Mostrar mensagens com a etiqueta MHPinto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta MHPinto. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

As “gralhas” e o meu Amigo Raposo

Algumas notas sobre a data
do nascimento de Manuel Henrique Pinto (1853-1912)

A data do nascimento do pintor MHPinto, de vez em quando, é objecto de umas alegadas “controvérsias”. Década e meia depois, parece que o assunto vem de novo à baila.
Recapitulemos.

José Abrantes Raposo, na sua meritória obra de 2002, Manuel Henrique Pinto. Vida e Obra. Ensaio Bio-Iconográfico, refere-se a «algumas discrepâncias», então por si encontradas, «no que concerne à data do seu nascimento».
Resumidamente, diz-nos Raposo [1]:
«… a Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira, obra base de consulta e de cultura, afirma, erradamente, que (…) foi a 15-II-1835 (com o mês em romano)…»
«… Romeu Correia, no seu livro Homens e Mulheres Vinculados às Terras de Almada, servindo-se [daquela] fonte (…), confundiu os algarismos do mês, trocando os romanos por árabes e, escreveu Novembro em vez de Fevereiro (…) Alexandre M. Flores, na obra Almada Antiga e Moderna – Roteiro Iconográfico, II Freguesia de Cacilhas, usou a referência de Romeu Correia e apontou, igualmente, a mesma data.»
Mas, logo de seguida, Raposo também refere:
«O catálogo da Sociedade Nacional de Belas Artes, comemorativo da exposição do Grupo do Leão, em 1941, dá-nos, contrariando as datas anteriores, a data de 15 de Março de 1853
E prossegue: «Na mesma linha de orientação, o Dicionário de Pintura Portuguesa, da responsabilidade de José-Augusto França, e o Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses ou que Trabalharam em Portugal, de Fernando de Pamplona, dão-nos só os anos de 1853-1912. O mesmo acontece com o catálogo do Museu José Malhoa (1981), comemorativo do centenário do Grupo do Leão e, no capítulo O Naturalismo na Pintura, na História da Arte em Portugal (Publicações Alfa, 1986), de Maria Margarida L. C. Marques Matias.» (Os sublinhados são meus.)

Não diz Raposo, mas digo eu: Se olharmos com atenção para a manifestamente errada data da Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira, «15-II-1835», logo percebemos que ali deve haver pelo menos uma “gralha”. Qualquer mediano estudioso da história da Arte portuguesa desconfiaria que Pinto, membro do Grupo do Leão e retratado por Columbano no quadro com o mesmo nome, nunca poderia ter nascido em «1835»!? Pois, se assim fosse, teria mais vinte anos que o seu dilecto amigo Malhoa?! mais quinze que Silva Porto?! uns nove que Bordalo?! seria ainda mais velho que os mais velhos do Grupo – Girão e Cipriano?! e teria mesmo boa idade para ser pai de todos os outros retratados no quadro?! A ter nascido em tal data, seria quase da idade dos velhos Mestres da Academia, Prieto e Lupi?! - Poderia lá ser!?
Torna-se, pois, evidente que ali caiu “gralha”. E que os dois últimos algarismos do ano («3» e «5») estarão com a ordem trocada. A estarem na sequência devida, teríamos o ano certo do nascimento de Pinto - 1853.
Depois, já agora, talvez falte um «I» no número romano do mês. Que, a lá estar, indicar-nos-ia com exactidão o mês de Março. E temos uma segunda “gralha”.
O dia está certo.  

Não houvera “gralhas” e não haveria controvérsia nenhuma!
Porque essa data seria coincidente, e muito bem, com a data indicada no catálogo da SNBA de 1941 – 15 de Março de 1853. E também com as datas referidas pelos citados autores, incontornáveis na História da Arte em Portugal, como J-A. França, F. Pamplona e Margarida M. Matias – (1853-1912). E com a data que todos os estudos posteriores e mais actuais sobre o Pintor vêm repetindo: 15 de Março de 1853.
E, repare-se, não havendo tais “gralhas”, os dois autores Almadenses, muito criteriosos, sabedores e experimentados (talvez não tanto nestas coisas das artes), não teriam sido levados ao engano. E Raposo não teria encontrado «discrepância» alguma.


Como encontrou, e na salutar procura em deslindar as «discrepâncias» que entendeu incompreensíveis, Abrantes Raposo, no entretanto e na mesma obra, criou uma nova. E bem mais difícil de resolver.
Apresenta-nos o que chamou «a Certidão de Nascimento do pintor». Na verdade, e como é evidente, trata-se de um assento de baptismo. Em tal documento, o Prior da freguesia de Sant’Iago (Cacilhas), em 24 Jun. 1852, regista o baptizado de um «Manoel», nascido a 2 de Abril do mesmo ano, filho de Francisco Jorge Pinto e Sebastiana Rosa. E, munido de tal documento, Raposo estabelece um novo paradigma: Manuel Henrique Pinto «nasceu a 2 de Abril de 1852».
(Pinto seria, a ser assim, quase um ano mais velho, e todos os autores teriam andado anos a laborar no erro!?)

