sábado, 10 de novembro de 2012

Mais uma adenda

A propósito do Retrato de Júlia Malhoa, 1883.

Porque parece que ainda há dúvidas, ou há quem não queira ver...
Diz uma recente e douta nota a propósito deste quadro: «Primeiro retrato exposto por Malhoa, se concordarmos com a data atribuída por alguns autores...» e logo a seguir vem mais parvoíce.
Ora, não temos de concordar ou deixar de concordar, e os autores não são alguns - é um - Malhoa, que resolveu assinar e datar a tela: «Malhôa 1883». Como sempre se pode ver ampliando esta mesma foto (canto inferior esquerdo).











Fica percebido?! O resto, diz-nos Ramalho Ortigão.  O que já aqui escrevi. E as parecenças ou «semelhança perfeita» com fotos e outros retratos de Júlia Malhoa - ela mesma.

Dúvidas, se as houver, será sobre quem seja a retratada num desenho a carvão, talvez do mesmo ano (?), alegadamente, e não se sabe bem porquê, que se diz representar Júlia Malhoa (?) ...

Será que não temos olhos na cara?
Depois admiram-se se acharmos que «raisonné», afinal, quer dizer apenas uma coisa pouco mais que «razoável»...

10 Nov. 2012. LBG

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Na data da morte de Malhoa



            No dia 26 de Outubro de 1933 morreu, no seu «Casulo», em Figueiró dos Vinhos, José Malhoa.

            Ficam dois artigos publicados na época.
O primeiro publicado na primeira página de «A Regeneração» de 4 de Novembro, «semanário», então quinzenal, que se publicava em Figueiró.
O segundo, na revista lisboeta «Ilustração», nº 21 (189) 8º ano, de 1 de Novembro de 1933, número que na capa reproduzia Os Bêbados, 1907, e mais umas linhas a propósito manuscritas por Júlio Dantas (que pode ver aqui) .





               Uma primeira nota sobre o artigo do “jornal de combate” (já aqui falado) do Dr. Barreiros, simultaneamente director, editor e presidente camarário:
               A resolução de «armar a sala das sessões em câmara ardente» terá sido debalde – reza a estória que o corpo foi velado no atelier do «Casulo», rodeado pelos garridos xailes e trajes populares que ornavam a suas paredes, ao contrário dos habituais crepes negros…





Sobre o escrito da «Ilustração», duas outras notas:
Veja-se a foto inicial deste artigo e o desenho do catálogo da Exposição no Rio de Janeiro, de Dezembro deste mesmo ano, já anteriormente aqui comentado.
 Note-se ainda a ânsia em enumerar os vários títulos que O Fado, 1910, teve no seu périplo além-fronteiras – e lá aparece o célebre e bizarro «Será verdad?», repetidamente reproduzido posteriormente por tudo quanto é sítio mais ou menos sério como o alegado título do quadro na Exposição Internacional do Centenário da República da Argentina.
Bizarro e asnático - que Bajo el encanto é o nome que ali teve, a par de Cebollas rojas, e Mañana los arreglaré e Basta padre mio! - os outros quadros então expostos, é bom não esquecer... Tal «verdad», como outras, é afinal mentira.

(Se se derem ao trabalho de abrir a citada revista, podem ainda ver um artigo sobre a novidade científica da televisão; impressões de viagem sobre Munique, a cerveja e a ideia hitleriana; notícia do julgamento dos ditos “incendiários” do Reichtag; uma foto do Adolfo, ele mesmo; e uns cartoons com cruzes gamadas… sinais do tempo... mas também dois belos artigos sobre cinema. Podeis fruir.)

           
 26 Out. 2012. LBG.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Viva (ainda) a República!

… e a pouca vergonha?!



Neste último 5 de Outubro como feriado oficial, resolveram esconder-se do Povo, comemorar escondidos, ou ausentar-se para parte incerta… Lá terão as suas razões.
 
Mas isto brada aos céus!

