. Gerosch e G. R. respectivamente, e pelos valores de catálogo.
E, já que estamos com a mão na massa, vasculhemos o resto e verifiquemos os outros resultados comerciais. Na 1ª Exposição, a do ano anterior, a venda limitou-se a Noé e Preciosa, comprado por António Cambiaso, por 180$000 reis [6], afinal o único que tinha para vender. Na 3ª Exposição, em 1893, Malhoa despacha os três quadros vendáveis: Ao toque das Trindades, por 300$000, ao Conde do Alto Mearim; Á missa das seis, que custou mais 200$000 à Rainha; e Os curiosos, pelo qual o Conde de Proença-a-Velha deu 135$000. E, finalmente quanto ao que neste Anuário é possível saber, em 1894, na 4ª Exposição, as vendas na mostra reduzem-se a um simples Pastel, Estudo, que rendeu 67$500 pagos de novo pelo Conde do Alto Mearim. Nessa mostra os dois Nús eram caríssimos  - e um deles foi directo à Academia - e, para vender, sobraram Os Ouriços que no Brasil haviam de ter destino...
 Claro que haveria mais as vendas em atelier, os Retratos e alguns outros quadros que às Exposições iam já com dono, os trabalhos de decoração em edifícios públicos e privados… e O último interrogatório do Marquês de Pombal que, depois da desilusão, Malhoa irá pôr as discípulas todas a pagar – mas isso é uma outra história, e para vermos mais tarde.


5 Dez. 2012. LBG.



...Mais umas quantas batatas...

            A vida tem destas coisas: volta e meia aparece-nos diante dos olhos o que antes não viramos e devíamos ter visto. Estava agora mesmo a dar uma vista de olhos a um catálogo praticamente esquecido, um daqueles a que ninguém liga, um que nunca é referido, e surpreendo-me! Não quis deixar de partilhar aqui.

Trata-se do catálogo da Exposição Nacional do Centenário de José Malhoa (1955), exposição que teve lugar, a crer no que ali está escrito, entre 15 de Maio e 15 de Setembro de 1955, no então «Museu Provincial de José Malhoa», nas Caldas da Raínha. É um livrinho que vale sobretudo pela meia dúzia de magníficas reproduções, a preto e branco, de pormenores de outros tantos dos mais conhecidos quadros de JMalhoa – e a gente perde-se a olhar para elas e esquece o resto. Ora o resto, lido bem lido, evitaria alguns “erros e omissões” que infelizmente persistem por aí. Não cabe agora tratar disso, fiquemos pelas “batatas da D. Amélia [7] ”.

Ora, surpreendentemente, podemos ali ler: «168 – Colhendo Batatas ao Entardecer – José Malhoa | Alt. 1400 x Larg. 2000 T. [tela] | Pertence a Sua Alteza Real a Infanta D. Luísa d’Orleans depositado no Museu Provincial de Belas Artes de Sevilha».
Não devem ficar muitas dúvidas de que se trata da mesma tela – renomeada como soía, com as mesmas dimensões e na posse de uma familiar da inicial compradora. Ficamos assim a saber que o Crepúsculo, c.1892, voltou por uns meses a Portugal nesse ano de 1955.

Se está ou não ainda em Sevilha, não sabemos. Por coincidência, faz pouco mais de um mês, estive no dito Museu – à vista não está, e como só agora soube, também não perguntei por ele. 


9 Jun. 2014. LBG


...ainda umas batatas (agora mais requentadas)

           Passou-me agora pela vista mais um registo que tem a ver com esta nossa velha conversa. Trata-se de mais uma fotografia do «Gabinete particular de S.M. a Rainha» no Palácio das Necessidades, desta vez publicada em 1904 [8]. E cá temos ainda o "nosso" Crepúsculo, c.1892, a espreitar por de trás do reposteiro. 


           A sala é a mesma, vista agora de um outro ângulo, mas quase imutável. Contudo, cinco anos passados, notam-se pequenas diferenças (deixo esse exercício para entretém dos leitores). O Crepúsculo, esse, baixou uns dois palmos... 

