sábado, 31 de dezembro de 2016

Galos, galinhas e aves de arribação

A propósito do centenário de Girão

José Maria de Souza Moura Gyrão (1840-1916), antes do mais Pintor, desde a primeira hora um dos “do Leão”, com direito a retrato no celebrado «quadro da cervejaria» e tudo, participante em quase todas as oito exposições do Grupo (falhou a 7ª), nasceu em Lisboa em Agosto de 1840, filho de Alexandre de Sousa Moura Girão, alferes de Infantaria. [1]


Morreu Girão, aos 76 anos de idade, na Rua de São Gens, nº35, à S.ª do Monte em Lisboa, a 1 de Novembro de 1916. Tendo sido sepultado, com relativa pompa de circunstância, nos Prazeres. Não obstante - diz-nos Nunes Corrêa - «acabaria, mais tarde, na vala comum».
Premonitoriamente, logo em 13 de Novembro desse ano, n’O Século Cómico, «Belmiro» dedicava-lhe estes versos amargos:











































E, na mesma edição, a Illustração Portugueza publicava a seguinte nota:



Quer tudo isto dizer que neste ano de 2016, mesmo mesmo quase, quase a findar, se comemoraria o Centenário da morte do Pintor Girão.
Comemoraria[2]. Porque não vi - mas isso sou eu que sou um bocado distraído – de entre os proclamados «especialistas do século XIX», dos variados guardiães do temp(l)o, das instituições que o guardam, ou mesmo doutros escrevinhadores de circunstância, uma linha sequer a tal propósito. É natural. É coisa que não interessa nada.
Desde que o Mestre (no caso, pouco divino) resolveu ao correr da pena (des)classificar uns três dos “do Leão” - «… são os menores» - e, mais tarde, uma qualquer francesinha sem molho, mais pressurosa, arrematar superlativamente com um - «os menoríssimos…» -, o pobre do Girão tem permanecido num limbo (o que, diga-se, é bem pior que um purgatório – ali, ao menos, pena-se, mas pode-se de lá sair… do limbo nunca mais se chega ao céu). Girão nem é dos bons, nem dos maus; ganhou algum gosto do público, um certo valor de mercado, mas não vai muito além do galinheiro… - pra esta gente é assim, e pronto.

José Moura Girão cursou a Academia de Lisboa, onde terá sido «discípulo de Tomás da Anunciação e de Miguel Lupi» (curiosamente, ao contrário do então em uso nos catálogos, nunca se refere como «discípulo de f. ou s.» e só mesmo raramente aparece como «discípulo da Academia das Belas-Artes»). «Formado no academismo, adaptou-se pouco a pouco aos processos realistas da pintura» - dir-nos-á Pamplona.
Sempre referido como «o mais velho» dos do «Grupo do Leão», convém recordar que efectivamente Girão tinha dez anos mais que Silva Porto (1850-1893), década e meia sobre Malhoa (1855-1933), e mais dezoito que Ribeiro Cristino (1858-1948), dito «o mais moço» do Grupo inicial. Era mesmo mais velho que Simões d’Almeida, o tio (1844-1926), o qual da maioria dos do Grupo fora Mestre e de quem Girão chegou a ser condiscípulo. Aqui os vemos numa fotografia com «o curso de desenho na Academia de Bellas Artes em 1865». [3]

Da esquerda p. a direita. De pé: Silva Janota, Silva Orense, Sabino, Felix da Costa, Accácio, Moreira Rato, Simões d’Almeida (de bigode e pera), e Moreira.
Sentados: Pires, Antonio José Nunes Junior (que foi director da Academia), Elloy d’Almeida, Braz Martins [4], Anníbal, e Gyrão (este a ler um livro).




Não se sabe ao certo qual foi verdadeiramente o percurso académico de Moura Girão, se longo ou entrecortado… Contudo, a frase aparentemente contraditória em termos cronológicos - «…fizera o seu curso na Academia de Bellas Artes de Lisboa, no tempo de Malhôa, Columbano, Simões de Almeida, Monteiro, Nunes Junior e Felix da Costa…» - misturando gerações bem diferentes, pode não ser assim tão disparatada. Se acima o vimos com os colegas do «curso de (…) 1865», também o vemos agora acamaradando com uns jovens «rapazes ainda todos» quase uma boa década e meia depois:








Nesta foto, já antes aqui mostrada, vemos: Rodrigues Vieira, Girão, Veríssimo, Henrique Pinto, João Vaz, e Malhoa (este sentado no chão e de chapéu). Todos colegas da Academia, todos (à excepção de Veríssimo) membros iniciais “do Leão”. Desconhecem-se as circunstâncias e a data do registo, mas deverá ser de finais da década de setenta, talvez bem perto de 1880 (Malhoa, aqui quase imberbe, casar-se-ia em 29 de Janeiro de 1880…).

