domingo, 22 de abril de 2012

Sobre o gato que fugiu da Varanda da Palmira


…«Num outro quadro, exposto em 1931, repetiu o cenário da sua decantada Varanda dos rouxinóis, que, como vimos, se encontra no Brasil, sob o mesmo tecto que alberga o Emigrante, o da elegante residência do Snr. José Augusto Prestes. À costureira dos rouxinóis, cosendo entre aprendizas e glicínias, e afago suave da vista que nele poisa, sucedeu a Varanda florida, pintada no mesmo sítio. Está no Casal de S. José, do Snr. Dr. Eurico Lisboa, na Parede. Uma rapariga ao cimo duns degraus, sentada de costas, a ver passar uma procissão no fundo da rua assoalhada. Outras figuras de mulher, um gato, muros alvejantes, uma lata velha florida, mais flores, muita luz.»…

Manuel de Sousa Pinto, Últimos anos de MalhoaConferência feita no Salão de Festas da Associação de Socorros Mútuos Rainha D. Leonor, das Caldas da Rainha, na noite de 28 de Abril de 1934. Caldas da Rainha, Tipografia Caldense, 1934. p.17


Em 1934, cerca de seis meses depois da morte de Malhoa, no dia do seu aniversário natalício, em que este, se ainda vivesse, completaria 79 anos, Manuel de Sousa Pinto proferiu, perante assistência atenta, veneranda e obrigada, como timbre da altura, num Salão das Caldas, sob a batuta de António Montez, incansável dinamizador do Museu, uma palestra sobre os Últimos anos de Malhoa, logo publicada em livro - tão logo, que quatro dias depois já assinava o exemplar destinado a D. Mª. José, a irmã sobreviva de Malhoa.
Às tantas, Sousa Pinto descreve-nos a Varanda Florida, 1930. Fala das figuras femininas, da rua, do sol, dos muros caiados, das flores que dão nome à coisa, da luz que inunda o quadro e de um gato.

Hoje, passadas oito décadas, ao olharmos para o quadro [1], vemos lá tudo isso… menos o gato!?
Sousa Pinto tresleu? Abusou do Gaeiras antes de ir para a conferência? Precisava de consultar Anastácio Gonçalves? - Não parece - se até viu uma procissão junto à Cruz de Ferro, no começo da ladeira que desce para a Vila!



Se olharmos, agora, para o Estudo deste mesmo quadro [2], verificamos que a atitude das raparigas é já a de dar atenção curiosa ao que se aproxima ao fundo do largo, mas o que seja ainda se não vê, e a Cruz de Ferro ficou esquecida.
Apercebemo-nos também de uma maior preocupação com o estudo das arquitecturas envolventes, nas casas do lado do Luiz da Laurentina – mestre pedreiro e músico da Filarmónica – ou na da Comadre Aurélia, do lado oposto, com o registo das antigas escadas exteriores. Damos facilmente conta da ausência da terceira cachopa, dos lenços garridos nas cabeças ou das flores que hão-de crescer na panela de ferro, pormenores que animarão, pontuando de cor, a versão final. Mas, bichano, nem vê-lo! Ou será que, antes, está ali, meio escondido, ao colo da moça de chapéu de palha?!

Voltando ao quadro definitivo, o que primeiro nos surpreende é a luz. «Muita luz», nas palavras de Sousa Pinto.
A Malhoa não bastou a melhoria da meteorologia, registada num céu mais limpo e luminoso. Com mestria, abre o campo de visão do observador. Mais que o ligeiro recuo do enquadramento, altera a “objectiva” com que fixa a cena – serve-se aí de uma 35mm, ou mesmo de uma 28mm, diríamos hoje. Os planos caiados próximos aumentam, reflectindo ainda mais luz. As fachadas sobre o largo de S. Sebastião, menos definidas, só os panos, acompanham o desvario lumínico – de tal sorte que um pouco de almagre junta à calda de caiação de uma das casas. É uma primeira nota de cor, que se espalha ainda mais forte no grande tecido que a rapariga parou de costurar, e que agora vemos já na sua plenitude. Com tanta luz, a cor pode saltitar livremente. Os vermelhos, nos seus diversos matizes, do pano aos lenços, do pote das sardinheiras e dos cravos à ferrugem da lata velha, vão pulando por ali. Os azuis, do cesto passam à camisa da cachopa, ao lenço, à rama do craveiro e esparramam-se no céu. “Uma pouca” de amarelo, e os verdes, mais contidos, acompanham a sinfonia de cor. Para descanso dos olhos, só o soalho da varanda e a sombra fresca que se adivinha.
Mas, e o gato? Nem esta sombra aproveita?
Aproveitar, aproveitava! Mas correram com o desgraçado!
Sousa Pinto não nos enganou. Ele bem deve ter visto o gato, ronronando, de olhos semi-cerrados, indiferente ao “barulho” da luz, no único sítio onde podia estar sossegado e à fresca… Viu, mas já não vemos.


