Sobre a
cachopada da Fonte do Cordeiro.
Aviso prévio ou
declaração de interesses: Um – o título nada tem a ver com política ou outra
coisa qualquer… mas podia. Dois – desta vez, fantasio um bocadinho e falo de
cor… se toda a gente o faz, também eu posso. Três – à Débora e ao Eduardo Antônio,
descendentes directos desta rapaziada… e a quem muito agradeço.
Numa carta, possivelmente de finais de Maio
de 1891 ou 92 , Malhoa pede para Tomar, ao «Manel amigo», o envio de uma foto: «Manda-me
assim que possas o cliché e uma photographia do amigo Antonio e da
Preciosa que fizemos na fonte da fonte do Cordeiro, onde estão encostados ao
muro, vistos de costas e olhando para baixo.» Mais à frente, entre os «assumptos
para tratar», diz que tem em mente um trabalho que designa já por
«Os curiosos».
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| JMalhoa. Os curiosos, 1892. [2] [3] |
Tal fotografia, que hoje nos é completamente
desconhecida, terá servido, como é bom de ver pela descrição pormenorizada da
cena, para a execução, precisamente, de Os
curiosos, 1892. Quadro mostrado na 3ª Exposição do Grémio Artístico e, como vimos, comprado pelo conde de Proença a Velha ]. Nele podemos encontrar, a
crer em Malhoa, a Preciosa e o «amigo António», vistos de costas, a olhar para
baixo, encostados ao muro da Fonte do Cordeiro, em Figueiró dos Vinhos].
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| JMalhoa. Noé e Preciosa, 1891. [4] |
A Preciosa já era cachopa nossa conhecida. Dois
anos antes havia sido apresentada aos frequentadores do Salão do Grémio, logo na
1ª Exposição, com outro dos irmãos, o Noé. Os dois, muito compenetrados, com um
pedaço de pão na mão, haviam sido mostrados em Noé e Preciosa, 1891 .
Além disto, Malhoa também nos deixou outras
notas, uma já aqui referida , de 31 de Maio de 1902,
onde nos diz «… venda de dois quadros (…) um intitulado
“Os ouriços”
outro “a ultima gota” ,
pintados em Figueiró dos Vinhos, na Fonte do Cordeiro, servindo de modelo para
os dois quadros o filho do Eduardo ,
então rendeiro da Fonte do Cordeiro, propriedade da família Serra.»
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| JMalhoa. Os ouriços, c.1894. [6] |
Por
outro lado, sempre soubemos que pelo início dessa década de 90, a das Exposições
do Grémio, era pela Fonte do Cordeiro e pelo vizinho Chão da Amoreira que muitos
dos quadros de grande formato de JMalhoa e MHPinto foram pintados a par [: com os mesmos pastorinhos,
ora Gritando ao rebanho, 1891, ora Adormecido, 1891 ; com os mesmos cachopos
ruços, descalços e de calças «rachadas-ao-meio-atrás», muito atentos n’ A caça dos taralhões, c.1891, n’ A caça aos grilos, 1891, nos Preparativos para a caça, 1893, ou À caça, 1895, (aos pássaros, claro); a
mesma rapaziada que ensaia na gaita de cana as Primeiras
tentativas, 1891, ] que
leva O almoço para o pai, 1891, ou aguenta estoicamente Uma teima, 1894, da cabra que não há meio
de arredar.
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| JMalhoa. Gritando ao rebanho, 1891. MJM. [10] |
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| MHPinto. Adormecido, 1891. [10] |
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| MHPinto. A caça aos grilos, 1891. [12] |
Nestes
e noutros menos conhecidos, estudos e retratos avulso, é possível observar
vários anos de trabalho em comum dos dois Artistas, e os mesmos miúdos e as mesmas
vidas. Sempre «os filhos do Eduardo, o rendeiro da Fonte do Cordeiro» - é olhar
para eles!