            Assim sendo, não é de espantar que Girão venha a ser um dos integrantes da primeira hora do «Grupo do Leão».
Participa em 1885 na decoração da nova cervejaria de Monteiro, então sim o «Leão d’Ouro», com «um quadro de primeira ordem, onde uns bonitos coelhos em sucia róem folhas de couve vorazmente, dentro de uma capoeira espaçosa, emquanto que um altivo gallo, d’uma naturalidade admiravel, olha d’alto empoleirado n’umas grades, tendo ao lado a passiva gallinha aninhada e uma pequena cascata de hervas pendentes, salpicadas de floritas». Tal como de novo colaborará, vinte anos mais tarde, em 1905, para a nova sala do restaurante com um tríptico então assim descrito: «n’um suave poente destaca-se uma cortina de alvenaria tendo estendido um bello chaile de seda amarella  sobre o qual dois pombos arrulham; ao longo pinheiros, plantas no primeiro plano e á direita uma florida olaia alindam a paysagem».

Ambas as descrições são de O Occidente - cada qual na data própria, como é evidente. E o tríptico de 1905  (o que estava à esquerda de quem entra, logo a seguir à Apoteose da Lagosta do Malhoa , na sala hoje já cortada a meio pela copa, lavabos ou coisa que o valha da sala do lado...) é, sem dúvida alguma, este: 
       (aqui numa foto com as telas ainda por restaurar, amareladas por décadas do ambiente de fumo da velha cervejaria)

Pombos, 1905. ost 107x190.









      
          E o outro, o de vinte anos antes (o da outra sala, agora "vestida" de preto, o que estaria onde hoje se vislumbram umas airosas e falsas cabeças de tonel), se não é este, deveria andar lá perto…

Uma capoeira, 1885. ost 199x124.





































                          Vale ainda a pena a leitura do artigo, meio entrevista meio biográfico, publicado em Abril de 1907, na Illustração Portugueza (a ler aqui e nas 4 pág. sequentes). De leitura agradável, ali podemos ficar a saber mais sobre a vida de Moura Girão, então já Pintor consagrado. Do seu trabalho como restaurador do Museu Nacional de Bellas Artes (actual MNAA); das e dos seus muitos discípulos e discípulas; das suas paixões - pela vida militar e pelos toiros (embora não gostasse de ir ás toiradas); do seu amor pelas capoeiras e pelas emplumadas criaturas; algumas estórias de quadros e pinturas, com galos e outros bichos; mas, acima de tudo, podemos perceber melhor quem era este homem, modesto, bom e de labor incansável.
            Da leitura, apenas duas notas:
A primeira sobre o discipulado, onde é de destacar Helena Gomes, uma das primeiras «Senhoras Leoas» a expor com o Grupo logo em 1885, obviamente levada pela mão do Mestre Girão.
A segunda, sobre a divertida estória do encontro entre Girão e outros pintores numa jornada de “ar-livre” em plena Mata do Bussaco. Às tantas, diz o articulista, Girão «…vê aparecer nitidamente a figura de Silva Porto, Malhôa, Christino e Rodrigues Pinto». Ora, este misterioso e completamente desconhecido «Rodrigues Pinto», pela certa, de uma, duas: não será outro que o Henrique(s) Pinto ou, eventualmente, serão mesmo dois – o Rodrigues (Vieira) e o dito (Henrique) Pinto. Coisas…

No Bussaco. 
Apontamento a óleo de Girão que teria sido realizado no encontro  referido na estória. 
«De costas, mestre Silva Porto pintando».[5]





            Bom. Mais que conversa, interessam os quadros, a obra de Moura Girão. Ficam aqui mais alguns apontamentos. Paisagens - que como era natural Girão começa por aí; um auto-retrato; e bichos... muitos bichos. 
              E com títulos que são também alguns deles uma pequena delícia.


