quinta-feira, 25 de junho de 2015

Sem franja, mas de laço e gola de guipura:

o retrato de Beatriz Costa pintado por Malhoa (?)
(… e umas tantas fitas)













1. - «Ai! mas o que será o mastoideu?»
(Beatriz Costa em A Canção de Lisboa, 1933)




«… e de um retrato da Beatriz Costa enquanto criança pintado por Malhoa, sabe alguma coisa?» – perguntaram-me assim, de chofre, vai para uns oito anos.
De tal nunca houvera ouvido. E devo ter respondido torto, na linha do «não há bicho careta que não tenha sido modelo do Malhoa; fala-se no homem e aparecem logo meia dúzia deles; surdem mãos cheias de quadros vindos sabe-se lá donde; e mais as Alminhas do Purgatório de que toda a gente fala mas nunca ninguém viu…».
Que não! Que a Beatriz falava disso no Sem Papas na Língua
«Só se for ali A Menina do Laço…» - atirei então, em jeito de chalaça. - «Mas, e o cabelo?» - «Não está à espera que logo de ganapa tivesse a franjinha, ou está?» - «Parece que eram tranças…».

Pela mesma altura procurou-se também e com afinco por alguma fotografia onde Malhoa aparecesse de boina larga, daquelas à pintor parisiense dos desenhos animados. Há-as em cabelo, com chapéu, de feltro, de aba curta e aba larga, de palha, de quico, com boné, turbante e talvez até de fez… mas, de boina, nada!
A coisa ficou por aqui[1]
Foi, contudo e como dizia o outro em Casablanca, «o início de uma bela amizade…».
A primeira edição de
Sem Papas na Língua: memórias, 1975.
A belíssima capa de João Abel Manta.






        São escassas as referências de outros autores [2] à provável existência do tal «retrato feito pelo Malhoa». E, em todas elas, a única fonte é exclusivamente a própria Beatriz Costa que, a propósito ou a despropósito, a isso se referiu em múltiplas ocasiões.
       
Convido-vos a rebobinar o filme, e vamos lá ver a fita...

















2. - «Chapéus há muitos, seu palerma!»
(Vasco Santana em A Canção de Lisboa, 1933)



             Primeiro, como da praxe, uma «sessão de bonecos».



Fotografia datada «2/10/74». Malhoa aos 19 anos e com um chapéu catita.


Pelos finais da década de 1870. Com João Rodrigues Vieira, José Moura Girão, Veríssimo José Batista, Manuel Henrique Pinto e João Vaz; 
Malhoa, em baixo, 
é o único com o chapéu na cabeça.

Em Figueiró, 1898.
Simões d’Almeida Júnior, Henrique Pinto e Malhoa. 
Este de chapéu de palha e «botifarras».
Em Constantinopla, 
de turbante turco e narguilé, 
com Mattoso da Fonseca e outro. 
No verso está datada: 
«Paris 30 Junho 1905» 
e dedicada «a sua querida Julia», 
«offerece Hayder-José-Pachá».
26 Julho 1906, no Sumaré, Rio de Janeiro. 
Já com o «chapelinho que parece um tacho» 
e na companhia de Rodolpho Bernardelli e Gonzaga Duque.
Ainda o famoso "chapelinho". 
E talvez uma das fotos mais conhecidas de Malhoa 
(«1906» ou «1913» ou o que se queira?!). 
Editada em postal ilustrado, desta circularam inúmeros exemplares.
Aqui com um «Chapéu da Rua do Ouvidor», 
à chegada a Lisboa vindo do Rio de Janeiro, 1906. 
Caricatura de Alfredo Candido 
publicada no Brasil-Portugal, 1 Setembro 1906.
Algures em Figueiró(?) nas Lameiras(?) com a afilhada Julieta(?) e mais um cão. 
E ainda o tal "chapelinho". 
Cerca de 1910/12.
Francisco Valença, Varões Assinalados nº47, 
de  1911. 
Malhoa com o “quico” que usava no atelier lisboeta. 
Esta foi uma das obras com que Valença participa na «Exposição dos Humoristas Portugueses» de 1913.
Ainda com o tal “quico” de trabalho, recebendo Cruz Magalhães nas traseiras da casa da Av. 5 de Outubro, por volta de 1913. É por esta altura que Malhoa retrata Magalhães com o “Hermínio” em Os Dois Amigos. E será mais ou menos nesta data que, a ser verdade, pode ter retratado a Beatrizinha…
Esta foto, com um outro enquadramento, foi publicada na Illustração Portugueza, nº380 de 2 Jun. 1913.
E a dita «boina»? Nem vê-la!...

 Malhoa com boné de viajante.
Passe de 2ª classe dos comboios e barcos de Lucerna, na Suíça.
 Junho 1913.
 Amarelhe, 1918. 
Mais uma boa caricatura de Malhoa. 
Com o seu “quico” de trabalho. 
Malhoa pintando na Fontinha, em Figueiró dos Vinhos. 
Cerca de 1918 e 1920. 
Agora de polainas e chapéu de feltro e aba larga…


Com Maria de Lourdes Mello e Castro, já entrados os anos 1920, de cigarrito aceso nos lábios.





Na Sr.ª dos Remédios, Peniche, 11 Setembro 1928. 
No primeiro plano A. Montez. 
Depois do almoço na Foz do Arelho, por ocasião da homenagem feita nas Caldas da Rainha, numa paragem para ver as vistas «diante do mar das Berlengas» - do lado de cá, bem entendido. Porque «nas Berlengas» já será paradoxo espácio-temporal: nem lá esteve, nem tempo houve para lá ter estado.

