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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Paris 1900 – L'Exposition Universelle

De meia dúzia, sobra um…


No mesmo ano em que, como já vimos, era exposto no Salon da Société des Artistes Français o Retrato da Ex.ma Sr.ª Condessa de Mossamedes [1], decorreu também em Paris a Exposição Universal de 1900.
Integrada nesta Exposição Universal realizou-se L’exposition décennale des Beaux-Arts | 1889 à 1900. Na secção portuguesa, Malhoa participa com seis obras. Algumas já habituadas ao ar do Sena e já aqui referidas, outras antes mostradas no Grémio lisboeta, e uma especialmente preparada para esta ocasião. Segundo o Catalogue illustré officiel, foram elas [2]:
 
54Les Potiers
55 A blanchir le linge
56Les Boulangères
57Le Professeur titulaire de chaire
58Portrait du prieur de Constancia
59 En voyant passer le train.



            Vejamo-las rapidamente, uma a uma.




Les Potiers / Os oleiros, c.1897, 130x165. O já nosso conhecido do Salon de 1897, seria agora merecedor duma Medalha de Oiro neste certame.


Les  Potiers / Os oleiros, c.1897. ost, 130x165


A blanchir le linge / A corar a roupa, 1899. Foi obra cuja única apresentação aconteceu nesta mostra. «Pintei n’este ano em Figueiró, o quadro “a córar a roupa” que vai figurar na exposição de Paris…» refere Malhoa em nota de final de ano, em 31 de Dezembro de 1899 [3]. Refere-se, por certo, a este quadro. E por certo também deste quadro é esta imagem [4].

A blanchir le linge / A corar a roupa, 1899. ost.

«Uma outra sua tela “As lavadeiras”, essa não podia vêr-se pela altura demasiada a que ficou. Foi pena porque esse quadro, cuja perspectiva assim se alterava pela deformação dos planos, era d’um quente e lindo colorido» [5] - resumem-se praticamente a isto as apreciações conhecidas a este interessante trabalho de Malhoa, realizado propositada e visto unicamente nesta ocasião. Não será, contudo, muito difícil de imaginar como seria. A foto que resta, embora a preto e branco, e o «estudo» deste mesmo quadro [6] existente no MNBA do Rio de Janeiro, darão preciosa ajuda…


A corar a roupa (estudo), c.1899. ost, 63x75. MNBA, Rio

            Pela amostra, deve ter sido uma grande tela!


A corar a roupa (estudo),1898. folha de álbum, 15x23. MJM, Caldas da Raínha

E, já agora, fica mais isto - um desenho preliminar, folha de álbum, datado do verão anterior, onde podemos perceber já as composições de ambas as telas. Note-se, na correspondente ao quadro de Paris, uma segunda figura com presença importante e que foi suprimida na versão definitiva.

(Só em 1928, na SNBA, será mostrada uma nova versão de A corar roupa, com mais roupa e menos lavadeiras. Essa tem foto no catálogo e há estudo só do linho. Mas não é coisa agora para aqui chamada).



Les Boulangères / As padeiras (mercado em Figueiró), 1898, 45x54. Apresentadas na 8ª Exposição do Grémio Artístico, 1898, e como vimos antes, compradas nesse mesmo verão, juntamente com Os oleiros, por Jerónimo Bravo [7]. Viajadas, haviam ido no ano anterior a Liverpool, e - sorte a delas! - seguiriam de Paris para S. Petersburgo onde seriam expostas no ano seguinte. Gozam ainda de boa saúde e muito se recomendam.

Les Boulangères / As padeiras (mercado em Figueiró), 1898. óleo, 45x54. c.p.



Le Professeur titulaire de chaire / O Catedrático, c.1898. É o mesmo do Salon de 1899, agora com outro título em francês. Como já explicado, de tal quadro não haverá imagens, restando este provável estudo.

Estudo para O Catedrático (?), 1898. osc, 33,5x40



Portrait du prieur de Constancia / Retrato do prior de Constância, 1899. Também com ligeira alteração no nome, é o já conhecido do Salon de 1899. E deste é que não resta qualquer imagem conhecida.



