quarta-feira, 26 de setembro de 2012

«A DUAS MÃOS | DESENHOS INÉDITOS»

No Centenário da morte de Manuel Henrique Pinto



Provocando, 1905
Retrato de MHPinto por JMalhoa
Passam hoje cem anos sobre a data da morte de Manuel Henrique Pinto, ocorrida em Figueiró dos Vinhos a 26 de Setembro de 1912.

Manuel Henrique Pinto, pintor do Grupo do Leão – introdutor do primeiro Naturalismo em Portugal – um dos retratados por Columbano no célebre quadro O Grupo do Leão, 1885, à cabeceira da mesa, ladeado pelos inseparáveis José Malhoa e João Vaz; foi dedicado Professor do Ensino Industrial – primeiro Director da Escola Fradesso da Silveira em Portalegre (1884-1888), Director da Escola Jacôme Ratton de Tomar (1888-1911) e Professor da Escola Marquês de Pombal em Lisboa (1911-1912); exerceu ainda o cargo de Vogal Correspondente em Tomar do Conselho dos Monumentos Nacionais (1897-1911), com papel de relevo nas primeiras campanhas de salvaguarda e restauro do que hoje é Património da Humanidade.


Membro desde a primeira hora do Grupo do Leão (1881-1889), foi um dos fundadores do Grémio Artístico (1891-1899) e da Sociedade Nacional de Belas Artes (1901), participando activamente em todas as mostras destas agremiações, com excepção de uma - a 3ª do Grémio, em 1893.
Galardoado com vários prémios, expôs em Portugal, Berlim, Paris, Madrid e Rio de Janeiro, e está representado em alguns museus nacionais e estrangeiros.
Em 1883, com Malhoa, juntos descobrem o «Figueiró das cores» e por ali iniciam, verão após verão, a dita «odisseia rústica», desenhando e pintando as terras e as gentes figueiroenses. Em Figueiró dos Vinhos ambos acabarão por morrer, ambos em finais de verão, Henrique Pinto em 1912, José Malhoa vinte e um anos depois.
Assinalando o Centenário da morte de Manuel Henrique Pinto, terá lugar no Clube Figueiroense – Casa da Cultura, Município de Figueiró dos Vinhos, de 29 de Setembro a 11 de Novembro, uma Exposição denominada:
A DUAS MÃOS | DESENHOS INÉDITOS
Manuel Henrique Pinto (1853-1912) e José Malhoa (1855-1933)
Pelo Centenário da morte de Manuel Henrique Pinto


A mostra reune cerca de dúzia e meia de Desenhos inéditos dos dois Artistas, abarcando essencialmente o período por ambos vivido em Figueiró e pondo em diálogo alguns trabalhos, temas e modelos que juntos partilharam.

Como já devem ter notado, tenho andado proíbido pelos médicos de falar deste aqui – a doutora não deixa. Hoje, a propósito do Centenário, interrompe-se a dieta. No entanto, como compreenderão, também não posso escarrapachar, sem mais aquelas, as fotos  dos desenhos que vão ser mostrados – ou deixariam de ser inéditos… Ficam estas duas mãos, um belo estudo de MHPinto para Esfolhando o milho, 1907, e porque estavam destinadas à capa do catálogo e convite da exposição. 

          O melhor mesmo é lá darem um salto – o que se mostra e o passeio valerão sempre a pena (até ao S. Martinho, 11 de Novembro, estará aberta, mas verifiquem antes aqui ou aqui).
Ali encontrarão outras Mãos;  uma das Velhas mais outra das novas, mas por mãos a que não estamos habituados; uma Noiva de antes da outra; e uma outra que foi pró Brasil mas cá deixou retrato - sempre dá (a)trapalhação e um toque de modernidade; mais o retrato do Bêbado do costume, talvez um dos primeiros; e o primeiro, talvez o único, nu assim mais pró-helénico; e mais cuidados d'amor(es); ou outra gente cuidando de recos, figos e passarada - tudo de boa feitura, de uma e de outra mão; uma bela colheita, que poucos olhos viram.
            E o catálogo também não deslustra. Já vi - está lindo! E por dentro também não está mau... Valerá a pena ler, com calma e atenção.

Antecedendo a inauguração da Exposição, marcada por uma breve Conferência pela Comissária da mostra no auditório do Clube Figueiroense às 15:30 do dia 29 de Set., será colocada, por iniciativa da família e amigos do Artista e do Município de Figueiró dos Vinhos, no fuste do busto existente no cemitério da Vila, uma placa comemorativa da data.

        Sobre Manuel Henrique Pinto (1853-1912) podem ainda consultar isto e mais isto.


