domingo, 29 de julho de 2012

Do comer e beber, Rio 1906



«A exposição de quadros de Malhoa aberta em 4 de julho de 1906 foi amplamente resenhada na imprensa brasileira antes, durante e depois de seu acontecimento. Grande evento de consagração do pintor português no Brasil, sua realização proporciona ao estudioso da arte portuguesa e brasileira uma oportunidade ímpar para debater as mútuas relações desenvolvidas na produção artística de ambos os países de fins do XIX e início do XX, sobretudo aquela que gira em torno do chamado naturalismo. Malhoa já havia participado de exposições no Brasil desde 1879[0], mas a de 1906 é a que mais destaque obteve na imprensa brasileira, fato que reflete a importância de tal certame, ao qual compareceu, na cerimônia de abertura, o presidente da República do Brasil, Rodrigues Alves. Organizada no Real Gabinete de Leitura Português[1],  contou com 112 obras[2], sendo que dela resulta a importante aquisição de As cócegas, pelo Estado, incorporado ao MNBA-RJ por esforço do escultor Rodolfo Bernardelli (que outorga ao pintor, como diretor da ENBA, o título de Membro Honorário daquela instituição em 1906), além de aquisições para as coleções de particulares no RJ. A exposição no Real Gabinete é somada a banquetes oferecidos ao artista, no Hotel Paris[3], bem como ao fim do elegante passeio ao Sumaré[4], em que comparecem personalidades da vida carioca[5]. Toda essa agitação é testemunho da grande importância que a presença do artista assume para a comunidade artística e cultural brasileira… »

Como ando muito atarefado com outras coisas, aproveito-me do trabalho dos outros. O texto introdutório é da minha amiga Fernanda Pitta – de pouco serviu, e se havia de ir pró lixo… recicla-se aqui. As notas, só para precisar algumas passagens, são minhas.

fotografia de Luiz Canêdo


Faz hoje anos, a 29 de Julho, que se realizou o tal passeio ao Sumaré. Dele fica a foto de grupo - com esta e com a lista de convivas[6] podíamos promover um concurso: “descobre quem é quem”...

Também os menus do banquete do Hotel Paris, a 4 de Julho, à mão desenhados um a um[7], recordam toda a pompa que rodeou a inauguração da Exposição.


E chegaram até hoje mais uns outros cardápios, personalizados com os nomes de Joaquim e José Malhoa - a coisa deve ter sido bem chic - mas a data, 12.7.1906, não a encontramos, pelo menos à primeira, entre os vários eventos de que temos notícia. E, ou haverá algum erro, ou mais um belo almoço ou jantar apaparicou a estadia de Malhoa no Rio.


Contudo, olhando em pormenor para as ementas, ficamos preocupados – grande parte das iguarias repetem-se - parece que o alimentaram a badejo, espargos e perú. O que não sendo mau, já devia enjoar…

Ficam ainda mais umas notas tiradas da imprensa da época relativas a outros comes e bebes e festanças ofertadas a Malhoa durante a sua estada carioca. Logo após a inauguração da Exposição, a 9 de Julho, uma récita muito lusitana no Teatro Apollo[8], com peça de D. João da Câmara, versos ditos pelo Actor Brazão e discursos elogiosos de Silveira e Coelho Netto. Pouco depois, a 17, um «almoço intimo na Sociedade Portugueza de Benificencia»[9] entre o comendador Prista, os manos Malhoa e Julião Machado, a alma de toda a visita e em casa do qual Malhoa se hospedou. Por fim, pouco antes do regresso a Lisboa, a 5 de Agosto, para a despedida, mais um passeio muito social à Tijuca com o repasto da praxe[10].
Discursos, elogios, impressões e ambientes são também amplamente noticiados. Mas isso só mesmo lendo as publicações da época.


29 Jul. 2012. LBG.


Com a pressa, esqueceu-me isto: o convite do Comendador F. Casemiro Alberto da Costa para o almoço no alto do Sumaré.




Peço desculpa, mas já não irão a tempo de darem a V. participação...