10 Jan. 2017. LBG




[1]  In Brasil-Portugal, nº13, 1 Agosto 1899, p.13.
[2]  (Emigdio de Brito Monteiro) in Occidente, nº482, 11 Maio 1892, p.107.
[3]  In Os Gatos, vol.V, folhetim de 14 Março 1892.
[4]  In Arte e Artistas Contemporaneos. Livraria Ferin, Lisboa, 1896, p.196, 197 – A segunda exposição do Gremio Artistico.
No mesmo livro, no artigo sobre José Malhoa, a p.130, Bartholomeu Sezinando Ribeiro Arthur refere o Crepusculo como exposto em 1893. Como é obvio, enganou-se. E leva outros ao engano…
[5]  Annuario do Gremio Artistico relativo a 1893-94. Typographia Franco-Portugueza. Lisboa, 1895. p.47.
[6] «18$000 réis» segundo o Anuário, p.42, o que deve ser engano, pois o preço de catálogo eram os 180$000.
[7] D. Amélia, evidentemente. 
Porque, dá-se o caso, noutros quadros de JMalhoa com a indicação coeva de «adquirido por S.M. a Rainha», tal ser trapalhadamente “traduzido” por «Historial: Raínha D. Amélia (1885)» - sem cuidar de perceber que em tal data a dita Senhora nem era Raínha, nem havia sequer chegado à Pampilhosa a fim de ser recebida pelas autoridades portuguesas antes do casamento com o então Príncipe D. Carlos... 
A Raínha (que também comprava quadros de Malhoa) era então a Senhora D. Maria Pia de Sabóia… Vem nos livros.
[8]  In Illustração Portugueza, nº48, 3 Outubro 1904.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Uma viagem por Tomar

Dois postais e uma estória…



             Em 10 de Abril de 1892, José Malhoa faz mais uma das suas habituais viagens até Figueiró dos Vinhos. Desta, como de mais algumas outras, deixou-nos o registo do itinerário. Em dois cartões de viagem, 205x125mm, quase em banda desenhada. Estes foram resgatados há muito pouco tempo. Seremos os primeiros a vê-los, ao fim de muitos anos.
 
            Sigamos pois a estória. Que tem título e tudo:

«Viagem a Figueiró dos Vinhos (de Lisbôa a Payalvo) 10 Abril 92»

Apanhado o combóio a vapor na novíssima Estação do Rocio, inaugurada havia menos de um ano, talvez, ou então na mais antiga de Santa Apolónia, a viagem começou.

Para trás Malhoa deixava os quatorze quadros expostos no segundo salão do Grémio, entre os quais os 16,5 m2 de O último interrogatório do marquês de Pombal, o tal, sobre o qual já Fialho havia escrito [1] «atirou-lhe pr’a cima uma prodigiosa quantidade de tintas, de côres varias...» e desancado até ao fim, não por falta de arte «…ha nesse quadro uma riqueza de seiva que faz honra a Malhôa, e nos demonstra estar elle completamente senhor do métier», mas por grande incómodo e incompreensão da cena. Uma visão jacobina da crítica contra a alegada «beatice» de um Malhoa «jesuíta», então a levar por tabela, convém lembrar.
E ainda faltava o João Sincero, que havia de verborrear pela mesma medida, dali a dez dias, no Occidente
Malhoa já sabia, ou já adivinhava – com todas aquelas tretas, vão mas é dar a medalha à Barca do Porto… se ainda fosse ao estudo, mas àquele cartaz litográfico?!… e tanto trabalhinho me deu, o raio do Marquez… - devia estar a pensar. Malhoa estava chateado, claro que estava chateado.
Ir para Figueiró pintar, seria um bálsamo. E estava no início a Primavera…

Para passar o tempo, na longa jornada até Tomar – a primeira etapa da viagem -, nada melhor que puxar do lápis e do carnet.

Logo à saída de Lisboa, na junção da linha de cintura com a de Stº Apolónia, o Poço do Bispo tem direito ao primeiro apontamento – um regador de lata. Nos Olivais é um tronco de árvore retorcido, alguma oliveira talvez, o que mereceu atenção. Segue-se Sacavém, onde o lápis rabisca uns zingarelhos ferroviários à beira da linha. Dois tipos de barrete e longas suíças são apanhados na estação da Póvoa. Em Alverca o registo é impreciso. E na Alhandra, novo personagem de barrete é rapidamente apontado.
 
Para aumentar, pressionar sobre a imagem.