26 Set. 2012. LBG

domingo, 16 de setembro de 2012

1906 - Do “Livrinho Vermelho”,

mais fanfarra, foguetes, passo-doble
…e muita “dor de corno”.


Ainda sobre a viagem de José Malhoa ao Rio de Janeiro, a propósito da sua Exposição no Gabinete Portuguez de Leitura em 1906, cabem agora umas notas sobre os seus ecos em Figueiró dos Vinhos. Porque têm graça tais ecos, como já soavam a tacanhez alguns «cavalheiros» ou «taberneiros honrados»…

Socorramo-nos da excelente colecção de imprensa local da  Biblioteca Municipal Simões de Almeida (tio)  e mais qualquer coisinha dos sítios do costume [1].

Logo em 28 de Abril de 1906, O Figueiroense já anunciava o convite feito a Malhoa pelo Gabinete Portuguez de Leitura e dava alarde de conhecer bem os quadros da futura exposição, «sendo a sua maioria feitos em Figueiró dos Vinhos e inspirados nas suas bellezas naturaes»; informava também que a viagem, com a duração de dois meses, seria feita na companhia do irmão Joaquim.

O Figueiroense, 28.4.1906, p.1

          Durante a estada de Malhoa no Rio, em 16 de Agosto de 1906, O Echo de Figueiróem correspondência de lá para cá ou aproveitando outra qualquer, noticia o banquete no hotel Paris, o discurso de Coelho Neto e os agradecimentos do homenageado. Como se vê, já naquele tempo, a informação corria rápido e uma vila do interior estava razoavelmente ao corrente.

O Echo de Figueiró, 16.8.1906
Depois, O Figueiroense, nas edições de 1 e de 9 de Setembro [2], informava quer do desembarque de Malhoa em Lisboa, ocorrido no dia 28 de Agosto, e da recepção e «affectuosa manifestação dos seus numerosos amigos à sua chegada»; quer, logo na semana seguinte, da sua vinda para Figueiró, onde «chegou no dia 5 do corrente a esta villa, com sua ex.mª familia».


O Figueiroense, 1.9.1906, p.1
O Figueiroense, 9.9.1906, p.1

            Mas é a 16 de Setembro, há 106 anos precisamente, que se dá o acontecimento mais curioso.

A crer na notícia publicada pel’O Figueiroense seis dias depois, mas na 2ª página por via das dúvidas, ficamos a saber que naquele domingo «a Philarmonica Figeiroense foi cumprimentar o sr. Commendador José Malhôa e felicital-o pelo seu feliz regresso do Rio de Janeiro á sua patria e, aproveitando o ensejo, a sua direcção offereceu-lhe uma pasta que continha a photographia do seu elegante chalet “Villa Casulo” e um passe double “O Casulo”, por Filipe José da Cruz, regente da philarmonica».
«A pasta, que foi previamente feita em Lisboa, de que foi encarregado o pintor Julio de Menezes, é de velludo carmezim, com a legenda: “Offerece a Philarmonica Figueiroense”, contendo aquella a photographia e a mensagem que em seguida publicamos.»
A transcrição da dita mensagem é fiel [3] e pode ser lida na íntegra. Deliciemo-nos com a prosa, especialmente com o período onde se coloca a hipótese de Figueiró ser «arrazado pelos cyclones e desaparecer pelas evoluções vulcânicas»… - não havia necessidade!

O Figueiroense, 22.9.1906, p.2

          A notícia continua, indicando as personalidades que se incorporaram no cortejo a convite da Direcção da Filarmónica: para além de Manuel Quaresma Paiva, Joaquim de Souza, João Luiz Júnior (Agria) e Amadeu Simões Lopes, os directores da agremiação e subescritores da missiva, damos conta do Dr. Manuel de Vasconcellos, de dois Lacerdas – Samuel e Padre Acúrcio – de António (Lopes) Serra e mais uma dúzia de homens bons. Depois, descreve-se o acto da entrega da pasta carmesim a Malhoa, as palavras de circunstância, «rompendo em seguida a philarmonica com o referido passe double, e subindo n’essa occasião ao ar bastante fogo»… - foi festa a valer!
            E remata com um comentário onde se lamenta que tal manifestação tenha sido combinada «em segredo», reconhecendo no entanto que tal fora «no intuito de fazer surpreza ao insigne artista», mas que tal aconteceu «n’uma occasião em que muitas pessoas das de maior representação estão fóra…», censurava.

            Todavia, logo nessa mesma edição de O Figueiroense, ainda se pode ler, na pág. 3, um artigo assinado por Augusto d'Araújo Lacerda, louvando embora Malhoa e os seus feitos além Atlântico, onde se percebe o começo de uma grande "dor de corno"... 