É, há muito, sabido que M. Henrique Pinto era natural de Cacilhas e que seus pais foram os já referidos Francisco Jorge Pinto e Sebastiana Rosa. Outros documentos o comprovam. Mas será este, revelado por Raposo em 2002, o definitivo quanto à data de nascimento do Pintor? Por que razão, até então e depois disso, todos [2] os outros autores afirmam aqueloutra data, a de 15 de Março de 1853?
(Já vimos que a da Grande Enciclopédia pode ser apenas “gralha”, e que os autores Almadenses foram por esta levados ao engano.)

Ora, outras fontes documentais (de uma outra natureza, é certo, mas igualmente a ter em conta em qualquer investigação histórica) dizem-nos o contrário da conclusão de Raposo:
Desde logo, vários artigos de jornal (O Distrito de Portalegre ou A Verdade, de Tomar) que, por algumas das vésperas dos 15 de Março que Pinto passou por aquelas terras (entre 1884 e 1888, ou de 1888 a 1911, respectivamente), publicaram os «Parabéns» da praxe, ao «amigo e sr. Pinto», pelo seu aniversário.
Ou um ou outro postal (dos poucos que até hoje nos chegaram), com igual propósito aniversariante, subscrito pelo seu íntimo amigo J. Malhoa e pelos seus. (Alguns destes já há muito aqui mostrados).
Ou, ainda, o pequeno carnet da viúva, Maria da Conceição d’Almeida Pinto, onde se pode ler, na parte dos aniversários: «Papá - 15 de Março».
Finalmente, a inscrição, gravada na pedra e para a eternidade, no fuste que suporta o busto de M.H.Pinto (moldado por Josef Fuller em 1892 e fundido em bronze em 1914) que encima a sepultura do Pintor no cemitério de Figº dos Vinhos - «Manoel Henrique(s) Pinto | Nasceu 15 Março 1853 | Faleceu 26 Setembro 1912».


E estas são, queira-se ou não, fontes tão importantes quanto o velho registo do prior de Cacilhas.

Quer isto dizer que o padre faltou à verdade? que o registo de baptismo não é fiável? Longe disso: parece evidente que na igreja de Cacilhas, pelo S. João de 1852, foi baptizado um «Manoel», filho de Sebastiana e Francisco Pinto.
Agora, e resta saber, é se esse «Manoel» era mesmo o Pintor ou um seu irmão. Um possível irmão mais velho que, entretanto e como não era raro à altura, tivesse falecido ainda no berço, e o filho seguinte de igual sexo (o futuro Pintor) tomasse, como também era uso, o mesmo nome de baptismo… Repare-se: entre 2 Abr. 1952 e 15 Mar. 1953, mediam cerca de onze meses e meio, tempo mais que suficiente para uma nova e feliz gestação de Sebastiana Rosa.
(Esta hipótese, que não passa disto mesmo - de uma hipótese, discuti-a já, de viva voz e em tempo devido, com o meu estimado amigo José Abrantes Raposo. Nem ele ficou totalmente convencido, nem antes pelo contrário.)
Ah! e o assento de baptismo do “segundo” Manuel? – perguntarão. Pois não se encontra. Nem esse, nem o de uma sua irmã mais nova, a Margarida, que pelo menos por fotografias se sabe bem que existiu… A falta dos assentos também não prova o contrário.

Assim, entre o registo do cura cacilhense que nos parece dizer uma coisa; e (mesmo se toda a vida enganados) aquilo que parece ser a verdade vivida pelo próprio MHPinto, pela sua família, os seus amigos (com Malhoa à cabeça), pelos jornais das terras onde foi considerada figura, e ainda por Pamplona, e França, e Matias, e todos os demais autores (ante ou após a revelação do tal assento), não parece a coisa merecer mais rodeios.

Por tudo isto, decididamente: Manuel Henrique Pinto (Cacilhas, 15 Março 1853 – Figueiró dos Vinhos, 26 Setembro 1912).


22 Nov. 2018. LBG

___________________________

[1]. Por via das dúvidas, nas citações ou referências que se seguem, houve o cuidado de confrontar a versão final impressa com o caderno original manuscrito por Raposo. Manuscrito que o Autor fez questão de me oferecer vai para uma década, e que guardo com o maior desvelo e amizade.