En voyant passer le train / À passagem do combóio, 1896, 40x65. Inicialmente apresentado na 7ª Exposição do Grémio Artístico, 1897, já sem preço de catálogo - sinal de haver sido vendido, ainda com o verniz a secar, a José Relvas. O mesmo que o haveria de emprestar e perder agora.
«À passagem do comboio – é uma animada scena, tão frequente, a que o pincel de Malhôa apanhou em flagrante toda a vida e intensa expressão d’alegria expontanea. O comboio foge rapidamente e o rapazio, que correu ás barreiras a vel-o passar, ainda não acabou a esfuziada de gritos e risos; teem todos o gesto animado das grandes ocasiões, um lança a perna sobre o ripado, agita-os um extremecimento de vida, só a rapariguinha que traz ao collo a irmã pequenina, conserva attitude socegada de quem, tendo um dever a cumprir, não pode deixar-se arrebatar por enthusiasmos.» - assim o descrevera Ribeiro Arthur aquando da apresentação, em 1897 [8].
            Deste há imagens com fartura [9].

En voyant passer le train / À passagem do combóio, 1896. óleo, 40x65

           
             Malhoa fará uma segunda versão de À passagem do combóio, c.1905. Aparentemente menos interessante, e onde enfia o barrete ao cachopo deitado sobre a cerca. Levá-lo-á ao Brasil em 1906 [10], ali será vendido a «Baldº Carq.ja Fuentes», por «1:900$000 (…) em moeda brazileira». É, muito possivelmente, este, não datado, e que entretanto terá vindo mais recentemente repatriado.

À passagem do combóio, c.1905. ost, 47x67, c.p.


Assim, a correr, é esta a história possível das seis obras que Malhoa levou à Exposição Universal de Paris, 1900.

Depois, na volta, o barco que as trazia afundou-se. Perderam-se cinco das obras de Malhoa e mais uma série de outras de outros Artistas nacionais. Foi grande a perda - como se pode calcular! A esta exposição internacional havia ido do melhor que então por cá era produzido.

Em 8 de Abril de 1901, com letra nervosa, Malhoa assenta no seu livro: «Recebi na Inspecção Geral da exposição Nacional de Paris, ondé inspector o Ressano Garcia a importancia do seguro dos meus quadros, que figuraram na mesma exposição, os quadros que se perderam no naufragio do “Saint Andre” foram, “Os Oleiros” pertencentes ao Bravo, valor um conto de reis, “a córar a roupa”, tres mil e quinhentos francos, (os quaes me foram pagos a 250 rs estando o Cambio a 259 !) “À passagem do Comboio, pertencente ao José Relvas, valor 300$000 [11], “O Cathedratico”  1.500 francos, retrato do prior de Constancia 300$000 – Total - 2:850$000».

Do desastre, safaram-se As padeiras, bafejadas pela sorte de não haverem embarcado por terem viajem marcada até à Rússia. Foram e vieram. E todos agradecemos. É um belo quadro!


A Medalha de Paris 1900, frente e verso - não é a d'oiro, que essa pagava-se.



Moral da estória:
Fica provada, pelo menos neste caso, premonitoriamente e apesar do que dizem, a vantagem da rota de Kronstadt, bem mais segura que a infeliz viagem mediterrânica, a bordo de um velho navio francês a cair aos bocados, em nome de santo, e (falta saber, mas tenho a fezada) conduzida por algum inepto capitão tudesco…


17 Jan. 2013. LBG.



[1] Sobre isto pode ver o artigo anterior.

[2] Para além do Catálogo, confirma-o, em grande parte, A. Acácio Martins Velho (1848-1929), amigo tomarense, no seu Folhetim | Paris e a Exposição | (impressões de Viagem), publicado durante largas quinzenas in A Verdade: Semanário [então quinzenal] Democrático de Tomar.
No nº1073, 21ºano, 25 Novembro 1900, (13ºfolhetim), quando chega à Pintura e à «nossa exposição [que] comprehende 122 telas…» [na verdade, pelo catálogo, 123 trabalhos], Martins Velho escreve: «Malhôa o mais devotado pintor dos costumes nacionaes e das scenas campestres da nossa terra apresentou seis bellos trabalhos dos quaes distinguiremos – os Oleiros, os Padeiros [traduzindo trocou o género], o Professor e a Passagem do comboyo

[3] Já anteriormente citada, então na íntegra. Do livro manuscrito «Receita | Despeza».