 Francisco Valença, 1928. 
Caricatura publicada no Sempre Fixe, 14 Junho 1928. 
O Sol queixa-se de brilhar pouco, porque Malhoa lhe tem «tirado cada bocado!...»
Depois de um longo amuo - «amuadíssimos» - a relação com Artur Ernesto de Santa Cruz Magalhães (1864-1928) ter-se-á reatado pelos anos da preparação da Grande Homenagem a Malhoa. 
Aqui, ainda com caras de poucos amigos, o Pintor, Mª Lourdes Mello e Castro, Julieta Ferrão e Magalhães, c.1926/8. 
No jardim  do «Casulo», em 1933, pouco antes da sua morte, com Maria Elisa Lisboa e Eurico Lisboa.
O "chapelão" de aba larga e copa alta que usou nos últimos anos de vida.


Fez ou «tarbush» otomano (?) que foi de Malhoa.
(Museu José Malhoa, Caldas da Rainha) 

























3. - «…Até ao dia em que apareceu, 
    essa traidora de franja…»
(Vasco Santana, canta o Fado do Estudante e desenha-lhe o retrato, 
em A Canção de Lisboa,1933)


Beatriz Costa deixou-nos várias páginas onde aborda a estória que agora aqui nos traz. Desde logo nas Páginas das minhas Memórias, 1932 [3], debitadas com ela ainda fresca, aos 24 anos, e em vida de Malhoa acrescente-se; depois já com maior “liberdade literária”, aos 67 anos, em Sem Papas na Língua, 1975 [4]; e ainda nesse mesmo ano, numa memorável entrevista a Assis Pacheco [5].


Nasceu Beatriz da Conceição, «na obscura Charneca, freguesia do Milharado, concelho de Mafra (...) Julga-me erradamente da Malveira, que fica perto (...) Foi a 14 de Dezembro de 1907. Não hesito um instante em proclamar a data histórica». «Um desacordo doméstico na Charneca (tinha eu quatro anos) trouxe minha mãe para Lisboa e eu vim com ela» - em 1912 portanto - «Até que a mãezinha constituiu novo lar, foi uma existência tormentosa...» (Beatriz 1932).

A ida para casa de Malhoa e a estória do retrato. «Lá estava o anúncio: “Costureira a dias precisa-se. Dez escudos diários e comida.”» - manifesto exagero, que 10 escudos por dia, na altura, seria coisa impensável [6] - «…eu fui considerada indesejável pela futura patroa (...) A minha alimentação eram os restos de comida que a patroa deixava juntar para mim, dizendo com muito “espírito”: “Em vez de deitar no lixo, leve isto prá gatinha!”» - a habitual misoginia de Beatriz, o melhor mesmo é não ligar - «…Os meses que se seguiram foram amolecendo o coração da patroa, que tinha recusado a minha permanência na sala de costura. Num dia em que provavelmente o marido tinha sido “amável” e acordara bem disposta permitiu que eu lá fosse passar a tarde...» - assinalemos a importância do débito conjugal de Malhoa como catalisador da trama e da acção - «…Numa distracção dos adultos, agarrei numa tesoura maior do que a minha mão e retalhei um metro de cetim francês (…) Quase fui linchada!...Valeu-me um velhote de boina basca e bata branca (...) arranc[ou]-me das mãos maternas que malhavam “nisto” (…) pegou na minha mão e acariciou-me o rosto. “Pareces uma Gioconda pequenina... Quem te deu esses olhos? Vem comigo” E deu-me um vintém de cobre! (…) Levou-me para uma sala grande com janelas largas. Sentou-me num banco alto (...) e pediu-me que ficasse quietinha, porque ia fazer o meu retrato. (…) Aquele velho bonito e meigo, que eu “odiava” porque me prendia tardes inteiras (...) era o dono da casa. (...) Para mim, era o Sr. José, mas nos desenhos que fazia ele acrescentava: Malhoa!» (Beatriz 1975).

O mesmo, mais comedido, contado quarenta
anos antes. «Por esse tempo, minha mãe trabalhou em casa de um dos maiores artistas da nossa terra (...) Malhoa, com uma paciência de santo, pintou-me o retrato, como só ele o sabe fazer.» (Beatriz 1932).

De novo mais tarde, e com uma descrição do retrato. «Eu pensava muito no Sr. José (…) Foi a primeira pessoa que me tratou com humanidade. José Malhoa! Dava tudo para ter aquele desenho em que eu estava de tranças e com uma gola de guipura. Sorriso desconfiado, olhar de esguelha e uma certa malícia infantil, que o grande mestre adorava em mim como seu pequeno modelo. [7]» (Beatriz 1975).















4. - «Paizinho, vou fazer isto contrariada.»
    - «Uma bolachada na cara, vai?»
(Beatriz Costa e António Silva em A Canção de Lisboa,1933)


Mudar de vida e padrasto novo. «Rebentou a Grande Guerra e resolveu-se que Portugal interviesse nela. Minha mãe passou a costurar no Casão e a vida tornou-se-nos mais segura e desafogada. E fez-se a segunda união. Meu padrasto pertencia ao 15 de Tomar (...) para onde fomos viver, [ali] me decorreu a despreocupada meninice.» (Beatriz 1932). Nem uma palavra sobre Figueiró, note-se.
Aldina da Conceição, a mãe, 
e o padrasto Manuel Jorge, do Casal de S. Simão, 
na sua farda de Sargento de Infantaria.


Ou em versões “ligeiramente” diferentes. «A família Malhoa passava grandes temporadas em Figueiró dos Vinhos (...) para onde me “tocaram” pouco tempo depois. (...) De Figueiró surgiu o homem que seria o meu primeiro padrasto. [8] (...) Era militar e fazia serviço em Tomar (...) Foi lá [em Tomar] que se realizou o casamento.» (Beatriz 1975).