Na varanda onde José Relvas proclamou a República em 1910, as ditas primeira e segunda figuras do Estado (a terceira foi à sua vidinha), o presidente da primeira Câmara Municipal cá do sítio e mais uns tantos, lá estão, cantando e rindo, enquanto içam a Bandeira da República de pernas ao ar?! E a coisa foi até ao fim – circulam por aí fotos com a Bandeira do avesso desfraldada…

Já não há pingo de vergonha?

Confesso que, pessoalmente, pouco ligo a essas coisas de “pátria” e “nação” – fiquei vacinado do tempo da “bufa” - mas mantenho o respeito.
Ora, pelo visto, estes(as) senhores(as) não!

Ele há umas leis quanto ao uso, funções e demais disposições dos Símbolos Nacionais. Disso sei pouco, mas esta gentinha tem obrigação de saber.
Não basta, nestes últimos tempos, terem resolvido que a Bandeira da República se pode usar como se fosse um “broche” – para identificar a pandilha e amigos chegados que nos desgoverna – coisa nunca antes vista, mas que os deixa contentinhos e com ar de “patriotas”… Faltava agora esta!
E querem que a gente os respeite?! Haja decência!
 

Isto está de tal forma, que até o bom do Zé Relvas fugiu da sua cadeira, lá nos Patudos [1], danado com tamanha pouca vergonha!

JMalhoa, Estudo para o Retrato póstumo de José Relvas. c.1930. ost 23x27,5

 
5 Out. 2012. LBG.

[1] Antes disto, estava como o podem ver aqui .

Viva a República!


«Meu caro Luiz
Em primeiro lugar: Viva a republica!
Como tens tu passado?
Agradecido pelo teu cuidado, todos estamos bons, e saudamos o novo regimen.
Então o que me dizes tu a tudo isto, à bravura dos nossos soldados, ao nosso povo que já não tem capilé nas veias e ao nosso governo?
Estou encantado com a boa orientação da nossa gente. E tu?... …
Desejava ver-te porque tenho coisas novas que deves gostar, tais como, medalha da guerra Peninsular, uma estatua Despertar, uns marmores, etc. Até quando?
saudades do teu primo muito amigo José.
|Saude e Républica…|»

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Datada de Lisboa, a 9 de Outubro de 1910, apenas quatro dias após a Proclamação de República, eis um postal de José Simões d’Almeida (sob.º) para o seu primo Luiz d’Almeida Pinto. Nele, o escultor do conhecido busto da República dá conta dos primeiros sentimentos quanto à mudança de regime.
 
(E dois meses e meio depois, pelo Natal, a menina do Despertar também iria, já em postal ilustrado… Mas não é isso o que agora aqui nos traz)
 
 
 
 
 
 
 
 
J Simões d'Almeida (sobº) Busto da República, 1908
De José Simões d’Almeida Sobrinho (1880-1950) é este Busto da República, 1908, ainda contemporâneo do reinado bragantino, encomenda da Câmara Municipal de Lisboa, já então de vereação republicana, e mais tarde reproduzido às centenas, ou copiado à exaustão em versões mais ou menos fieis ou de gosto mais popular.
 
Aqui numa das suas versões originais, em gesso - oferta do Autor ao Clube Figueiroense e actualmente depositado na Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos, a terra que o viu nascer.
 
 
 
J Simões d'Almeida (sobº) Busto da República, 1910
Fica também uma outra versão, a menos conhecida, o Busto da República, 1910, já moldado sob o novo regime republicano, possivelmente a versão para o concurso oficial - ganho por outro (que ganhou “as mesmas”, pois o busto do Simões já havia conquistado o coração do povo, saído á rua nos funerais dos heróis da República, e assim ficou…)

Esta outra versão, assinada e datada de 1910, faz parte do antigo acervo da Escola Industrial Jacôme Ratton, de Tomar - ao tempo dirigida pelo tio do Escultor, o pintor Manuel Henrique Pinto, o pai do Luiz a quem aquele postalinho foi dirigido.
 
 
 
Por fim, em dia 5 de Outubro, uma outra pouco conhecida obra da época, celebrando a Revolução Republicana. Da autoria de José Maria de Sousa Moura Girão (1840-1916), outro dos pintores do Grupo do Leão, o quadro Viva a República, 1910.