17 Ago. 2012. LBG.



[0] Trata-se da «Exposição Portugueza no Rio de Janeiro em 1879». Na «Revista» dessa exposição, «fundada pelo Dr. Domingos J. B. de Almeida» e editada no Rio nesse mesmo ano, podemos confirmar que a José Malhoa foi concedido um «Diploma de Menção Honrosa» no «1º Grupo», referindo-se ali apenas «Quadros a oleo». 
Na mesma revista pode ainda ler-se (p.274): «Dos artigos de bellas artes nenhum se pôde vender, por causa dos altos preços marcados pelos artistas, preços aggravados ainda pelos fortes direitos com que a tarifa alfandegaria do Brazil sobrecarrega esta classe de productos». Todavia, ficamos a saber que a S.M. o Imperador do Brasil foram ofertadas algumas da obras expostas: «Um quadro a oleo representando o hiate Syrius de S.M. El-Rei de Portugal, offerecido pelo expositor e auctor Sr. Luis Ascencio Thomazini», e a estátua em mármore de Carrara representando «Sapho», de José Simões d'Almeida Júnior, galardoada com um «Diploma de Medalha de Ouro», e que foi «offerecida pela Commissão da Exposição Portugueza no Rio de Janeiro». 
Voltando a Malhoa. Maria João Neto, no seu artigo «A Exposição Portuguesa no Rio de Janeiro em 1879 | Ecos de um Diálogo entre Arte e Industria» publicado em Oitocentos | Intercâmbios Culturais entre Brasil e Portugal | Tomo III - UFRRJ, Rio de Janeiro, 2013, por sua vez, diz-nos: «Nesta que seria a sua estreia em terras brasileiras, Malhoa apresenta uma obra intitulada "A praia do Alfeite", para a qual, muito provavelmente, fez alguns esquissos que hoje estão no Museu, com o seu nome, nas Caldas da Rainha». Ficamos sem saber muito bem qual a obra a que se refere e quais as fontes em que se baseia, mas regista-se a nota. [10.1.2015]


[1] «Real Gabinete Portuguez de Leitura», na designação e grafia da época.

[2] Sobre isto, emenda-nos Malhoa: «…- Cataloguei 112, mas á ultima hora só pude levar commigo cento e quatro, por me tornar completamente impossível acabar os oito que faltavam. – Em que dia chegaram ao Rio? – A 10 de junho, sendo inaugurada a exposição a 4 de julho, um pouco tarde, porque o Presidente da Republica fôra convidado a inaugural-a e porque só passados alguns dias o podia fazer…» - excerto de uma entrevista a Malhoa, já regressado a Lisboa. Infelizmente é impossível identificar a origem do recorte de jornal. Sublinhado nosso.
[nota posterior] Trata-se, afinal, de uma entrevista publicada no Jornal da Noite de 30 Agosto 1906. Agradeço a Arthur Valle a ajuda no deslindar deste enigma. [12.7.2014]

[3] «Na mesma noite do dia da inauguração da exposição offereceu a directoria do Gabinete Portuguez de Leitura um banquete a José Malhôa, no salão especial do hotel Paris, que n’aquella noite foi especialmente ornamentado de flores, sendo armada, para o banquete, uma meza em forma de Z, para cerca de oitenta talheres. Esta meza foi tambem ornamentada com um bom gosto muito sobrio e muito chic.» in Portugal Moderno, Julho 1906

[4] «Pouco depois das 10 horas da manhã, em bonds especiais da Ferro-Carrill Carioca partiram os convidados para o Sumaré (…) os excursionistas ao meio-dia chegaram ao alto do Sumaré; depois de tiradas por amadores algumas photographias que recordarão para sempre o inesquecível dia de hontem, Os convidados entraram num elegante e amplo barracão construido de madeira, dando pelos dous lados para espaços abertos de onde a perder de vista se divisam encantadores panoramas. O barracão é quasi completamente occupado  por um restaurante, estylo allemão, onde havia sido armada a mesa de um almoço para 50 ou 60 talheres (…) Ao champagne o Sr. Commendador Casemiro Alberto da Costa offereceu  a festa ao Sr. José Malhôa (…) Fallou depois o Sr. Olavo Bilac cuja palavra proporcionou aos assistentes momentos de emoção…» in Jornal do Commercio, Rio, 30.7.1906

[5] «Nessa ocasião, um cardapio que deu volta á mesa recolheu as seguintes assignaturas que deixamos annotadas na ordem em que foram escriptas: Mlle. Adelia da Cunha Vasco, Visconde de S. João da Madeira, Madame Cunha Vasco, Francisco Casemiro Alberto da Costa, Madame Santos Carvalho, Viscondessa de S. João da Madeira, Commendador João Reynaldo Faria, Mlle. de S. João da Madeira, João dos Santos Carvalho, Mlle. Bebé Azevedo, Arthur Azevedo, Rodolpho Bernardelli, Madame Arthur Azevedo, Madame Francisco Guimarães, Madame Casemiro Alberto da Costa, Fillinto de Almeida, Madame Julião Machado, Francisco Guimarâes, Madame Vasco Abreu, Raul Pederneiras, Mlle. Marta da Cunha Vasco, Gonzaga Duque, Julião Machado, Albano Filinto de Almeida, Commendador Canedo, Olavo Bilac, Belmiro de Almeida, José Barbosa, Vasco Abreu, Antonio Augusto Ferreira, Antonio Ferreira Botelho, João Lopes Chaves, João Baptista da Costa, Frederico Wincker, José Maria da Cunha Vasco, Joaquim Malhoa, Antonio Braga, Antonio V. C. Guimarães, Coelho Cabral, Mujia Linares, Mlle. Iracema Guimarães, Mlle. Anna da Cunha Vasco, Alfredo Guimarães, Mlle. Mathilde Guimarães, Mlle. Adelia da Cunha Vasco [repete, sic], Mlle. Irene Guimarães» idem.