O dito bichano, até é nosso conhecido. (Mais certo um seu antepassado, pois a cena seguinte passa-se quinze anos antes). Recuemos no tempo. Nesta mesma varanda, então dos Rouxinóis. Não pelos pássaros nas gaiolas – que deviam ser uns míseros pintassilgos… e rouxinol não é bicho de gaiola, esclareçamos – mas pelas costureiras, elas mesmas, que de tão boas cantadeiras mereciam de Malhoa o elogio de soarem como o dito rouxinol.

Se dermos uma olhadela rápida e sem grandes considerações  (que não vêm agora ao caso, unicamente felídeo) pelas Varandas dos Rouxinóis - quer sobre a versão maior [3] que tudo indica seja a que Malhoa enviou a S. Francisco da Califórnia [4], quer sobre a versão mais conhecida e maneirinha [5] - lá está o nosso amigo gato (melhor, um seu progenitor)! Não à sombra, mas ao sol - que no tempo das glicínias um calorzinho é coisa bem-vinda.

E o gato vai aparecendo mais vezes. Tem honras de estudos a solo. Este [6], de orelhas arrebitadas a ouvir o chilreio das costureiras, em 1915. Um outro, escarrapachado à sombra, já não sei bem onde… (fugiu, por ser o tal).
Voltando à Varanda Florida.
O catálogo da 28ª Exposição da SNBA, 1931, onde o quadro foi mostrado pela primeira vez, esclarece pouco. Malhoa apresenta quatro óleos (a que junta dois pasteis na secção respectiva) são eles: Varanda florida, Sessão ao ar livre, A caça, Retrato do Ex. Sr. Dr. Vicente Monteiro. E, quanto a ilustrações, preferiu as costas da discípula M. L. Mello e Castro pintando, às da costureira costurando. Por outro lado, ficamos a saber que os quatro óleos já teriam destino – nenhum consta do preçário. Sinal que, ainda no atelier, mal o verniz secava logo aparecia dono.
Assim, natural é que Eurico Lisboa fosse já o feliz proprietário da florida Varanda.

Mas, com gato ou sem gato? – Com gato, pois então!
Não esclarece o catálogo, mas tira a dúvida esta foto, do arquivo pessoal de Malhoa, preterida então pelas costas da Mello e Castro.
Quadro pronto, assinado e tudo! E com gato! Dono e senhor do pedaço, refastelado à sombra, sem cesto de costura que o incomode. Todo contentinho.
Eis pois a Varanda florida que Sousa Pinto viu, tal como pintada por Malhoa, na SNBA em 1931, ou ainda e talvez em casa de Eurico Lisboa na Parede, e que nos descreve três anos depois.
Esclarecido este primeiro mistério, outros surgem, agora de mais difícil resposta: Quem enxotou o gato? Quando ali poisaram o cesto da costura? Porquê incomodar o bichinho?
Contudo, antes, pode surgir uma grande dúvida: É o mesmo quadro? Estamos perante duas versões da mesma obra, como outras a que Malhoa nos habituou? Será a Varanda conhecida uma cópia? Ou a fotografia uma montagem? – Nada disso!
O quadro é o mesmo, só que sem gato! Basta uma observação atenta aos pormenores, da assinatura ao desenho das tábuas do soalho, da sombra projectada a qualquer outro recorte, para se perceber que nenhum “artista” os poderia reproduzir, nem o próprio! E quanto à foto, é legítima, do arquivo pessoal de Malhoa, bem guardada há várias décadas, e confirmada pelas palavras de Sousa Pinto. Ele, que viu o gato!
(E se repararmos bem, por detrás do cesto, ainda lá vemos o "fantasma" do gato a assombrar-nos a vista... )