[4] Publicada in Serões. nº10, Abril 1906, Lisboa, Livraria Ferreira. Acessível aqui.
Aproveite para ler Ramalho Ortigão e o seu belo artigo vespertino da viagem de Malhoa ao Brasil - mais vale que me ler a mim ou outras parvoíces…
E, para o outro lado do Atlântico, umas páginas mais adiante, isto: Bernardelli, Visconti e tal - deve interessar.

[5] José de Figueiredo, in Portugal na Exposição de Paris. Lisboa: Empreza da História de Portugal, 1901. Apesar do título que dá ao quadro,  traduzido pessoalmente do francês, era sobre este que falava.

[6] Como abordado em anterior artigo, designado pelo próprio Malhoa como «”a corar a roupa” (estudo)» e vendido no Rio em 1902, por Guilherme Rosa, para a colecção da Escola Nacional de Bellas Artes. Não se percebendo porque se insiste em data-lo de 1905…?! É um «estudo» deste aqui, e pronto! E um grande «estudo», por sinal!

[7] No seu livro «Receita | Despeza», no verão de 1898, Malhoa anota «Venda dos “Oleiros” e “Padeiras” ao Bravo – 500$000» (fez desconto, que no catálogo estavam por 500$000 e 250$000, respectivamente).
Mais uma vez, não se entende a indicação de haver sido «vendido em Março de 1900», quando já estaria de malas aviadas até Paris... (mais uma cartinha mal lida... e, como também lá falta esta Exposição que não será «menor», é mais uma fichazinha boa para pendurar na parede.)

[8] B. Sesinando Ribeiro Arthur, in Arte e Artistas Contemporaneos, 2ª serie. Lisboa: Livraria Ferin, 1898. p.252 a 253 – A setima exposição do Gremio Artistico.

[9] Desde logo a fotogravura do catálogo de 1897, publicada também no Occidente, em Branco e Negro… e, já “postumamente”, no catálogo de 1928. A acima mostrada.
Existe ainda uma xilogravura «segundo original de José Malhoa», «realizada por Charles Baude, em 1900, para a revista Le Monde Illustré, e de que o pintor ofereceu uma “prova de artista”, impressa sobre papel de esquisso, a José Relvas.» Existente no acervo dos Patudos, foi publicada e comentada por José António Falcão in Os Corpos e as Almas: Obras de José Malhoa na Colecção da Casa dos Patudos. Alpiarça, Fig.º dos Vinhos: Casa dos Patudos, Clube Figueiroense, 2006. p.17 e 35. (o citado no início deste segundo parágrafo) . E que pode ver aqui.

[10] No Catálogo da Exposição do Rio tem o nº24 e a indicação «(Paris Salon 1905)». Como já referimos na nota (9) do artigo anterior, esta, como outras, deverão ser imprecisões ou erros. Consultados os catálogos de Paris 1905 (quer o da Société des Artistes Français, quer o da Société Nationale des Beaux-Arts – ambos com a assinatura de posse de Malhoa) nada foi encontrado que tal confirme, sequer (como relativamente ao Salon de 1900) qualquer nota manuscrita. Chatouillant, e chega!

[11] Ficamos sem saber o destino do dinheirinho dos quadros do Bravo e do Relvas – está registado na «Receita», nada aparece na «Despeza»… isto não quer dizer que não tenha acontecido de outra forma, nem tudo foi anotado.
Sabemos que a Relvas deu a gravura de Baude, referida acima na nota (9) deste artigo, obviamente para compensar a perda do quadro; ao Bravo irá fazer mais tarde uns retratos, a preço jeitoso, dele e da Mulher…


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Ao jeito de adenda,

sobre dois quadros já aqui referidos.


«Aprender, aprender sempre…» recomendava o velho Vladimiro. Como caíu em desgraça, isto anda esquecido. Além de se aprender pouco, parece que há vergonha em admitir que se não sabe… Pois bem, é sempre altura de aprender mais qualquer coisinha e de emendar a mão se asneira dissemos.
O caso não é de asneira, mas faltou alguma coisa. Emendemos pois a mão.

Ontem, a despropósito, saltaram duas fotografias do caixote. Da época, sumidas, uma delas anotada presumivelmente pela mão do Malhoa. De boa colheita, posso garantir. Como não eram o que procurava, iam de novo abeberar, quando se fez luz! - tinham a ver com dois escritos recentes e haviam feito falta. Por isso aqui ficam.