[6] Ver nota precedente.

[7] Destes, existe um terceiro exemplar no Museu José Malhoa, Caldas da Rainha.

[8] «Com uma numerosa assistencia, realisou-se hontem o festival organizado em homenagem a José Malhôa. O elegante theatro da rua do Lavradio apresentava um bello aspecto, ornado de festões e folhagens, notando-se na platéa todo o mundo elegante da nossa cidade. Representou-se a deliciosa peça de d. João da Camara, Os velhos, que provocou prolongados e enthusiasticos applausos. Conforme estava annunciado, nos intervallos usaram da palavra o conhecido orador Eugenio Silveira e o fino estheta da palavra Coelho Netto…» recorte de jornal do Rio não identificado, de 10.7.1906. 
O anúncio, esse é do Correio da Manhã do dia anterior, 9.7.1906. 



[9] «A convite do commendador Prista, o distincto artista José Malhôa almoçou hontem, em companhia de seu irmão, o Sr. Joaquim Malhôa e do nosso companheiro Julião Machado, no edificio da Real Sociedade Portugueza de Beneficencia.» in O Paiz, Rio, 18.6.1906

[10] «Conforme estava annunciado realizou-se ante-hontem o passeio à Tijuca, offerecido ao pintor José Malhôa pelo Gabinete Portuguez de Leitura (…) Chegados ao Alto da Boa Vista, os convidados tomaram logares em seis carros tirados a quatro e seguiram para o Excelsior. D’ahi foram em visita á gruta de Paulo e Virgínia, regressando então para almoçar ao hotel White…» in O Paiz, Rio, 7.8.1906



sábado, 7 de julho de 2012

O Conto do Vigário

ou
Um brasuca mudo e o portuga que se não cala…



«Sabem què vem a ser um conto do vigario?
Com certeza sabem de cór e salteado.
Mas aposto em como não sabem o que seja um conto de padre mestre.
Pois lá vai.
No theatro Apollo, não sei em que data, senti um abraço pelo pescoço e um beijo estalado atrás da orelha.
Era o Malhôa.
Sentámo-nos a uma mesa e eu, por delicadeza, apesar de pouca vontade de pagar, pedi uma garrafa de cerveja. Atrás dessa, o illustre artista pediu outra e mais outra, e ainda estaria a pedir, se eu não tivesse tomado o expediente de chamar o caixeiro e pagar a conta.
O diabo bebe aquillo como se fosse agua da Carioca, e emquanto bebia engrossava-me.
- Pois, meu negro do coração; és o rapaz mais bonito desta geração; nem sei como ainda estás solteiro.
Pausa e tres goles de cerveja; e eu calado.
- Preciso de um rufo de tambores para a minha exposição; uns annunciosinhos desfarçados, e a tua secção de theatros está a calhar.
Outra pausa e mais tres goles; e eu calado.
-Preciso liquidar aquillo tudo e tratar da vida; se acharem que os quadros prestam, muito bem; se não acharem, faço a trouxa e raspo-me.
Mais pausa, mais cerveja e mais silencio meu.
- Uma mão lava a outra, já se vê; e isso de pedir só sem dar não é dos meus habitos.
Pausa, nova garrafa e eu na moita.
-Trago uma pasta cheia de desenhos que reputo obras d’arte, e que destino aos amigos do peito, e você fica sendo do peito se me tocar os tambores e todos os chocalhos do reclame.
Idem idem idem.
- E depois o amiguinho manda pôr o desenho num passe partout e lá vai-elle para a parede da bibliotheca lembrar sempre o amigo velho, o maior admirador do Carino.
Pausa, etc., etc.
- Está dito? Vai ou não vai? Entra no accordo? É pegar ou largar.
Etc. pausa, etc. e cerveja.
- Bem, respondi; aceito.
Aceitei e cumpri, tocando gaitas por aqui e pelos bonds da Gavea.
Enchi-lhe a exposição e elle encheu de notas do Thesouro uma burra de respeitavel tamanho.
Os quadros produziram 318 contos de réis.
Pois bem.
O padre mestre sem coroa esqueceu se da cerveja e do desenho.
Sim, senhor; mas ha de voltar, e quem lhe ha de dar desenhos, rufes e gaitas e cervejas e o diabo que o carregue, é o – CARINO.»



Esta delícia de texto foi publicada em O Paiz, do Rio de Janeiro, salvo erro em 6 de Agosto de 1906. Não resisto a transcrevê-lo na íntegra.
Da coluna «Visita aos theatros» daquele periódico, está assinado por um tal «Carino» - personagem que desconheço mas tudo indica seria o colunista teatral e social do dito – e vai, tanto quanto me permite o malvado corrector ortográfico, com a grafia original.