Paisagem de Sintra, 1884. osm 22x13. 


































Portinho da arrábida, 1881. osm 12x23.















Patos no lago, 1883. osm 42x30.


Auto-Retrato. n.d. ost 45x37.



















































.












Uma tentação, 1883. osm 44x28.
Galinha e nove pintos, 1887. osm 19x29.



































Esquecida, 1897. ost 45x30.






















Rivais, 1898. ost 195x120




































Liberdade, 1902. ost 28x23.




























Coelhos, 1903. ost 40x27.






















Em família, 1904. osm 150x100.






















Pintaínhos, 1907. osm 32x27.

Dealbar, 1906. ost 14,5x25.


Novos amores, 1908. ost 163x130.











    
  
Viva a República!, 1910. ost 45x35.




Girão em 1910 junto ao quadro 
Viva a República!
















...e no atelier do Museu Nacional de Bellas Artes, c.1907, com um dos seus modelos.















Rebanho de ovelhas ao pôr-do-sol, 1915. aguarela s/ papel.
  

            E foi o que se pode arranjar.
Mas Girão e a sua obra mereciam mais. Agora, com tanto Mestrado, pós-Doc e o diabo a sete, bem que alguma alminha se podia dedicar a isto…

            Até pró Ano! Que sejamos todos felizes!



31 Dez. 2016. LBG
 ___________________________

[1]. Segue-se, no essencial, no que toca aos dados biográficos, a parte das imagens e catalogação das obras, o estudo, aparentemente simples mas consciencioso, de CORRÊA, Manuel Nunes, Moura Girão (1840-1916). Edição do Autor, Lisboa, 1983.
(Embora alguns dados possam parecer algo incoerentes, designadamente algumas medidas das telas, opta-se por os reproduzir como no livro.)
[2]. Tal como também se comemoraria neste ano o de António M. Ramalho Júnior (Barqueiros, 1858 – Figueira da Foz, 1916). Mas essa já é uma outra praia…
[3]. Foto publicada na Illustração Portugueza, nº59, 8 Abr.1907. É também reproduzida, tal como a legenda original, por Nunes Corrêa no livro referido.
[4]. Já agora, convém também perceber que este «Braz Martins» não será outro que o José Joaquim Cipriano Martins («filho do actor Brás Martins») e que também iremos encontrar no quadro de Columbano «O Grupo do Leão». Será o primeiro do Grupo a falecer, logo c.1888. É outro sobre quem pouco se sabe, desconhecendo-se mesmo a data do seu nascimento, e encontrá-lo aqui instala a dúvida sobre quem seria na verdade «o mais velho» dos do Leão…
A legenda da foto foi adaptada, mantendo os nomes a grafia original.
[5]. A propósito, uma perguntinha inocente: alguém me poderá explicar como é que, invariavelmente, sempre que em qualquer quadro, desenho ou apontamento desta época aparece representado, nem que seja num vulto indistinto, um pintor a pintar,  tal personagem «é» sempre, inevitavelmente, o Silva Porto?! Caramba! o bom do homem devia ser omnipresente!?

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Porque hoje é Dia do “Coiso”

(o postal do Veríssimo)


Prometi mostrar, aqui atrasado, quando falámos do António Carlos, o verso de um postal que Veríssimo José Baptista enviou em 24 de Março de 1907 a Malhoa. Na altura mostrei a frente, porque reproduz precisamente a Cabeça do António Carlos, 1903, ou Cabeça de Velho (ou também chamado O Regedor), já então na colecção de J. Relvas.
Hoje é um bom dia para cumprir a promessa e revelar o resto. Porque hoje é Dia do “Coiso”.

O postal, dirigido ao «Exmº Snr José Malhôa», então morador na «Avenida Antº Maria d’Avelar», é simples e conciso:

«O coiso – nasceu 1525 + 1579 [1] foi ferido [mostra o desenho de um olho] direito em 1545 ou 1547 era soldado raso ferido n’uma escaramuça em Ceuta | Tomada Ceuta 1415 | Servirá? – | Veríssimo | 24-3-907».



