quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Esperança, saudade e o D. Sebastião…



Poderá parecer algo pessoano, pelo menos de algum dos seus heterónimos; ou algum discurso serôdio, dos de convencer a populaça que assim é qu’é caminho, e aos quais já ninguém liga nenhuma… - mas não!
Trata-se de dois títulos de José Simões d’Almeida júnior (1844-1926) - um por agora exposto em Figueiró dos Vinhos, terra natal do Escultor, o outro talvez uma das suas mais celebradas Obras.


D. Sebastião, 1877, ou imprópria mas “eruditamente” também chamado «D. Sebastião lendo Os Lusíadas», é uma escultura de vulto pleno, em mármore, com 1,36 m de altura, em depósito no Museu do Chiado, agora e ainda bem, mostrada na sua exposição permanente.
Esta versão em mármore de Carrara fez parte das colecções Reais [1], integrando por isso o acervo do Palácio da Ajuda. A passagem do gesso original ao mármore foi encomenda do rei D. Luís a Simões d’Almeida, após o êxito da sua apresentação na 10ª Exposição da Sociedade Promotora das Bellas Artes em Portugal, 1874, e que valeu ao autor a medalha de prata, dois anos após o regresso de Simões dos seus estudos genoveses e romanos.

Em 1878, a nova versão em mármore, já pertença do Rei, estará presente na Exposição Universal de Paris. E disso nos dá conta O Occidente [2], dizendo-nos «é uma obra de arte notabilissima, capaz de figurar honrosamente em todos os certamens artisticos do mundo civilisado», mas ilustrando-a através desta gravura de Caetano Alberto que regista a versão original em gesso e não o mármore que viajou até Paris. Também nesta mostra Simões será premiado, agora com uma terceira medalha, provavelmente com outra Obra [3].

Como não é difícil de perceber, o gesso, o original de D. Sebastião, em tempos no acervo da Academia Real das Bellas Artes e ao que ouvi dizer agora em mau estado, terá de ser datado cerca de três anos antes, o ano da sua primeira mostra.
E sobre esse D. Sebastião, c.1874 – o original – poderemos constatar, consultando o catálogo da 10ª Exposição da Promotora, que a velha estória de «… lendo Os Lusíadas» é uma real treta! Mais uma daquelas alarvidades que alguém diz ou escreve, do alto de pretensa sabedoria, todo contentinho, neste caso atacado talvez de camoenite aguda, e logo é aplaudida e repetida por uns tantos espíritos mais crédulos… E a coisa fica.

Ora, o nosso amigo Simões, que não era burro e para realizar tal obra se deve ter bem documentado [4], sabia o que fazia. Sabia a diferença entre uma «Cruz de Avis» e uma Cruz de Cristo, sabia que insígnia o rei-menino deveria ostentar enquanto Rei e Grão-Mestre da respectiva Ordem, e sabia que livro poderia colocar na mão do ainda muito jovem monarca. Sabia isto tudo - coisa que muitos, pelo visto, não souberam ou fizeram por esquecer.



Por saber e saber bem, Simões d’Almeida modela – e depois cinzela – o menino Rei com as insígnias da Ordem de Cristo, tendo na mão um exemplar da História de Portugal. E, tal como o fez, assim o escreveu, para todos sabermos: «D. Sebastião lendo na História de Portugal os feitos heroicos dos seus antepassados, pensa na conquista d’Africa». Assim, simples mas rigoroso, como sempre se pôde ler no respectivo catálogo. A formulação e a ideia até podem ter algum espírito lusíada ou camoniano - mas não é a mesma coisa!

Porque, sejamos sérios, El-rei D. Sebastião (1554-1578), enquanto menino ou jovem adolescente, com um exemplar de Os Lusíadas na mão, é uma impossibilidade espácio-temporal. Por muito que se queira ou seja conveniente, é daquelas coisas só possíveis em filmes de ficção com carros esquisitos que ficaram para a história apenas por isso mesmo [5].