O Figueiroense, 22.9.1906, p.3


E, no número seguinte, a cefaleia córnea continua a exprimir-se pela pena de «Um cavalheiro» que, na pág.2, resolve desmentir O Século e a sua «correspondencia d’esta villa»; e mais «Um taberneiro honrado» que, na pág.3, entre vários lamentos e indignações, promete vingança, mais não seja ameaçando com o «baptizado» do vinho a servir aos seus «bem bons freguezes» da facção rival...

O Figueiroense, 27.9.1906, p.2
O Figueiroense, 27.9.1906, p.3

Infelizmente, não nos chegaram as correspondentes edições d’O Echo de Figueiró [4] - isso é que deveria ser lindo…!

         Resta acrescentar que, ao contrário do noticiado pel’O Figueiroense, a pasta não era de « velludo carmezim» - é vermelhinha, sim, mas forrada a seda!
E, como se pode ver pela fotografia, pintada cuidadosamente e assinada «MS» (se é a marca do referido «Júlio de Menezes», não sabemos?!); com os dizeres «A philarmonica Figueiroense a José Malhoa» (aqui imitando a assinatura do Pintor, portanto uma das primeiras vezes em que comprovadamente esta não é do seu próprio punho… mas, nisto, compreende-se); e com a representação do «Casulo», uma paleta e pincéis, uma lira com palma, e uma faixa datada «16.9.906». 
         …E ainda queria o Lacerda que adiassem a função e esperassem por não sei quem?! Claro que a pasta tinha de ser entregue naquela data precisa!




No interior da pasta, forrado a seda branca, lá está a mensagem citada, de caligrafia cuidada, sobre papel papiro dobrado ao meio. 
        A partitura do «passe double», ao que consta, encontrar-se-á na actual Filarmónica Figueiroense [5]. Quanto à alegada «photographia» do «Casulo» - e não se percebe se o articulista se refere a alguma foto que acompanharia os restantes papéis, se à representação pintada na capa – se tal fotografia existiu, pode ser uma qualquer que o tempo se encarregou de misturar com muitas outras…
Como esta, poucos anos depois de prontas as obras de ampliação do Arq. Luiz Ernesto Reynaud, acabadas por volta de 1900 ou 1901. Com o volume do atelier – o primitivo «Casulo» - ainda com os três vãos originais. Com a pequena entrada de luz meridional/nascente na cobertura do atelier que se opunha à grande claraboia virada a norte/poente (– não, aquilo não é nenhum «sótão»…!). Com os níveis de pavimento entre o atelier e a moradia ainda desfasados, de acordo com a antiga implantação da casinha térrea. A varanda da moradia, então de madeira e ferro, com as guardas em troncos de sobro retorcido e toda aberta a nascente/norte. E o jardim e o lago, aqui acabadinhos de arranjar e todos mimosos…
          Que assim era.


Por fim, atente-se a tudo o que foi escrito. E perceba-se, de uma vez por todas, que a pastinha vermelha, o histórico «passe double» de Filipe José da Cruz, a tocata da Filarmónica, o foguetório no ar, a romagem dos citados cavalheiros e a zanga do Lacerda, ocorreram nesta precisa data, por ocasião e por causa desta homenagem a Malhoa no seu regresso da triunfante “viagem cabralina”. E não por outra razão qualquer. Por mais que se deseje.
Que assim foi… (pelo menos até que algo efectivamente mais palpável, eventualmente, nos possa dizer o contrário).


16 Set. 2012. LBG.


[1] Como em artigos anteriores, do antigo espólio pessoal de Malhoa, actualmente no Museu José Malhoa ou em colecção particular.
[2] A última data muito provavelmente está enganada. O Figueiroense publicava-se aos sábados e no cabeçalho deste nº 469 lá vem: «Sabbado, 9 de Setembro de 1906», só que pelo calendário tal sábado foi dia 8… Coincidência ou não, este será o primeiro de quatro números onde desaparece do cabeçalho do jornal a indicação do antigo «Proprietario e Administrador - Francisco António d’Aguiar». Só a 6 de Outubro, no nº 473, voltará indicação de semelhante teor, mas agora com novo «Proprietario e Director - J. A. Lacerda Junior».
[3]  Uma só ressalva: no original, em papel papiro e de leitura já muito sumida, o membro da Direcção da Filarmónica referido como «João Luiz Agria», assina «João Luiz Júnior».
[4] Jornal rival da mesma época, que no seu início teve como um dos seus redactores e proprietários Carlos Silva Graça, possivelmente ligado por grau de parentesco a José Joaquim da Silva Graça, vizinho pedroguense, director e proprietário do jornal lisboeta O Século.
[5] Sobre a história da Filarmónica pode ainda ver: MEDEIROS, Carlos – Historial das Filarmónicas de Figueiró dos Vinhos. CMFV, 2007