Enxotaram, pois, o gato ao prantar no seu lugar o cesto da costura. Não haverá a menor dúvida! Mas quem? Ainda Malhoa ou alguém depois dele? Porque razão?
(E, a partir daqui, aviso já, entramos no reino da fantasia, da conjectura. Nenhum documento conhecido sustenta as teorias que se seguem. Mas, na escrita sobre Malhoa, tal já não é novidade… Allons!)

As razões poderão ser muitas. Algum acidente que tenha acontecido à tela, alguma embirrância ou alergia ao bichano… que, reconheçamos, não parece lá muito famoso em termos de desenho. E, concordemos também, o cesto com os trapos azuis introduz uma nova e bem mais interessante marcação no baile das cores que vimos atrás. Fazia falta e vem a calhar! Função que o gato pardacento não cumpria. Foi esta a razão?
Resta ainda saber se o autor da proeza foi o próprio Malhoa - se, já depois da sua morte, Sousa Pinto ainda nos fala do gato?
Tal não quer dizer nada! Natural é que Sousa Pinto tenha visto e registado mentalmente o quadro aquando da sua apresentação ou já na casa da Parede, logo nos primeiros tempos, ou ter-se socorrido de uma foto igual a esta para preparar a conferência. E, no entretanto, a tela fora alterada sem ele saber. E era o que faltava que Malhoa ou Lisboa tivessem que dar satisfações ao Sr. Sousa Pinto!
Olhando para o quadro (o que convém quando sobre algum se escreve), a pintura do cesto não destoa do resto e nada indica que não seja da mão de Malhoa. Podemos ficar, para já, descansados.
Acresce, por fim, que uma das últimas fotografias de Malhoa, tirada sob uma parreira em Figueiró, poucos dias antes da sua morte, pode vir a dar alguma ajuda. A foto é conhecida, «cliché Artur Santos», várias vezes reproduzida em quase todos os livros que se têm publicado sobre Malhoa. Só que truncada! E, ao que parece, pelo próprio autor que da chapa fez dois enquadramentos. O integral – este que agora vemos [7] - mostra Malhoa acompanhado pelo casal Lisboa. No reenquadramento conhecido, a Eurico Lisboa aconteceu o mesmo que ao gato – foi corrido!
Quer tal foto dizer que foi nessa altura que os Lisboa receberam de volta a Varanda florida, mais garrida e já sem gato? Não! Não quer. Nem diz. Mas podia…
(…E a ver vamos se daqui a mais uns aninhos, sem darmos por ela, não virá a dizer?!... Basta alguma “distracção” de nova pena erudita…)

Mai.2011. Publicado originalmente em Jan.2012. LBG.


[1] JMalhoa, Varanda Florida, 1930, óleo s/tela, 47x56, c.p. http://www.flickr.com/photos/bmfigueirodosvinhos/3653232825/in/set-72157620370345088/
[2] JMalhoa, Estudo para Varanda Florida, 1930, óleo s/tela, 30x32, c.p. http://www.flickr.com/photos/bmfigueirodosvinhos/3653232817/in/set-72157620370345088/
[3] JMalhoa, Varanda dos Rouxinóis, 1914 óleo s/tela, 126x147, c.p.
[4] A tabela, que só pode ser a da“Exposição Panamá-Pacífico”, 1915. Pelas suas dimensões generosas (6x21), tal parece confirmar que assim seja.










[5] JMalhoa, Varanda dos Rouxinóis, 1915 óleo s/tela, 45x42, c.p.
[6] in Catálogo do Cinquentenário da Morte de José Malhoa, MC-IPPC, 1983. p.93,
nºc.96
[7] José Malhoa e o casal Eurico Lisboa, no quintal do Casulo, Set./Out. de 1933. Cliché Artur Santos.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

… e hoje é o aniversário!



Pois é. Cinco dias depois da data da sua morte, comemora-se hoje, 7 de Janeiro, a data de nascimento da Júlia Malhoa.