Embora alguns digam que Luís de Camões possa ter finalizado o poema épico cerca de 1556 (teria D. Sebastião dois anos), o certo é que o Vate se manteria pelos Orientes ainda muitos anos – da Índia a Macau e à costa de África, com naufrágios pelo meio e dramáticos salvamentos do precioso manuscrito - sem fax, mail ou ipad… Só em 1570 (teria o rei dezasseis anos), e aqui parece haver consenso, o Poeta maior volta à pátria e desembarca em Cascais, sempre agarrado à sua querida obra. Depois disso, dar-se-á o episódio da leitura do poema ao rei [6], alegadamente em Sintra, e o empenho do monarca na publicação da Obra. A primeira edição de Os Lusíadas verá a luz do dia no ano de 1572 (teria o rei já dezoito anos).

Estamos, portanto, conversados – «D. Sebastião lendo Os Lusíadas», ainda de “bibe e calção”, nem por grande favor… só mesmo «cantando e rindo»! E como o próprio autor teve o cuidado de nos avisar.



Esperança e saudade, 1887, é para aqui chamada porque é também uma belíssima escultura e porque tem estória para contar.

A primeira referência que se encontra a esta obra é no catálogo da 14ª Exposição da Sociedade Promotora das Bellas Artes em Portugal, 1887 [7], onde se pode ler: «340 – Esperança e saudade – busto em mármore | Pertencente ao sr. W. J. Garland Junior.» [8]. Por isto, o gesso original deverá ser um pouco anterior. Acontece que o gesso conhecido não estará datado e ficamos sem saber [9].


    Que se conheça, de Esperança e saudade existe um gesso no acervo do Museu José Malhoa – o tal por estes dias exposto no museu de Figueiró dos Vinhos e que pode ou não ser o original – e um mármore – muito provavelmente o que foi do citado sr. Garland – actualmente na posse da Sociedade Nacional de Belas Artes [10].








O mármore é magnífico, de uma serenidade ímpar. Assente sobre uma base de fundo circular, em brecha polida de tons castanhos, encimada por um curto fuste octogonal que recebe a base do busto com semelhante geometria, forma um belo conjunto. Na base de mármore do busto, sob a direita do observador, a assinatura e a data - «Simões fez. 1887.» - coincidente com a 14ª Exposição da SPBA.

Mas voltemos ao gesso.



Pois parece ser do gesso – deste ou de outro – uma interessante fotografia tipo postal que Simões d’Almeida ofertou a Malhoa - «Ao Ex.mº amigo, o distincto pintor J.e Vital Branco Malhoa off.ce José Simões d’Almeida J.or» - lê-se na dedicatória. Sem data, não sabemos exactamente quando a oferta foi feita, mas tudo indica pelos meados da década de oitenta.

 Foi por esta altura, recordemos, que os antigos Mestre e discípulo(s) estreitam relações de amizade – o convite para a primeira ida até Figueiró dos Vinhos, a JMalhoa e MHPinto, em 1883; o quadro de Malhoa Atelier de esculptura, hoje no MASP intitulado O atelier do estatuário Simões d'Almeida, 1883; a galvanoplastia de Simões retratando o perfil de Malhoa, no acervo do MJM, pomposamente apelidada Mestre Malhoa, 1883, («Mestre»?! em 1883?! – há reverências que são como «as cartas de amor» - ridículas) - eis algumas das marcas desse estreitar de amizades [11]. A oferta da foto de Esperança e saudade deverá ter sido mais uma - mais ano, menos ano, por essa mesma altura. E, pelas marcas dos pioneses que a devem ter mantido presa nalguma parede do atelier, bastante estimada por Malhoa…
A foto é bastante curiosa. Para lá de nos revelar o gesso ainda imaculado – a patine bronzeada que agora apresenta, no caso de se tratar da mesma peça, foi tratamento muito posterior – mostra-nos também as íris dos olhos escurecidas, acentuando o olhar ausente e meio vesgo, note-se, da jovem rapariga. Talvez o maior encanto da Obra.


Ao certo, pouco mais se sabe.
Mas o facto deste gesso, agora mostrado em Figueiró, haver sido oferta de D. Mª José Malhoa e Silva (ou de alguém por ela, ou de ela por outrem) ao Museu das Caldas, pouco depois da morte do irmão [12], parece indicar que, para além da estimada foto, Malhoa também teria consigo o gesso de Esperança e saudade. Se o mesmo da fotografia, se original ou cópia, desde quando e em que circunstâncias – são perguntas para as quais não há resposta.

Mas sinal que Malhoa muito apreciaria esta bela Obra do seu antigo Mestre Simões d’Almeida. E com toda a razão.