Como facilmente se percebe, esta é uma missiva que apenas se manda aos Amigos, e aos mais íntimos. Daquelas onde não é preciso dizer grande coisa que já sabemos que o outro entende o resto. É das que eu gosto.


João Rodrigues Viera (1856-1898), 
José Moura Girão  (1840-1916), 
Veríssimo José Baptista (?), 
Manuel Henrique Pinto  (1853-1912), 
João Vaz (1859-1931) e, 
em baixo, José Malhoa (1855-1933). 
Todos condiscípulos 
da Academia das Belas Artes. 
Todos, 
à excepção do amigo Veríssimo 
que trocou os pincéis por outra vida, 
membros do futuro Grupo do Leão.

Uma foto de
«J. Loureiro, Fº, Calçada do Duque, 18».

O Veríssimo era, talvez mesmo a par do Manuel Henrique Pinto, dos maiores amigos de Malhoa. Colegas na Academia - e aqui está ele nesta fotografia que será anterior à formação do Grupo do Leão - ficaram amigos para a vida. Veríssimo abandonou logo os pincéis, terá arranjado emprego estável na Companhia dos Caminhos de Ferro. Mais de uma vez, em ocasiões diversas, Malhoa lamentará o facto, referindo-se sempre a ele como um condiscípulo promissor. Depois os contactos passariam a ser esparsos - não era preciso mais, a forte amizade era tudo. 

Em 1910, Malhoa pintar-lhe-á o Retrato. Um grande retrato, o último da série em que retrata os amigos mais chegados em poses e trajos à le dix-septième siècle. Um retrato que, em 1911, leva mesmo ao Salon de Paris.
(Mas isto é uma outra história, e fica para uma outra vez…)


Aqui neste postal, como bem se entenderá, Veríssimo responde a um pedido de ajuda de Malhoa, então às voltas com a investigação histórica sobre a figura do “Coiso”.
Andava, por essa altura, Malhoa muito atarefado com as encomendas para o Museu Militar. E a recolha de toda a informação possível para uma justa feitura das obras era coisa que ambos haviam aprendido nas aulas de Pintura Histórica. Nessa busca, Malhoa também deverá ter tido notícia de um outro documento, datado de 1550, que diz o seguinte: « …filho de Simão Vaz e Ana de Sá, moradores em Lisboa, na Mouraria; escudeiro, de 25 anos, barbirruivo, trouxe por fiador a seu pai; vai na nau de S. Pedro dos Burgaleses... entre os homens de armas» [2].

E foi assim, pelas graças do “olho” do Veríssimo e do tal documento que o diz «barbirruivo» que o “Coiso” de Malhoa terá ganho muitas das suas acertadas características.

Aqui fica ele, 
Camões, 1907, 
o sublime, 
o grande poeta 
Luís Vaz de Camões. 
Pela mão de Malhoa, 
na versão final 
existente 
no Museu Militar, 
e num estudo 
a carvão do acervo 
do Museu José Malhoa.

Mas também 
na sua Poesia, 
 umas belas 
pinceladas
 na nossa Língua.












Termino
como Veríssimo:
- «Servirá?»


Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.

Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.

Quis voar a ua alta torre,
Mas achou-se desasado;
E vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.

(Luís de Camões)





10 Jun. 2016. LBG

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[1]. Hoje em dia ainda não há certeza quanto às datas quer do nascimento quer da morte do Poeta. As opiniões variam: 1524 ou 1525, e 1579 ou 1580.

[2]. A parte da nau parece que não chegou a ser, pelo menos daquela vez… terá ido noutra, para a Índia, bem entendido.


quarta-feira, 1 de junho de 2016

«O Casulo» contado às criancinhas

(a ver se os crescidos entendem…)


Neste Dia Internacional da Criança deixo-vos com o meu amigo Figueiredo, o Esquilo Figueiredo. O Figueiredo é, como o nome indica, um esquilo de Figueiró. Um Sciurus Vulgaris, de Linnaeus, um velho conhecido, um simpático bicho.

   Gosta de me aparecer por lá. Dá-me conta das avelãs, no tempo delas das nozes e das castanhas, mas principalmente das pinhas. Às vezes quero acender a lareira ou o fogareiro para assar umas sardinhas e só encontro carolos das pinhas, que o malandro mas roeu todas. Isto não impede que entre nós se tenha desenvolvido uma bela e verdadeira amizade.