[Nota, em 18 Jan. 2018] Porque, "misteriosamente", os links que remetiam para os recortes dos jornais da época, e estavam acessíveis através do site da Biblioteca Municipal Simões de Almeida (tio), deixaram de funcionar, optou-se por os eliminar e por integrar todos os recortes no corpo do artigo. Daí a grande extensão que agora aparenta e que pode ser um pouco mais desagradável graficamente. Mas pareceu preferível publicar integralmente todas as notícias referidas ao longo do texto, a remeter o leitor para coisa nenhuma... Fica, assim e pelo menos, à vontade do leitor o ler ou o não ler tais recortes.









quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Ao jeito de adenda,

sobre dois quadros já aqui referidos.


«Aprender, aprender sempre…» recomendava o velho Vladimiro. Como caíu em desgraça, isto anda esquecido. Além de se aprender pouco, parece que há vergonha em admitir que se não sabe… Pois bem, é sempre altura de aprender mais qualquer coisinha e de emendar a mão se asneira dissemos.
O caso não é de asneira, mas faltou alguma coisa. Emendemos pois a mão.

Ontem, a despropósito, saltaram duas fotografias do caixote. Da época, sumidas, uma delas anotada presumivelmente pela mão do Malhoa. De boa colheita, posso garantir. Como não eram o que procurava, iam de novo abeberar, quando se fez luz! - tinham a ver com dois escritos recentes e haviam feito falta. Por isso aqui ficam.


A primeira é a foto de O Soalheiro, 1904. Pequena, demasiado sumida pelo tempo – tem seguramente mais de um século. E, não acrescentando muito ao que já foi dito, serve, pelo menos, para dar um fim feliz à novela.
Prova que aquele quadro há dois meses referido e mostrado numa foto de fraca resolução tirada da net, sempre existiu e não é de «fábrica coberta» - ao contrário de outros que surdem não se sabe muito bem d’onde…  E, apesar da fraca qualidade de ambas as reproduções, não haverá alguém que não admita estar perante o mesmo quadro. Quanto a ser ou não O Soalheiro, o anteriormente escrito diz quanto basta.


A segunda fotografia é de umas Cebolas. E há duas fotos – uma mais pequena e esta em tamanho postal. Assinalada no verso, a lápis, «as cebôllas» e posteriormente riscado «as», e por outra mão emendado «Embaraçando» - o que deve ser asneira…

Na verdade sabe-se muito bem o que é Embraçar cebolas, 1896 – quadro repetidamente reproduzido. Como também se sabe o que é As Cebolas Vermelhas, 1908 – Oignons Rouges, no Salon de 1909, Cebollas Rojas, em Buenos Aires, 1910, quadro reproduzido no respectivo catálogo - e não, não foram a Santiago do Chile ! (apesar de…, e a crer no catálogo).
Portanto, estas Cebolas não são seguramente nenhuma das referidas.


Ora, no artiguinho sobre a "Exposição Guilherme Rosa" no Rio de Janeiro 1902, faço referência, na nota [11], a um outro artigo de jornal que descreve umas Cebolas e refiro também que na 1ª Exposição da SNBA, 1901, Malhoa apresentou um quadro com tal título.
Vejamos então melhor o que nos diz o anónimo articulista de 1902: «”As cebolas” é outro trabalho magnífico, em que, além da impeccabilidade das figuras das “ceboleiras”, há o estudo da paizagem, que é delicioso». Serve.
A crer nesta fonte, percebemos que o quadro levado e vendido por Rosa no Rio em 1902, representa umas «ceboleiras» e uma deliciosa paisagem.
Olhando para o que é possível ver nesta fotografia, admite-se que tal descrição a este se aplique. Note-se, por outro lado, uma certa semelhança compositiva entre a figura da principal ceboleira e a lavadeira de A corar a roupa, c.1899, outro dos quadros dessa mostra, hoje no MNBA do Rio.

Por fim, olhe-se com cuidado para a «Foto do atelier de Malhoa em Campo de Ourique, cerca de 1901» que acompanha aquele artigo – se o quadro, meio encoberto pela cadeira austríaca, por baixo de A corar a roupa e ao lado de Gozando os rendimentos, prontinhos para ir para o Rio, não é este… macacos me mordam!
Parece pois, salvo mais douta opinião, que aqui temos Cebolas, c. 1900, o quadro da 1ª Exposição da SNBA e o que Guilherme Rosa vendeu no Brasil em 1902.