A primeira é a foto de O Soalheiro, 1904. Pequena, demasiado sumida pelo tempo – tem seguramente mais de um século. E, não acrescentando muito ao que já foi dito, serve, pelo menos, para dar um fim feliz à novela.
Prova que aquele quadro há dois meses referido e mostrado numa foto de fraca resolução tirada da net, sempre existiu e não é de «fábrica coberta» - ao contrário de outros que surdem não se sabe muito bem d’onde…  E, apesar da fraca qualidade de ambas as reproduções, não haverá alguém que não admita estar perante o mesmo quadro. Quanto a ser ou não O Soalheiro, o anteriormente escrito diz quanto basta.


A segunda fotografia é de umas Cebolas. E há duas fotos – uma mais pequena e esta em tamanho postal. Assinalada no verso, a lápis, «as cebôllas» e posteriormente riscado «as», e por outra mão emendado «Embaraçando» - o que deve ser asneira…

Na verdade sabe-se muito bem o que é Embraçar cebolas, 1896 – quadro repetidamente reproduzido. Como também se sabe o que é As Cebolas Vermelhas, 1908 – Oignons Rouges, no Salon de 1909, Cebollas Rojas, em Buenos Aires, 1910, quadro reproduzido no respectivo catálogo - e não, não foram a Santiago do Chile ! (apesar de…, e a crer no catálogo).
Portanto, estas Cebolas não são seguramente nenhuma das referidas.


Ora, no artiguinho sobre a "Exposição Guilherme Rosa" no Rio de Janeiro 1902, faço referência, na nota [11], a um outro artigo de jornal que descreve umas Cebolas e refiro também que na 1ª Exposição da SNBA, 1901, Malhoa apresentou um quadro com tal título.
Vejamos então melhor o que nos diz o anónimo articulista de 1902: «”As cebolas” é outro trabalho magnífico, em que, além da impeccabilidade das figuras das “ceboleiras”, há o estudo da paizagem, que é delicioso». Serve.
A crer nesta fonte, percebemos que o quadro levado e vendido por Rosa no Rio em 1902, representa umas «ceboleiras» e uma deliciosa paisagem.
Olhando para o que é possível ver nesta fotografia, admite-se que tal descrição a este se aplique. Note-se, por outro lado, uma certa semelhança compositiva entre a figura da principal ceboleira e a lavadeira de A corar a roupa, c.1899, outro dos quadros dessa mostra, hoje no MNBA do Rio.

Por fim, olhe-se com cuidado para a «Foto do atelier de Malhoa em Campo de Ourique, cerca de 1901» que acompanha aquele artigo – se o quadro, meio encoberto pela cadeira austríaca, por baixo de A corar a roupa e ao lado de Gozando os rendimentos, prontinhos para ir para o Rio, não é este… macacos me mordam!
Parece pois, salvo mais douta opinião, que aqui temos Cebolas, c. 1900, o quadro da 1ª Exposição da SNBA e o que Guilherme Rosa vendeu no Brasil em 1902.

E peço desculpa por não ser uma «Paisagem».


5 Set. 2012. LBG.

sábado, 25 de agosto de 2012

1902 - O senhor Rosa chegou do Brasil !

… e fartou-se de vender quadros...




JMalhoa, A última gota, 1891. ost 105x110, c.p.
« Receita, Maio de 1902, 31.
Recebi do Rio de Janeiro, por intervenção do Antonio David, pela venda de dois quadros que para aquella cidade mandei em [espaço em branco] um intitulado “Os ouriços” outro “a ultima gota”, pintados em Figueiró dos Vinhos, na Fonte do Cordeiro, servindo de modelo para os dois quadros o filho do Eduardo, então rendeiro da Fonte do Cordeiro, propriedade da família Serra.
Figuraram os dois quadros na exposição do “Gremio Artistico” pelo centenário do Marquês de Pombal [1].
Vendidos pela importância de rs. 258$620 »


« Receita, Agosto a Dezembro 1902.
Recebi do Guilherme Rosa, da venda dos meus seguintes quadros na exposição organisada pelo mesmo no Rio de Janeiro: “o pilha-gallinhas”, “a corar a roupa” (estudo) “Gosando os rendimentos”, “as cebolas”, “à sesta”, “o barbeiro na aldeia” (estudo) – 1:154$000 »