Janeiro é um mês fatídico na sua vida – a 29 calhará ainda a data do casamento de Júlia com José.

Por hoje, só esta notinha a assinalar este facto – isto a crer no registo de baptismo, realizado a 6 de Julho de 1853, na Igreja de Santo André e Santa Marinha, em Lisboa, onde teve por padrinhos o sacristão da paróquia e Nª Sª das Dores – lá reza que fora nascida a 7 de Janeiro desse mesmo ano. Perfazem hoje 159 anos.

(Enganaram-se, portanto, nas contas ao fazer o registo do óbito – contaria ao morrer já 65 anos, praticamente 66. Pormenores…)





Ficam também os quadrinhos de que falámos há dias (para fruição de uns, ou irritação de outros…). A Juliana Júlia de Carvalho e a Mª da Conceição Simões de Almeida, a bordar no Cabeço do Peão, sobranceiro a Figueiró dos Vinhos, retratadas pelos respectivos maridos…

Ou será vice-versa? É escolher!


Publicado originalmente em 7 Jan. 2012. LBG




A propósito de Júlia Malhoa



Hoje faz anos que morreu Júlia Malhoa. Hoje, 2 de Janeiro. E não noutro dia qualquer…

«…às nove horas e zero minutos do dia dois do mez de janeiro do ano de mil novecentos e desanove, numa casa da Avenida cinco de Outubro, seis, da freguesia de São Sebastião da Pedreira, desta cidade, faleceu de embolia, um indivíduo do sexo feminino de nome Juliana Júlia de Carvalho Malhoa, de sessenta e quatro anos de idade...» reza o assento de óbito, a fls 1 vº e Nº3 do L14 da 3ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa relativo ao ano de 1919.

Quer isto dizer que, mais uma vez, alguém perdeu uma bela ocasião para estar calado, quando, após mais uma leitura apressada de um postalinho, vem corrigir o que não tem correcção e põe em causa o que Matilde Tomaz do Couto escreveu em 2005, e pelo visto bem, quando nos refere «o falecimento da esposa, nos primeiros dias de 1919…»

“Quem, com ar doutoral, corrige o que está certo, ou é tolo ou pouco esperto…” - não diz o povo, mas bem podia dizer.


Juliana Júlia de Carvalho Malhoa (1853-1919) foi a companheira dedicada de José Malhoa durante praticamente 39 anos. O amor de toda uma vida.

Que se saiba e agora me recorde, Malhoa pintará apenas quatro retratos de Júlia.

Este, que agora vemos, datado de 1883. Retrato que Malhoa sempre manteve no lugar de honra de sua casa, deixando disposições testamentárias no mesmo sentido.

Um outro, existente no MJM, possivelmente anterior, ainda de fraca mão, com uma Júlia “hespanholada” de leque, mantilha e olé!
E que pode ver aqui.

Outro mais, de poucos anos depois, onde Júlia é retratada, de corpo inteiro, sentada a bordar ‘en plein air’ no Cabeço do Peão, em Figueiró dos Vinhos – pequena tábua exposta em 2002 e que faz ‘pendent’ com uma outra em que MHPinto retrata Mª da Conceição, sua mulher, nos mesmos propósitos.

E, finalmente, o magnífico Retrato de Minha Mulher, 1914, do MNAC-MC, outra tábua que nos mostra o perfil de Júlia, meio de escorço, recortado sobre um fundo de flores impressivo. Quadro que Malhoa fez questão de doar ao Museu logo após o falecimento da sua querida Júlia.


Debrucemo-nos, por agora, sobre o Retrato de D. Júlia Malhoa, 1883, quadro apresentado pela primeira vez nesse mesmo ano, na 3ª Exposição de Quadros Modernos do Grupo do Leão.

Não sendo nenhuma obra-prima, tem a importância que tem.

Trata-se, que me recorde, de um dos primeiros retratos formais que Malhoa executa e mostra em público [1] - com pincelada aplicada, apresenta-se, agora e também, como Pintor de Retrato. Inaugurando assim a extensa galeria de burgueses e aristocratas, suas mulheres e filhas, que lhe farão «bicha à porta do atelier». Ao mesmo tempo, apresenta-nos, três anos após o casamento, a sua própria mulher como Senhora de Sociedade - formal, forçadamente de gorro e estola de peles, e bouquet de rosas finas, como nunca mais a veremos. Quem sabe se numa tentativa de exorcizar de vez [2] uma mácula de concepção?!