1 Ago. 2013. LBG




[1] Querendo saber mais sobre este assunto, ver: XAVIER, Hugo - Galeria de Pintura no Real Paço da Ajuda. Lisboa: IN-CM, 2013.

[2] O Occidente, 1º ano, nº 15, 1 Ago.1878, p.116, 118 e 119.

[3] Em Paris, 1878, estiveram presentes Puberdade e D. Sebastião e J. Simões d’Almeida recebeu uma 3ª medalha, isto é certo. Agora, a qual das obras o prémio foi concedido é que já não há absoluta certeza, embora tudo indique que foi a Puberdade.
Logo no ano seguinte, O Occidente (nº30, 15 Mar.1879, p.41 e 46) noticia, com gravura na primeira página, que Puberdade «figurou na exposição universal de Paris, aonde foi premiada com a medalha de bronze». Sete anos depois, a mesma publicação (nº266, 11 Mai.1886, p.107), numa nota biográfica a propósito do Monumento aos Restauradores, confirma-o «A Poberdade, estatueta em gesso, premiada na exposição de Paris de 1878».
Mas vinte anos depois, o mesmo Caetano Alberto que terá escrito os artigos anteriores, de novo em O Occidente (nº 948, 30 Abr.1905, p.91) escreve de forma dúbia – não diz que Puberdade foi premiada, embora a cite logo depois de referir o prémio, e mais adiante diz de D. Sebastião «tambem premiada na exposição de Paris de 1878»… Mas vamos acreditar nas notícias mais frescas.

[4] A Escultura e Pintura de História eram encaradas com a maior seriedade e rigor – deveriam ser, para além de perfeitas Obras de Arte, uma Lição de História. Para tal, o estudo e a documentação quanto à época, trajes, personalidades, acontecimentos do episódio a registar ou personagem a retratar, eram normalmente exaustivos.

  Veja-se, no caso de JMalhoa, a completa Memória Descritiva impressa que acompanhou a concurso a Partida de Vasco da Gama para a Índia, 1888, (valeu o primeiro prémio). Veja-se o texto, citando Pinheiro Chagas, no catálogo do Grémio Artístico (1892), justificativo do Último Interrogatório do Marquês de Pombal, 1891, (de nada serviu, antes pelo contrário…). Entenda-se que Camões, 1907, o do Museu Militar, é como é (independentemente de quem alegadamente haja ou não servido de modelo) porque, entre outras coisas, Malhoa deverá ter lido um texto de 1550 que o refere assim: «Luís de Camões, filho de Simão Vaz e Ana de Sá, moradores em Lisboa, na Mouraria; escudeiro, de 25 anos, barbirruivo…». Veja-se, por fim e numa obra mais tardia, Raínha Dona Leonor, 1926, um apontamento colorido a guache feito por consulta do «Livro dos brazões | Torre do Tombo», o estudo do brasão que encima o trono da «molher» de D. João II. (Curiosamente, a versão final acabou bem diferente do estudo e do que parece ser o verdadeiro brasão da Raínha – Malhoa, que tinha na mão a chave certa, não se sabe porquê, resolveu pespegar-lhe com a Cruz de Avis e fez asneira.)

[5] DeLorean DMC-12, sobre o qual pode ver mais aqui.

[6] Este episódio foi fixado por variadíssimos artistas. Aqui numa litografia, «Brinde da Empreza do jornal “O Seculo” aos assignantes do “Romance d’uma Rapariga Pobre”», sob desenho de António Ramalho (1859-1916) - Camões lendo os Lusiadas a D. Sebastião - disponível na BNP. A. Ramalho júnior - algumas vezes acusado de «preguiçoso», nunca de «burro» - mostra-nos Camões declamando o poema épico , ainda em manuscrito, com a serra de Sintra ao fundo, a um jovem mas já meio barbado monarca… Como reza a História.

[7] O catálogo dá-nos informação preciosa quanto aos galardões de Simões até aquela altura: «SIMÕES D’ALMEIDA JUNIOR (José) | Medalhas de 2ª classe da Sociedade Promotora das Bellas-Artes em 1866 [?], 1872 [O orphão] e 1874 [D. Sebastião]. Medalha de 3ª classe na exposição Universal de Pariz 1878 [Puberdade - ver nota 3].»