Foto do atelier de Malhoa em Campo de Ourique, cerca de 1901.
Sob o olhar de Novais, feito Homem do gorro, 1900, vêem-se dois dos quadros
que irão para o Brasil: A corar a roupa, c.1899 e Gozando os rendimentos,1898,
e, ainda, o que parece ser Cebolas, c.1900.

outro "a ultima gota", pintados em Figueiró dos Vinhos, na Fonte do Cordeiro, servindo de modelo para os dois quadros o filho do Eduardo, então rendeiro da Fonte do Cordeiro, propriedade da família Serra.
Figuraram os dois quadros na exposição do "Gremio Artistico" pelo centenário do Marquês de Pombal.
Vendidos pela importan

            Estes dois apontamentos manuscritos por JMalhoa no seu livro de «Receita – Despeza» referem-se a vendas de quadros no Brasil durante o ano de 1902. Dos primeiros desconhecem-se as circunstâncias e aparentemente nada terão a ver com os segundos – provavelmente tratou-se de uma venda mais ou menos particular [2]. Mas dos outros sabemos que foram vendidos numa «Exposição de Arte Portugueza» que decorreu no Rio de Janeiro.


JMalhoa, À Caça, 1895. ost 91x50 c.p.
Não é certamente A caça dos taralhões, c.1891,
 esse de MHPinto, mas pela descrição de Fantasio,
(ver nota 2) parece ser a este que se refere...

Organizada por Guilherme Rosa, numa das «amplas salas do Lyceu d’Artes e Oficios», a exposição abriu no dia 17 de Julho e terá durado 23 dias. Recebeu «a visita do presidente da Republica, que elogiou o desenvolvimento artistico portuguez, o seu caracter próprio…»


Esta exposição, até agora praticamente ignorada, acaba por ter uma importância histórica enorme nas trocas artísticas entre as duas margens do Atlântico. É nela que a Comissão de Compras nomeada por Joaquim Murtinho, ministro da Fazenda brasileira, e da qual faziam parte Rodolfo Bernardelli, escultor e director da Escola Nacional de Belas Artes, Rodolfo Amoêdo, pintor e professor da ENBA, e Carlos Américo dos Santos, jornalista, propõe a aquisição, para a Pinacoteca da Escola Nacional de Belas Artes, de uma dezena de obras de Pintores Portugueses [3].


JMalhoa, A corar a roupa, c.1899.
O quadro do MNBA-RJ em foto antiga
É deste acervo da Escola Nacional de Belas Artes, enriquecido por muitas outras aquisições e doações, que se vem a constituir o núcleo do actual Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.











José Malhoa encontra-se ali bem representado, logo com a grande versão parisiense de .As Cócegas, 1904,  - adquirida ainda por intermédio de R. Bernardelli, mas já na exposição do Rio de 1906 - e, para além de mais algumas outras obras, com três importantes quadros que constam daquele rol de 1902. São eles, as pequenas tábuas Gozando os rendimentos, 1898, e A Sesta, 1898 [4], (sem ou com assento grave no À, como grafou Malhoa – o que não será pormenor de somenos, a ser resolvido por um qualquer acordo ortográfico…) e a tela de média dimensão A corar a roupa, não datada, mas que Malhoa nos diz que é um «estudo» - por certo da tela com o mesmo nome que levou à Exposição Universal de 1900 e que afundou no regresso de Paris – devendo, portanto, datar-se desse ou dos anos anteriores [5]


MHPinto, A saída do rebanho, 1900,
em foto antiga e na moldura original...
Outro dos quadros comprados para a ENBA.
















Mas o mais interessante é ver mesmo o que nos diz Guilherme Rosa, numa entrevista a um jornal português, na hora do seu regresso do Rio: [6]



« A exposição d’arte portugueza no Brasil »