Quando por lá estou e está tudo sossegado, quando não anda por lá o gato da Mena ou o canito da Dona Adélia, volta e meia lá me aparece. Empoleira-se numa ramada, olha para mim, eu olho para ele, e ficamos horas a conversar. É um bicho esperto. Sabe-a toda!
Mas é bastante reservado, e gosta pouco de trapalhices. Assustadiço. Se algo o incomoda, se alguém se arma em parvo, a coisa não corre bem, desaparece num pulo, trepa à copa mais alta dum pinheiro ou dum cedro grande e nunca mais ninguém o vê. Pelo menos durante uns tempos, até lhe passar…
Gosta muito de pinhas, mas também de respeito e da boa educação. É assim.
Apesar do aparente mau feitio, é uma jóia de bicho, um animal prestável. Bem conversado e longe de confusões, faz tudo o que se lhe pede. E certinho. Só não faz mais se não puder.

Outro dia, por um acaso, encontrei uns amigos meus às voltas com um folheto para os meninos das escolas de Figueiró. A ideia era boa, as ilustrações muito engraçadas, faltava uma história com pés e cabeça. Lembrei-me do Figueiredo. E ele tratou do assunto.
Basicamente aqui vão a conversa e os desenhos do Figueiredo feitos especialmente para os meninos de Figueiró. Agora em versão completa, antes de condensada para caber no papel. Que quando começa, e custa a começar, depois é difícil pará-lo.
Como parece que a outra custa a sair, lá por coisas, esta nossa versão vai com outros retratos de outros fotógrafos. – «É pena, pá! Gosto mesmo dos bonecos da Ana… Mas se se entretêm a engonhar, mete aí outra coisa qualquer. Enleios é que eu não quero!» – avisou-me logo o bicho. Portanto, os bonecos ficam para outra vez.
E fiquem com o Figueiredo.





Eram uma vez (em Figueiró) quatro artistas:

José Simões d’Almeida júnior, escultor.
Nasceu em Figueiró dos Vinhos, a 24 de Abril de 1844, e morreu na Amadora em 13 de Dezembro de 1926.







É do seu cinzel este mármore de «Luís de Camões», 1892, escultura que o Artista ofereceu ao «Clube Figueiroense» e que agora podemos ver no Museu.





Manuel Henrique Pinto, pintor.
Nasceu em Cacilhas, em 15 de Março de 1853, e morreu em 26 de Setembro de 1912, nas Lameiras, no fim de mais um verão passado em Figueiró.

«A caça dos taralhões», c.1891, é a primeira de uma série de pinturas, umas feitas por ele e outras por Malhoa, que 


retratam a vida e as brincadeiras de uns meninos que viviam na quinta da Fonte do Cordeiro, em Figueiró. O quadro foi logo comprado pelo Rei D. Carlos, chegou a ir a Berlim em 1896, mas depois não se sabe onde foi parar… Por isso só o conhecemos de fotografia.


José Malhoa, pintor.
Nasceu nas Caldas da Rainha, a 28 de Abril de 1855, e morreu em Figueiró, no «Casulo», em 26 de Outubro de 1933.







«O Baptismo de Cristo», 1904, é um quadro que Malhoa fez de propósito para a Igreja Matriz de Figueiró. Mostra o S. João Baptista a baptizar Jesus. Está à vista de todos lá na Igreja.


José Simões d’Almeida (sobº), escultor.
Nasceu em Figueiró, ao Cimo da Vila, em 17 de Junho de 1880, e morreu em Lisboa a 2 de Março de 1950.








O «Busto da República», 1908, foi modelado ainda durante a monarquia para a Câmara de Lisboa que era já republicana. 
Este, que podemos ver no Museu, é talvez o gesso original que Simões, mais tarde, ofereceu à sua terra.








M. Henrique Pinto e José Malhoa encontraram-se ainda rapazes na Academia das Belas Artes e ficaram amigos para a vida. Depois, já homens feitos, andavam muitas vezes juntos a pintar paisagens lá pelas terras à volta de Lisboa. Com cavaletes, telas, caixas das tintas, farnel, tudo de um lado para o outro.
Um dia, Simões d’Almeida (o tio), que era de Figueiró e tinha sido professor de Desenho de ambos, disse-lhes mais ou menos assim: - «Deixem-se de andar por aí com a tralha às costas, e vão mas é para a minha terra que têm lá muito que pintar!...». E eles vieram.
Isto foi no ano de 1883, vai para mais de cento e tal…
Gostaram tanto disto, que passaram a vir todos, mas todos os verões.