Com humor fino e prosa escorreita, relata um alegado encontro, mais ou menos casual, mas muito conveniente, entre o autor e José Malhoa, nas vésperas da inauguração da sua Exposição individual no Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro. O empenho deste em convencer o jornalista a “dar-lhe uma forcinha”, a promessa de um desenhito assinado em troca e, coisa mais rara para quem o “conhece” de ginjeira, um Malhoa bebedolas - ou quase.

Mas que tem piada, tem! E falta faz no extenso «anedotário malhoesco» a que bem se referia Varela Aldemira.


Suscita contudo algumas notas.

Chegado à baía da Guanabara, a bordo do «Cordillière», no dia 10 de Junho de 1906, Malhoa permanecerá no Rio de Janeiro cerca de dois meses.
Recebido, segundo os jornais, com pompa e circunstância, a sua fama precedia-o. Já nos meses anteriores uma imprensa muito favorável publicava regularmente matéria sobre o Pintor e a sua Arte, preparando-lhe a vinda.

«Não ha mais difficuldade em pintura, José malhou-a !»
in Jornal do Brazil, 4 de Julho de 1906

As primeiras semanas em solo carioca serão de vida social intensa e honrarias várias, como o ser aclamado «membro honorário da Escola Nacional de Bellas-Artes e, portanto, do Conselho Superior de Bellas-Artes», actos que os jornais não se cansam de registar, aguçando o apetite para o «vernissage». Que a Exposição só seria inaugurada a 4 de Julho, com mais pompa, circunstância, Presidente da República e tutti quanti! E mais banquetes e mais notícias...
E a 7 de Julho (faz hoje 106 anos) lia-se no Paiz e na Gazetta «Mais de duas mil pessoas visitaram hontem a exposição Malhôa franqueada ao publico na sala dos brazões do Gabinete…»

Ficamos a saber, portanto, que será um manifesto exagero carioca a presunção de terem sido as supostas linhas de Carino, negociadas entre algumas garrafas de cerveja, a «encherem-lhe» a exposição.

«Este bloc sinthetiza a Poesia e a Arte - nas suas mais bellas e extraordinarias creações». «29 Julho 1906 - Sumaré». «Luiz Canêdo»
Malhoa, ao centro, durante o passeio ao Sumaré, acompanhado pelo irmão Joaquim - o segundo, a quem JM dá a direita - e Artistas e Poetas brasileiros.
Olavo Bilac será o primeiro, logo na ponta esquerda, e o Jornal do Commercio (30.7.1906) diz-nos que naquela ocasião lá estavam, entre muitos outros convivas, Rodolfo Bernardelli e Gonzaga Duque... muito provavelmente estes da direita.


Quanto aos «318 contos de reis» com que Malhoa «encheu a burra», apesar da aparente precisão nada redonda de tal número, sabemos que é outro manifesto exagero.

Malhoa assentará o «Preço porque vendi os quadros em moeda brazileira». E na soma final, incluindo 2.776$000 pela venda de catálogos, bem como os 7.000$000 por cada um dos retratos Reais à Sociedade D. Pedro II, mas não contando com As Cócegas, que em Janeiro do ano seguinte ainda não lhe haviam sido pagas pelo Estado brasileiro, regista 72.950$400 – menos de um quarto do badalado pelo escriba fluminense!
E Malhoa acrescenta «Recebi em Lisboa vendendo as libras - 22.500$000». Uma bela quantia, é certo, mas muito longe da propalada.

Por fim, anote-se a data da publicação. Se o 6 de Agosto está certo (torna-se difícil ler hoje a data) é mais que conveniente.
Carino sugere que o «padre mestre sem coroa» já se fora com a promessa por pagar. Todavia, Malhoa ainda por lá anda, só a 13 de Agosto zarpará de volta, no «Nile», para desembarcar em Lisboa quinze dias depois.

A exposição tinha encerrado a 23 de Julho; antes Malhoa já havia ido visitar a Escola de Belas Artes, a sua galeria e a aula de Henrique Bernardelli: depois o Palácio do Cattete, a agradecer ao Presidente Rodrigues Alves «a honra que lhe dispensára» ao inaugurar a exposição; escrevia agora várias cartas de agradecimento que haveria de publicar nos jornais na altura da partida; natural era que ainda lesse a prosa macaca, lhe achasse alguma piada e escorregasse com o desenhinho combinado e agora sabiamente pedinchado…

Se o estratagema de Carino resultou ou não, não sabemos.

Mas que é difícil de engolir, porque nunca vista, a extraordinária estória de um “tuga” que não se cala e consegue dar a volta perante um “zuca” mudo e quedo… é! E muito!

Com carinho.


7 Jul. 2012. LBG. 



Em tempo: Fica também o Convite para a Exposição. É Pessoal e assinado pelo próprio. Não percam!


17 Ago. 2012. LBG

domingo, 1 de julho de 2012

Ao Soalheiro


«Acha, o menino, que eu tenho tempo de estar ao Sol?! A minha vida é trabalhar! Isso é bom, é para a minha vizinha, a Maria Esgadelhada, que passa a vida sentada ao Sol, a falar da vida dos outros, a dizer mal desta e daquela…!» - costumava dizer a Guidinha, sábia empregada lá de casa.