« O sr. Guilherme Rosa, chegado ha seis dias do Rio de Janeiro, onde estivera como organisador da Exposição d’arte portugueza, deu-nos, a tal respeito, as seguintes curiosas impressões:
- A minha estada no Brasil por varias vezes trouxe-me a certeza de que uma exposição de pintura e d’artes applicadas daria alli um optimo resultado. O Brasil é um explendido paiz, e qualquer iniciativa artistica é acolhida de braços abertos. Não julgue isto um exaggero de viajante agradecido; não, apenas a verdade, integra e formal. Parti de Lisboa com 86 quadros, no valor de 11 contos, e volto trazendo 6 contos de réis, de 51 quadros vendidos. Por toda a parte tive um optimo acolhimento, tendo-me sido cedida uma das amplas salas do Lyceu d’Artes e Officios, onde organisei a citada exposição. Tive-a aberta durante 23 dias, tendo recebido a visita do presidente da Republica, que elogiou o desenvolvimento artistico portuguez, o seu caracter proprio, e sobretudo o calor que se desprendia das paisagens e dos assumptos, todos de um grato regionalismo.
- Qual o pintor que mais exito alcançou?
- Não poderei especialisar. Basta que lhe diga que Columbano, Malhôa e Salgado, foram os tres triumphadores. De Columbano ficaram nas Bellas Artes os seguintes quadros: A locandeira, A luva branca, Cabeça de mulher, O soldado. A Madona, comprei-o eu [7].
- E Malhôa?
- Agradou muito, tanto, que se mais quadros seus levasse mais vendia. Malhôa é um artista muito justamente apreciado no Brasil. A sua exposição foi um successo, e vi-me em dificuldades, com tanto pedido. Trago 17 encommendas de quadros para esse artista. Toda a imprensa foi unanime em elogiar o pintor, que ainda não era absolutamente conhecido n’aquellas paragens.
- Absolutamente?
- Sim, porque ha varios negociantes extrangeiros que levam o seu delírio a inventarem quadros de pintores applaudidos. De Malhôa, vi por lá uma infinidade d’elles, todos apocryphos. N’um d’aquelles ateliers, ha dois artistas, empregados em imitarem assignaturas… Como lhe conto, Malhôa era conhecido apenas pelos quadros que não pintára [8].



MHPinto, As formigas no mel, c.1899.
Quadro que G. Rosa afirma também ter vendido.
Actualmente de paradeiro desconhecido.
Notícias suas serão bem vindas...
- E, Salgado?
- Tambem foi um dos nossos pintores mais acarinhados pela opinião publica. Vendi o seu unico quadro, dos que levava para vender. Mas como falámos de Malhôa, esquecia-me dizer-lhe, que vendi para as Bellas Artes os quadros: Córar da roupa, A sesta, e Gosando os rendimentos… De Salgado vendi, lembra-me agora, Azinhaga em Bemfica. Mas temos mais: de Henrique Pinto, A sahida do rebanho, para as Bellas Artes, e Formigas no mel [9]; de Carlos Reis, o Amores d’um moleiro. [10]

- E dos novos?
- Vendi dos que mais successo fizeram entre nós. De David Estrella, Sousa Lopes, de Galhardo, e d’outros…
- De Raphael Bordallo Pinheiro?
- Vendi tudo. O eximio artista tem um grande publico. Pela familia Bordallo: De Columbano, Raphael e de Maria Augusta, tem o Brasil um verdadeiro culto, vehemente e sincero. É um triumvirato glorioso… Da arte applicada vendi todos os oiros cinzelados por Carvalho e alguns trabalhos de Cristofanetti.
- Pelo visto, a sua artistica viagem trouxe um grande effeito moral, consolador e grato, á estiolante (mercê da indifferença alfacinha) arte portugueza?
- Creio bem que sim. Repito-lhe: no Brasil tive um carinhoso acolhimento, tanto que breve tenciono repetir a minha digressão, até S. Paulo e Santos, d’onde – d’esta vez – recebi pedidos para a minha ida, mas onde me foi impossivel chegar.
- Com que então, Columbano, Malhôa e Salgado foram os 3 grandes triumphadores? Desculpe a repetida pergunta…
E Guilherme Rosa, consultando o seu carnet, diz-nos:
- De Malhôa vendi tambem As cebolas, o Sendeiro e O barbeiro na aldeia [11]. Este ultimo comprou o nosso compatriota visconde de Villela, que é um grande auxiliador de todas as iniciativas artisticas que tragam a chancella portugueza… Columbano foi admirado por todos os visitantes, alguns comparavam a maneira do nosso mestre á de Velasquez. Foi um delirio.
- E qual era a commissão nomeada pelo governo brasileiro para escolher os objectos de arte, os quadros?
- D’essa commissão faziam parte o director das Bellas-Artes, o esculptor Adolfo [sic] Bernardelli, e seu irmão, um grande pintor… emfim, os irmãos Bernardelli. [12]
E, terminando a nossa ligeirissima palestra, inquirimos:
- É a primeira exposição portugueza d’arte que se fez no Brasil, não é verdade?
- Não, senhor. A primeira foi, creio, ha 25 annos, uma exposição organisada por Luciano Cordeiro.
Finalmente, perguntámos ainda:
- Emfim, o nosso amigo achou o terreno admiravelmente preparado, e o publico esperando-o anciosamente?
- Sim, senhor, repito-lhe: o Brasil é um grande paiz, e as coisas portuguezas recebem lá um acolhimento superior… até, ao que nós proprios nos outorgamos. Os nossos artistas são mais bem recebidos lá… do que cá. É a verdade.