Logo, logo o Manuel Henrique se apaixona por uma moça de cá, uma prima do Simões d'Almeida (o tio) chamada Maria da Conceição, e dois anos depois casa com ela. Foram padrinhos o amigo Malhoa e a Júlia, a mulher deste. Foi a 3 de Agosto, na Igreja de S. João Baptista.
O «Zézito» Simões – era assim que lhe chamavam - tinha então cinco anos, e para além de ser sobrinho e afilhado do Simões (do tio) era também sobrinho e afilhado da Mª da Conceição. Por isso passou a chamar ao Manuel Henrique - «o tio Pinto». Parece complicado, mas não é.

(Isto pode até parecer Quadrilhice Analítica, que é uma disciplina da História da Arte onde, quando pouco ou nada se tem para dizer, se justifica tudo com umas propaladas e intrincadas amizades e outras intimidades entre os personagens, alguns que nem para ali são chamados, e se referem uns locais ou viagens que juntos fizeram, mesmo que, às vezes, as datas não batam lá muito certo… 
Pode ser parecido, mas não é! Isto é tudo verdadinha. E da de papel passado.)

Depois, dois ou três anos depois, o «Zézito» vai para Lisboa com os pais e as irmãs, fará por lá as Belas Artes, onde também foi discípulo do Tio, e irá até Paris. Portanto, o Simões d’Almeida (sobrinho) só voltará a entrar nestas nossas histórias muitos anos mais tarde… (mesmo que alguém possa achar o contrário).

Ora, se o Pinto casa cá, o Malhoa faz cá casa.

Alguns anos depois Malhoa comprou aqui um terreno (e parece que comprou mesmo…) onde construiu uma pequeníssima casa[1], apenas com uma divisão. De um lado uma cozinha minúscula, do outro uma só sala. Para dormirem dividiam parte da sala com dois biombos, um para fazer o quarto dele e da mulher, outro para o da irmã Maria Rita. A parte central, no que sobrava, era casa de jantar e de estar. Cá fora, uma barraca de colmo onde o antigo dono do terreno guardava as coisas da lavoura servia de atelier.
E de tão pequenino que aquilo era, o baptizou com o nome de «Casulo».

(Isto, mais ou menos, foi escrito pelo meu avô, o Esquilo Figueiroa, que em miúdo vinha às bolotas a um velho carvalho que havia ali ao lado, e viu tudo.) [2]

Era assim. Eu faço um desenho:



Depois, em 1898, Luiz Ernesto Reynaud, o arquitecto que estava cá a fazer as obras de remodelação da Igreja e tinha sido colega deles nas Belas Artes e aluno do Simões (o tio), fez o projecto de ampliação. A antiga casinha (o «Casulo» propriamente dito) ficou para atelier [3], e encostado mesmo ao lado construiu-se uma nova moradia. Também pequena, mas com quartos e tudo.
Por volta de 1901 estava quase tudo pronto.

E ficou assim:



Depois, bem, depois passaram muitos anos. O senhor Malhoa foi ficando velhinho, os amigos morrendo, e ele também acabou por morrer. E o «Casulo» foi tendo novos donos, foi servindo para outras coisas, e foi mudando aos poucochinhos. Mudou mesmo bastante. É giro descobrirmos as diferenças.
Mas ainda ali está, que as casas boas resistem a tudo. E podemos vê-lo agora, por dentro e por fora, descobrir coisas antigas e coisas novas. E voltar a contar histórias.
Ora as histórias podem ser bem ou mal contadas, das que dá gosto ler e ouvir, ou daquelas trapalhonas e que não interessam a ninguém. É conforme se queira. Tudo depende do modo como as deixam contar. Ou de não se armarem em tolos…





1 Jun. 2016.








[1] A casa, térrea, uma porta e duas janelas, teria para aí 8,10m de comprido por 4,70m de largo, o que dá uma área bruta de 38m2. Se descontarmos a grossura das paredes, a área útil rondaria os 24m2.