Malhoa deve ter acalmado ou passado pelas brasas. Só em Santana («Stª Anna» na grafia da época), perto do Cartaxo e Vila Chã d’Ourique, é que o lápis risca de novo. Mercadorias junto ao cais, um edifício e o que parecem ser mastros de umas fragatas… Ali? longe do Tejo, já em plena lezíria? – interrogamo-nos hoje - talvez que, há cento e vinte anos, por ali ainda houvesse alguma vala navegável... Isso, ou troca na legenda. Adiante. Dali a Santarém é um pulinho. Um vagão carregado de palha começa a ser esboçado… mas o “nosso” apitou e lá abalou. Segue-se Vale de Figueira – com mais um barrete, este bem ribatejano – e Mato Miranda, já perto do Paúl do Boquílobo, onde um barco ribeirinho adorna em terra, junto a uma cancela.

Ainda falta um bom bocado para Paialvo. Mas, agora, são longas as rectas até Riachos, Entroncamento e Lamarosa. E, ou o novo cartão se perdeu, ou já ficou desenhado tudo o que era para desenhar.

Chegado a Paialvo, algum «carro do Campião» o terá levado até Tomar. Então os solavancos do trote das cavalgaduras pela estrada esburacada é que rabiscos no papel impediram.

Por certo em Tomar haveria de ficar essa noite. Em casa do Pinto, ora bem. No dia seguinte, ou noutro qualquer, logo teria diligência que o levasse, serra acima, até Figueiró… Abraços ao «Manel», cumprimentos à mulher, beijinhos aos pequenos. Muita conversa e todas as novidades.
 

           Ainda nesse mesmo dia, talvez enquanto esperava que M.H.Pinto desse umas quantas lições, mais um desenhito junto à Ponte Velha - «Margens do Nabão, Thomar. 10 Abil 92». Os salgueiros, os choupos, os chorões deviam estar lindos, todos a rebentar... E mais um lampião, uma chaminé e outra coisa qualquer…

Figueiró podia esperar.

 
1 Dez. 2012. LBG



[1] Disto falaremos para a próxima… com as batatas de Sua Majestade.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O «Retrato do Sr. P. D. A. C.»

ou, em linguagem malhoesca,
como “elas” se criam…


Podia vir pra’qui mostrar-me surpreendido por, segundo o próprio autor, aquilo-que-era-para-ser-afinal-já-não-é-bem-assim-mas-continua-a-chamar-se-como-era–para-ser-e-afinal-não-foi. Chamemos-lhe, pois, a coisa. Ficamos também a saber – valha-nos isso – que fazer ou não parte da coisa, tanto faz. Que, diz-nos o autor – por uma vez modesto – não põe as mãos no fogo pelo que deixou de fora quer, mesmo, pelo que lá meteu dentro. Ainda bem. E, nisto, totalmente de acordo.
Podia vir pra’qui chorar a minha tristeza por, logo um dos que respondeu à chamada do Poeta - «…Qu’é dos Pintores do meu país estranho | Onde estão eles que não vêm pintar?» - logo um dos que antecipa um outro poeta - «…Aromas de urze e de lama | Dormi com eles na cama | Tive a mesma condição…» -, um Pintor assim, tão ligado à terra e suas gentes, continuar tão mal entendido. Confundir A morte do porco – Que grande calamidade! – Uma desgraça [1] – o registo duro de uma das maiores tragédias que pairam sobre a dura vida camponesa, com uma eventual «A Matança do Porco» - a ocasião de festa, de partilha, mais não seja a de tirar barriga da miséria quotidiana – é confundir tudo! É não olhar, não ver, não entender, nada querer saber do que Malhoa pinta. Bem podem depois vir com um alqueire de erudição, dois almudes de literatura estética… o mosto morreu, dali já não brota espírito! Maleita usual quando almofadinhas pipis falam d’alto do que não sabem, nem querem saber, porque lhes cheira demasiado a suor ou a estrume.
Podia vir pra’qui alardear a minha incredulidade por quem há um par de anos desfraldava a baeta vermelha da saia da Adelaide com definitiva consigna, venha agora pespegar a “outra”, a ex-bastarda, na capa do novo manifesto. E sem uma palavra, sequer um postalinho – como diria o outro - revisionismo e pim! Perdão, há por lá uma justificativa, argumento pífio, próprio de sargento lateiro - «a antiguidade é um posto!». Quanto ao resto, disse nada. Noblesse oblige, pum!
J.Malhoa fotografado por Carlos Relvas.
C. 1880/1885
Podia vir pra’qui exasperar-me por causa daqueles Nus [2] que continuam desgraçadamente atirados para o ano dos prodígios de 1918 – pura e sómente à custa de fofoca mal lida em correspondência alheia… Já os olhou? já os viu? já entendeu alguma vez tais quadros? «Não vale a pena! – diria Relvas, o velho Carlos, que disto percebia ele – quando ganham a crença nas cartas, digo, nas tábuas, de nada vale citá-los de largo…».
Podia vir pra’qui tentar resolver o paradoxo do quadro [3] comprado pelo R. Bernardelli ao Guilherme Rosa em 1902, só vir a ser pintado três anos depois. O meu amigo A. B. bem que explicou, o autismo não deixou.
Podia vir pra´qui estranhar a colecção de batatas da Dona Amélia - ele são paisagem com batatas, ele são batatas de género… - Sua Magestade era grande mas não comeria, por certo, tanto puré. Não será, afinal e mais uma vez, um só e o mesmo quadro? Crepúsculo, c.1891 [4]. Aquele que Fialho dizia, com a pilhéria do costume, ser um «Angelus de Millet com menos unção e mais batatas» [5]. O milagre da multiplicação dos quadros continua vivo. Aleluia!
Podia vir pra´qui com mais uma data de coisas [6], que a coisa é mesmo assim. Anunciam-nos uma espécie de Mercedes catita, de capa dura, daqueles para durar umas dezenas de anos, e um tipo, ainda não chegou ao fim da rodagem, já a cada meia dúzia de páginas tem as luzinhas encarnadas do tablier a piscar… se fosse mesmo da casa de Estugarda, andavam era a recolher os exemplares todos de volta.