Sobre este Retrato de D. Júlia Malhoa convém lembrar que, contrariamente à generalidade das críticas que sempre a seu propósito são recordadas [3], Ramalho Ortigão também se lhe refere.

Se, no ano anterior, já havia elogiosamente escrito «Malhoa, que em outras exposições nos mostrava interessantes documentos da sua viva e corajosa aptidão, aparece-nos agora como um luminista extraordinário à Cláudio Loreno» - antecipando em mais de um século teorias que se querem novas -, em 1883, o grande Ramalho Ortigão dirá sobre este quadro «O retrato nº 53, de Malhoa, é o único acabado nesta exposição. Esta qualidade, junta à de uma semelhança perfeita [4], torna-mo extremamente simpático, e fez-me esquecer, para aplaudir o autor, de uma certa anemia de empaste e de uma dominante de acorde em cor-de-rosa, que prejudica a intensidade nervosa da expressão na figura».

Para Malhoa, está visto, mais valeu um Ramalho na mão que dois Monteiros a voar… E as «bichas à porta do atelier» não demoraram a formar-se…



Publicado originalmente em 2 Jan. 2012. LBG.


[1] Que a estória do Retrato de Joaquim Malhoa ser obra anterior, é treta e já antiga, de outra ‘pena brilhante’ - a de Montez… Mas, basta olhar e ver…
[2] De vez, ou, pelo menos, nos 127 anos seguintes - até um pobre palerma resolver que a História d’Arte se faz com conversa de soalheiro…

[3] Refiro-me, entre outras, às críticas demolidoras então publicadas por Monteiro Ramalho ou Emídio de Brito Monteiro, e que sempre vêm à baila quando disto se fala... A de Ortigão, sabe-se lá porquê, tem ficado no limbo.


[4] Pode ver aqui, em fotografia da época, Júlia Malhoa com o mesmo gorro e a mesma gola de rendas, mas sem a estola ou casaco de pele.
Adenda
Porque parece que ainda há dúvidas, ou há quem não queira ver... 
Diz uma recente e douta nota a propósito deste quadro: «Primeiro retrato exposto por Malhoa, se concordarmos com a data atribuída por alguns autores...» e logo a seguir vem mais parvoíce.
Ora, não temos de concordar ou deixar de concordar, e os autores não são alguns - é o próprio Malhoa, que assina e data a tela: «Malhoa 1883». Como se pode ver ampliando esta mesma foto (no canto inferior esquerdo).



Fica percebido?! O resto, diz-nos Ramalho Ortigão. E as parecenças ou «semelhança perfeita» com fotos e retratos de Júlia.
Dúvidas, se as houver, será sobre quem seja a retratada num desenho a carvão, talvez do mesmo ano (?), alegadamente, e não se sabe bem porquê, que se diz representar Júlia Malhoa (?) ...
Será que não temos olhos na cara?
10 Nov. 2012. LBG

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Ainda A Provocante, com mais ou menos roupa




JMalhoa, A Provocante, 1914,
ost, 80x70 MNAC, em depósito no MAB
Vistas já algumas das estórias relacionadas com A Provocante, 1914, resta-nos olhar melhor para a tela e respectiva protagonista.

Fica, em foto da época, a sépia, já com alguns problemas na zona do queixo, mas sem a espécie de penso-rápido que aparece sobre o seio esquerdo na foto a cores da matriznet…



E pode ver aqui A Provocante, 1914 (como "Provocando")

(parece que o link já não funciona, fica uma imagem)


JMalhoa, Descanso do Modelo, c.1913,
osm, 50x40. Foto Pedro Aboim Borges
Fica também a mesma jovem senhora, menos provocante mas mais despida, agora no Descanso do Modelo, c.1913.

E mais uma série de desenhinhos a lápis, datados de 1911 e 1913, estudos que, tudo indica, têm a ver com estas duas obras de Malhoa.
Olhando com olhos de ver, poucas dúvidas restarão que a jovem mulher é a mesma. E que ambos os quadros terão sido pintados pela mesma altura…

Os apontamentos a lápis, com diferenças de quase dois anos mas no mesmo caderninho, reforçam claramente tal ideia.