[2]. Todos, todos não! Que Saldanha, em José Malhoa: Tradição e Modernidade, 2010, afina pelo diapasão de Raposo: embora lhe desdenhe o livro, copia-lhe a data. Ao mesmo tempo que troca o nome ao Padre Ventura Pinho… (ver nota 529).


Ilustração: montagem sobre um fotograma da animação Der Rabe Und Der Fuchs que pode ver aqui.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

«O Casulo» contado às criancinhas

(a ver se os crescidos entendem…)


Neste Dia Internacional da Criança deixo-vos com o meu amigo Figueiredo, o Esquilo Figueiredo. O Figueiredo é, como o nome indica, um esquilo de Figueiró. Um Sciurus Vulgaris, de Linnaeus, um velho conhecido, um simpático bicho.

   Gosta de me aparecer por lá. Dá-me conta das avelãs, no tempo delas das nozes e das castanhas, mas principalmente das pinhas. Às vezes quero acender a lareira ou o fogareiro para assar umas sardinhas e só encontro carolos das pinhas, que o malandro mas roeu todas. Isto não impede que entre nós se tenha desenvolvido uma bela e verdadeira amizade.

Quando por lá estou e está tudo sossegado, quando não anda por lá o gato da Mena ou o canito da Dona Adélia, volta e meia lá me aparece. Empoleira-se numa ramada, olha para mim, eu olho para ele, e ficamos horas a conversar. É um bicho esperto. Sabe-a toda!
Mas é bastante reservado, e gosta pouco de trapalhices. Assustadiço. Se algo o incomoda, se alguém se arma em parvo, a coisa não corre bem, desaparece num pulo, trepa à copa mais alta dum pinheiro ou dum cedro grande e nunca mais ninguém o vê. Pelo menos durante uns tempos, até lhe passar…
Gosta muito de pinhas, mas também de respeito e da boa educação. É assim.
Apesar do aparente mau feitio, é uma jóia de bicho, um animal prestável. Bem conversado e longe de confusões, faz tudo o que se lhe pede. E certinho. Só não faz mais se não puder.

Outro dia, por um acaso, encontrei uns amigos meus às voltas com um folheto para os meninos das escolas de Figueiró. A ideia era boa, as ilustrações muito engraçadas, faltava uma história com pés e cabeça. Lembrei-me do Figueiredo. E ele tratou do assunto.
Basicamente aqui vão a conversa e os desenhos do Figueiredo feitos especialmente para os meninos de Figueiró. Agora em versão completa, antes de condensada para caber no papel. Que quando começa, e custa a começar, depois é difícil pará-lo.
Como parece que a outra custa a sair, lá por coisas, esta nossa versão vai com outros retratos de outros fotógrafos. – «É pena, pá! Gosto mesmo dos bonecos da Ana… Mas se se entretêm a engonhar, mete aí outra coisa qualquer. Enleios é que eu não quero!» – avisou-me logo o bicho. Portanto, os bonecos ficam para outra vez.
E fiquem com o Figueiredo.





Eram uma vez (em Figueiró) quatro artistas:

José Simões d’Almeida júnior, escultor.
Nasceu em Figueiró dos Vinhos, a 24 de Abril de 1844, e morreu na Amadora em 13 de Dezembro de 1926.







É do seu cinzel este mármore de «Luís de Camões», 1892, escultura que o Artista ofereceu ao «Clube Figueiroense» e que agora podemos ver no Museu.





Manuel Henrique Pinto, pintor.
Nasceu em Cacilhas, em 15 de Março de 1853, e morreu em 26 de Setembro de 1912, nas Lameiras, no fim de mais um verão passado em Figueiró.

«A caça dos taralhões», c.1891, é a primeira de uma série de pinturas, umas feitas por ele e outras por Malhoa, que 


retratam a vida e as brincadeiras de uns meninos que viviam na quinta da Fonte do Cordeiro, em Figueiró. O quadro foi logo comprado pelo Rei D. Carlos, chegou a ir a Berlim em 1896, mas depois não se sabe onde foi parar… Por isso só o conhecemos de fotografia.


José Malhoa, pintor.
Nasceu nas Caldas da Rainha, a 28 de Abril de 1855, e morreu em Figueiró, no «Casulo», em 26 de Outubro de 1933.







«O Baptismo de Cristo», 1904, é um quadro que Malhoa fez de propósito para a Igreja Matriz de Figueiró. Mostra o S. João Baptista a baptizar Jesus. Está à vista de todos lá na Igreja.


José Simões d’Almeida (sobº), escultor.
Nasceu em Figueiró, ao Cimo da Vila, em 17 de Junho de 1880, e morreu em Lisboa a 2 de Março de 1950.