[8] No mesmo catálogo, ainda nas obras de Simões d’Almeida, podemos ler: «347 - Retratos da familia Garland – seis medalhões reproduzidos em galvanoplastica por Francisco Baptista dos Santos.» Sinal que a venda do mármore de Esperança e saudade e a modelação dos seis originais em gesso para a feitura das galvanoplastias foi negócio por atacado com o sr. Garland.

[9] Nestas coisas das esculturas, nunca se sabe muito bem se «primeiro foi o ovo ou a galinha»… Normalmente - e esqueçamos aqui esboços, estudos e maquetas – o gesso ou o barro antecedem sempre a pedra ou o metal. Mas nada nos diz que não haja novos gessos (ou barros) posteriores, e em mais que uma reprodução. Por outo lado, se a obra foi datada no modelo original, assim aparece na reprodução por fundição (às vezes acompanhada discretamente de nova data e marca do fundidor); já na passagem à pedra, se feita sob as mãos ou direcção do autor, este assina e data por norma no final do esculpir. (Embora também possa ser de outro modo qualquer…)

[10] Assinalado por Cristina Azevedo Tavares in A Escola Naturalista de Figueiró: Exposição de Escultura e Pintura. Figueiró dos Vinhos: Câmara Municipal. 2004.

[11] Assunto já referido por Matilde Tomaz do Couto in A Escola Naturalista de Figueiró: Exposição de Escultura e Pintura. Figueiró dos Vinhos: Câmara Municipal. 2004.
Referido também por Luís Borges da Gama in A Duas Mãos | Desenhos Inéditos: Manuel Henrique Pinto (1853-1912) e José Malhoa (1855-1933): Pelo Centenário da morte de Manuel Henrique Pinto. Figueiró do Vinhos: Clube Figueiroense: Município de FV. 2012. p.15.
Ou ainda aqui.

[12] Ver: SANTOS, Doris; COUTO, Matilde Tomaz do - Liga dos Amigos do Museu José Malhoa: Como nasce um museu. Caldas da Raínha: Liga dos Amigos do Museu José Malhoa. 2013.

sábado, 27 de julho de 2013

Das Memórias de Figueiró II

Um S. Pantaleão muito martirizado

S. Pantaleão é um daqueles santos esquisitos, que quase ninguém conhece e poucos lhe viram a cara. Claro que a iconografia ou a imagem dos santos é coisa que varia muito ao longo dos tempos e das culturas…
Não cabe aqui grande conversa sobre as virtudes ou história do santo, sobre o seu culto e memórias – podem sempre ser consultadas por , sob várias formas, mais leves ou mais sérias.

Para além de um ou outro pormenor mais curioso, S. Pantaleão foi, até há relativamente pouco tempo, padroeiro da cidade do Porto e, há muito sem qualquer celebração religiosa, subsiste em Figueiró dos Vinhos dando o nome à sua Feira Anual. Em ambos os casos, parece que a difusão do seu culto se deveu à acção prosélita de D. Diogo de Sousa (1461-1532), bispo do Porto, arcebispo de Braga, filho dos Senhores de Figueiró. Curiosamente, em todas estas terras o santo popularmente festejado é, há muito, S. João. Pantaleão tem vindo a cair no esquecimento, pelo menos quanto à sua devoção…

Iconograficamente podem existir algumas dúvidas. «Há representações de São Pantaleão crucificado numa aspa, martírio semelhante ao de Santo André» - dizem. Além disso também se confunde por vezes a sua imagética com a de S. Sebastião – pode parecer-se com este, mas com menos “buracos” de setas… 
Mas aqui (vale a pena ler mais - a meio do artigo) um texto que tira as dúvidas: «Na história hagiográfica deste santo (…) aparece a sucessão de uma série de martírios que Pantaleão superou com a coragem de um leão, os quais têm a aparência inconfundível de um processo iniciático superior em que intervêm os quatro elementos naturais (ar, fogo, água, terra) (…) E logo depois deu-se a consumação do seu martírio, preso a uma oliveira – árvore sagrada no contexto religioso mediterrâneo – (…) fazendo este Mestre com que a sua quintessência da vida que é o sangue, fizesse florescer a árvore e dar frutos …». Trocando por miúdos – parece que o tentaram matar de várias maneiras e todas falharam, acabando por o atar a uma oliveira e o decapitaram, o sangue do mártir terá feito a velha árvore rebentar de novo.