Tal contraria recentes conclusões que, partindo de uma cartinha de Malhoa a Augusto Gama, datada de Nov. de 1918, colocam este Descanso do Modelo, sem mais aquelas, por tal data.

Na missiva, escreve Malhoa: «Estou a pintar figura, tendo por fundo as janelas do atelier illuminadas pelo sol, e cheio de sardinheiras que é um encanto: amanhã vou começar um nu de mulher, aproveitando essa luz e esses reflexos, que na carne deve ser obra!»

Encarnando a D. Isabel Semedo - talvez a pessoa que mais tempo habitou o Casulo de Malhoa, ensinando a ler sucessivas gerações de figueiroenses - que disse Malhoa? 
- Que pintou figura, 
sobre um fundo muito bonito, formado pelas janelas do atelier iluminadas pelo sol e cheio de sardinheiras. E que no dia seguinte fazia tenção de pintar um nu feminino, sob condições luminosas semelhantes… 
Disse que o fez? Que o sol brilhou de igual modo no dia posterior? E, se tal acabou por fazer, que o quadro é este? Não, nada disso…



Em o Descanso do Modelo, por certo pintado no atelier da Av. Antº Mª do Avelar, temos como fundo uma tela engradada, uma das cadeiras de sola que estão hoje nas Caldas, com uma guitarra em cima, uma outra D. João V (ou D. José) e que também ainda existe, uma moldura dourada e um jarrão de flores, mas que nada têm a ver com sardinheiras…
Falamos da mesma coisa? Até podíamos… mas entre a nuvem e Juno…
E a mulher? Olhemos para a mulher! – afinal, o mais importante. É ou não é a mesma?!
 Mas o pior, agora a despropósito, vem a seguir. Quando se afirma, com despudor, que O Ateliê do Artista, o do MASP, também é obra desse “ano dos prodígios” de 1918!? E logo se avia uma erudita teoria acerca…

Tá tudo parvo?! A esta, a D. Isabel Semedo puxava da palmatória!
Não está bem de ver que este O Ateliê do Artista é o Descanso, c.1894, exposto na 4ª do Grémio? O irmão gémeo do Antes da Sessão / Descanso do Modelo, 1894, também exposto na mesma altura, prova para Académico de Mérito, hoje no MJM?

Pode ver aqui Antes da sessão, 1894
(parece que já não pode... fica uma imagem)






O mesmo cortinado verde, o mesmo atelier – o velho, o da Academia de Belas Artes - e, principalmente, o mesmo modelo! – basta olhar-lhe para as nádegas, independentemente do grau de concupiscência…



Olhe-se para ele aqui, em foto da época, de J. Francisco Camacho (e não é novidade nenhuma, está no site do IMC... é só ir à procura.)
É o que dá terem-no limpo... – num ápice, o Ateliê “aluministou-se”. E rejuvenesceu vinte anos!?

Está visto: percebe-se pouco disto, nada de agricultura, e ainda menos de “gajas” – o que é lamentável!




Publicado originalmente em Dez. 2011. LBG



Provocando, 1905

Provocando, 1905, é um quadro de José Malhoa, um retrato de Manuel Henrique Pinto.

É um quadro muito curioso, envolto nalgum mistério. Tal como o retratado, anda perdido, meio esquecido, e quando se escreve sobre ele normalmente sai asneira. Bom, pois, para começar estas notas.

Assinado e datado de 1905, não consta ter sido alguma vez exposto em Portugal. Contudo, por essa altura, algumas referências e reproduções suas aparecem na imprensa, mormente em artigos relacionados com a grande exposição que Malhoa se preparava para levar ao Rio de Janeiro no ano seguinte. Acontecimento único que merece visitas Reais, nas vésperas do embarque, aos quadros ainda no atelier do Pintor, e prosa solene de Ramalho Ortigão, outro dos que também ali vão patrocinar a nova viagem cabralina a Terras de Vera-Cruz.