E peço desculpa por não ser uma «Paisagem».


5 Set. 2012. LBG.

sábado, 25 de agosto de 2012

1902 - O senhor Rosa chegou do Brasil !

… e fartou-se de vender quadros...




JMalhoa, A última gota, 1891. ost 105x110, c.p.
« Receita, Maio de 1902, 31.
Recebi do Rio de Janeiro, por intervenção do Antonio David, pela venda de dois quadros que para aquella cidade mandei em [espaço em branco] um intitulado “Os ouriços” outro “a ultima gota”, pintados em Figueiró dos Vinhos, na Fonte do Cordeiro, servindo de modelo para os dois quadros o filho do Eduardo, então rendeiro da Fonte do Cordeiro, propriedade da família Serra.
Figuraram os dois quadros na exposição do “Gremio Artistico” pelo centenário do Marquês de Pombal [1].
Vendidos pela importância de rs. 258$620 »


« Receita, Agosto a Dezembro 1902.
Recebi do Guilherme Rosa, da venda dos meus seguintes quadros na exposição organisada pelo mesmo no Rio de Janeiro: “o pilha-gallinhas”, “a corar a roupa” (estudo) “Gosando os rendimentos”, “as cebolas”, “à sesta”, “o barbeiro na aldeia” (estudo) – 1:154$000 »




Foto do atelier de Malhoa em Campo de Ourique, cerca de 1901.
Sob o olhar de Novais, feito Homem do gorro, 1900, vêem-se dois dos quadros
que irão para o Brasil: A corar a roupa, c.1899 e Gozando os rendimentos,1898,
e, ainda, o que parece ser Cebolas, c.1900.

outro "a ultima gota", pintados em Figueiró dos Vinhos, na Fonte do Cordeiro, servindo de modelo para os dois quadros o filho do Eduardo, então rendeiro da Fonte do Cordeiro, propriedade da família Serra.
Figuraram os dois quadros na exposição do "Gremio Artistico" pelo centenário do Marquês de Pombal.
Vendidos pela importan

            Estes dois apontamentos manuscritos por JMalhoa no seu livro de «Receita – Despeza» referem-se a vendas de quadros no Brasil durante o ano de 1902. Dos primeiros desconhecem-se as circunstâncias e aparentemente nada terão a ver com os segundos – provavelmente tratou-se de uma venda mais ou menos particular [2]. Mas dos outros sabemos que foram vendidos numa «Exposição de Arte Portugueza» que decorreu no Rio de Janeiro.


JMalhoa, À Caça, 1895. ost 91x50 c.p.
Não é certamente A caça dos taralhões, c.1891,
 esse de MHPinto, mas pela descrição de Fantasio,
(ver nota 2) parece ser a este que se refere...

Organizada por Guilherme Rosa, numa das «amplas salas do Lyceu d’Artes e Oficios», a exposição abriu no dia 17 de Julho e terá durado 23 dias. Recebeu «a visita do presidente da Republica, que elogiou o desenvolvimento artistico portuguez, o seu caracter próprio…»


Esta exposição, até agora praticamente ignorada, acaba por ter uma importância histórica enorme nas trocas artísticas entre as duas margens do Atlântico. É nela que a Comissão de Compras nomeada por Joaquim Murtinho, ministro da Fazenda brasileira, e da qual faziam parte Rodolfo Bernardelli, escultor e director da Escola Nacional de Belas Artes, Rodolfo Amoêdo, pintor e professor da ENBA, e Carlos Américo dos Santos, jornalista, propõe a aquisição, para a Pinacoteca da Escola Nacional de Belas Artes, de uma dezena de obras de Pintores Portugueses [3].


JMalhoa, A corar a roupa, c.1899.
O quadro do MNBA-RJ em foto antiga
É deste acervo da Escola Nacional de Belas Artes, enriquecido por muitas outras aquisições e doações, que se vem a constituir o núcleo do actual Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.











José Malhoa encontra-se ali bem representado, logo com a grande versão parisiense de .As Cócegas, 1904,  - adquirida ainda por intermédio de R. Bernardelli, mas já na exposição do Rio de 1906 - e, para além de mais algumas outras obras, com três importantes quadros que constam daquele rol de 1902. São eles, as pequenas tábuas Gozando os rendimentos, 1898, e A Sesta, 1898 [4], (sem ou com assento grave no À, como grafou Malhoa – o que não será pormenor de somenos, a ser resolvido por um qualquer acordo ortográfico…) e a tela de média dimensão A corar a roupa, não datada, mas que Malhoa nos diz que é um «estudo» - por certo da tela com o mesmo nome que levou à Exposição Universal de 1900 e que afundou no regresso de Paris – devendo, portanto, datar-se desse ou dos anos anteriores [5]


MHPinto, A saída do rebanho, 1900,
em foto antiga e na moldura original...
Outro dos quadros comprados para a ENBA.
