Portanto, na imagética, S. Pantaleão não aparece «crucificado numa aspa» mas atado a uma oliveira. Tal como nesta imagem, provavelmente do séc. XIX, existente por Terras do Bouro.




Eis pois, não contando com as relíquias tardo-medievais aqui evocadas num belo texto de D. Manuel Clemente , a representação de S. Pantaleão, o patrono da feira de Figueiró dos Vinhos.

 Mas uma pergunta subsiste – para ainda dar nome à feira anual, por certo, em algum tempo, o santo deverá ter tido especial devoção… Nada resta? talvez, por hoje, disfarçado de algum S. Sebastião numa capela escondida? nem isso?


Resta pelo menos este. Uma pequena imagem (c.24cm) de S. Pantaleão, atado à oliveira e com algumas chagas dos tormentos. Aparentemente do séc. XVII ou XVIII, em mau estado de conservação, já sem o braço direito (que o colocaria, provavelmente, numa posição simétrica do outro, o do Bouro), com falhas e defeitos, um S. Pantaleão oriundo de Figueiró dos Vinhos. E, ao que tudo indica, da Cerca das Freiras… Tudo o mais que possa ser dito serão suposições.

27 Jul. 2013 (dia de S. Pantaleão). LBG


...Mea culpa !

No que acima está dito, com a pressa, por esquecimento ou ignorância, ficou algo por dizer.

Melhor, foi dito com ar definitivo «na imagética, S. Pantaleão não aparece “crucificado numa aspa” mas atado a uma oliveira». Sendo em parte verdade, como vimos pela história do santo, não o será totalmente. Acontece bastantes vezes S. Pantaleão surgir representado atado à dita árvore, mas com a forma clara de uma aspa (ou cruz de S. André). Como se pode ver nesta bela imagem existente na Sé do Porto e referida aqui, em mais um artigo que ajuda a compreender esta estória.






Ora, claramente dentro desta mesma tipologia, podemos encontrar uma também interessante imagem de S. Pantaleão na Igreja Matriz de S. João Baptista em Figueiró dos Vinhos. Á vista de todos. E desta, é que eu me esqueci!
No retábulo à esquerda da Capela-Mor – o agora presidido por uma imagem mais recente do S. S. Coração de Jesus – lá está a imagem de S. Pantaleão, o patrono das Festas da Feira Anual. Atado à oliveira, mas com os ramos cruzados em X.

Como suspeitava, não numa «capela escondida» mas na Matriz da Vila, subsiste, e ainda bem, a imagem do santo que em tempos deve ter sido objecto de devoção importante das gentes figueiroenses. “Disfarçado” de S. Sebastião – e de tanto o ter ouvido, também eu já estava convencido – lá está ele, o médico mártir de Nicodémia.

S.Sebastião.
Imagem existente no Convento do Carmo, 
Figueiró dos Vinhos.
O corpo nu, já sujeito aos vários tormentos e pronto a ser decapitado, miraculosamente não apresenta praticamente marcas do padecimento, salvo a queimadura junto ao peito. 

Ao contrário das representações de S. Sebastião, normalmente prestes a agonizar, crivado de setas, flechas ou virotes, ou das respectivas marcas, como nesta imagem existente no Convento de Nª Sª do Carmo, ao fundo da Vila. Este, sim, é S. Sebastião. Mais "buraco", menos "buraco".

Fica a rectificação.


7 Ago. 2013. LBG

            


domingo, 21 de julho de 2013

“Ó Ernestina, vamos embora…

qu’isto foi tudo uma grande aldravice!”

           Eu sabia que tinha. Não sabia era aonde. Mas, um destes dias, lá me apareceu. Por isso aqui se partilha. Não só de coisas boas, também da ranhosice se escrevem estas estórias.
Hoje servimos um prato frio, filho de pai (ou mãe) incógnito, e falso como Judas! Ranhoso e rançoso. Manhoso. De quinta categoria. Do qual não valeria muito falar, não fora começar a ser useiro e vezeiro citá-lo, em todo ou em parte, como se fosse de primeira apanha.
Não é. E, antes que a moléstia alastre, o melhor é cortar cerce, matar de vez, acabar com a peste.