«Eu fui criada em Tomar dos cinco aos doze anos, que ele era militar e era do 15 de Tomar. Isto tudo deu uma complicação muito grande, porque fui para lá por intermédio do Malhoa, que… Fui modelo do Malhoa... Tudo isso eu conto no meu livro, é muito complicado.» (Entrevista 1975).

De Tomar é esta primeira foto de Beatriz: «A primeira fotografia conhecida, aos 12 anos. Fotografia Luz e Arte, Enes e Cia., Tomar. Pouco tempo antes, o pintor José Malhoa chamara-lhe “minha Gioconda pequenina”.» [9]


Beatriz acaba de nos contar episódios da sua infância, relativos a um curto período atribulado entre a separação dos pais, a vinda para Lisboa e a nova união da mãe, com a consequente retoma de alguma estabilidade na cidade dos Templários. É um período necessariamente de memória difusa, que se pode calcular entre os quatro e os seis anos de idade, de 1912 a 1914 portanto [10]e obviamente de relativa pouca importância numa vida longa, intensa e recheada de outras memórias bem mais interessantes e que ocupam, essas sim, o grosso dos seus textos.


 Quanto a factos e ao retrato, fica-se sem saber se Malhoa «pintou» (1932) ou fez um «desenho» (1975), embora seja de relevar a falta de precisão técnica e considerar qualquer das formas, na linguagem corrente utilizada, como designativa do mesmo… ou do seu contrário. Contudo, a crer que a «prendia tardes inteiras», é bem possível que se tratasse de um óleo. E podemos, com bastante certeza, datar a coisa pelos anos de 1912/13, correspondendo aos 4 ou 5 anos de idade da modelo.
Já as «tranças» e mesmo «a gola de guipura» - santa paciência! - serão talvez tão factuais como os «dez escudos diários» ou a «boina basca e bata branca» do Malhoa... Deixemo-las como figuras de estilo da palpitante prosa da nossa querida Beatrizinha.






5. - «A prova? Faz-se já aqui ao lado!»
 (António Silva em A Canção de Lisboa,1933)


A Menina do Laço é um quadro de Malhoa, um óleo sobre tela com 43x36 cm, assinado mas não datado. Malhoa regista aqui, sobre uma mancha impressiva de chagas alaranjadas, o retrato de uma menininha de olhar fixo, talvez assustado, maçãs rosadas sobre tez macilenta, boca carnuda, vestida de branco (com a tal «gola de guipura»?) e com laço da mesma cor sobre os ligeiros caracóis quase aloirados, ainda infantis.

    É um quadro curioso e pouco conhecido. Que se saiba nunca exposto em vida do pintor, depois, salvo erro, somente uma ou duas vezes em pequenas mostras de província, e só há pouco reproduzido em livro [11]. Oferta de Malhoa a nova afilhada, muito provavelmente pelo seu casamento em 1920, terá por isso escapado à voragem subsequente à morte do pintor.

Aparentemente por acabar - são notórios pequenos pedaços de tela branca sob as pinceladas largas da folhagem; como largos e ténues são os brancos do vestido que nos dão, em impressão, a quase transparência das rendas e do tecido; em contraste, a face é mais trabalhada e estranham-se os cinzas das carnes (resultado da «comida prá gatinha»?) – está contudo assinado, talvez como sinal de que ali não haveria mais nada a fazer.






             Não datado, parece ser da primeira metade da década de dez. É um período em que o pintor realiza algumas experiências para além do Naturalismo [12] - desde logo com a segunda versão de Basta meu Pai!, 1910 [13], com uma outra expressão que a da versão inicial que levara ao Salon de 1908; passando pelo Retrato de minha Mulher, 1914 [14], onde o perfil de Júlia Malhoa se recorta sobre uma outra impressiva mancha de hortenses (ou serão campaínhas?); acabando, já mais tarde, nas cerejeiras da Quinta da Fontinha pontilhadas pelas multicoloridas folhas de final de estação no Outono, 1918 [15]. Pelo meio outras experiências menos marcantes terá realizado, como Descanso do Modelo, c.1913 – expressivo no recorte das costas da mulher, impressivo em mais uma mancha colorida de flores - tábua não assinada nem datada, mas pintada como é fácil de ver no atelier da 5 de Outubro, e que uns pequenos desenhos de nu, os últimos datados de «20-III-1913», com a que parece ser o mesmo modelo [16], apontam para uma data próxima.          
Deste modo, arriscar considerar A Menina do Laço produto da leva de fundos floridos menos convencionais de cerca de 1913, não é arrojo de maior.

            A menina não se sabe quem seja. Não será, pelo ar e pelo vestir, mais uma das muitas cachopas de Figueiró amiúde ali pintadas; nem, por outro lado, alguma das muitas burguesinhas que com a melhor farpela lhe «fez bicha à porta do atelier» para o retrato. Da família ou da gente mais chegada parece também não ser. Aparenta ser citadina e o quadro será lisboeta.

É a filha da costureira? É a Beatrizinha da Conceição da Charneca do Milharado, pelos seus cinco anitos, sem franja nem tranças, mas de laço e gola de guipura?
Talvez nunca o saibamos com absoluta certeza… Mas é muito bem capaz disso!

E aquela foto de Beatriz já adolescente pouco ou nada ajuda - com muito boa vontade, influenciados talvez pelo desejo, poderemos descortinar parecenças aqui ou ali. Como noutras tantas fotos, em que a ausência da franja e da imagem costumeira nos possibilitam outras leituras…
Mas isso, como quase tudo, é conforme queiramos. 