[2] Aqui, confesso, estou a usar uma figura de estilo, coisas da literatura. Nem por volta de 1898 havia esquilos em Figueiró – estávamos então extintos - nem os esquilos vermelhos, os da minha espécie, vão lá muito por bolotas – deixamos isso para os porcos e para os cinzentos, os americanos, uns outros esquilos que nalguns países da Europa são já uma espécie invasora. Mas tudo o resto – o carvalho, o avô, o ter visto, o ter escrito – é tudo verdade.

[3] Se olharem bem para os desenhos, verão que a porta e as duas janelas do atelier seriam as mesmas do antigo «Casulo». Mas agora alindadas, com as ombreiras, peitoris e vergas marcadas em massa clara, contrastando com o revestimento almagre da fachada. O mesmo no tratamento dos cunhais, entablamento e soco, remetendo para a linguagem da nova ampliação, unificando todo o conjunto.
Note-se que o atelier continuou térreo, com o piso numa cota intermédia entre a da loja da nova construção (semi-enterrada pelo tardoz) e a do andar principal. Mas ganhou pé-direito - toda a altura do novo entablamento. 
A nova cobertura, ainda essencialmente de duas águas mas com uma maior inclinação, era cruzada no seu eixo transverso por um outro sistema também de duas águas. Esta outra cobertura transversal era telhada do lado da frente, terminando sobre um tímpano triangular de alvenaria na continuidade do plano da fachada, e onde se abria uma pequena lucarna rectangular. Do lado do tardoz era inteiramente vidrada, suportada por uma estrutura metálica, possibilitando assim a entrada a jorros da luz zenital. 
Os panos de tardoz e de empena mantinham-se cegos, tal como na antiga casinha.

(Pronto: lá tive eu de me armar em arquitecto… mas dos bons. Também, se quero um ninho bem feito lá no alto dum pinheiro, tenho de ser eu a fazê-lo. E são muitos anos disso...)



quinta-feira, 28 de abril de 2016

Salve, o 28 de Abril !

(ou pode ser lá mais p’ra Maio…)

Passa hoje mais um aniversário do nascimento de José Malhoa.
Em todos os lugares onde se segue o calendário gregoriano é hoje que se assinala a data do nascimento do Pintor, 28 de Abril de 1855.

Em todos? Bem, em todos não! Há um pequeno local meio ignorado (qual aldeia de Astérix) que teima em assinalar de modo diferente… ou, pelo menos, assim parece. E desde 1955, ano do 1º Centenário do Artista.
Na verdade, numa pequena rua, a antiga Travessa de S. Sebastião, rebaptizada posteriormente Rua da Nazaré, na parede da casa onde Malhoa terá nascido, até há pouco uma pensão-restaurante, nas Caldas da Rainha, está uma placa que reza singelamente: «1855 – 1955 | 15 de Maio | 1º Centenário». Assim, tal qual!

Acima desta placa, uma outra, de semelhante desenho mas orlada de azulejos, é mais explícita: «Casa onde nasceu | o Grande Pintor | José Malhôa | Homenagem dos Caldenses».

Perante isto, qualquer menos avisado que pensará? Que a data da placa do dito «Centenário» se refere ao nascimento do Artista - como parece evidente. Ou então que, por algum sortilégio, ali na Rua da Nazaré nas Caldas da Rainha, nos regeremos por um outro calendário… (assim, a modos como quando se assinala a Revolução de Outubro a 7 de Novembro)

A placa superior é mais antiga. Foi lá posta ainda em vida de Malhoa, e disso dá conta a Gazeta das Caldas [1]: «Nascido na R. da Nazaré, próximo da egreja de S. Sebastião, foi colocada ha anos, na casa onde nasceu, uma lapide com os seguintes dizeres: “Casa onde nasceu o Grande Pintôr José Malhôa. Homenagem dos caldenses”». E prossegue: «Muito antes d’isso já a Camara Municipal das Caldas, tinha dado o nome do ilustre pintor a uma das suas ruas, e ao largo que fica em frente daquela egreja. (…)».