«Estar ao Sol…», numa pausa do duro trabalho braçal, para retemperar forças, para aquecer o corpo gelado da humidade das hortas ou das casas lúgubres e frias, aproveitando para mais algumas tarefas não menos importantes, como descascar umas favas ou escolher um feijão, dar uns pontinhos nos fundilhos de umas calças ou fiar umas mechas de lã ou de linho, como aqui. E, também aproveitando, para uma ou duas modas, pôr a conversa em dia e meter o nariz na vida da vizinhança…

O secular hábito do «soalheiro» passou do campo á cidade como sinónimo de má-língua. Uma instituição nacional.



Como muitos outros aspectos da cultura popular, Malhoa também este registou. «O Soalheiro» é um quadro muito pouco conhecido, pouco referenciado e, creio mesmo, nunca publicado ligando o título original à sua imagem.


JMalhoa, 1904. O Soalheiro

Não sei mesmo se alguma vez exposto em Portugal, encontra-se uma primeira notícia de «O Soalheiro» na grande Exposição individual de José Malhoa no Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, em 1906. Com o número 11 do catálogo, Malhoa registará a sua venda, na «Receita de Julho», a Cunha Vasco por 1.600$000 «em moeda brasileira». Tal, se dúvidas houver, mas sem indicar o preço, é-nos confirmado por uma nota da Gazetta de Noticias, do Rio, de 6 de Julho desse ano.


As abundantes notícias que nos chegaram da triunfal estadia de Malhoa no Rio pouco nos dizem sobre este quadro. Entre banquetes, visitas ao Alto do Sumaré na Tijuca e mais repastos, as atenções dos cronistas, brasileiros e portugueses, viram-se mais para as obras de “encher o olho”, e as referencias e descrições de «As Cócegas», «Cavaleiro de S.Tiago», aos retratos Reais e ao «O sonho do Infante» ou a «O vinho verde», sobrepõem-se a todas as outras.

JMalhoa, c.1905. Tempo de chuva, lar sem pão

 (Mesmo algumas outras, mais esparsas, a «Tempo de chuva, lar sem pão» e «Pensando no caso» não obstam a que, logo duas décadas depois, já confundam um com o outro – confusão que chegou aos dias de hoje - mas não é isso que agora nos traz aqui…).

JMalhoa, 1904. Pensando no caso

Contudo, um excelente e completo artigo do Jornal do Commercio, do Rio, de 4 de Julho, sob o título «Notas de Arte», não o esquece - «O Soalheiro é outro extraordinário espécimen das qualidades de colorista ardente do pintor. A luz irradia e resplende aos olhos de quem olha para o quadro nas rutilações brancas do meio-dia e nos reflexos rubros dos vestuarios. Vê-se a satisfação intensa daquellas mulheres que se aquecem ao calor reconfortante daquelle sol. As posturas que cada uma toma são de uma naturalidade verosímil, devem representar uma scena comum nas aldeias portuguezas e frequentemente testemunhada pelo artista. São de um profundo interesse e traduzidas com grande força de technica.»
Mas «O Soalheiro» irá aparecer mais uma vez, dois meses depois, no Salão da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro. Em mais uma participação que passa despercebida nas várias biografias malhoescas, mais ou menos “oficiais”.

Uma nota de um jornal brasileiro não identificável, intitulada «O “Salão” de 1906 - o “vernnissage” e a inauguração», dando conta da abertura próxima do certame, dá uma notícia curiosíssima: «Dos pintores conhecidos, deixaram de expor Henrique Bernardelli e Amoedo, para dar lugar a Malhoa, a alguns franceses, a Broros, (?), Vasquez e Petit…». E, completando esta notícia da deferência dos dois Mestres brasileiros para com o Amigo luso, Bueno Amador, dias depois, no Jornal do Brasil de 11 de Setembro, dirá: «Da exposição que, com êxito completo, realizou José Malhoa ultimamente no Gabinete Portuguez de Leitura, passaram para o Salão actual seis telas suas. Cebolas é um magistral quadro de natureza morta, eximiamente executado, que põe a grande distancia os muitos quadros do genero, que por ahi aparecem crivados de abacates, melancias e hortaliças. Compra do voto, 7º, não jantar… [sic – quer-se referir a «7º, não furtar… as uvas do seu cura»], Sardinhas e Soalheiro são quatro estudos de observação de aspectos e costumes portuguezes…», mais à frente, discorrerá longamente sobre «As Cócegas», o sexto quadro do conjunto.