Trata-se de um famigerado postal, alegadamente de JMalhoa, supostamente dirigido à irmã – resta saber a qual delas? – surdido não se sabe bem donde nem como, e que, convenientemente, tal como surgiu, também desapareceu.
Desaparecido – ainda bem e já lá iremos – continua, contudo, a dar-nos cabo da paciência. Porque, volta e meia, por ignorância ou desleixo, lá temos uma frasezinha da fraudulenta missiva com honras de citação nalgum trabalho de mérito aparente. O que cheira logo a esturro e estraga tudo!

Ao que parece, o postalito fatela era tesourinho - «deprimente», pois claro! - do antigo CCFV [1]. Tal como outras coisas que nunca vi, mas ouvi falar - e refiro um dos alçados originais do projecto da ampliação do «Casulo», 1898, do Arq. Luiz Ernesto Reynaud [2]  – ter-se-á, entretanto, sumido!
Resta, do dito postal, a reprodução fac-similada publicada em 1995 [3] que aqui se mostra. E, graças às novas tecnologias, em melhor tamanho, para tirar todas as dúvidas.


Já agora, também se transcreve na íntegra. Para não haver desculpa e não mais alguma destas frases torpes e apócrifas voltar a ser citada como se da pena malhoesca proviesse.

«Figueiró dos Vinhos 
21 Agosto 1898
Caríssima irmã, desculpa a demora das minhas noticias mas, o clima e a beleza desta magnifica região têm-me prendido, como sempre.
A riqueza paisagística, a luz, as cores e a autenticidade desta gente constituem a fonte de inspiração ideal para o meu pincel. Sinto que vou passar aqui a fase mais importante da minha vida, por isso, decidi construir um Atelier e uma casa para me radicar futuramente.
Recebe um grande abraço
o teu irmão
José Malhoa.»

Ora, tudo isto é triste, tudo isto é falso!
Basta olhar e ver - não engana ninguém, sequer algum parvo.

A caligrafia não é de Malhoa - e não é preciso um grande grafologista para o afirmar. A conversa e os termos, simpaticamente convenientes para peculiares modos de fazer, estão longe do léxico e cânones malhoescos. Quanto à ortografia, o(a) autor(a) [4] da macacada nem se preocupou em arremedar algo mais de acordo com a época da putativa datação. E a pontuação é de anedota, não fora triste.
É tudo fraude, da mais reles, irreproduzível e irrepetível…
Quanto à assinatura, um pouquinho mais cuidada, até pode ser que seja - não direi terminantemente que não… Em tal mas pouco provável caso, seria interessante ver o outro lado do postal – esta a única razão para lamentar o sumiço do original – pois apostaria que, no verso (ou de caras), o mais provável seria encontrar o nosso amigo Malhoa bem maduro, numa qualquer foto dos anos 20…
No meio de tanta baixeza, o suporte, o impresso da «Union Postale Universelle» deve ter sido a única coisa verdadeira. E nada mais há a dizer.

Aniquilado o estropício, enterre-se bem fundo, sem lhe rezar pela alma, sem lhe evocar pai ou mãe. E esqueça-se! Esqueça-se tudo! De uma vez por todas.
Eu, por mim, já esqueci.

Mas – e aviso já – se me aparece pelas trombas, mais alguma vez, uma das frasezinhas manhosas - «A riqueza paisagística… etc.», «…a autenticidade desta gente… e tal», «rebéubéu... para o meu pincel», «não sei quê… para me radicar futuramente» - e como não posso puxar da pistola (que não sou Goebbels - cruzes, credo! - nem citar frase trafulha será acto de Cultura), como não poderei cuspir (pois assim me ensinou minha Mãe, e tal patranha não consubstancia propriamente um qualquer mais odiento ministro), restar-me-á gritar a indignação (como a outra, farta das manigâncias do António Silva para coroar a Beatriz Costa raínha das costureiras lá do bairro [5]) e exclamar meio abespinhado: 
- "Ó Ernestina, vamos embora… qu’isto foi tudo uma grande aldravice!" 

«E toca o hino!»   