6. - «Tenho uma gaiata aqui dependurada,
que tem mesmo a “lata” lá da namorada!»
 (Vasco Santana em A Canção de Lisboa,1933)


Chegados aqui, calculo que fãs mais apaixonada(o)s por Beatriz Costa se encontrem algo desapontada(o)s – «afinal? nem uma franja! nem uma só vez a diva tal como a temos na nossa memória!?»
Pois vamos já tratar disso:



E aqui já em baixo, de um outro Mestre, este da ilustração e da banda desenhada, Fernando Bento (1910-1996), uma excelente e praticamente desconhecida Caricatura, 1937, de Beatriz. Com franja - pois claro! - mas também de laço, por causa das coisas…


A estes propósitos, apetece citar um outro clássico da nossa cinematografia - «’tou c’a fé na brazileira!...» [17]



É o que se pôde arranjar. Fazei pois o obséquio!














- «E cá estarei para os ver, p’rós aturar e ouvir,
p’rós retalhar e coser, sempre a sorrir!»
 (adaptando Vasco Santana em A Canção de Lisboa,1933)



Créditos Finais

Investigação e texto desenvolvidos entre Out. 2010 e Jun.2015, 
pois «depressa e bem... não há quem».

Toda esta história, contada nuns belos painéis elaborados 
por Teresa Trancoso, o quadro de Malhoa «A Menina do Laço» [Retrato de Beatriz Costa (?)], c.1913, a Caricatura, 1937, de F. Bento, e uma carta autógrafa do punho de Beatriz, 1937, podem ser vistos até aos finais de Outubro no Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos.

Ali também se podem ver, entre outras importantes obras, os quadros aqui referidos Retrato de minha Mulher, 1914, e Outono, 1918.

  Os fotogramas e subtítulos são, obviamente, do filme 
A Canção de Lisboa, 1933, de Cottinelli Telmo.

As fotos são de arquivo particular, algures da internet,
 ou de publicações citadas.
















« FIM »



Junho, 2015. LBG.



[1] Ver: Leandro, Sandra, 2008, «Luz sobre Luz: José Malhoa (1855-1933)», in José Malhoa. Milano, Lisboa, Franco Maria Ricci, Arting Editores, p.113.
[2] Ver: Rosa, Vasco Medeiros, 2003, Fotobiografia de Beatriz Costa: Avenida da Liberdade. Lisboa, MediaLivros, p.49, 77 e 79.
[3] Beatriz Costa, 1932, in «Páginas das minhas Memórias», ao jeito de entrevista e publicadas na revista Cinéfilo, de Maio a Novembro de 1932, apud Rosa, Vasco Medeiros, 2003, op. cit., p.73 e seg.
[4] Costa, Beatriz, 1975, Sem Papas na Língua: Memórias. Lisboa, Publicações Europa-América. (Consultada a edição ilustrada e anotada por Vasco Rosa. Lisboa, Tugaland, 2007.)
[5] Fernando Assis Pacheco, 1975, entrevista «Beatriz Costa escritora de memórias: A embaixatriz dos saloios», in Diário de Lisboa, de 15 Dezembro 1975.
[6] Atente-se na tabela de preços do Chantecler nesse ano de 1912, tal como nos é dada por M. Félix Ribeiro, in Os Mais Antigos Cinemas de Lisboa, 1896-1939. Lisboa, IPC - Cinemateca Nacional, 1978: «Fauteuils - $21 (210 reis); Cadeiras - $31 [sic - deve ler-se $13] (130 reis), Geral e Promenoir - $09 (90 reis)». E faça-se a conta a quantas vezes os tais 10$00 diários dariam para a pobre costureira sentar as nádegas no cinema!?
[7] Registe-se, a este propósito, a nota de Vasco Rosa na edição já referida (2007) de Sem Papas na Língua: Memórias, p.247: «Não foi possível identificar em publicações e no espólio do pintor José Malhoa (1855-1933) qualquer desenho com semelhança verossímil de um retrato de Beatriz Costa enquanto criança». Pelas razões agora evidentes – acrescento eu.
[8] Manuel Leal Júnior (1891-1977) in A Nossa Terra: A Nossa Família. Vila Nova de Poiares, 2ª ed. do autor, 1976, p.13, diz: «A actriz Beatriz Costa no seu livro “Sem papas na Língua”, fala a páginas 17 do seu primeiro Padrasto, cujo nome ela omite, que ela diz ser homem bom e lhe abriu caminho para o teatro. Inquiri que o homem se chamou Manuel Jorge, 1º sargento de inf.ª 15, em Tomar. A mãe desse sargento era a Maria “Redonda”.» Pelo texto e pelo capítulo depreende-se que Manuel Jorge era natural do Casal de S. Simão, freguesia da Aguda, Figº dos Vinhos.
[9] Rosa, Vasco Medeiros, 2003, op. cit., p.49.
[10] Em 1914 estará seguramente já em Tomar. Embora diga a Assis Pacheco que já lá estaria antes...
[11] José Malhoa. Milano, Lisboa, Franco Maria Ricci, Arting Editores, 2008, p. 203.
[12] Na década anterior, recorde-se, havia-se divertido com outros desvios – chamemos-lhes Rembrhallistas-vellasquistas – patentes numa série de retratos dos amigos mais íntimos: A. Novais, M. Henrique Pinto, A. Lobo da Silveira ou Veríssimo J. B., todos de inegável qualidade e que leva mesmo aos salões internacionais.
[13] Colecção Millennium BCP.
[14] Museu do Chiado, MNAC.
[15] Museu do Chiado, MNAC. Ambos, este e o anterior, podem ser apreciados agora na exposição do Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos.
[16] Que é ainda, sem grandes dúvidas, o mesmo modelo de A Provocante, c.1913. Quadro adquirido por Cruz Magalhães, colecção MNAC, hoje no Museu Abade de Baçal.
[17] Francisco Ribeiro (Ribeirinho) em O Pátio das Cantigas, 1942.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Carnaval