O «Busto da República», 1908, foi modelado ainda durante a monarquia para a Câmara de Lisboa que era já republicana. 
Este, que podemos ver no Museu, é talvez o gesso original que Simões, mais tarde, ofereceu à sua terra.








M. Henrique Pinto e José Malhoa encontraram-se ainda rapazes na Academia das Belas Artes e ficaram amigos para a vida. Depois, já homens feitos, andavam muitas vezes juntos a pintar paisagens lá pelas terras à volta de Lisboa. Com cavaletes, telas, caixas das tintas, farnel, tudo de um lado para o outro.
Um dia, Simões d’Almeida (o tio), que era de Figueiró e tinha sido professor de Desenho de ambos, disse-lhes mais ou menos assim: - «Deixem-se de andar por aí com a tralha às costas, e vão mas é para a minha terra que têm lá muito que pintar!...». E eles vieram.
Isto foi no ano de 1883, vai para mais de cento e tal…
Gostaram tanto disto, que passaram a vir todos, mas todos os verões.

Logo, logo o Manuel Henrique se apaixona por uma moça de cá, uma prima do Simões d'Almeida (o tio) chamada Maria da Conceição, e dois anos depois casa com ela. Foram padrinhos o amigo Malhoa e a Júlia, a mulher deste. Foi a 3 de Agosto, na Igreja de S. João Baptista.
O «Zézito» Simões – era assim que lhe chamavam - tinha então cinco anos, e para além de ser sobrinho e afilhado do Simões (do tio) era também sobrinho e afilhado da Mª da Conceição. Por isso passou a chamar ao Manuel Henrique - «o tio Pinto». Parece complicado, mas não é.

(Isto pode até parecer Quadrilhice Analítica, que é uma disciplina da História da Arte onde, quando pouco ou nada se tem para dizer, se justifica tudo com umas propaladas e intrincadas amizades e outras intimidades entre os personagens, alguns que nem para ali são chamados, e se referem uns locais ou viagens que juntos fizeram, mesmo que, às vezes, as datas não batam lá muito certo… 
Pode ser parecido, mas não é! Isto é tudo verdadinha. E da de papel passado.)

Depois, dois ou três anos depois, o «Zézito» vai para Lisboa com os pais e as irmãs, fará por lá as Belas Artes, onde também foi discípulo do Tio, e irá até Paris. Portanto, o Simões d’Almeida (sobrinho) só voltará a entrar nestas nossas histórias muitos anos mais tarde… (mesmo que alguém possa achar o contrário).

Ora, se o Pinto casa cá, o Malhoa faz cá casa.

Alguns anos depois Malhoa comprou aqui um terreno (e parece que comprou mesmo…) onde construiu uma pequeníssima casa[1], apenas com uma divisão. De um lado uma cozinha minúscula, do outro uma só sala. Para dormirem dividiam parte da sala com dois biombos, um para fazer o quarto dele e da mulher, outro para o da irmã Maria Rita. A parte central, no que sobrava, era casa de jantar e de estar. Cá fora, uma barraca de colmo onde o antigo dono do terreno guardava as coisas da lavoura servia de atelier.
E de tão pequenino que aquilo era, o baptizou com o nome de «Casulo».

(Isto, mais ou menos, foi escrito pelo meu avô, o Esquilo Figueiroa, que em miúdo vinha às bolotas a um velho carvalho que havia ali ao lado, e viu tudo.) [2]

Era assim. Eu faço um desenho:



Depois, em 1898, Luiz Ernesto Reynaud, o arquitecto que estava cá a fazer as obras de remodelação da Igreja e tinha sido colega deles nas Belas Artes e aluno do Simões (o tio), fez o projecto de ampliação. A antiga casinha (o «Casulo» propriamente dito) ficou para atelier [3], e encostado mesmo ao lado construiu-se uma nova moradia. Também pequena, mas com quartos e tudo.
Por volta de 1901 estava quase tudo pronto.

E ficou assim:



Depois, bem, depois passaram muitos anos. O senhor Malhoa foi ficando velhinho, os amigos morrendo, e ele também acabou por morrer. E o «Casulo» foi tendo novos donos, foi servindo para outras coisas, e foi mudando aos poucochinhos. Mudou mesmo bastante. É giro descobrirmos as diferenças.
Mas ainda ali está, que as casas boas resistem a tudo. E podemos vê-lo agora, por dentro e por fora, descobrir coisas antigas e coisas novas. E voltar a contar histórias.
Ora as histórias podem ser bem ou mal contadas, das que dá gosto ler e ouvir, ou daquelas trapalhonas e que não interessam a ninguém. É conforme se queira. Tudo depende do modo como as deixam contar. Ou de não se armarem em tolos…





1 Jun. 2016.








[1] A casa, térrea, uma porta e duas janelas, teria para aí 8,10m de comprido por 4,70m de largo, o que dá uma área bruta de 38m2. Se descontarmos a grossura das paredes, a área útil rondaria os 24m2.