Ficamos sem saber exactamente quanto significa «há anos» ou quando foi «muito antes d’isso». Mas não duvidamos que tal tenha sucedido, afinal, não muito antes desta mesma notícia, aí pelo período em que se promoveu a reaproximação entre Malhoa e a terra que o viu nascer. No fundo, entre «o pedido (…) dirigido a José Malhoa em Dezembro de 1924, para que pintasse uma tela para ser colocada na Sala das Sessões da Associação [Comercial e Industrial]» [2] e a oferta do quadro da «Rainha D. Leonor», 1926, «ao Povo das Caldas», em sessão realizada com a presença do Pintor em 12 de Julho de 1926 [3]. Algures por esta altura ou um pouco antes, a alteração toponímica das artérias e a placa localizando o berço malhoesco terão feito parte do justo reconhecimento e demais apaparicos da praxe…

Certo, certo, é que em 10 de Setembro de 1928, na Homenagem caldense sequencial à grande Homenagem nacional de Junho, Malhoa se deixa fotografar frente à casa onde nasceu. Na foto, publicada na Gazeta das Caldas [4], é visível a tal placa inicial, ainda sem a orla azulejar. 


O dito jornal refere: «Mestre Malhôa, sempre alegre e sorridente, vendo-se bem vincada na sua pessoa a alegria que sentia com esta sincera manifestação, dirigindo-se junto da casa onde nasceu, na Travessa da Nazareth [anteriormente também referida como Rua], onde numa das paredes existe uma lapide comemorativa do seu nascimento; e recordando o tempo da sua infancia, por ali andou de recordação em recordação, acolhido sempre com o maior dos carinhos e atenções

Portanto, até aqui, tudo normal.

Depois, não se sabe por que carga de água, em 1955, o ano do Centenário do nascimento de Malhoa, terá surdido a tal outra placa assinalando a suposta efeméride. Alguma alma atenta, veneradora e obrigada – como eram então todas as boas almas – e, além disso, aspergida de muita água-benta da pia baptismal da Senhora do Pópulo, assim determinou.
E a placa lá está proclamando aos passantes, não o suposto centenário do nascimento do Pintor, mas, caso raro e nunca visto, o centenário do seu baptismo. No fundo, o do seu nascimento para a Santa Madre Igreja Católica Apostólica e Romana.
Como diria o saudoso (e que saudades, Jesus!, por lá terá deixado…) José Maria Pedroto: «Assim, também está certo!».


Na verdade, foi a 15 de Maio de 1855 que o pequeno José foi baptizado na igreja da sua freguesia. A crónica da função é-nos dada pelo Revº. Prior, escrita logo na altura:


Mas nada disto é novidade! Como o não era em 1955.
Já antes, aqui mesmo, citámos quem o também escreveu. Como, em 1950, mais ou menos nos mesmos termos, já Montez o havia feito [5]. E tal como o próprio Malhoa o subescrevera no preâmbulo do seu testamento, firmado em Figueiró, em 1930:


Como, ainda, a Cédula Pessoal de Malhoa, emitida em 1924, o confirma. Apenas na parte civil, obviamente:



Assim, e está visto, é mesmo hoje, 28 de Abril, o dia de aniversário de Malhoa.
Por isso, como hoje ele é menino, e era bom um pândego, um folgazão, ei-lo aqui, a cavalo num pau! Em alegre brincadeira, todo contente! [6]


Quem sabe se zombando de toda esta gente que teima em levar a coisa demasiado a sério… e, volta e meia, lá asneira… 
Pois muitos Parabéns!

28 Abr. 2016. LBG

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[1]. Gazeta das Caldas, nº 126, de 17 Jun. 1928.
[2]. Doris Santos, in Liga dos Amigos do Museu José Malhoa. Como nasce um museu. Caldas da Rainha, 2013. p.28.
[3]. A crer na Gazeta das Caldas, nº 41, de 18 Jul. 1926. A escritura seria lavrada no dia seguinte, 13 Jul. 1926.
[4]. Gazeta das Caldas, nº 140, de 23 Set. 1928.
[5]. António Montez, in Malhoa Íntimo. Caldas da Rainha, 1950. p.20 (o nº de pág. refere-se à 2ª edição, 1983). No seu escrito Montez omite a data do nascimento, usando genericamente «na Primavera de 1855», o resto é mais ou menos referido.
[6]. A foto, inédita, tudo indica será anterior a 1910. E o gordinho, o que segura o guarda-sol, não faço a mínima ideia quem seja…