um Fadinho em si, e sem dó nem ré


         Vai para cento e um anos. Não é número redondo, mas é uma capicua catita: 101 anos!
            Pelo Carnaval de 1914, foi ofertada a JMalhoa esta fotografia. Na dedicatória manuscrita podemos ler: «Ao nosso bom Amiguinho e distinto artista José Malhôa | Offerece Oracio e Gabriella como recordação do Carnaval de 1914».
            A foto é, dúvidas não há, do estúdio de Júlio Novaes (1867-1925), então na Rua Ivens, 28 a 32, em Lisboa. E, muito provavelmente, é obra e oferta do próprio Júlio Novaes ao seu amigo Malhoa.


       Numa mise-en-scène cuidada, duas crianças mascaradas de Adelaide e Amâncio arremedam O Fado, 1910, de Malhoa. Não faltam os trejeitos e adereços mais significativos – o chapéu do fadista, o cigarrinho na orelha, a jaqueta pelo ombro e os botins de atacadores; a saia de baeta, a chinela no pé e o cigarro na mão direita da cantadeira; o espelho (rectangular, pois claro!), o candeeiro a petróleo, o vaso (sem manjerico, que não é o tempo dele), o retrato da santinha (supõe-se), a garrafa mais o copo meios de vinho, o crucifixo na parede, o reposteiro…
Estávamos em 1914, Lisboa ainda não vira O Fado, que aqui só viria a ser exposto na 14ª SNBA de 1917. Mas era já célebre, coisa muito falada e reproduzida pela imprensa. O quadro, entretanto, andava num virote, havia ido a Buenos Aires em 1910, ao Porto, a Paris e a Liverpool em 1912, e iria ainda a S. Francisco… E mesmo que não mostrado em Lisboa, muitas das lendas e narrativas sobre a sua feitura eram já estórias escritas e reescritas. De todos os quadros de JMalhoa, O Fado será, talvez, o que mais mitos e romance gerou à sua volta. Numa dessas muitas estórias, Júlio Novaes, o fotógrafo, é mesmo apontado como o personagem que terá apresentado «o Pintor» ao «pintor fino», ou seja, o Amâncio fadista ao Malhoa artista.

A família dos fotógrafos Novaes é uma ilustre família de fotógrafos que nunca mais acaba [1]. E ainda bem.
António Novaes (1855-1940), o mais velho dos irmãos, foi outro próximo de JMalhoa, são inúmeros os quadros de Malhoa fotografados por ele. E é António Novais, recordemos, o modelo do celebrado L’homme au capuchon / O homem do gorro / Retrato do fotógrafo António Novais, 1901.
Eduardo Novaes (1857-1951), o segundo dos irmãos, foi também fotógrafo. Partilhou com os irmãos o estúdio da Calçada do Duque, nº25. Estúdio que, variando as associações e as designações, às tantas se chamou «Júlio & Novaes».
Um terceiro irmão, nascido em 1865, Alfredo José de seu nome, parece que foi pintor…
Foi contudo o mais novo, o nosso Júlio Novaes, o que dará continuidade à dinastia fotográfica.
Lucília Amélia Novaes (1896-1961), a filha mais velha de Júlio, também fotógrafa, casou com Kurt Pinto (1887-1959), um outro fotógrafo. Por sua vez, um dos filhos do casal, Jorge (1927-1944) também abraça a mesma arte. E um bisneto de Lucília, João de Castro (n.1964) ainda a pratica.
Todavia, serão os outros dois filhos de Júlio Novaes, Mário Novais (1899-1967) e Horácio Novais (1910-1988) os fotógrafos da segunda geração mais conhecidos. Destes, há por aí bastante escrito e bem mais completo do que aqui possa dizer (façam o favor de ir ao google, serão bem servidos...)


Voltando à fotografia que hoje nos ocupa.
Se repararmos na dedicatória, veremos que a Adelaidinha e o Amâncinho são protagonizados por uns tais de «Gabriella» e «Oracio». E fácilmente se chega à conclusão que, muito provavelmente, o «Oracio» será o filho mais novito do fotógrafo, esse mesmo, o Horácio Novais, então nos seus quatro aninhos.
Já a «Gabriella» é mais difícil de determinar. Não sabemos se Júlio Novais teve alguma filha com tal nome. Ou, mesmo, se o par era protagonizado por irmão e irmã… Sabemos, isso sim, que Horácio Novais acabou por se casar com uma Gabriela Nunes (1907-?), moça um pouco mais velha que ele. Não será, portanto, esta que aqui vemos e aparenta ser bem mais miúda. Podia ser namoro de infância? - não parece. Ou seria premonição? [2]


Fica também, e para comparação com a composição de Júlio Novaes, O Fado, o de Malhoa. O Fado, 1910, e o outro, o dito de 1909. E um ao lado do outro. Como se fora a mesma emissão de tv emitida em 4:3 vista num aparelho normal e ao mesmo tempo num plasminha jeitoso de 16:9. Com um Amâncio atarracado, bem mais nutrido e sem pescoço, uma Adelaide com súbita hipertrofia do úmero, um banco comprido que nunca mais acaba, e o espelho, o tal espelho quebrado, reduzido a um quadrado.
            «Como é Carnaval, ninguém leva a mal», dizem.