[2] Aqui, confesso, estou a usar uma figura de estilo, coisas da literatura. Nem por volta de 1898 havia esquilos em Figueiró – estávamos então extintos - nem os esquilos vermelhos, os da minha espécie, vão lá muito por bolotas – deixamos isso para os porcos e para os cinzentos, os americanos, uns outros esquilos que nalguns países da Europa são já uma espécie invasora. Mas tudo o resto – o carvalho, o avô, o ter visto, o ter escrito – é tudo verdade.

[3] Se olharem bem para os desenhos, verão que a porta e as duas janelas do atelier seriam as mesmas do antigo «Casulo». Mas agora alindadas, com as ombreiras, peitoris e vergas marcadas em massa clara, contrastando com o revestimento almagre da fachada. O mesmo no tratamento dos cunhais, entablamento e soco, remetendo para a linguagem da nova ampliação, unificando todo o conjunto.
Note-se que o atelier continuou térreo, com o piso numa cota intermédia entre a da loja da nova construção (semi-enterrada pelo tardoz) e a do andar principal. Mas ganhou pé-direito - toda a altura do novo entablamento. 
A nova cobertura, ainda essencialmente de duas águas mas com uma maior inclinação, era cruzada no seu eixo transverso por um outro sistema também de duas águas. Esta outra cobertura transversal era telhada do lado da frente, terminando sobre um tímpano triangular de alvenaria na continuidade do plano da fachada, e onde se abria uma pequena lucarna rectangular. Do lado do tardoz era inteiramente vidrada, suportada por uma estrutura metálica, possibilitando assim a entrada a jorros da luz zenital. 
Os panos de tardoz e de empena mantinham-se cegos, tal como na antiga casinha.

(Pronto: lá tive eu de me armar em arquitecto… mas dos bons. Também, se quero um ninho bem feito lá no alto dum pinheiro, tenho de ser eu a fazê-lo. E são muitos anos disso...)



quinta-feira, 10 de julho de 2014

Os cachopos da Fonte do Cordeiro

assíduos nas Exposições do Grémio

Acabada a aventura do Grupo do Leão «informal e sem estatutos» [1], coisa de «dissidentes», indiferentemente ou conforme se quisesse «realistas», «impressionistas», «veristas», «paysagistas» ou «naturalistas», então «rapazes ainda todos» [2], resolvida «entre boks e fumaças de cachimbo» [2] e cuja derradeira exposição corre pelos inícios de 1889 - foi tempo de associação mais formal.


Aos dez, melhor, aos onze iniciadores das Exposições de Quadros Modernos, (auto)retratados por Columbano no célebre quadro para a nova cervejaria homónima (1885), e aos quais junta por direito Alberto d’Oliveira com a inevitável prova ainda fresca do seu Catalogo Illustrado; «essa instituição» [3] protectora chamada criado Manuel exibindo «afiançada» «costelleta com hervas» [3]; e o impagável mano Rafael, amigo de sempre, divulgador sem falhas e a tempo e horas de todas as exposições, e que por essa mesma ocasião também regista o Grupo na magnífica caricatura dos Azulejos fingidos.


Aos tais onze, dizia, logo se somariam nas sequentes Exposições de Arte Moderna – e só então - as cinco «Senhoras Leoas» [4], o dito Rafael Bordallo Pinheiro e mais uma dúzia de nomeáveis artistas. Um total de vinte e nove Leões [5]– nem mais, nem menos! E batiam já à porta os de Paris, mais uns tantos do Porto e outros ainda. Era pois altura de agremiação nova, respeitável, de estatutos lavrados e tudo. Nasceu assim no início de 1890s o Grémio Artístico - então sim, com Silva Porto feito presidente, assembleia geral tutelada pela «Ramalhal figura» (que como entra, logo sai), e onde até Suas Majestades concorreriam. Coisa séria, portanto.



Então, pelo despontar da Primavera de 1891, sócios fundadores da nova agremiação, José Malhoa e Manuel Henrique Pinto participam na exposição inaugural do Grémio - e da qual Simões d’Almeida será um dos vogais do júri. Henrique Pinto mostra dois quadros: A Fonte do Cordeiro (Figueiró dos Vinhos) e A caça dos taralhões – este com assinalável e assinalado sucesso. Todavia, não fora as boas graças do Senhor D. Carlos que se dispôs a dar os 300 mil reis pedidos por ele, tudo não seria muito mais que conversa fiada - para azar de Pinto e apesar dos propalados estatutos, não se sabe porquê, não foi ainda nesse ano que se iniciou a anunciada distribuição de prémios, e a bem provável consagração dos “Taralhões” ficou eternamente adiada. 
Malhoa, por sua vez e entre outros trabalhos, apresentou Noé e Preciosa.