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| MHPinto. A caça dos taralhões, c.1891. [11] |
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| MHPinto. Preparativos para a caça, 1893. [13] |
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| JMalhoa. À caça, 1895. [14] |
O cenário, A Fonte do Cordeiro, c.1891, é mostrado por MHPinto logo na 1ª
Exposição do Grémio. Os pequenos actores foram sendo apresentados, a par, ao
longo das mostras seguintes, consoante as cenas e o enredo dum filme que nos
descreve a sua própria vida.
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| MHPinto. A Fonte do Cordeiro, c.1891. |
O grand
finale, esse, talvez tenha sido o quadro de Malhoa À passagem do combóio, 1896 ]. Sem combóio - que era
coisa ali nunca vista - muito bem sugerido à visão do espectador. E com a troupe completa, ou quase, despedindo-se
de nós, encerrando uma bela actuação em sessões contínuas de meia dúzia de
temporadas. E de tal sorte, que esta última cena terá direito a derradeira reprise em Paris, e a nova edição remasterizada embora de menor qualidade para
o mercado brasileiro.
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| MHPinto. Uma teima, 1894. MJM. [17] |
Posto isto, uma palavrinha aos protagonistas.
Tal palavra surge pelo curso paciente do lápis
do «amigo António». Ele mesmo!
Explico: há uns meses, andava eu de volta da
cartinha citada ao início, quando a Biblioteca Simões d’Almeida (tio) disponibilizou
on-line um interessante manuscrito de
António Dias Coelho, intitulado Ka-lumba(1º volume). Por mera curiosidade fui dar uma vista de olhos - Eh lá! Mas
este é o «amigo António»!? – exclamei para comigo. Ficou à espera…
Mas não é coisa para se ignorar, e vem agora muito
a propósito.
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«Seu» Coelho, o «amigo António»,
na varanda da casa da rua Bernardino,
em Santos. Julho de 1970.
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António Dias Coelho (Fig.º dos Vinhos, 26 Jul.
1887 – Santos-SP, 12 Fev. 1971), filho de Tereza da Silva e Eduardo Dias
Coelho, «então rendeiro da Fonte do Cordeiro,
propriedade da família Serra», foi um homem de três continentes e múltiplas
aventuras.
Nascido na quinta da Fonte do Cordeiro, por
ali, entre o Chão da Amoreira, a Senhora dos Remédios e o Cimo da Vila, passou
a infância - brincou e aprendeu a vida, andou aos pássaros e aos grilos, foi
pastor e guardou cabras, e foi o «amigo António» de Malhoa e Henrique Pinto.
Foi
à escola e fez o exame do «segundo e honroso grau de
instrução primária» (p.118). Depois, abalou. Andou por Torres
Novas e Lisboa - criado de visconde e moço de taberna. Foi às sortes e assentou
praça na Armada. Comeu «o pão que o diabo amassou às chifradas», no seu próprio
dizer.
O desespero ou a esperança levaram-no a
África (1910). Parece que correu Angola, por lá tomou mulher pelos ritos
gentios, e tomou novo nome: «Ka-lumba» – afinal não tão novo assim, quererá
dizer «Coelho» em língua nativa - e deixou descendência africana.
Atravessa o Atlântico e aporta a terras de
Vera Cruz. Na Santos paulista - a do café e a do Pelé - casa de novo (1915) e
assenta vida e família. Retorna por coisa de um ano a Portugal, em 1925, e logo
volta. O Brasil é a sua definitiva casa.
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Frente aos pilares da Fonte do Cordeiro,
provavelmente durante a viagem a Figueiró, em 1952.
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Em
1952 fará nova viagem, agora de matar saudade, à sua Figueiró natal e a outros
locais da vida antiga. Alguns anos depois escreverá «Ka-lumba» - dizem que em
seis volumes, este o primeiro – onde nos conta toda a ventura e aventura da
vida de um Coelho, orgulhoso e de corpo inteiro.