Todavia, é num artigo de O Dia, de 13 de Março de 1906, que podemos “ver” pela primeira vez «O Soalheiro». Citando um artigo de João Chagas que só verá a luz do dia quatro dias depois em O Paiz, do Rio – num tempo sem internet ou sequer telexes, tal podia acontecer – o jornalista lisboeta vai mais longe e, ao reportar a visita que ambos fizeram ao atelier da Avª António Mª de Avelar, nas ante-vésperas do embarque no «Cordillière», descreve-nos alguns quadros. Às tantas, diz: «Depois, vem aquella nota clara, retintamente minhota, Ao soalheiro, dos mais lindos quadros, se a selecção é possível, que o pincel de Malhoa tem traçado. – Á hora do sol, as mulheres sobre esteiras, costurando, vão maliciosamente narrando casos picaros, e ha como que sorrisos nas boccas que a indolência e a maldade ferem. Recorta-se tambem a casaria humilde e tão caracteristica.»


Dando de barato a confusão geográfica recorrente entre a província minhota e Figueiró dos Vinhos, e que o próprio Malhoa cultivava…, temos dois reais testemunhos do quadro que nos indicam sem grandes dúvidas que é este.


Nunca mais, que se saiba, se ouviu falar dele. Só há pouco, e por duas vias, das mais amigas, dele me chegaram notícias que pode ver aqui . Agora já rebaptizado! Tal como um outro que o acompanha(va) – «A Descamisada», 1903. Este último, sem qualquer dúvida, o quadro apresentado na 3ª exposição da SNBA, e no qual podemos apreciar mais uma mão cheia de “minhotas” à sombra tutelar da Torre da Cadeia de Figueiró…

JMalhoa, 1903. A Descamisada

«E pronto! Acabou-se!» - como diria a Guidinha, sempre que começava a passar na tv o genérico final de uma qualquer novela brasileira, invariavelmente, e acrescentando sempre - «P’rá próxima é que vai ser bom!...»


1 Jul. 2012. LBG
nota: Sobre O soalheiro, 1904, pode ainda vê-lo em fotografia da época.

sábado, 28 de abril de 2012

A 28 de Abril de 1855


«José Vital Branco Malhoa nasceu em 28 de Abril de 1855, na Travessa de S. Sebastião naquela que era, à época, a Vila das Caldas da Rainha. De origem social modesta, foi o terceiro [1] filho de Ana Clemência e Joaquim Malhoa, abegão de ofício. Os sinos da igreja de Nossa Senhora do Pópulo repicaram no dia 15 de Maio quando foi baptizado. Bem fadado por madrinha notável, o próprio orago do templo, teve por padrinho o abastado lavrador e patrão de seu pai, José Sales Henriques. (…)

            (…) Aos 12 anos, sabendo ler, escrever e contar, tudo o que era preciso para dar entrada [na Academia de Belas–Artes], Malhoa iniciou o seu percurso. O carácter vitalista que se ia formando não o fadou para uma boa classificação inicial. O professor da Cadeira de Desenho de Ornato desesperava ao registar: «pouca aplicação, pouco aproveitamento e comportamento péssimo»… Porém, esta conduta rapidamente melhorou: segundo o seu testemunho pessoal, conseguiu o primeiro prémio em todos os anos e concluiu o curso de pintura com elevada classificação. Talvez «porque grande, muito grande é a força do desenho», no dizer de Francisco de Holanda, Malhoa manifestou uma paixão particular pelas aulas de pintura de Paisagem e de Desenho. De resto, os magníficos traços que deixou, expressam a importância que até ao fim da vida atribuiu a este saber (…)»

Sandra Leandro, in José Malhoa, Arting, 2008. pp. 33, 34.


Como se percebe, fazem hoje 157 anos que nasceu Malhoa. Sobre este assunto, já quase tudo foi dito. E, por isso, mais vale copiar uma prosa decente.
A acrescentar só o Retrato de Minha Mãe, 1872, onde o jovem Malhoa, então com 17 anos, retrata Ana Clemência. Desenho a carvão, com 30x23, ainda tímido de traço, mas que o Artista sempre guardou zelosamente e cujo destino, a par do «retrato da minha falecida mulher», deixa bem determinado.

Fica, assinalando a data e o nascimento do nosso amigo.







Ainda do jovem Malhoa, mais dois desenhos, também a carvão, trabalhos escolares que ilustram, de outro modo, o que antes foi escrito.
Uma paisagem de 1870 – aos 15 anos portanto – com 43x29.



E um desenho de modelo (ou será de Ornato?), 61x47, com uma indicação curiosa, a lápis e sob a assinatura: «prova d’exame 1º (?) anno / escola de Bellas Artes». A assim ser, anterior àquela última data.










Por fim, dois retratos do Malhoa rapaz.
Uma foto tirada no «Loureiro, C. Ourique 10», talvez a mais antiga que se conheça.















E um medalhão em gesso, 31x23, datado de 1874, de João Rodrigues Vieira, outro dos do Leão, ao tempo ainda Escultor,  que tudo indica retrate José Malhoa aos 19 anos.