 José Moura Girão, Viva a República, 1910
 
Trata-se de um óleo sobre tela, com 45x35 cm, assinado e datado «J. Gyrão, 1910» e que foi apresentado na 9ª Exposição da SNBA, 1911, com reprodução fotográfica no respectivo catálogo [1].
            Um dos habituais galos emplumados de Girão, um dos raros que se exibem a cantar, anuncia a aurora republicana, empoleirado numa das barricadas da Rotunda. Ao fundo, dando Vivas à República, o povo agita armas, chapéus e bandeiras. Note-se, nestas, a troca das cores relativamente ao que viria a ser estabelecido pela Comissão participada por Columbano – aqui, o campo vermelho apresenta-se do lado da tralha – Girão regista, muito provavelmente, o verde e rubro carbonário.

Viva a República!


5 Out. 2012. LBG.









[1]  Reproduzido aqui a cores a partir do livro de Manuel Nunes Corrêa, Moura Girão 1840-1916. Lisboa 1983.







 


 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

«A DUAS MÃOS | DESENHOS INÉDITOS»

No Centenário da morte de Manuel Henrique Pinto



Provocando, 1905
Retrato de MHPinto por JMalhoa
Passam hoje cem anos sobre a data da morte de Manuel Henrique Pinto, ocorrida em Figueiró dos Vinhos a 26 de Setembro de 1912.

Manuel Henrique Pinto, pintor do Grupo do Leão – introdutor do primeiro Naturalismo em Portugal – um dos retratados por Columbano no célebre quadro O Grupo do Leão, 1885, à cabeceira da mesa, ladeado pelos inseparáveis José Malhoa e João Vaz; foi dedicado Professor do Ensino Industrial – primeiro Director da Escola Fradesso da Silveira em Portalegre (1884-1888), Director da Escola Jacôme Ratton de Tomar (1888-1911) e Professor da Escola Marquês de Pombal em Lisboa (1911-1912); exerceu ainda o cargo de Vogal Correspondente em Tomar do Conselho dos Monumentos Nacionais (1897-1911), com papel de relevo nas primeiras campanhas de salvaguarda e restauro do que hoje é Património da Humanidade.


Membro desde a primeira hora do Grupo do Leão (1881-1889), foi um dos fundadores do Grémio Artístico (1891-1899) e da Sociedade Nacional de Belas Artes (1901), participando activamente em todas as mostras destas agremiações, com excepção de uma - a 3ª do Grémio, em 1893.
Galardoado com vários prémios, expôs em Portugal, Berlim, Paris, Madrid e Rio de Janeiro, e está representado em alguns museus nacionais e estrangeiros.
Em 1883, com Malhoa, juntos descobrem o «Figueiró das cores» e por ali iniciam, verão após verão, a dita «odisseia rústica», desenhando e pintando as terras e as gentes figueiroenses. Em Figueiró dos Vinhos ambos acabarão por morrer, ambos em finais de verão, Henrique Pinto em 1912, José Malhoa vinte e um anos depois.
Assinalando o Centenário da morte de Manuel Henrique Pinto, terá lugar no Clube Figueiroense – Casa da Cultura, Município de Figueiró dos Vinhos, de 29 de Setembro a 11 de Novembro, uma Exposição denominada:
A DUAS MÃOS | DESENHOS INÉDITOS
Manuel Henrique Pinto (1853-1912) e José Malhoa (1855-1933)
Pelo Centenário da morte de Manuel Henrique Pinto


A mostra reune cerca de dúzia e meia de Desenhos inéditos dos dois Artistas, abarcando essencialmente o período por ambos vivido em Figueiró e pondo em diálogo alguns trabalhos, temas e modelos que juntos partilharam.