Aos quadros de Pinto perdeu-se o rasto. Tudo o que deles hoje sabemos resume-se ao escrito e impresso à época e a fotos preservadas no espólio que nos deixou. A Fonte do Cordeiro, c.1891, era uma paisagem de médio tamanho registando o complexo da fonte e dos tanques de rega, com o alçado quase erudito meio rococó visto de perfil, os esteios do antigo engenho já então arruinados, e o que parece ser um outro, já de recurso, feito de varais de madeira. A presença humana era dada por duas figuras femininas e seus cântaros. Uma mancha de arvoredo e os campos de cultivo enquadravam a cena. Seria hoje um documento único sobre a famosa Fonte. Já A caça dos taralhões, c. 1891 – mas por certo e como o outro pintado no final do Verão anterior - registava um rapazito descalço, deitado de bruços sobre a erva rasteira, de olhar atento na costela armada lá mais adiante, esperando pacientemente que mais um passarito lhe caísse na armadilha. Junto a ele, também pelo chão, jaziam chapéu e sacola da escola e uma mão cheia de taralhões já sem vida cujo destino seria o tacho. A paisagem era de mato rasteiro, tojos e urzes, árvores raquíticas, e muito ao longe na encosta divisavam-se as primeiras casas do povoado. Em grande formato, do que podemos adivinhar, seria uma bela duma pintura. Digna, assim e sem favor, do seu lugar na colecção Real.


Por sua vez, o quadro de Malhoa chegou até nós de boa saúde. Noé e Preciosa, 1891, é um retrato de dois irmãos, onde ele, ruço e mais velhito, a parece abraçar protegendo-a, e ela, de lenço amarrado à cabeça, partilha um pedaço de pão. Ambos sérios, suscitam ternura, não irradiam felicidade.
Com estas três telas iniciava-se a saga – era cenário, primeiro acto e protagonistas. Uma saga que se iria prolongar por uma boa meia dúzia de anos, contando as histórias de um punhado de cachopos - «o(s) filho(s) do Eduardo, então rendeiro da Fonte do Cordeiro, propriedade da família Serra» - como nos confidencia Malhoa pelo seu punho, e tendo por cenários aquelas terras ou os matos de pastorícia nas faldas do Cabeço do Peão, pelo Chão da Amoreira e sítios vizinhos.


O segundo episódio da novela chega com a 2ª Exposição do Grémio Artístico em 1892. Por certo animados pelo sucesso gerado na mostra anterior, mas sobretudo pela descoberta de tão bons modelos, vá de aviar mais do mesmo: Henrique Pinto apresenta-se então com Adormecido e A caça aos grilos, ambos datados de 1891; José Malhoa, quanto ao que agora interessa, mostra A última gota, Primeiras tentativas, Gritando ao rebanho e O almoço para o pai, todos também de 1891.







«Expõe Malhôa tambem uns quadros de genero, simples pastoraes, que parecem ter sido feitos de collaboração com o seu collega Henrique Pinto, tanto a factura d’elles se assemelha à deste artista. Houve quem chamasse áquella serie Escola de Figueiró dos Vinhos…» - disse-se então [6]. E o resto da crítica afinou pelo mesmo diapasão: «… as Primeiras tentativas e o Gritando ao rebanho [que pode ser visto hoje em dia no Museu Malhoa nas Caldas da Raínha], que várias pessoas attribuiram ao sr. Pinto, tanto elles se parecem com a Caça aos taralhões e com os dois quadros agora expostos por este artista, A caça aos grilos e Adormecido. Todos elles teem a mesma paisagem de um verde escuro, a mesma luz mais ou menos vaga e crepuscular, as mesmas figuras ao centro, no primeiro plano, ora um ora dois pequenos.» «Por isso o publico, que o anno passado soltou um brado unanime de admiração perante a Caça aos taralhões, este anno ficou bastante frio deante dos quadros enviados pelo sr. Pinto, - e tambem dos dois do sr. Malhoa.» «É que são variações de mais do mesmo thema. Ainda se fossem do mesmo artista, mas de dois!» «O caso fez-lhe espécie…» [7]
















Entendia-se, todavia, de modo diferente A última gota: «…que é de uma execução larga e bella. Um garotinho nu, sentado n’um interior de cabana, emborca a malga para lhe escorropichar a ultima gota de caldo…» [8].




