O livro do «amigo António» é um mimo. Escrito
a lápis, em letrinha miúda, e capitulares por maiúsculas. Ilustrado com belas
fotos, pacientemente coladas às páginas, muitas delas, talvez, tiradas aquando
da viagem de 1952. Numa linguagem própria, misturando o linguajar figueiroense
que lhe veio do berço ao brasileirar adquirido. Às vezes de poética forçada e
algum arremedo de erudição, solta-se quando escreve à vontade sobre si e os
seus. É então saboroso. E revela toda uma Cultura de vida, da experiência e do
saber, de quem sempre quis entender mais, perguntando sempre e escutando todas
as respostas – como o próprio nos diz.
Nem tudo o que escreve corresponderá a
verdade, pelo menos como a sabemos hoje. Grande parte dos lapsos nem serão
culpa sua – percebe-se que procurou documentar-se e ler do que tinha à mão – e,
por essa altura, muito do que se escreveu ainda hoje engana. De outras vezes
terá sido atraiçoado por memória menos fresca ou visão já desfocada do passado
– veja-se a referência às «duas irmãs de Malhoa» (p.57) que, por essa altura,
seriam na realidade a mulher Júlia e a irmã Rita (ou então a Mª da Conceição
d’Almeida Pinto); ou quando nos dá uma data certa «1891» (p.106) para o
episódio delicioso do «crime do merino empanzinado» (p.86) - não é de todo crível
que por tudo aquilo tenha passado apenas com quatro aninhos… a dureza da vida
cedo começava, mas não vale exagerar ]. Lapsos de somenos,
contudo, e nada que desmereça a leitura.
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Venâncio,
Aida, Preciosa, o pai Eduardo Dias Coelho,
e a mãe Tereza da Silva.
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Ficamos a saber, pelo que nos diz o «amigo António»,
] que os filhos de Eduardo
e Tereza foram muitos. Por ordem cronológica: o Saúl (1878-1907), a Aida (1880-1965),
o Maximino (1881-1911), o Noé (1883-1955), a Preciosa (1885-1918), o António (1887-1971),
o Venâncio (1890-1962) e, já depois de 1892, o José (?-c.1936), e o Adelino (1896-1896), «de vida efémera» tal como, já antes, a Jesuína (1889-1889), de quem o António nem fala.
Quase todos de vida errante pelas Áfricas ou
os «Brasis», que a vida não era (como volta a não ser) para brincadeiras…
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| Saúl, o irmão mais velho. |
O Saúl, o mais velho, veio a casar com a
Augusta , a do «ti Francisco mouco» e da tia Vicência, teve dois filhos – o Manoel e a
Madalena .
Morreu de «febres», a 7 Setembro de 1907, na Roça Esperança, na Ilha do
Príncipe (p.72,73).
«O teu irmão Saúl vai com
destino à Ilha do Príncipe, contratado para dirigir negros no cultivo dos
cacauzais da Roça Esperança, administrada pelo nosso conterrâneo Manuel dos
Santos Abreu » - conta-nos
António, citando uma carta que a Mãe lhe mandou em 1904. (p.187).
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Julieta Pinto. Na Roça Esperança.
óleo pintado durante a estada na Ilha do Príncipe. (foto antiga)
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Pela mesma carta, sabemos que o Maximino também
partiu para África, voluntário numa companhia militar com destino a Angola.
Três anos depois, já no Príncipe, Maximino assiste a morte de Saúl e retorna
doente. Depois, agora com António, volta a rumar a Angola, onde morrerá, no
Bié, em 1911.
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| Venâncio, Maximino (de uniforme) e Noé. |
O Noé também terá andado pelo mundo – Espanha e
França, com algumas estadas no Brasil. «Morreu pobre
mas sempre honesto» (p.117). É dos poucos que morre onde
nasceu, tal como os pequeninos Jesuína e Adelino, a Preciosa, vítima da pneumónica, e o
Venâncio, este possivelmente depois de muitas outras voltas… O José, de quem pouco
se sabe, morre na guerra de Espanha.