28 Abr. 2012. LBG.


[1]  Na verdade, o quinto filho. 
À data do escrito, a própria Autora refere já a existência, para além do mais velho e conhecido irmão Joaquim, das duas irmãs que acompanharam Malhoa durante largos anos da sua vida – Maria Rita, desde cedo, e Maria José, após ter ficado viúva (ver nota 3, p.116, op. cit.). 
Desconhecia-se contudo a sequência exacta do nascimento dos irmãos Malhoa.
Entretanto, numa conferência proferida no Museu José Malhoa, em 26 Abr. 2015, o Dr. Rui Calisto trouxe novos contributos a este assunto: desvendou a existência de um quinto irmão, de seu nome João (1848-1859), falecido aos onze anos de idade (quando o pequenino José Malhoa tinha apenas quatro, portanto); e revelou as datas de nascimento de todos os outros. Percebe-se agora, graças a este contributo, que José Malhoa terá sido o quinto e último filho de Joaquim Malhoa e Ana Clemência.
Assim, e ainda sem absoluta certeza quanto a algumas das datas de falecimento (acrescentos já de minha responsabilidade), fica a lista sequêncial dos cinco os irmãos: Joaquim (1845-c.1917), João (1848- ? ), Maria Rita (1851-c.1925), Maria José (1853-1936) e José Vital (1855-1933).

Jun.2015. LBG.

(Rectificação e adenda à nota anterior.)
Como tenho o defeito de não acreditar em tudo o que me dizem, fui verificar. E às fontes primárias, isto é aos Registos Paroquiais...
Depois de muito procurar, mas debalde, nos registos da freguesia do Coto (que ouvi anunciada como a de origem dos mais velhos irmãos Malhoa - ou será que sonhei?), resolvi voltar aos registos da freguesia de Nª Sª do Pópulo. E, afinal, estão lá todos! 
São todos os cinco irmãos naturais e baptizados na dita freguesia de Nª Sª do Pópulo. Tal como o era a mãe, Ana Clemência (ou também, noutro registo, «Anna Maria»). E também nesta mesma freguesia «foram recebidos» (casaram) Joaquim Malhoa e Ana Clemência. 
Da freguesia do Coto, apenas era originário o pai, Joaquim Malhoa.
Não tem por isso qualquer sentido o entendimento (que terei ouvido, ou apenas sonhado?) segundo o qual, só pouco antes do nascimento de José, a família se havia mudado para a freguesia mais urbana da então vila das Caldas da Rainha. Segundo os Registos consultados, pelo menos desde 1844, presumivelmente a data do matrimónio de Joaquim e Ana Clemência Malhoa (o casamento realizou-se em 23 Dez.1844), a famíia era freguesa de Nª Sª do Pópulo.
Quanto à profissão do pai de Malhoa, «abegão de ofício» - conforme é uso atribuir pelo menos desde o escrito por A. Montez em 1950 - os registos são absolutamente omissos. 
Já em relação ao personagem «José Sales Henriques», padrinho de José Malhoa, «abastado lavrador e patrão de seu pai», surge efectivamente mencionado como o padrinho do acto e antecedido de um inusitado «Illm.º Snr. Jose Salles Henrique» (sem o 's' final). Seria, assim, pessoa de um certo respeito. Se «abastado», «lavrador», ou «patrão do pai», nada o confirma. Teremos, nisso, de continuar a dar por bom o escrito de Montez...
Curiosa e aparentemente, o mesmo personagem (embora grafado de diferentes modos) participou antes nos baptismos das duas irmãs de Malhoa. Em 4.3.1851, é padrinho de Maria (Rita), aparecendo registado como «José Joaquim de Salles Henriques». E, em 30.1.1853, no baptismo de Maria (José), é «José Henrique Salles» quem representa Nª Sª do Pópulo, a Madrinha, «tocando com as suas contas» a baptizada.
Por fim, e já agora, fica também o registo dos avós paternos - João Francisco Malhoa e Bernardina Maria - e maternos - João Moreira Branco e Maria Clemência.

(Eu, por mim, continuarei professo a S. Tomé...)

Abr.2016. LBG.

(Adenda à adenda e às duas notas anteriores)
Ao fim de três anos, finalmente, foi editado em livro o conteúdo da comunicação referida na nota inicial.
Lido o livro com toda a atenção, foi possível perceber duas coisas: 
1º. Que aquilo que referi, anterior e eufemisticamente, como tendo «sonhado», por não ter a certeza de ter sido ou não proferido no tal colóquio (fora então apenas percebido de ouvido) foi-o efectivamente. E infelizmente, sublinhe-se. Porque, como demostro aqui (e como, aliás, já referia na adenda de Abr.2016) tal não passa de um completo disparate.
2º. Que a pretensa data da morte do tal irmão de JMalhoa, o até então desconhecido João, não passa também de outro perfeito disparate. Como explico igualmente aqui.
Assim, mantendo (para memória futura) o que antes foi publicado, opto por assinalar claramente o que então escrevi de errado. E as emendas agora efectuadas.
Por conseguinte, as datas biográficas relativas a João Malhoa, o segundo filho do casal Ana e Joaquim Malhoa, devem, correctamente e até futura investigação credível, ser assinaladas deste modo: Joâo Branco Malhoa (1848 - ? )Isto porque, na verdade e até agora, ninguém saberá quando ele terá realmente falecido. 
E peço desculpa pelo engano, por ter acreditado levianamente em quem, pelo visto, não merecia grande crédito.