Os dois quadros de Pinto e as Primeiras tentativas, de Malhoa, podem ser vistos na presente exposição. E vê-los é bem melhor que descrevê-los.
Em todos, nestes e nos outros, o que primeiro salta à vista são os cachopos, os mesmos, «os filhos do Eduardo». Ainda o mesmo Noé, que de caçador de taralhões o é agora de grilos, ou é pastorinho que grita às cabras e adormece depois da janta. Ainda a Preciosa, que se delicia com os primeiros sons que, possivelmente, o Maximino – outro irmão um pouco mais velho – tenta tirar da flauta de cana. E mais um “artista”, mais novito, «o amigo António», o que escorropicha a malga, o que leva a merenda ao pai ou aprende com o Noé a tirar o bicho da toca. São eles os protagonistas.


Um ano mais, e na 3ª exposição do Grémio, 1893, quem sabe se pela má recepção anterior, apenas se viu uma amostra desta cachopada e num registo mais pequeno: a Preciosa, ainda com a mesma saia rosa, e «o amigo António» protagonizam uma única cena, à beira do muro «na fonte da Fonte do Cordeiro», intitulada Os curiosos, 1892. É Malhoa. E agradou - pelo menos à condessa de Proença-a-Velha que terá dado 135$000 por ele. Sabemos hoje que o quadro foi feito a partir de uma fotografia tirada por Malhoa ou por Pinto e que aquele pede por carta a este (é história já contada).

De Henrique Pinto, nesta mostra de 1893, nem rasto! O que é no mínimo curioso !? De facto, desde o início da sua apresentação regular nas exposições da Promotora (1880) até à sua morte (1912) já depois da 9ª da SNBA, esta é a única exposição onde não está presente!? Depois do mistério nunca falado da não atribuição de medalhas na exposição inaugural do Grémio e depois de mais trapalhada na seguinte – sabe-se que Malhoa recusou a «medalha de segunda classe» que lhe foi atribuída -, será que Pinto, a quem foi dada então uma «de terceira classe» precisamente pelo Adormecido, resolveu por sua vez amuar desta forma? Mais um mistério a acrescentar ao anterior…

Seja como for, no ano seguinte, na 4ª Exposição do Grémio, 1894, Manuel Henrique Pinto volta e insiste no mesmo registo: Preparativos para a caça, 1893, (também conhecido como Armando aos pássaros) é mais um episódio onde talvez ainda o Noé arma pacientemente a costela para a caçada do costume. E agora, talvez para obviar aos evidentes problemas oftálmicos do sr. João Sincero que, pelo visto, marrava no «verde escuro», um esplendoroso verde alface inunda a paisagem. Mereceu referência envergonhada da crítica e mereceu comprador. Ainda hoje corre pelo mercado.


Malhoa, por sua vez e neste particular dos «filhos do Eduardo», apresenta-nos agora o mais novito, o pequenito Venâncio brincando com uns ouriços de castanheiro, em Os ouriços, c.1894. E aqui também os verdes são outros – et pour cause!

«Agora passou a ser moda tratar mal os artistas na imprensa, e esta moda para se parecer com todas veiu importada de Paris na bagagem de um jornalista que encetou uma critica, embora illustrada e com pontos de vista elevados, exageradissima pelas comparações e pelas pretensões de querer medir pela grande bitola do Salon de Paris o nosso petit salon da rua de S. Francisco. Criticando acerbamente todos os nossos artistas não deixava de pé dois ou tres, visando, talvez, principalmente, ferir o Gremio Artistico, mas sendo em geral de uma grande benevolencia para com os amadores pretenciosos que o estragam.»
«Todavia esta critica irritante e injusta muitas vezes, não tem ainda os ridiculos de algumas outras, feitas por sujeitos que pouco enxergam de arte e vão dando bordoada de cego, macaqueando as severidades vindas de Paris, mas sem conseguirem alcançar ao menos o ar pedante e fino d’ellas.»
Com isto, e mais outro tanto, se viu Ribeiro Arthur obrigado a acabar a sua crónica sobre a 4ª Exposição, 1894 [9]. Tal seria o desvario que se apoderara da crítica - de uma e da outra.



















Depois, depois é a vez de Malhoa se dedicar À caça, 1895, possivelmente ainda com o Noé e as suas armadilhas (curiosamente a preço de saldo e com mais estória ainda por contar…). E logo, mudando-se para o outro lado da Vila, já com outra gente, nos mostrar A Olinda do lagar, 1895, com as suas trancinhas côr de fogo, rodeada de galinhas e pitos.



