Mas o mais interessante é ver mesmo o que nos diz Guilherme Rosa, numa entrevista a um jornal português, na hora do seu regresso do Rio: [6]



« A exposição d’arte portugueza no Brasil »

« O sr. Guilherme Rosa, chegado ha seis dias do Rio de Janeiro, onde estivera como organisador da Exposição d’arte portugueza, deu-nos, a tal respeito, as seguintes curiosas impressões:
- A minha estada no Brasil por varias vezes trouxe-me a certeza de que uma exposição de pintura e d’artes applicadas daria alli um optimo resultado. O Brasil é um explendido paiz, e qualquer iniciativa artistica é acolhida de braços abertos. Não julgue isto um exaggero de viajante agradecido; não, apenas a verdade, integra e formal. Parti de Lisboa com 86 quadros, no valor de 11 contos, e volto trazendo 6 contos de réis, de 51 quadros vendidos. Por toda a parte tive um optimo acolhimento, tendo-me sido cedida uma das amplas salas do Lyceu d’Artes e Officios, onde organisei a citada exposição. Tive-a aberta durante 23 dias, tendo recebido a visita do presidente da Republica, que elogiou o desenvolvimento artistico portuguez, o seu caracter proprio, e sobretudo o calor que se desprendia das paisagens e dos assumptos, todos de um grato regionalismo.
- Qual o pintor que mais exito alcançou?
- Não poderei especialisar. Basta que lhe diga que Columbano, Malhôa e Salgado, foram os tres triumphadores. De Columbano ficaram nas Bellas Artes os seguintes quadros: A locandeira, A luva branca, Cabeça de mulher, O soldado. A Madona, comprei-o eu [7].
- E Malhôa?
- Agradou muito, tanto, que se mais quadros seus levasse mais vendia. Malhôa é um artista muito justamente apreciado no Brasil. A sua exposição foi um successo, e vi-me em dificuldades, com tanto pedido. Trago 17 encommendas de quadros para esse artista. Toda a imprensa foi unanime em elogiar o pintor, que ainda não era absolutamente conhecido n’aquellas paragens.
- Absolutamente?
- Sim, porque ha varios negociantes extrangeiros que levam o seu delírio a inventarem quadros de pintores applaudidos. De Malhôa, vi por lá uma infinidade d’elles, todos apocryphos. N’um d’aquelles ateliers, ha dois artistas, empregados em imitarem assignaturas… Como lhe conto, Malhôa era conhecido apenas pelos quadros que não pintára [8].



MHPinto, As formigas no mel, c.1899.
Quadro que G. Rosa afirma também ter vendido.
Actualmente de paradeiro desconhecido.
Notícias suas serão bem vindas...
- E, Salgado?
- Tambem foi um dos nossos pintores mais acarinhados pela opinião publica. Vendi o seu unico quadro, dos que levava para vender. Mas como falámos de Malhôa, esquecia-me dizer-lhe, que vendi para as Bellas Artes os quadros: Córar da roupa, A sesta, e Gosando os rendimentos… De Salgado vendi, lembra-me agora, Azinhaga em Bemfica. Mas temos mais: de Henrique Pinto, A sahida do rebanho, para as Bellas Artes, e Formigas no mel [9]; de Carlos Reis, o Amores d’um moleiro. [10]