 21 Jul. 2014. LBG.




[1] Centro Cultural de Figueiró dos Vinhos – instituição, inicialmente com algum trabalho de mérito, que foi a proprietária do «Casulo» de Malhoa desde a sua aquisição pela Câmara Municipal em meados da década de 1980 até há relativamente poucos anos, quando o edifício, algo degradado, foi de novo adquirido e reabilitado pelo Município.

[2] Supostamente um dos outros três semelhantes a este que aqui se mostra. Como é evidente, deverão ter existido quatro – cada um representando uma das faces do novo edifício. Este sobreviveu, sabe-se como e conserva-se em razoável estado; dos outros desconhece-se paradeiro. Fonte credível assegura-nos que até há relativamente pouco tempo um deles estaria dependurado na antiga cozinha do «Casulo»…

Luiz Ernesto Reynaud, arqtº. 
Alçado lateral
Projecto de ampliação do «Casulo», 1898.
Desenho aguarelado, esc. 1:200



[3] Homenagem a José Malhôa (1855-1933): Centro Cultural de Figueiró dos Vinhos: 1995. – um folheto de poucas páginas, também meio desaparecido, felizmente ausente da colecção online da Biblioteca Municipal Simões de Almeida (tio), e que não deixa saudades.
Para além de reproduzir a “maravilha histórica” que hoje se mostra, ali se transcreve, logo na pág. seguinte, um artiguelho do “Almanaque Bertrand” – 1944, onde a única coisa certa deve ser a palavra «Malhôa», tal o chorrilho de inverdades e confusão de acontecimentos descritos em catadupa. Manter a “coisa” ignorada é, assim, uma medida de higiene.

[4] Não sei, nem interessa agora saber, a autoria da fraudezinha de trazer por casa, mas a letrinha tem um não sei quê…

[5] Cena do filme A Canção de Lisboa, 1933, do Arqtº. J. Cottinelli Telmo (1897-1948), que vale sempre a pena ver de novo – aqui, logo aos 2:17.



domingo, 7 de julho de 2013

Ainda sobre a arte da juventude

No artigo anterior, a propósito de uma das exposições agora patentes no Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos, referem-se algumas fotografias e imagens da época. O espaço e a necessidade de mostrar antes do mais as Obras ali expostas, levou a que algumas dessas fotos tenham ficado por revelar.
Para uma melhor compreensão do texto anterior, mostram-se agora todas elas. Repetem-se algumas com novas legendas, e acrescentam-se as outras, as que ficaram no tinteiro. O texto pode sempre ser relido mais abaixo…




















José Malhoa, aqui fotografado cerca de 1874, aos 19 anos.


No verso da foto, dedicatória a M.H.Pinto …no dia em que ia «entregar a primeira carta à manasinha», datada de 2 Out. 1874.
Hoje em dia não sabemos muito bem quem seria esta «manazinha», mas se trata de namoro, talvez já a Juliana Júlia - com quem Malhoa se viria a casar em 29 de Janeiro de 1880.













Manuel Henrique Pinto fotografado provavelmente pela mesma altura, então com 21 anos. 
Note-se a semelhança dos chapelinhos…
























Manuel Henrique Pinto 
José Malhoa, fotografados possivelmente no ano seguinte, c.1875. 
Pinto de pé, Malhoa “pintando”.
O chapelinho do ano anterior lá está, pendurado no cavalete. O lacinho, meio à-Lavallière, também já aparece. E reparemos bem na tela que Malhoa faz que pinta, e na outra, no chão, que aparece por detrás das pernas de Pinto…

Manuel Henrique Pinto 
e José Malhoa
em mais do mesmo. 
Agora em troca de posições – Pinto, sentado, “esboça” algo sobre a tela branca, Malhoa observa.
Pelas indumentárias, poucas dúvidas subsistem que esta foto é contemporânea da anterior.
Também as fotos surgem a par.



























Pormenor da primeira foto: a tela que está no chão por entre as pernas de Pinto. 
Tal tela é a mesma que podemos ver ali


Outro pormenor da primeira foto: a mão de Malhoa sobre a outra tela, a que está no cavalete. A mesma tela que também podemos ver no artigo anterior




















João Rodrigues Viera (1856-1898), José Moura Girão (1840-1916), Veríssimo José Baptista (?), Manuel Henrique Pinto (1853-1912), João Vaz (1859-1931) e, em baixo, José Malhoa (1855-1933). Todos condiscípulos da Academia das Belas Artes. Todos, à excepção do amigo Veríssimo que trocou os pincéis por outra vida, membros do futuro Grupo do Leão. Retratados, mais ou menos ainda pela mesma altura, numa foto, como todas as anteriores, de «J. Loureiro, Fº, Calçada do Duque, 18».