Nesta 5ª Exposição do Grémio, Henrique Pinto terminaria a sua colaboração na novela de «Os filhos do Eduardo...» teimando - teimando no Noé como modelo quase exclusivo, que teima e mede forças com a cabra que finca as patas, em Uma teima, 1895, [quadro que podemos ver agora no Museu Malhoa sob o nome de Perrice]. E teimando nos verdes, nos outros, nos que ele via, nos que lhe pareciam e sentia, ele, como verdadeiramente sinceros.

















Finalmente, só na 7ª Exposição do Grémio Artístico, 1897, Malhoa se despedirá desta rapaziada. Em À passagem do combóio, 1896, reúne-os a quase todos, então já mais cresciditos: o António, o Noé, o Venâncio, a Preciosa, e a mãe Teresa com novo bebé ao colo. O quadro foi depois a Paris (1900) e naufragou na viagem de regresso. Restam dele apenas algumas fotos da época. E uma gravura francesa da autoria de Charles Baude, 1900, que é já a visão pessoal deste artista. Mais tarde, c.1905, o próprio Malhoa pintará nova versão – vendida no Brasil (1906) voltou de novo a Portugal – mas não é a mesma coisa…

















(Artigo publicado originalmente em 21 Junho 2014, in Imagens de Figueiró - o jornal da exposição patente no chamado Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos
Revisto, completado e anotado entretanto.)
Sobre este mesmo assunto pode ainda ver, publicado aqui atrasado, isto.

10 Jul. 2014. LBG

________________________

[1] FRANÇA, José-Augusto – O Grupo do Leão, 1880 e 81. Caldas da Rainha: MJM, 1981. Resumo da conferência proferida no MJM, em 16 Dez. 1981: «um nome comum que ficou, porém, em designação familiar, nunca oficializada – nem oficializável, já que se tratou sempre de uma associação livre, sem regulamentos nem estatutos e ainda menos direcção ou presidente titularizado.»
[2] «Z. Segredo» in Diario da Manhã, de 15 Dezembro 1881. (Trata-se de Mariano Pina e do artigo inicial onde este “dá o nome” ao «Grupo do Leão»)
[3] Ramalho Ortigão (?) in O António Maria, nº134, 22 Dezembro 1881, p.405.
[4] LEANDRO, Sandra – Como Leoas: as Senhoras Artistas do Grupo do Leão (1881-1888). in Falar de Mulheres: História e Historiografia. Lisboa: Livros Horizonte, 2008. (Artigo datado de Maio 2003)
[5] São eles, seguindo a ordem pela qual vão sendo referenciados nos sucessivos Catalogos Illustrados do Grupo do Leão: João Ribeiro Cristino da Silva, José de Sousa Moura Girão, José Vital Branco Malhoa, José Joaquim Cipriano Martins, Manuel Henrique Pinto, António Monteiro Ramalho Júnior, António Carvalho da Silva Porto, João José Vaz, João Rodrigues Vieira, Columbano Bordalo Pinheiro e José Augusto de Figueiredo. D.ª Mª Augusta Bordalo Pinheiro, Rafael Bordalo Pinheiro, D.ª Helena Gomes, D.ª Berta Ramalho Ortigão, José Júlio Sousa Pinto, Francisco Vilaça, José Moreira Rato Júnior, Júlio Teixeira Bastos, Ernesto Condeixa, Augusto Rodrigues Duarte, Adolfo César de Medeiros Greno, D.ª Josefa Garcia Greno, Carlos Reis, António Soares dos Reis, José Queirós, José Veloso Salgado, António Teixeira Lopes, Duquesa de Palmela. Estes e estas, e não outros.                     .                    
[6]  ARTHUR, B. Sesinando Ribeiro - Arte e Artistas Contemporaneos, (1ª serie). Lisboa: Livraria Ferin, 1896. p.195,196 – A Segunda Exposição do Gremio Artistico. (Reproduzindo artigo publicado na imprensa da época e datado de Maio 1892)
[7] «João Sincero» in O Occidente, nº482, 11 Maio 1892, p.107.
[8] ARTHUR, B. Sesinando Ribeiro - Arte e Artistas Contemporaneos, (1ª serie). Lisboa: Livraria Ferin, 1896. p.196 – A Segunda Exposição do Gremio Artistico. (Reproduzindo artigo publicado na imprensa da época e datado de Maio 1892)
[9] ARTHUR, B. Sesinando Ribeiro - Arte e Artistas Contemporaneos, (1ª serie). Lisboa: Livraria Ferin, 1896. p.341, 342 – A Quarta Exposição do Gremio Artistico. (Reproduzindo artigo publicado na imprensa da época e datado de Maio 1894)