A Aida e o António morrerão em Santos, cidade que
acolherá quase toda a geração seguinte dos muitos filhos de Tereza e Eduardo
Dias Coelho «então rendeiro da Fonte do Cordeiro»…
Chega de conversa. E a palavra ao «amigo
António», naquilo que agora nos interessa.
Sobre a amizade: «… não
ficar indiferente à presença nesta terra dessa figura inconfundível que por
aqui apareceu na oitava década do século XIX (…) José Malhoa – o artista
consagrado que, além das raras virtudes que o credenciavam, era um homem do
povo, e amigo dos amigos…»
(p.4)
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Simões d'Almeida (tio), MHPinto, JMalhoa,
com as «botifarras de caçador»,em Figº dos Vinhos. c.1898.
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Da figura, das botifarras e do labor: «Malhoa,
quando a esta terra aportou, de chapelinho redondo, gravata listada, botifarras
de caçador e uma caixa de pintor a tiracolo, além de alguns tostões no bolso,
que seriam todos os seus haveres; percorria de manhã cedo e ao cair da tarde as
imediações do burgo estremenho em cata de termos para os seus milhares de
quadros.»
(p.5)
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| JMalhoa. Primeiras tentativas, 1891. [15] |
Sobre o dia-a-dia de cachopo: «… os
meus maiores atractivos eram os advertidos [sic] e simpáticos grilos, cantarem
de dia e à noite ao luar. Era a prestimosa passarada, voar de árvore em árvore,
e de galho em galho, catando as parasitas daninhas aos campos. Eram os prados e
os bosques. Eram os ninhos. Eram os ovos acomodados no seu bojo, artisticamente
forrados de felpo macio. Eram os silvados agrestimos [sic], aonde a brava coelhada,
já refeita do estômago, se alapardava e dormia a sesta (…) Para mim, era tudo
isto, e mais alguma coisa, o que para as crianças é, quando a vida começa,
abre, expande, canta e sorri, tendo à sua frente toda a natureza em festa…» (p.48)
 |
Júlia Malhoa, MHPinto e Mª da Conceição,o filho Luiz, e Alfredo (o do chapéu),
frente «à casa da eira».c.1891/3. [21] [24]
|
Do assumir o protagonismo: «Ao
recordar-me deste artista insuplantável, e desse meu passado distante, no cimo
da vila, por ali perto da capela do mártir São Sebastião, à sombra das
cerejeiras floridas em meio das oliveiras e dos clássicos e despreocupados
castanheiros, que ainda lá estão ,
a emoldurar as paisagens maravilhosas da recta da estrada para a Castanheira,
os seus quadros falam de tudo isso e de alguém. E hoje é assim - aqueles além,
são fulano e fulano. » (p.47)
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| JMalhoa. O almoço para o pai, 1891. [16] [26] |
O próprio, enquanto modelo: «Como eu
era o mais nutrido e corado da turma, passei a ser pelo mestre Malhoa apelidado
de “Lua Cheia” ;
e por ele também o mais visado para servir de palhaço, digo de modelo, ao seu
génio de artista consagrado no manejo do pincel. Meses a fio, em dias
alternados, trilhei o caminho do seu atelier ao ar livre, a fim de dar o
relevo, que tanto o precisava com a minha presença, aos muitos dos seus quadros
primorosos. E quantas e quantas não foram essas vezes? e quantas não foram
elas? e quantas?? Umas vezes vestido de tanga. E outras vezes vestido de
despido... » (p.46)
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| JMalhoa. A última gota, 1891. [7] [27] [28] |
E um mistério para resolver: «À
sombra reconfortante da sua frondosa ramaria, pintou o imortal Malhôa alguns
dos seus primorosos quadros do meu tempo de criança; entre os quais, para mim
de indelével recordação, figura o da minha extremosa mãe, com todos os filhos
em forma, quando entre as oito e as nove horas da manhã lhes ministrava o
repasto do almoço.