Podia tudo isto, mas não. Que, afinal de contas, era coisa previsível. E o júbilo pelo que vem a seguir, tudo relativiza. Animemo-nos com a boa nova.


Podemos, finalmente, deitar fora os velhos catálogos desirmanados da Promotora, todos os do Leão com as dedicatórias do Alberto meias roídas pelos ratos, os do Grémio esbandalhados e de folhas soltas, os da Sociedade mais ou menos na mesma, os de Paris traçados e mal cheirosos, os de Madrid, do Rio, de Buenos Aires… tudo lixo! A coisa nasceu para nos salvar! Daqui em diante «cesse tudo o que a Musa antígua canta» pois, com quatro letrinhas apenas e mais outros tantos algarismos, temos a Obra ao alcance duma mão! Estudiosos, historiadores, doutores ou aprendizes, coleccionadores, antiquários e leiloeiros, conservadores ou progressistas, técnicos, profissionais ou amadores, todos confiaremos na coisa, que a coisa nos elucidará.


Quase ao acaso, tomemos este belo exemplo que nos revela uma obra quase desconhecida de Malhoa: o «Retrato do Sr. P. D. A. C.», 1902. Com a devida vénia, reproduz-se (à má fila) a ficha impressa. Admiremos.
Um grande retrato de Malhoa! Há dois anos [7] deram-lhe o nome, agora, finalmente, mostram-lhe a cara – e que cara!

Comecemos pelo retratado. Quem é o distinto cavalheiro? Quem será este «Sr. P. D. A. C.»? Com direito a retrato, nome, sobrenome e duplo apelido de família?

Colaboremos então, alegres e contentes, em tão grada descoberta. Numa aturada pesquisa, que me levou para mais de onze minutos, cheguei à conclusão que estaremos perante um destacado membro da família Andar Calado – família de grande respeito, possivelmente com brasão num dos tectos de Sintra ou, pelo menos, no do O’Neill, em Cascais (logo que me lembre tenho de perguntar ao Z. A.). Depois, também descobri que o sobrenome será Deveria, que advém de homenagem a antepassado de exemplar correcção cívica. Por fim, e aqui é que hesito, não sei se se trata do primeiro da linhagem – Comendador do Chico-Espertismo – ou do seu primogénito – Barão d’Aldrabice – e cujos nomes de baptismo serão Parvô e Pallerma, ambos de origem itálica. De qualquer modo estaremos, muito provavelmente, perante o «Retrato do Sr. Parvo Deveria Andar Calado». Um quadro novo na fecunda obra malhoesca. E só agora, em definitiva publicação, revelado ao povo e explicado às criancinhas.
Surpresos com o meu descaramento? Estou a ser injusto? A besta do costume? Já sei.

Vejamos então como a coisa surge, «como “elas” (as parvoeiras) se criam…» - parafraseando um título mais tardio de Malhoa.