 17 Fev. 2015. LBG



[1] Para a Genealogia da Família Novaes foi seguido: António Novaes | 1903-1911. Arquivo Fotográfico Municipal, CML; Assírio & Alvim: Lisboa, 1996. p.14. (que pode ver aqui)
            [2] Quase dois anos depois disto ter sido escrito, o amável comentário que podemos ler abaixo vem dar uma outra perspectiva sobre este assunto. Contrariando de algum modo o que se pode ler na já referida «Genealogia da Família Novaes». Segundo nos diz Aida Freitas Ferreira, «Oracio» e «Gabriella», os dois petizes da fotografia, seriam mesmo irmãos e os filhos de Júlio Novaes. E afirma também que Horácio Novais não casou com uma tal de Gabriela Nunes, mas sim com Ilda Maggiolly.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Os cachopos da Fonte do Cordeiro

assíduos nas Exposições do Grémio

Acabada a aventura do Grupo do Leão «informal e sem estatutos» [1], coisa de «dissidentes», indiferentemente ou conforme se quisesse «realistas», «impressionistas», «veristas», «paysagistas» ou «naturalistas», então «rapazes ainda todos» [2], resolvida «entre boks e fumaças de cachimbo» [2] e cuja derradeira exposição corre pelos inícios de 1889 - foi tempo de associação mais formal.


Aos dez, melhor, aos onze iniciadores das Exposições de Quadros Modernos, (auto)retratados por Columbano no célebre quadro para a nova cervejaria homónima (1885), e aos quais junta por direito Alberto d’Oliveira com a inevitável prova ainda fresca do seu Catalogo Illustrado; «essa instituição» [3] protectora chamada criado Manuel exibindo «afiançada» «costelleta com hervas» [3]; e o impagável mano Rafael, amigo de sempre, divulgador sem falhas e a tempo e horas de todas as exposições, e que por essa mesma ocasião também regista o Grupo na magnífica caricatura dos Azulejos fingidos.


Aos tais onze, dizia, logo se somariam nas sequentes Exposições de Arte Moderna – e só então - as cinco «Senhoras Leoas» [4], o dito Rafael Bordallo Pinheiro e mais uma dúzia de nomeáveis artistas. Um total de vinte e nove Leões [5]– nem mais, nem menos! E batiam já à porta os de Paris, mais uns tantos do Porto e outros ainda. Era pois altura de agremiação nova, respeitável, de estatutos lavrados e tudo. Nasceu assim no início de 1890s o Grémio Artístico - então sim, com Silva Porto feito presidente, assembleia geral tutelada pela «Ramalhal figura» (que como entra, logo sai), e onde até Suas Majestades concorreriam. Coisa séria, portanto.



Então, pelo despontar da Primavera de 1891, sócios fundadores da nova agremiação, José Malhoa e Manuel Henrique Pinto participam na exposição inaugural do Grémio - e da qual Simões d’Almeida será um dos vogais do júri. Henrique Pinto mostra dois quadros: A Fonte do Cordeiro (Figueiró dos Vinhos) e A caça dos taralhões – este com assinalável e assinalado sucesso. Todavia, não fora as boas graças do Senhor D. Carlos que se dispôs a dar os 300 mil reis pedidos por ele, tudo não seria muito mais que conversa fiada - para azar de Pinto e apesar dos propalados estatutos, não se sabe porquê, não foi ainda nesse ano que se iniciou a anunciada distribuição de prémios, e a bem provável consagração dos “Taralhões” ficou eternamente adiada. 
Malhoa, por sua vez e entre outros trabalhos, apresentou Noé e Preciosa.



Aos quadros de Pinto perdeu-se o rasto. Tudo o que deles hoje sabemos resume-se ao escrito e impresso à época e a fotos preservadas no espólio que nos deixou. A Fonte do Cordeiro, c.1891, era uma paisagem de médio tamanho registando o complexo da fonte e dos tanques de rega, com o alçado quase erudito meio rococó visto de perfil, os esteios do antigo engenho já então arruinados, e o que parece ser um outro, já de recurso, feito de varais de madeira. A presença humana era dada por duas figuras femininas e seus cântaros. Uma mancha de arvoredo e os campos de cultivo enquadravam a cena. Seria hoje um documento único sobre a famosa Fonte. Já A caça dos taralhões, c. 1891 – mas por certo e como o outro pintado no final do Verão anterior - registava um rapazito descalço, deitado de bruços sobre a erva rasteira, de olhar atento na costela armada lá mais adiante, esperando pacientemente que mais um passarito lhe caísse na armadilha. Junto a ele, também pelo chão, jaziam chapéu e sacola da escola e uma mão cheia de taralhões já sem vida cujo destino seria o tacho. A paisagem era de mato rasteiro, tojos e urzes, árvores raquíticas, e muito ao longe na encosta divisavam-se as primeiras casas do povoado. Em grande formato, do que podemos adivinhar, seria uma bela duma pintura. Digna, assim e sem favor, do seu lugar na colecção Real.


Por sua vez, o quadro de Malhoa chegou até nós de boa saúde. Noé e Preciosa, 1891, é um retrato de dois irmãos, onde ele, ruço e mais velhito, a parece abraçar protegendo-a, e ela, de lenço amarrado à cabeça, partilha um pedaço de pão. Ambos sérios, suscitam ternura, não irradiam felicidade.
Com estas três telas iniciava-se a saga – era cenário, primeiro acto e protagonistas. Uma saga que se iria prolongar por uma boa meia dúzia de anos, contando as histórias de um punhado de cachopos - «o(s) filho(s) do Eduardo, então rendeiro da Fonte do Cordeiro, propriedade da família Serra» - como nos confidencia Malhoa pelo seu punho, e tendo por cenários aquelas terras ou os matos de pastorícia nas faldas do Cabeço do Peão, pelo Chão da Amoreira e sítios vizinhos.