» (p.46)
Este quadro, assim descrito, ou é coisa
completamente desconhecida ou, entre tudo o que hoje sabemos, só poderá ser À passagem do combóio, 1896. O que é
muito provável, se olharmos bem para o que dele resta .
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Charles Baude, d'aprés Malhoa. En voyant passer le train / À passagem do combóio ,1900.
Casa Museu dos Patudos. [29]
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A assim ser, estaríamos apenas perante uma
parte dos irmãos e não «todos os filhos em forma» -
o que se afigura perfeitamente natural. Por essa data, 1895/6, os três mais
velhos, Saúl, Aida e Maximino – que, aliás, quase nunca aparecem nesta saga
familiar a tinta d’óleo – teriam todos mais de
quatorze anos e, por essa altura e naquela vida, era idade onde já se não
andava na gandaia… a labuta à séria ocupá-los-ia.
Deste modo, o retrato da «extremosa
mãe, com todos os filhos em forma, quando entre as oito e as nove (…) lhes
ministrava o repasto do almoço» resumir-se-á, provavelmente, aos mais
novitos, aos que já com algumas obrigações familiares – cuidar dos animais e da
criação, levar e trazer o gado do pasto, ir às pinhas ou aos gravetos… - ainda
tinham vida livre de garotada. O cenário não é estranho na obra figueiroense de
Malhoa – já o havíamos divisado em Os
ouriços, 1894, e podemos vê-lo n’ A
Sesta (a dos ceifeiros), 1895, e n’ As
Cócegas, a de 1894 e nas de1904, por exemplo.
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| JMalhoa. À passagem do combóio, 1896. (desaparecido). [18] [29] [31] |
O «amigo António», com oito ou nove anos, esparramado
sobre o varal da vedação; o Noé, já com doze ou treze, de barrete e calças
rotas nos joelhos; o Venâncio, agora com seis anitos, empoleirado na trave, «ainda
não acabou a esfuziada de gritos e risos»; a Preciosa, com nove ou
dez anos enfezados, subiu à pedra para ganhar altura e segura uma das cestas do
almoço já tragado - certamente veio com a Mãe trazer a bucha aos catraios que
andavam com as ovelhas no restolho deixado da ceifa – a mãe Tereza trouxe, além
da outra cesta, o mais pequenito ao colo (não sabemos se o Adelino ou o Zé…).
Esta é uma narração perfeitamente possível
deste quadro. E, a acreditar no que nos conta António, bem provável de ser
real. A outra, a frenética de Ribeiro Arthur , também – basta a
sugestão dos paus de fio e imaginar o cavalete de Malhoa dentro duma carruagem
em movimento… o título, bem engendrado por Malhoa, inspirado nas muitas viagens
entre Lisboa e o Paialvo, faz o resto.
Eis como, sete anos antes de o ver e apanhar
pela primeira vez no Paialvo (p.128), o «amigo António», o «seu» Coelho, viu
passar o combóio - …por da’baixo, naquilo
qu’era dos Serras, ao em’direito d’aldeia d’Ana’viz… .
24 Jan. 2013. LBG
Notas
de leitura:
a. A
indicação do tipo (p.123) remete para as páginas originais de Ka-lumba, disponível aqui.
b.
Optou-se por emendar alguns lapsos ortográficos e de pontuação nas citações de
António Dias Coelho aqui transcritas.
c.
Sugestão: como o artigo é grande e as notas de rodapé extensas, abra de novo o
texto noutro separador, alterne entre a leitura do texto e a das notas, vai ver
que se cansa menos. (E com as desculpas de não saber mais para pôr esta coisa a
funcionar de outra forma)
d. Como usual, clicando sobre as fotos pode vê-las em tamanho maior, o mesmo sobre as palavras escritas a laranja que são normalmente ligações a outras páginas ou sítios da rede.
e. Não se percebe porquê, mas isto agora só funciona bem com acesso pelo Google Crome... através do Google anterior ou Internet Explorer algumas coisas, por mais cuidados que tenha, podem aparecer desconfiguradas...