João Rodrigues Vieira, então ainda dedicado à Escultura, é o autor do Retrato de J. Malhoa, 1874, um medalhão em gesso que também ali se mostra.





Requerimento à Academia Real das Bellas Artes, datado de 16 de Março de 1875 – um dia depois de completar 22 anos – onde Manuel Henrique Pinto pede seja passada certidão com o resultado do concurso ao lugar de pensionista do Estado no Estrangeiro.
No canto superior esquerdo, o despacho assinado pelo escultor Francisco de Assis Rodrigues, então Director Geral da Academia - «FAssís, DG.»
A mesma assinatura que atesta, no verso da tela Cabeça de cavalo, 1875, de Malhoa, que tal pintura foi executada como trabalho da Academia…


No verso, a certidão passada e assinada por Joaquim Pedro de Souza, Secretário da Academia.















Foto do verso do Retrato de minha Mãe, 1872, de J. Malhoa.
Como se pode ver, Malhoa usou as costas de uma estampa de geometria para desenhar o retrato de Ana Clemência. Ainda estudante e apenas com 17 anos, o papel era coisa cara e havia que aproveitar tudo…








José Malhoa “pintando” a cabeça do «Salero», c. 1882. Fotografia de Carlos Relvas (1838-1894) executada no seu estúdio da Golegã.
Esta foto, mais ou menos inédita [1], documenta, muito provavelmente, o início da longa relação entre Malhoa e a família Relvas – primeiro com o pai Carlos, depois com o filho José, primeiro na Golegã, depois em Alpiarça…
Aqui vemos um dos primeiros estudos para o retrato do Cavalo «Salero», 1882, mas, pelo que é possível descortinar, talvez ainda não o estudo conhecido, a Cabeça do Cavalo «Salero», 1882, ambos – o retrato do cavalo inteiro e o tal estudo da cabeça – apresentados na 2ª Exposição de Quadros Modernos (Grupo do Leão) e hoje no espólio da Casa dos Patudos. Esta cabeça, que aqui vemos no cavalete, parece ser um estudo ainda preliminar (ou será a mesma, resultado de a esta se ter acrescentado mais uma fatia de tábua?). 
Carlos Relvas registou, nesta bela foto, talvez o primeiro esboço do primeiro trabalho para o qual chamou o ainda jovem Pintor.
Depois do retrato do «Salero», Malhoa irá pintar para os Relvas muita coisa – o próprio Carlos Relvas a cavalo no «Salero», a Mulher de Relvas, a Filha de Relvas, Relvas montado no «Rolito» e o «Rolito» sem Relvas e, ainda, Relvas sentado e sem cavalos - mas isso é depois. 
Como depois repetirá o rol com José Relvas, a Mulher deste e os seus Filhos, substituindo cavalos pelo cão, o «Kaiser»…
Todavia o primeiro trabalho de Malhoa para Carlos Relvas, ainda em 1882, terá sido este - retratar-lhe o seu querido «Salero». Foi de propósito à Golegã e tudo. Quem sabe, chamado, porque Relvas - o pai Carlos - tenha visto uma outra Cabeça de cavalo pintada por um jovem promissor uns anos antes...?

No verso da fotografia, magnificamente impresso com as medalhas e prémios conquistados por Carlos Relvas, a dedicatória de Malhoa  «À Exmª Snrª D. Maria da Conceição Almeida», a tia de Simões d’Almeida que os havia hospedado – a ele e a Pinto – aquando da primeira estada em Figueiró.
Está datada de 31 Agosto 1883, e assinala o início de uma outra história…







7 Jul. 2013. LBG.








[1] Muito semelhante a uma outra, publicada em 1885 em o Occidente, a propósito da 4ª Exposição do Grupo do Leão (1884), numa gravura onde surgem reunidas as fotografias dos nove Artistas expositores desse ano e a de Alberto Oliveira. 
Isto sugere, portanto, que essa outra foto de Malhoa é também da autoria de C. Relvas e anterior, um bom par de anos, à sua publicação pelo Occidente.