O segundo episódio da novela chega com a 2ª Exposição do Grémio Artístico em 1892. Por certo animados pelo sucesso gerado na mostra anterior, mas sobretudo pela descoberta de tão bons modelos, vá de aviar mais do mesmo: Henrique Pinto apresenta-se então com Adormecido e A caça aos grilos, ambos datados de 1891; José Malhoa, quanto ao que agora interessa, mostra A última gota, Primeiras tentativas, Gritando ao rebanho e O almoço para o pai, todos também de 1891.







«Expõe Malhôa tambem uns quadros de genero, simples pastoraes, que parecem ter sido feitos de collaboração com o seu collega Henrique Pinto, tanto a factura d’elles se assemelha à deste artista. Houve quem chamasse áquella serie Escola de Figueiró dos Vinhos…» - disse-se então [6]. E o resto da crítica afinou pelo mesmo diapasão: «… as Primeiras tentativas e o Gritando ao rebanho [que pode ser visto hoje em dia no Museu Malhoa nas Caldas da Raínha], que várias pessoas attribuiram ao sr. Pinto, tanto elles se parecem com a Caça aos taralhões e com os dois quadros agora expostos por este artista, A caça aos grilos e Adormecido. Todos elles teem a mesma paisagem de um verde escuro, a mesma luz mais ou menos vaga e crepuscular, as mesmas figuras ao centro, no primeiro plano, ora um ora dois pequenos.» «Por isso o publico, que o anno passado soltou um brado unanime de admiração perante a Caça aos taralhões, este anno ficou bastante frio deante dos quadros enviados pelo sr. Pinto, - e tambem dos dois do sr. Malhoa.» «É que são variações de mais do mesmo thema. Ainda se fossem do mesmo artista, mas de dois!» «O caso fez-lhe espécie…» [7]
















Entendia-se, todavia, de modo diferente A última gota: «…que é de uma execução larga e bella. Um garotinho nu, sentado n’um interior de cabana, emborca a malga para lhe escorropichar a ultima gota de caldo…» [8].




















Os dois quadros de Pinto e as Primeiras tentativas, de Malhoa, podem ser vistos na presente exposição. E vê-los é bem melhor que descrevê-los.
Em todos, nestes e nos outros, o que primeiro salta à vista são os cachopos, os mesmos, «os filhos do Eduardo». Ainda o mesmo Noé, que de caçador de taralhões o é agora de grilos, ou é pastorinho que grita às cabras e adormece depois da janta. Ainda a Preciosa, que se delicia com os primeiros sons que, possivelmente, o Maximino – outro irmão um pouco mais velho – tenta tirar da flauta de cana. E mais um “artista”, mais novito, «o amigo António», o que escorropicha a malga, o que leva a merenda ao pai ou aprende com o Noé a tirar o bicho da toca. São eles os protagonistas.


Um ano mais, e na 3ª exposição do Grémio, 1893, quem sabe se pela má recepção anterior, apenas se viu uma amostra desta cachopada e num registo mais pequeno: a Preciosa, ainda com a mesma saia rosa, e «o amigo António» protagonizam uma única cena, à beira do muro «na fonte da Fonte do Cordeiro», intitulada Os curiosos, 1892. É Malhoa. E agradou - pelo menos à condessa de Proença-a-Velha que terá dado 135$000 por ele. Sabemos hoje que o quadro foi feito a partir de uma fotografia tirada por Malhoa ou por Pinto e que aquele pede por carta a este (é história já contada).

De Henrique Pinto, nesta mostra de 1893, nem rasto! O que é no mínimo curioso !? De facto, desde o início da sua apresentação regular nas exposições da Promotora (1880) até à sua morte (1912) já depois da 9ª da SNBA, esta é a única exposição onde não está presente!? Depois do mistério nunca falado da não atribuição de medalhas na exposição inaugural do Grémio e depois de mais trapalhada na seguinte – sabe-se que Malhoa recusou a «medalha de segunda classe» que lhe foi atribuída -, será que Pinto, a quem foi dada então uma «de terceira classe» precisamente pelo Adormecido, resolveu por sua vez amuar desta forma? Mais um mistério a acrescentar ao anterior…

Seja como for, no ano seguinte, na 4ª Exposição do Grémio, 1894, Manuel Henrique Pinto volta e insiste no mesmo registo: Preparativos para a caça, 1893, (também conhecido como Armando aos pássaros) é mais um episódio onde talvez ainda o Noé arma pacientemente a costela para a caçada do costume. E agora, talvez para obviar aos evidentes problemas oftálmicos do sr. João Sincero que, pelo visto, marrava no «verde escuro», um esplendoroso verde alface inunda a paisagem. Mereceu referência envergonhada da crítica e mereceu comprador. Ainda hoje corre pelo mercado.


Malhoa, por sua vez e neste particular dos «filhos do Eduardo», apresenta-nos agora o mais novito, o pequenito Venâncio brincando com uns ouriços de castanheiro, em Os ouriços, c.1894. E aqui também os verdes são outros – et pour cause!