O Sr. H. Chaves comprou,
 mas, depois, o Sr. Bernardelli terá desfeito a compra,
e comprou ele para as Belas Artes...
É o que se conclui desta notícia.
E despedimo-nos, agradecendo ao nosso amavel visitante a gentileza de nos ter escolhido para dizer das suas impressões. Sabe- »
[aqui, literalmente, alguém lhe cortou o pio…]









25 Ago. 2012. LBG.





ultima gota", pintados em Figueiró dos Vinhos, na Fonte do Cordeiro, servindo de modelo para os dois quadros o filho do Eduardo, então rendeiro da Fonte do Cordeiro, propriedade da família Serra.
Figuraram os dois quadros na exposição do "Gremio Artistico" pelo centenário do Marquês de Pombal.
Vendidos pela importancia de rs. 258$620»
outro "a ultima gota", pintados em Figueiró dos Vinhos, na Fonte do Cordeiro, servindo de modelo para os dois quadros o filho do Eduardo, então rendeiro da Fonte do Cordeiro, propriedade da família Serra.
Figuraram os dois quadros na exposição do "Gremio Artistico" pelo centenário do Marquês de Pombal.
Vendidos pela importancia de rs. 258$620»


[1] Apenas dez anos depois, Malhoa faz já algumas confusões: refere-se impropriamente ao Centenário do Marquês de Pombal, comemorado em 1882, querendo referir-se à 2ª Exposição do Grémio Artístico, de 1892, aquela onde apresentou o seu polémico O último interrogatório do Marquês de Pombal, 1891. Nesta exposição figurou, como bem refere, A última gota, 1891. Já Os ouriços, 1894, só aparecerão na 4ª Exposição, a de 1894.
Quanto ao resto, vale o que vale; mas é de crer que JMalhoa saiba do que escreve-  se bem que aparentemente o «filho do Eduardo», se era o mesmo, muito tenha mudado em três anos... 
(Sabemos hoje que os filhos do Eduardo eram vários - o Saúl, a Aida, o Maximino, o Noé, a Preciosa, o António e o pequeno Venâncio…)

[2]  Há no entanto uma crónica de 1895 que pode ler aqui que coloca no Brasil uns quadros que poderão ser alguns destes… confusões de títulos e de descrições das obras à parte, pode assim ter acontecido.
 A ser assim, o pagamento veio com “ligeiro” atraso e tal pode justificar o espaço deixado em branco por Malhoa – já se não lembrava quando para lá os mandara… 
[adenda em 12.7.2014] Agora, e já que aqui chegámos, vale a pena mais alguma reflexão. 
Nesta crónica relativa à VIII Exposição Geral de Belas Artes, 1895, no Rio, Fantasio - ao que parece Olavo Bilac - descreve-nos dois quadros de Malhoa. Um, não há dúvida, trata-se de Os ouriços, c.1894, quadro que Malhoa dá por vendido no apontamento citado logo ao começo deste artigo. O outro, o que Fantasio intitula «Caça aos taralhões» (em evidente confusão - propositada ou não - com o quadro de MHPinto amplamente referido aquando da Exposição do Grémio de 1891) também não levanta muita dúvida que se trata, afinal, de À caça, 1895. O que Fantasio nos descreve, pormenor a pormenor, é este quadro. E, vinte e um anos depois, noutra crónica a propósito da ida de Malhoa ao Rio, agora já Olavo Bilac, repete tintim por tintim a mesma história.
Tudo isto é interessante e levanta algumas questões para as quais não encontro respostas:
1. Será que Malhoa, quando em 1902 aponta a venda dos quadros, para lá de já não saber muito bem quando os teria enviado para o Brasil, também já não sabia quais eles eram? Ou as vendas do António David nada tiveram a ver com esta tal Exposição de 1895, embora tudo leve a crer que lá tenha estado Os ouriços?
2. A confusão de À caça de Malhoa com A caça dos taralhões de MHPinto foi apenas da cabeça de Fantasio, ou foi coisa armada (tal como a costela do cachopo) na própria Exposição (e por quem?) para impingir, a brasileiro incauto, quadro com estória mal contada e que nem pela metade do preço do costume tinha conseguido dono, meses antes, no Grémio, em Lisboa?
3. Se Os ouriços, estes ao que tudo leva a crer, foram vendidos por esta ocasião, que raio de Os ouriços serão o nº47 do catálogo da Exposição de Malhoa no Rio em 1906?