Antes que vão para a reciclagem azul, recuperemos umas folhinhas do Catalogo Illustrado | Sociedade Nacional Bellas Artes | 3ª Exposição 1903 - Sociedade então encabeçada por Columbano, que também presidiu ao Júri de Admissão da referida mostra. Ei-las: a página 26 do catálogo, referente às obras de «Pintura a óleo» de Malhoa (expôs então ainda uma outra na secção «Pastel»), e uma das gravuras que ilustram a publicação, a que apresenta a fronha do presumível «Sr. P. D. A. C.». Olhai, vede e entendei!


Comecemos pela escrita. Encontram ali alguma obra com tal título? Não. O mais parecido com o que a coisa diz, será o «106 – Retrato do Exmº Sr. P. da C.». Que se passou? ‘Tá-se mesmo a ver: como é gente fina e P. da C. é simplérrimo demais, vá de desconstruir e recompor a coisa - nome, sobrenome e duplo apelido de família, é bem mais consentâneo. E pronto, a contracção da preposição com o artigo definido ganhou asas e voou, o simples «da» passa a «D. A.». A isto chama-se rigor e estudo metódico. Não é bem a verdade, mas que importa? Assim é que é bonito.


Vamos agora à imagem - a original de 1903. Conseguem ler a legenda? Que diz? «Cabeça de estudo | José Malhôa». Então? Não será que o tal «retrato em busto de cavaleiro antigo com pescoço “afogado” em gola de caça,… e “barba Henrique IV”» é, afinal de contas, o «99 – Cabeça d’estudo – 0,37x0,44 – 180$000 réis»? Poderia parecer, mas o rigor e o método apontaram para que assim não fosse: ou porque munido de novas e rigorosas medidas, «455x385 mm», o rigor imperou - aquele centímetro e meio a mais deverá ter sido fatal – ou, simplesmente, porque sim. Deu-se nova epifania.


            Vejamos mais uma imagem. Eis a reprodução de parte das páginas centrais de o Occidente, nº878, de 20 de Maio de 1903, revista de referência na época, dirigida por Caetano Alberto, e a que junto mais um pequeno recorte retirado da mesma.
Como se pode concluir: eu, o Columbano - afinal o responsável pelo catálogo da SNBA - e o Caetano Alberto, somos umas grandessíssimas bestas. Fico em muito boa companhia, reconheço.


 Vejamos, por fim, o que nos diz António de Lemos em Notas d’Arte – citado pelo autor da coisa a propósito de Que grande calamidade! (Lemos, 1906). Se o autor da coisa tivesse lido umas páginas mais à frente, p.50, onde A. Lemos escreve a propósito desta 3ªSNBA e do tal quadro de Malhoa, leria isto: «E, deixei para o fim o nº 106, que, embora eu esteja em erro, é para mim um dos trabalhos mais fulgurantes do grande artista.| Aquelle retrato de mulher, com elegancia finissima de palmeira, desenhada com uma distincta correcção de linhas e colorida com um mimo especial de carnação, que palpita, fez-me sentir o grande desejo de me curvar n’uma postura palaciana e beijar respeitosamente as pontas d’aquelles dedos, que tão despreocupadamente pousam no teclado do piano.| Este quadro é para mim d’um encanto inexcedivel. E que me perdôe o artista se eu não soube dizer d’elle o que elle merecia».
Afinal sempre há um erro no catálogo da 3ªSNBA. O quadro nº 106, conforme nos descreve o embevecido Lemos, será por certo o Retrato de Maria Bravo, que tocava piano e falava francês…. E se trocas houve, elas são entre o nº 107 - Retrato de M.me M. B. e o nº 106 – (no final das contas) Retrato da Ex.mª Sr.ª P. da C. (Dona Teresa Pereira da Costa), o «premiado na exposição de Madrid» e o que aparece nas gravuras e no texto de o Occidente identificado como «M.me M. B.». Fica entendido?

Confusões, só aquelas. Que o nº 99 - Cabeça d’estudo - nada tem a ver com isso. É, definitivamente, o «retrato em busto de cavaleiro antigo…». Como sempre disse eu, o catálogo e o Occidente. Está bem e recomenda-se.