- E dos novos?
- Vendi dos que mais successo fizeram entre nós. De David Estrella, Sousa Lopes, de Galhardo, e d’outros…
- De Raphael Bordallo Pinheiro?
- Vendi tudo. O eximio artista tem um grande publico. Pela familia Bordallo: De Columbano, Raphael e de Maria Augusta, tem o Brasil um verdadeiro culto, vehemente e sincero. É um triumvirato glorioso… Da arte applicada vendi todos os oiros cinzelados por Carvalho e alguns trabalhos de Cristofanetti.
- Pelo visto, a sua artistica viagem trouxe um grande effeito moral, consolador e grato, á estiolante (mercê da indifferença alfacinha) arte portugueza?
- Creio bem que sim. Repito-lhe: no Brasil tive um carinhoso acolhimento, tanto que breve tenciono repetir a minha digressão, até S. Paulo e Santos, d’onde – d’esta vez – recebi pedidos para a minha ida, mas onde me foi impossivel chegar.
- Com que então, Columbano, Malhôa e Salgado foram os 3 grandes triumphadores? Desculpe a repetida pergunta…
E Guilherme Rosa, consultando o seu carnet, diz-nos:
- De Malhôa vendi tambem As cebolas, o Sendeiro e O barbeiro na aldeia [11]. Este ultimo comprou o nosso compatriota visconde de Villela, que é um grande auxiliador de todas as iniciativas artisticas que tragam a chancella portugueza… Columbano foi admirado por todos os visitantes, alguns comparavam a maneira do nosso mestre á de Velasquez. Foi um delirio.
- E qual era a commissão nomeada pelo governo brasileiro para escolher os objectos de arte, os quadros?
- D’essa commissão faziam parte o director das Bellas-Artes, o esculptor Adolfo [sic] Bernardelli, e seu irmão, um grande pintor… emfim, os irmãos Bernardelli. [12]
E, terminando a nossa ligeirissima palestra, inquirimos:
- É a primeira exposição portugueza d’arte que se fez no Brasil, não é verdade?
- Não, senhor. A primeira foi, creio, ha 25 annos, uma exposição organisada por Luciano Cordeiro.
Finalmente, perguntámos ainda:
- Emfim, o nosso amigo achou o terreno admiravelmente preparado, e o publico esperando-o anciosamente?
- Sim, senhor, repito-lhe: o Brasil é um grande paiz, e as coisas portuguezas recebem lá um acolhimento superior… até, ao que nós proprios nos outorgamos. Os nossos artistas são mais bem recebidos lá… do que cá. É a verdade.



O Sr. H. Chaves comprou,
 mas, depois, o Sr. Bernardelli terá desfeito a compra,
e comprou ele para as Belas Artes...
É o que se conclui desta notícia.
E despedimo-nos, agradecendo ao nosso amavel visitante a gentileza de nos ter escolhido para dizer das suas impressões. Sabe- »
[aqui, literalmente, alguém lhe cortou o pio…]









25 Ago. 2012. LBG.





ultima gota", pintados em Figueiró dos Vinhos, na Fonte do Cordeiro, servindo de modelo para os dois quadros o filho do Eduardo, então rendeiro da Fonte do Cordeiro, propriedade da família Serra.
Figuraram os dois quadros na exposição do "Gremio Artistico" pelo centenário do Marquês de Pombal.
Vendidos pela importancia de rs. 258$620»
outro "a ultima gota", pintados em Figueiró dos Vinhos, na Fonte do Cordeiro, servindo de modelo para os dois quadros o filho do Eduardo, então rendeiro da Fonte do Cordeiro, propriedade da família Serra.
Figuraram os dois quadros na exposição do "Gremio Artistico" pelo centenário do Marquês de Pombal.
Vendidos pela importancia de rs. 258$620»


[1] Apenas dez anos depois, Malhoa faz já algumas confusões: refere-se impropriamente ao Centenário do Marquês de Pombal, comemorado em 1882, querendo referir-se à 2ª Exposição do Grémio Artístico, de 1892, aquela onde apresentou o seu polémico O último interrogatório do Marquês de Pombal, 1891. Nesta exposição figurou, como bem refere, A última gota, 1891. Já Os ouriços, 1894, só aparecerão na 4ª Exposição, a de 1894.
Quanto ao resto, vale o que vale; mas é de crer que JMalhoa saiba do que escreve-  se bem que aparentemente o «filho do Eduardo», se era o mesmo, muito tenha mudado em três anos... 
(Sabemos hoje que os filhos do Eduardo eram vários - o Saúl, a Aida, o Maximino, o Noé, a Preciosa, o António e o pequeno Venâncio…)

[2]  Há no entanto uma crónica de 1895 que pode ler aqui que coloca no Brasil uns quadros que poderão ser alguns destes… confusões de títulos e de descrições das obras à parte, pode assim ter acontecido.
 A ser assim, o pagamento veio com “ligeiro” atraso e tal pode justificar o espaço deixado em branco por Malhoa – já se não lembrava quando para lá os mandara… 
[adenda em 12.7.2014] Agora, e já que aqui chegámos, vale a pena mais alguma reflexão. 
Nesta crónica relativa à VIII Exposição Geral de Belas Artes, 1895, no Rio, Fantasio - ao que parece Olavo Bilac - descreve-nos dois quadros de Malhoa. Um, não há dúvida, trata-se de Os ouriços, c.1894, quadro que Malhoa dá por vendido no apontamento citado logo ao começo deste artigo. O outro, o que Fantasio intitula «Caça aos taralhões» (em evidente confusão - propositada ou não - com o quadro de MHPinto amplamente referido aquando da Exposição do Grémio de 1891) também não levanta muita dúvida que se trata, afinal, de À caça, 1895. O que Fantasio nos descreve, pormenor a pormenor, é este quadro. E, vinte e um anos depois, noutra crónica a propósito da ida de Malhoa ao Rio, agora já Olavo Bilac, repete tintim por tintim a mesma história.
Tudo isto é interessante e levanta algumas questões para as quais não encontro respostas:
1. Será que Malhoa, quando em 1902 aponta a venda dos quadros, para lá de já não saber muito bem quando os teria enviado para o Brasil, também já não sabia quais eles eram? Ou as vendas do António David nada tiveram a ver com esta tal Exposição de 1895, embora tudo leve a crer que lá tenha estado Os ouriços?
2. A confusão de À caça de Malhoa com A caça dos taralhões de MHPinto foi apenas da cabeça de Fantasio, ou foi coisa armada (tal como a costela do cachopo) na própria Exposição (e por quem?) para impingir, a brasileiro incauto, quadro com estória mal contada e que nem pela metade do preço do costume tinha conseguido dono, meses antes, no Grémio, em Lisboa?
3. Se Os ouriços, estes ao que tudo leva a crer, foram vendidos por esta ocasião, que raio de Os ouriços serão o nº47 do catálogo da Exposição de Malhoa no Rio em 1906?