[3]  Sobre este assunto, consultar um interessante artigo de Arthur Valle publicado em 19&20 e que pode ler aqui.

[4] O quadro, assinado e datado, não deixa dúvidas quanto a isto. No entanto, em 1950, A. Montez ter-se-á enganado e, em 1996, P. Henriques dali terá copiado o erro… mas depois disso, nos dias de hoje, só mesmo a parvoíce e a teimosia podem persistir em datá-lo de «1909» por tudo quanto é sítio…

[5] A não ser que uma nova e bizarra teoria que nos quer convencer que os “estudos” são posteriores aos “quadros” venha a fazer escola…

[6] Infelizmente a partir de recorte de jornal não identificado. Como outros referidos em artigos anteriores, dos antigos espólios pessoais de Malhoa ou de MHPinto, actualmente no acervo do Museu José Malhoa ou em colecção particular.

[7]  Talvez isto resolva o problema da «Madona e Soldado». Sempre eram dois quadros - ficou lá O Soldado, sem Madona, e esta, sem o militar, terá voltado na mala do sr. Rosa…

[8]  Note-se a conversa recorrente sobre uns “artistas” brasileiros - pelo visto já desde 1902 !? - …pero que las hay, las hay…

[9]  Particularmente interessante esta referência à venda no Brasil de Formigas no mel, c.1899, quadro de M. Henrique Pinto, actualmente de paradeiro desconhecido – é a única informação sobre esta obra posterior à sua mostra na 9ª do Grémio Artístico. Quanto a A Saída do rebanho, 1900, confirma-se a sua venda à ENBA nesta ocasião, como consta nos registos do MNBA.

[10] Aqui, G. Rosa esqueceu-se de referir Condeixa e os quadros Um homem do mar e Chrysanthemos, que aparecem num outro artigo noticioso. O primeiro também adquirido para a ENBA.
Nesse outro artigo são ainda referidos: João Vaz e No Tejo; J. Colaço e Baptismo arabe; H. Casanova e as aguarelas Na Ericeira, No Cabo da Roca e Na Guia, e mais três não identificadas; Roque Gameiro com Fonte da Riba Fria e Rio de Ribafria, aguarelas também; Luciano Freire e Margens do Vizella; Teixeira Bastos e Mendigos; Rafael Bordalo e um busto de Eça de Queiroz, para lá de outros productos das Caldas da Rainha; David de Mello e Madrugada na Portella; João Galhardo e Merenda do Senhor da Serra; Ferreira da Costa e Musica Divina.
Mais outros recortes: O Paiz, do Rio, de 19 de Julho, acrescenta umas paizagens de José António Jorge Pinto; e a Gazeta de Noticias, do Rio, de 18 de Julho, fala também de um A rapariga de Columbano, de uns bibelots de Bordalo e de dous lenços de renda de João Anjos.

[11]  Malhoa refere O pilha-galinhas no lugar deste Sendeiro – cremos que ambos se referem ao mesmo com nomes diversos… Malhoa ainda nos diz que este O Barbeiro na aldeia era um “estudo”. E quanto a As Cebolas, a descrição que dele faz um dos artigos referindo «o estudo da paizagem» e «das figuras das “ceboleiras”», faz-nos pensar em Embraçar cebolas, 1896 – mas este, em 1928, era propriedade do Duque de Palmela… - portanto, seria uma outra versão; e em 1901, na 1ª SNBA, Malhoa apresenta mais umas Cebolasserão estas.

[12]  Sabemos hoje que, aqui, Rosa se confunde…