Entre as cento e doze obras que constam do Catálogo da Exposição do Rio de Janeiro, 1906, Provocando é o nº 30 e abre a série de dezassete fotos que ali são reproduzidas.

O rol tem ordem estabelecida e é encimado, como manda o figurino, pelo Retrato de Sua Majestade El-Rei D. Carlos I e pelo Retrato de Sua Majestade a Rainha Senhora D. Amélia, seguem-se as Cócegas (Salon Paris 1905), O sonho do Infante – (O Infante D. Henrique no promontório de Sagres) e por aí fora… Hoje em dia, parece que já não há respeito e tal lista aparece numa bagunça - depois, enganam-se e enganam-nos…

Nada sabemos sobre as dimensões ou o suporte de Provocando. Algumas crónicas de 1906 falam de um quadro pequeno, «um quadrinho de palmo», tal faz supor que assim seja e se trate de uma pequena tábua.

A última notícia credível que dele se tem data de 1906, na tal exposição individual no Rio. Pelo seu próprio punho, Malhoa deixou a seguinte nota manuscrita: «Junho 29 – Exposição no Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro – Preço porque vendi os quadros em moeda brazileira – (…) 30 - Provocando E. P. Guinle - 2:844$400», antes refere que ao mesmo Guinle vendeu o «27 - Viúvo! Eduardo P. Guinle - 1:000$000».

E de S. Paulo directo para aqui, uma nota amiga que não resisto a transcrever:
«...os Guinle são uma família abastada do Rio de Janeiro, já foram muitíssimo ricos, elite famosa por suas festas e boa vida. Eduardo Pallasim Guinle foi o patriarca da família, que era concessionária do comércio do café no Porto de Santos, isto quer dizer que eram donos do monopólio do produto mais importante da virada do século no Brasil. Receberam a concessão da Princesa Isabel, provavelmente pelas relações com o Conde d'Eu. No século vinte, nos anos 40 e 50, foram conhecidos por serem donos do glamuroso Copacabana Palace, o hotel mais refinado do Rio de Janeiro. Viraram uma dessas famílias decadentes, mas ainda com prestígio e cultuadas nos meios da high society carioca. Tiveram um pintor na família, Jorge Guinle, morreu jovem nos anos 1980, ceifado pela praga da Aids infelizmente - muito bom artista. Não confundir com o playboy Jorginho Guinle, cujos feitos contam ter conquistado inúmeras atrizes como Rita Hayworth, Marilyn Monroe, Ava Gardner, Marlene Dietrich (o que duvido muito...)»

 
Provocando faz parte de uma série de retratos (ou serão “género” ?! – sobre tal assunto, e respectivos critérios “científicos”, lá iremos em próxima oportunidade…) série de retratos, dizia, que Malhoa pinta durante a primeira década do séc. XX, tomando como modelos alguns dos seus amigos mais chegados, e ao jeito dos clássicos que mais admirava. Chamemos-lhes antes um divertimento "RembrHalsista-Velazquista" (pois já se percebeu que a novel e renomada teoria Tenebrismo vs. Luminismo “vareia” consoante uma tela acaba de ser limpa ou a sua reprodução aparece com as cores mais avivadas …), diversão esta levada a sério, donde resultam belos retratos que Malhoa não hesita a levar aos principais salões internacionais.
L’Homme au Capuchon / O Homem do Gorro (Retrato do fotógrafo A. Novais), 1901, Cabeça de Estudo (Retrato de M. Henrique Pinto), 1902, Chevalier de Saint-Jacques / Cavaleiro de Sant’Iago (Retrato de A. Lobo da Silveira), 1904, Provocando (de novo um Retrato de M. Henrique Pinto), 1905 e, finalmente, o Retrato de Veríssimo José Baptista, 1910, são as pinturas mais significativas desta série de gorros, chapéus e golas seicentistas, iniciada talvez, ainda em 1895, com a dramática Cabeça de Velho (actualmente na CMAG) – muito provavelmente o Retrato de Francisco Jorge Pinto, o pai do inseparável Manel Henrique, aquando da sua morte.
Resta acrescentar, a esta história, o seguinte: todas as notícias posteriores a 1906, serão de muito duvidosa credibilidade.
Referências à participação deste quadro na Exposição Panamá-Pacífico de 1915, em S. Francisco da Califórnia; ou na Exposição de Homenagem a Malhoa de 1928, na SNBA em Lisboa; umas notas pomposas que lhe atribuem umas alegadas medidas de 80x70... etc., não passam de pura fantasia.