15 Set.2018. LBG.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Tomar a quatro mãos

dois quadros de Simões d’Almeida (tio) e Malhoa



Encontrei muito recentemente estas imagens de duas pinturas a óleo. Achei que valia a pena partilhar e chamar a atenção para elas.
Ao contrário do que agora é costume, em que se compara, a torto e a direito, a propósito e a despropósito, tudo e mais alguma coisa, a comparação aqui é evidente. Trata-se de dois quadrinhos com tomadas de vista muito semelhantes, datados do mesmo ano, pintados por dois grandes amigos – ex-mestre e ex-aluno – um Escultor, outro Pintor. Quem sabe se pintados a par, ao mesmo tempo, na mesma jornada ar-livrista…?! 
Peço desde já desculpa por não verem aqui uma dúzia, um par, ou sequer uma só personagem a tocar viola, agarrada a uma guitarra ou outro instrumento de cordas – isso é que era!... Mas não temos.
Por hoje, só paisagem naturalista, da primeira, ainda do tempo do Grupo do Leão.
Ambas as imagens foram encontradas em catálogos de leiloeiras já antigos. Os dados das obras são os ali indicados, e as fotos são o que são.

Sobre a pintura de José Simões d’Almeida Júnior (1844-1926), intitulada no tal catálogo «Vista de rio com arvoredo e casario», lemos que é um «óleo sobre cartão prensado, assinada e datada, 1887 (com dedicatória no verso)», infelizmente não nos são dadas as dimensões da obra.

Já o quadro de José Malhoa (1855-1933) é ali intitulado «Vista de aldeia à beira rio», dizem-nos que é um «óleo sobre madeira, assinado e datado, 1887», com 15x24 cm, e indicam ainda que «figurou na grande exposição do pintor, em 1928».
(Esta última indicação é duvidosa - numa rápida verificação, não o encontro. Mas não é isso que agora interessa…1)

Poucas dúvidas haverá que ambas registam o mesmo – o Nabão em Tomar – com uma ligeira diferença nas tomadas de vista – daí a possibilidade de haverem sido feitas a par, um colocado mais à esquerda que o outro – mas com uma interpretação e leitura bem diferentes do real. Do registo das silhuetas, ao tratamento dos planos construídos, e até na contagem do claro-escuro dos vãos…

- Não é o mesmo cenário! – dirão – Até pode ser, mas depois de obras de alteração!  
Olhem que não! Aquilo é a mesma coisa e, a acreditar nas indicações que nos são dadas pelos catálogos, pintadas no mesmo ano. E a hipótese de o terem sido ao mesmo tempo, numa ida ou vinda de ambos de Figueiró dos Vinhos, não seria coisa de estranhar…

Repare-se de novo. Como quem procura “as sete diferenças” nos passatempos do jornal.
Agora, semicerrando a vista, numa visão global…

É a leitura de um Escultor versus o registo de um Paisagista? É uma visão ainda um pouco «Romântica», ou já «Realista», contra uma interpretação «Naturalista», ligeiramente «Impressionista»? Ou é tudo isso ao mesmo tempo, naquilo que se veio a chamar Naturalismo em sentido lato e, definitivamente, depois da aventura do Grupo do Leão (1881-1889)?
Porque durante esse período, sejamos sérios, os novos termos eram usados um pouco indiferentemente pelos mais diversos “críticos” ou “teóricos” – que, contrariamente ao que agora parece a uns tantos, não seriam melhores nem mais bem preparados que os Artistas, talvez antes pelo contrário…

O que torna estes dois quadrinhos (creio que o do Simões também seja de pequenas dimensões) tão interessantes é isso mesmo: a prova provada que o registo naturalista – logo este, o inicial - vai para além da realidade e, para lá do que se diz, interpreta, impressiona e impressiona-se. Reinventa e compõe, em plena liberdade.
Só isso justifica, por exemplo, o sucessivo pairar pelos céus de Figueiró da silhueta do Convento do Carmo que nos aparece em muitos quadros de Malhoa nas situações mais inverosímeis… Ou nunca repararam?!

Ficam as imagens. Dão para muita conversa.





Publicado originalmente em 4 Abr. 2012. LBG



1. Este quadro figurou, sim, na Exposição do Cinquentenário da morte de José Malhoa, IPPC 1983, e no respectivo catálogo sob o nº 8 e o título «Paisagem».
Figura igualmente no livro José Malhoa, Arting 2008, com o título «Vista de Aldeia», mas com a datação manifestamente enganada.