«Agora passou a ser moda tratar mal os artistas na imprensa, e esta moda para se parecer com todas veiu importada de Paris na bagagem de um jornalista que encetou uma critica, embora illustrada e com pontos de vista elevados, exageradissima pelas comparações e pelas pretensões de querer medir pela grande bitola do Salon de Paris o nosso petit salon da rua de S. Francisco. Criticando acerbamente todos os nossos artistas não deixava de pé dois ou tres, visando, talvez, principalmente, ferir o Gremio Artistico, mas sendo em geral de uma grande benevolencia para com os amadores pretenciosos que o estragam.»
«Todavia esta critica irritante e injusta muitas vezes, não tem ainda os ridiculos de algumas outras, feitas por sujeitos que pouco enxergam de arte e vão dando bordoada de cego, macaqueando as severidades vindas de Paris, mas sem conseguirem alcançar ao menos o ar pedante e fino d’ellas.»
Com isto, e mais outro tanto, se viu Ribeiro Arthur obrigado a acabar a sua crónica sobre a 4ª Exposição, 1894 [9]. Tal seria o desvario que se apoderara da crítica - de uma e da outra.



















Depois, depois é a vez de Malhoa se dedicar À caça, 1895, possivelmente ainda com o Noé e as suas armadilhas (curiosamente a preço de saldo e com mais estória ainda por contar…). E logo, mudando-se para o outro lado da Vila, já com outra gente, nos mostrar A Olinda do lagar, 1895, com as suas trancinhas côr de fogo, rodeada de galinhas e pitos.



















Nesta 5ª Exposição do Grémio, Henrique Pinto terminaria a sua colaboração na novela de «Os filhos do Eduardo...» teimando - teimando no Noé como modelo quase exclusivo, que teima e mede forças com a cabra que finca as patas, em Uma teima, 1895, [quadro que podemos ver agora no Museu Malhoa sob o nome de Perrice]. E teimando nos verdes, nos outros, nos que ele via, nos que lhe pareciam e sentia, ele, como verdadeiramente sinceros.

















Finalmente, só na 7ª Exposição do Grémio Artístico, 1897, Malhoa se despedirá desta rapaziada. Em À passagem do combóio, 1896, reúne-os a quase todos, então já mais cresciditos: o António, o Noé, o Venâncio, a Preciosa, e a mãe Teresa com novo bebé ao colo. O quadro foi depois a Paris (1900) e naufragou na viagem de regresso. Restam dele apenas algumas fotos da época. E uma gravura francesa da autoria de Charles Baude, 1900, que é já a visão pessoal deste artista. Mais tarde, c.1905, o próprio Malhoa pintará nova versão – vendida no Brasil (1906) voltou de novo a Portugal – mas não é a mesma coisa…

















(Artigo publicado originalmente em 21 Junho 2014, in Imagens de Figueiró - o jornal da exposição patente no chamado Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos
Revisto, completado e anotado entretanto.)
Sobre este mesmo assunto pode ainda ver, publicado aqui atrasado, isto.

10 Jul. 2014. LBG

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[1] FRANÇA, José-Augusto – O Grupo do Leão, 1880 e 81. Caldas da Rainha: MJM, 1981. Resumo da conferência proferida no MJM, em 16 Dez. 1981: «um nome comum que ficou, porém, em designação familiar, nunca oficializada – nem oficializável, já que se tratou sempre de uma associação livre, sem regulamentos nem estatutos e ainda menos direcção ou presidente titularizado.»
[2] «Z. Segredo» in Diario da Manhã, de 15 Dezembro 1881. (Trata-se de Mariano Pina e do artigo inicial onde este “dá o nome” ao «Grupo do Leão»)
[3] Ramalho Ortigão (?) in O António Maria, nº134, 22 Dezembro 1881, p.405.
[4] LEANDRO, Sandra – Como Leoas: as Senhoras Artistas do Grupo do Leão (1881-1888). in Falar de Mulheres: História e Historiografia. Lisboa: Livros Horizonte, 2008. (Artigo datado de Maio 2003)
[5] São eles, seguindo a ordem pela qual vão sendo referenciados nos sucessivos Catalogos Illustrados do Grupo do Leão: João Ribeiro Cristino da Silva, José de Sousa Moura Girão, José Vital Branco Malhoa, José Joaquim Cipriano Martins, Manuel Henrique Pinto, António Monteiro Ramalho Júnior, António Carvalho da Silva Porto, João José Vaz, João Rodrigues Vieira, Columbano Bordalo Pinheiro e José Augusto de Figueiredo. D.ª Mª Augusta Bordalo Pinheiro, Rafael Bordalo Pinheiro, D.ª Helena Gomes, D.ª Berta Ramalho Ortigão, José Júlio Sousa Pinto, Francisco Vilaça, José Moreira Rato Júnior, Júlio Teixeira Bastos, Ernesto Condeixa, Augusto Rodrigues Duarte, Adolfo César de Medeiros Greno, D.ª Josefa Garcia Greno, Carlos Reis, António Soares dos Reis, José Queirós, José Veloso Salgado, António Teixeira Lopes, Duquesa de Palmela. Estes e estas, e não outros.                     .                    
[6]  ARTHUR, B. Sesinando Ribeiro - Arte e Artistas Contemporaneos, (1ª serie). Lisboa: Livraria Ferin, 1896. p.195,196 – A Segunda Exposição do Gremio Artistico. (Reproduzindo artigo publicado na imprensa da época e datado de Maio 1892)
[7] «João Sincero» in O Occidente, nº482, 11 Maio 1892, p.107.
[8] ARTHUR, B. Sesinando Ribeiro - Arte e Artistas Contemporaneos, (1ª serie). Lisboa: Livraria Ferin, 1896. p.196 – A Segunda Exposição do Gremio Artistico. (Reproduzindo artigo publicado na imprensa da época e datado de Maio 1892)
[9] ARTHUR, B. Sesinando Ribeiro - Arte e Artistas Contemporaneos, (1ª serie). Lisboa: Livraria Ferin, 1896. p.341, 342 – A Quarta Exposição do Gremio Artistico. (Reproduzindo artigo publicado na imprensa da época e datado de Maio 1894)