Bom, o que nos revela este estudo de caso? – Ah! e tal… coitado, a coisa era confusa, enganou-se… - dir-me-ão umas boas almas. Não, minhas queridas, nada disso! Tanta asneira numa só é mais que isso: ou grande desleixo e muita bandalheira, ou chico-espertismo do mais rasca – baseado no velho princípio «o esperto sou eu, o resto uma cambada de estúpidos; se não sei, inventa-se uma merda qualquer (é este o termo exacto) que a turba ignara logo há-de engolir…». O costume.
Apetece dizer «A mim não me enganas tu» - citando o velho e respeitado jornalista, escritor e poeta Guilherme de Melo. Que aqui saúdo.


Voltando à Cabeça d’estudo, 1902, que não tem culpa alguma. Trata-se de mais um dos retratos que Malhoa executa tendo como modelo o amigo e colega Manuel Henrique Pinto. Como se pode ver e entender aqui e aqui e, se dúvidas houver, comparar com algumas fotos de Pinto.

Foi propriedade do Dr. V. C. [8]. Por morte deste, passou à família do Dr. A. A. (por mera coincidência, irmão do meu bisavô Joaquim – como quase toda a gente, tenho quatro). E se agora têm esta foto a cores para escrevinhar  umas tantas tolices, bem podem agradecer ao menino que há cinco anos telefonou à querida prima R. a pedir para o amigo P. A. lá o ir fotografar. Não lhe ponho a vista em cima há perto de meio século, mas, do que recordo e pelo que consigo ver numa foto de boa resolução, tenho cá na ideia que é uma tábua e não tela [9], ao contrário do que a fichazinha manhosa agora indica. Coisas.


Como vai sendo o tempo: saúde e um santo Natal...

JMalhoa. Que Frio! 1912.
Cartaz impresso.  «Brinde de O Commercio do Porto Illustrado | Natal de 1912»



23 Nov. 2012. LBG



[1] Sobre estes quadros Malhoa esclarece nos seus apontamentos pessoais: «Pintei n’este ano em Figueiró, o quadro “a córar a roupa” que vai figurar na exposição de Paris, e “Uma desgraça” (a morte do porco) […] José Malhôa, 31 Dezembro 1899.»
No Catálogo da 1ªSNBA, 1901, tal quadro aparece referido como «76 – Uma desgraça – 225$000 réis» e é reproduzido em gravura (sempre sem exclamação!)
Em Julho de 1901, Malhoa anota a sua venda: «[dia] 2 - Venda do quadro “A morte do porco” ao Lambertini – 150$000» (isto confirma as correspondências ali referidas, mas também a venda a preço de saldo)
Depois, passados cinco anos, no Catálogo da Exposição de Malhoa no Rio de Janeiro, 1906, aparece um título igual «21 – Uma desgraça» (ainda sem exclamação!)
Então, Malhoa anota a nova venda: «Agosto de 1906. Junho 29 – Exposição no Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro – Preço porque vendi os quadros em moeda brazileira – […] 21 – Uma desgraça! - Dias Garcia – 2:000$000» (uma bela quantia, pois ao mesmo Dias Garcia a segunda versão de «19 - Amanhã os arranjarei!» custou apenas 800$000. E aqui já Malhoa acrescenta a exclamação!)
Não será difícil de perceber que, como aliás é habitual em Malhoa, estaremos perante duas versões do mesmo tema – Uma desgraça! (A morte do porco). Trazer para aqui uma qualquer «Matança…» é despropositado e revelador de ignorância quanto ao acto em si, à língua pátria e ao que Malhoa pintou…

[2]  Este e mais o outro, comentados aqui e aqui.

[3]  Um destes, nesta história aqui contada.

[4]  Prometo, um dia e quando para aí estiver virado, mostrá-lo aqui – a preto e branco - pois é outro das colecções reais que levou sumiço. E aqui está ele.

[5]  Preguiçoso que sou, cito de cor, mas é mais ou menos assim.
Em tempo, e na verdade, para ser preciso: «...e quanto ao Crepusculo, é um pot-pourri do Angelus de Millet, com menos uncção religiosa, e mais batatas.», in Os Gatos, 14 de Março de 1892.

[6]  Para além desta e mais estas.

[7]  Na verdade não foi há dois anos, sabemos isso. Mas «tão ladrão é o que vai à vinha como o que fica d’atalaia»...

[8]  Nesta mesma 3ªSNBA, Salgado pintou-lhe a mulher.