[3]  Sobre este assunto, consultar um interessante artigo de Arthur Valle publicado em 19&20 e que pode ler aqui.

[4] O quadro, assinado e datado, não deixa dúvidas quanto a isto. No entanto, em 1950, A. Montez ter-se-á enganado e, em 1996, P. Henriques dali terá copiado o erro… mas depois disso, nos dias de hoje, só mesmo a parvoíce e a teimosia podem persistir em datá-lo de «1909» por tudo quanto é sítio…

[5] A não ser que uma nova e bizarra teoria que nos quer convencer que os “estudos” são posteriores aos “quadros” venha a fazer escola…

[6] Infelizmente a partir de recorte de jornal não identificado. Como outros referidos em artigos anteriores, dos antigos espólios pessoais de Malhoa ou de MHPinto, actualmente no acervo do Museu José Malhoa ou em colecção particular.

[7]  Talvez isto resolva o problema da «Madona e Soldado». Sempre eram dois quadros - ficou lá O Soldado, sem Madona, e esta, sem o militar, terá voltado na mala do sr. Rosa…

[8]  Note-se a conversa recorrente sobre uns “artistas” brasileiros - pelo visto já desde 1902 !? - …pero que las hay, las hay…

[9]  Particularmente interessante esta referência à venda no Brasil de Formigas no mel, c.1899, quadro de M. Henrique Pinto, actualmente de paradeiro desconhecido – é a única informação sobre esta obra posterior à sua mostra na 9ª do Grémio Artístico. Quanto a A Saída do rebanho, 1900, confirma-se a sua venda à ENBA nesta ocasião, como consta nos registos do MNBA.

[10] Aqui, G. Rosa esqueceu-se de referir Condeixa e os quadros Um homem do mar e Chrysanthemos, que aparecem num outro artigo noticioso. O primeiro também adquirido para a ENBA.
Nesse outro artigo são ainda referidos: João Vaz e No Tejo; J. Colaço e Baptismo arabe; H. Casanova e as aguarelas Na Ericeira, No Cabo da Roca e Na Guia, e mais três não identificadas; Roque Gameiro com Fonte da Riba Fria e Rio de Ribafria, aguarelas também; Luciano Freire e Margens do Vizella; Teixeira Bastos e Mendigos; Rafael Bordalo e um busto de Eça de Queiroz, para lá de outros productos das Caldas da Rainha; David de Mello e Madrugada na Portella; João Galhardo e Merenda do Senhor da Serra; Ferreira da Costa e Musica Divina.
Mais outros recortes: O Paiz, do Rio, de 19 de Julho, acrescenta umas paizagens de José António Jorge Pinto; e a Gazeta de Noticias, do Rio, de 18 de Julho, fala também de um A rapariga de Columbano, de uns bibelots de Bordalo e de dous lenços de renda de João Anjos.

[11]  Malhoa refere O pilha-galinhas no lugar deste Sendeiro – cremos que ambos se referem ao mesmo com nomes diversos… Malhoa ainda nos diz que este O Barbeiro na aldeia era um “estudo”. E quanto a As Cebolas, a descrição que dele faz um dos artigos referindo «o estudo da paizagem» e «das figuras das “ceboleiras”», faz-nos pensar em Embraçar cebolas, 1896 – mas este, em 1928, era propriedade do Duque de Palmela… - portanto, seria uma outra versão; e em 1901, na 1ª SNBA, Malhoa apresenta mais umas Cebolasserão estas.

[12]  Sabemos hoje que, aqui, Rosa se confunde…