Acontece que em 1913 Malhoa pintará uma outra tela, actualmente no Museu Abade de Baçal em Bragança - A Provocante. Este novo quadro, que retrata uma jovem senhora, como o nome indica, em atitude provocante, cativou sobremaneira Cruz Magalhães, então grande amigo do Pintor.

Ora, Cruz Magalhães, além de ficar proprietário d' A Provocante, publica na Illustração Portugueza, logo em 1913, uns versinhos pífios sobre tal quadro intitulados «Provocando» - os versos, bem entendido!. 
Como é bom de ver, rapidamente A Provocante passou a «Provocando» - ademais com o outro, o original, "exilado" e perdido do lado de lá do Atlântico.
E, daí para cá, a confusão tem sido constante, levando ao engano os mais insuspeitos autores. Muito provavelmente o quadro que vai a S. Francisco já é o da rapariga, e o que estará presente em 1928 no salão da SNBA, na Exposição de Homenagem a José Malhoa - o tal com 80x70 - é, de certezinha, o da serigaita… há fotos (pode ver aqui) que o atestam.
Ainda hoje chamam «Provocando» a A Provocante,1914. Como se o outro – este que aqui recordamos - nunca tivesse existido.

Publicado originalmente em Dez. 2011. LBG.

A propósito de A Provocante: 1913 ou 1914 ?
duas notas e uma rectificação.

Vai para quatro anos, deixei aqui umas notas que hoje considero um bocadinho parvas. O tempo tem destas coisas, quanto mais não seja a gente vai aprendendo e, sabendo mais qualquer coisa, mudamos de opinião. Ficam portanto as notas, mas revistas e rectificadas.

A primeira nota baseava-se no facto de a Illustração Portugueza de 2 de Junho de 1913, a que no interior reproduz os versinhos de Cruz Magalhães, publicar na capa a foto de A Provocante.
Ora, se em meados de 1913 já fora fotografada para a revista, aparentemente prontinha e tão inspiradora da verve poética do Magalhães, tal quereria dizer que a pintura seria datável desse ano e não de 1914, como surge muitas vezes e sempre associada ao tal título abastardado. Acresce que, em várias publicações, tal quadro é dado como assinado mas «não datado»… Parecia-me assim óbvio que não só o título mas também a data seriam merecedores de contestação.
Acontece que recentemente voltei a ver o quadro com tempo e olhos de ver - está por estes dias no Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos. E para meu espanto, ou porque a iluminação é melhor ou porque o quadro foi objecto de uma limpeza, estes meus olhinhos viram, sob a assinatura de José Malhoa e distintamente, a data de «1914».
Pode, e será certo, que o quadro é obra de 1913, mas Malhoa assinou-o e datou-o de «1914».
E nisto, quando o Malhoa “fala”, eu abaixo as orelhas!
Seja pois A Provocante, 1914 – e não se fala mais nisso! Mas A Provocante, se fazem o favor!

A segunda nota era sobre a foto onde Malhoa desce as escadas, «de braços abertos, ao encontro do seu dedicado amigo Magalhães».
Levantava eu algumas dúvidas sobre esta fotografia, se seria ou não bastante anterior à data da referida publicação, e afirmava que, contrariamente ao escrito algures, aquilo não é «no Casulo»…

Sobre a data, hoje, vistas melhor as coisas, o mais natural é que seja próxima da publicação. Anterior, como é óbvio, mas nada indicia que não seja dessa época em que Magalhães mais se insinuou junto de Malhoa.
Agora, quanto aquilo ser «no Casulo», santa paciência! - quem tal escreve ou percebe pouco disto ou anda muito distraído…
As escadas fotografadas são as das traseiras da Av. António Maria de Avelar, hoje 5 de Outubro, e que já não existem. São as escadas que davam directamente para a Sala de Jantar, as que, viradas a Sul, tinham melhor luz para fotografar…
Dizer que são «as do Casulo» é, no mínimo, ligeireza.


Dez. 2015. LBG