[9]  E não é que é mesmo?! Que a minha memória de bibe e calção acerta mais que uma década de aturado estudo?! (6 Dez. 2012)

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Só mais uma coisa

Do mesmo catálogo de 1903 – que, obviamente, já não posso mandar p’ró lixo – respigo mais isto: a gravura do «97 – A descamisada – 0,71x0,58 – 425$000 réis». Gravura que também falta à coisa e afinal ali estava, mesmo à mãozinha de semear. Depois – ah que é trabalho exaustivo – tá bem abelha!
E a cores também a podiam ver aqui ou ainda ali, que sou generoso e partilho com quem merece.


23 Nov. 2012. LBG

domingo, 11 de novembro de 2012

O mistério do homem do gorro

Epístola aos crédulos


Anda a Igreja Católica, muito antes de Santo Agostinho, a tentar explicar o Mistério da Santíssima Trindade: a consubstanciação das Três Pessoas – Pai, Filho e Espírito Santo - n’Uma só.

Eu, bem mais modesto em meus propósitos, ando há quase um ano a tentar explicar que L’homme au capuchon, o Retrato do Exmº Sr. António Novais, e O Homem do gorro, 1901 – títulos segundo os catálogos do Salon 1901 (nºc.1369), SNBA 1902 (nºc.60), e Exposição Malhoa 1928 (nºc.33) – são uma e a mesma coisa. Mas parece que não há meio…!?
Com paciência de santo, tentemos de novo. Que uma publicação «razoável» teima em contrariar…


Comecemos pelo princípio – e no princípio era o verbo.

Escreve Malhoa, pelo seu próprio punho, no seu livro de «Receita e Despeza»: «Março de 1901- Despeza com a ida [refere-se, obviamente, ao Salon] dos dois quadros, “Volta da Romaria”, e “L’homme au Capuchon”, retrato do Antonio Novaes; e do retrato da D. Thereza Pereira da Costa, e retrato do D. Emilio Godinez pª a exposição de Madrid – 124$500» (sublinhado meu).
Pelo próprio Autor da obra, ficamos a saber do que se trata.

Chega? Não? Continuemos.

Diz-nos um célebre artigo, muito referido mas que parece ninguém leu, publicado logo em 1905, em The Studio [1]: «…The Man in the Hood, also of 1901, is one of the most striking of the master’s works; to prevent its leaving the country it was acquired by a group of artists and amateurs, who presented it to the nation for the National Museum...» (vai no inglês original, por causa de alguma falha na tradução, e a parte citada é de um dos últimos parágrafos, sobre as participações de Malhoa nos Salons internacionais entre 1897 e 1902). Note-se a referência à movimentação de artistas e amadores para a sua oferta ao Museu Nacional – episódio conhecido no que toca ao Retrato de Novais… Mais uma vez e para quem queira ver, confirma que se trata do mesmo quadro.

Ainda não chega? Vamos às Imagens – que não somos iconoclastas. E as imagens, quando não manipuladas, não mentem.

Mais abaixo podemos ver duas fotos da Grande Exposição de Homenagem a José Malhoa, realizada no salão da SNBA em 1928.
Contrariamente ao que muitas vezes é levianamente escrito, no Catálogo da Exposição [2] nunca é mencionada a presença do Retrato do Novais – nunca! Nem entre os 132 «Óleos», nem nos sequentes 14 «Retratos», tão pouco nos restantes 5 «Pasteis» ou entre 10 «Retratos» a pastel - o total das 161 obras catalogadas. Retrato do Novais, enquanto tal, não consta!
Como não consta em nenhuma das 98 estampas numeradas ou nas duas que abrem e fecham o livro!

            Aliás, é bom que se esclareça que muitas destas estampas nada têm que ver com as obras presentes na Exposição – são fotos, algumas únicas e portanto preciosas, que Malhoa guardara ao longo da vida, de muitas das suas obras. E, sem ser exaustivo e olhando só as primeiras vinte, logo notamos que À Missa das seis, Os Ouriços, Cócegas 1894, A Sesta (dos ceifeiros), A Olinda do lagar, com direito a belas fotos, são obras que não constam no catálogo, e que as fotos de Os Oleiros e de À passagem do combóio são as dos quadros que jaziam no fundo do Mediterrâneo ia para três décadas… Bom será, portanto, que se não confundam os bonecos com o conteúdo da Exposição.


O que encontramos registado no Catálogo da Exposição, com o nº 33, é «O Homem do gorro, T. [tela] 63x50 - 1901. Museu de Arte Contemporanea».
Alguém já se interrogou sobre que quadro seria este e como, se por hipótese fosse outra coisa qualquer, pode haver desaparecido do Museu? Não? Pois não, porque o quadro é este – este que aqui vemos na dita Exposição, ao lado de Dar de beber a quem tem sêde, (nºc.103) – o Retrato do fotógrafo António Novais, sem tirar nem pôr, sempre foi O Homem do gorro (nºc.33).

É por isto que a historiografia “oficial” do Retrato de Novais refere sempre, e bem, entre as exposições em que esteve presente, esta de 1928 – no meio da confusão… algo acaba por estar certo - nunca lhe consegue é atribuir um nº de catálogo - porque será? Falta-lhe sempre é o Salon de 1901 - falta importante, pois é aquele onde Malhoa recebe a Mention honorable, se bem que atribuída a Le retour de la fête. A dita historiografia “oficial” também nos descreve o Retrato de Novais deste modo: «Retrato de um amigo do pintor em busto de frente, de barba e bigode aloirados, vestido de negro sobre um fundo escuro, envergando uma capa nos ombros e um gorro de recorte renascentista na cabeça...» (o sublinhado é meu).

Porque - e esta é a verdade - L’homme au capuchon, o Retrato do Exmº Sr. António Novais, e O Homem do gorro, 1901, são uma e a mesma coisa. Diz o Malhoa, digo eu e dirá quem pense duas vezes.
Está bem e recomenda-se. No Museu de José Malhoa, nas Caldas da Rainha.



Já agora, que aqui estamos com estas fotos na frente, aproveitemos para confirmar uma outra história. História já antes explicada aqui e que, num momento de caridade cristã, tentei pessoalmente explicar a determinada criatura. Como, pela segunda vez, ao que lhe digo, faz precisamente o contrário, e o Senhor só nos ensina a dar por duas vezes a face, fica cumprido o preceito.

Vamos aos factos.
No mesmo Catálogo de 1928, lá aparece, com o nº 74, «Provocando. T. 70x80 – 1914. Ex.mº Snr. Cruz Magalhães».
Entre as estampas, encontramos com o nº XXXIV, Provocando, e com o nº XLI, A Provocante.



E qual destes quadros - como antes explicado, atreitos a trapalhação - esteve na dita Exposição de 1928? Qual? – Ó para ela ali, entre a segunda versão de Basta, meu pai! 1910 (nºc.55), mais dois outros quadrinhos difíceis de identificar, e À sombra da parreira (nºc.121), a serigaita atrevida de A Provocante, 1914 - afinal, o nºc.74, esta e não o outro - toda contentinha a olhar para nós!

Como é evidente! E como tudo indicava: a propriedade de Cruz Magalhães; as mediadas, então usadas ao invés, mais não seja a diferença de proporções entre uma coisa quase quadrada ou um rectângulo franco; a data e a confusão do título, que “oficialmente” ainda hoje continua trocado! Para quem quisesse pensar só um bocadinho…

Mas não! Uma "razoável" inteligência lucubrou durante uma década e permite-se agora afirmar quanto a esta tela, apesar de reconhecer as trocas de títulos - «Embora venha reproduzido no Catálogo de 1928, não fez parte da exposição» - e, quanto ao outro pequenino retrato vendido no Rio de Janeiro e por terras de Vera Cruz ainda perdido - «Esteve na Exposição de Homenagem, em 1928…», e tem o desplante de o "dar" de barato ao Cruz Magalhães!!!
Francamente! Dá para acreditar? Vale a pena um tipo perder tempo com coisas destas?

Concluindo, e em verdade vos digo: será bem mais fácil uma cabeça de cavalo, ainda que velha e rasgada, entrar no reino do Mestre que, mesmo só em espírito, o de certas cavalgaduras.
E duvidai, duvidai sempre de algo que d'ali venha.


11 Nov. 2012. LBG.

Adenda:

          E, já agora, fica também uma foto de uma das salas do Museu d'Arte Contemporânea, publicada ainda em 1916, onde lá vemos «O Homem do gorro», 1901, a espreitar por detrás dos jarrões...





5 Out. 2015. LBG.



[1] The Studio. London, Aug. 15, 1905, vol.35. nº149. p.246
[2] Que integra o Livro de Homenagem ao Grande Pintor José Malhoa – Realizada, com a exposição das suas obras, na Sociedade Nacional de Belas-Artes em Junho de 1928 – Com 100 reproduções de obras do Mestre e mais 3 ilustrações. Lisboa, 1928