Como já devem ter notado, tenho andado proíbido pelos médicos de falar deste aqui – a doutora não deixa. Hoje, a propósito do Centenário, interrompe-se a dieta. No entanto, como compreenderão, também não posso escarrapachar, sem mais aquelas, as fotos  dos desenhos que vão ser mostrados – ou deixariam de ser inéditos… Ficam estas duas mãos, um belo estudo de MHPinto para Esfolhando o milho, 1907, e porque estavam destinadas à capa do catálogo e convite da exposição. 

          O melhor mesmo é lá darem um salto – o que se mostra e o passeio valerão sempre a pena (até ao S. Martinho, 11 de Novembro, estará aberta, mas verifiquem antes aqui ou aqui).
Ali encontrarão outras Mãos;  uma das Velhas mais outra das novas, mas por mãos a que não estamos habituados; uma Noiva de antes da outra; e uma outra que foi pró Brasil mas cá deixou retrato - sempre dá (a)trapalhação e um toque de modernidade; mais o retrato do Bêbado do costume, talvez um dos primeiros; e o primeiro, talvez o único, nu assim mais pró-helénico; e mais cuidados d'amor(es); ou outra gente cuidando de recos, figos e passarada - tudo de boa feitura, de uma e de outra mão; uma bela colheita, que poucos olhos viram.
            E o catálogo também não deslustra. Já vi - está lindo! E por dentro também não está mau... Valerá a pena ler, com calma e atenção.

Antecedendo a inauguração da Exposição, marcada por uma breve Conferência pela Comissária da mostra no auditório do Clube Figueiroense às 15:30 do dia 29 de Set., será colocada, por iniciativa da família e amigos do Artista e do Município de Figueiró dos Vinhos, no fuste do busto existente no cemitério da Vila, uma placa comemorativa da data.

        Sobre Manuel Henrique Pinto (1853-1912) podem ainda consultar isto e mais isto.


26 Set. 2012. LBG

domingo, 16 de setembro de 2012

1906 - Do “Livrinho Vermelho”,

mais fanfarra, foguetes, passo-doble
…e muita “dor de corno”.


Ainda sobre a viagem de José Malhoa ao Rio de Janeiro, a propósito da sua Exposição no Gabinete Portuguez de Leitura em 1906, cabem agora umas notas sobre os seus ecos em Figueiró dos Vinhos. Porque têm graça tais ecos, como já soavam a tacanhez alguns «cavalheiros» ou «taberneiros honrados»…

Socorramo-nos da excelente colecção de imprensa local da  Biblioteca Municipal Simões de Almeida (tio)  e mais qualquer coisinha dos sítios do costume [1].

Logo em 28 de Abril de 1906, O Figueiroense já anunciava o convite feito a Malhoa pelo Gabinete Portuguez de Leitura e dava alarde de conhecer bem os quadros da futura exposição, «sendo a sua maioria feitos em Figueiró dos Vinhos e inspirados nas suas bellezas naturaes»; informava também que a viagem, com a duração de dois meses, seria feita na companhia do irmão Joaquim.

O Figueiroense, 28.4.1906, p.1

          Durante a estada de Malhoa no Rio, em 16 de Agosto de 1906, O Echo de Figueiróem correspondência de lá para cá ou aproveitando outra qualquer, noticia o banquete no hotel Paris, o discurso de Coelho Neto e os agradecimentos do homenageado. Como se vê, já naquele tempo, a informação corria rápido e uma vila do interior estava razoavelmente ao corrente.

O Echo de Figueiró, 16.8.1906
Depois, O Figueiroense, nas edições de 1 e de 9 de Setembro [2], informava quer do desembarque de Malhoa em Lisboa, ocorrido no dia 28 de Agosto, e da recepção e «affectuosa manifestação dos seus numerosos amigos à sua chegada»; quer, logo na semana seguinte, da sua vinda para Figueiró, onde «chegou no dia 5 do corrente a esta villa, com sua ex.mª familia».


O Figueiroense, 1.9.1906, p.1
O Figueiroense, 9.9.1906, p.1

            Mas é a 16 de Setembro, há 106 anos precisamente, que se dá o acontecimento mais curioso.

A crer na notícia publicada pel’O Figueiroense seis dias depois, mas na 2ª página por via das dúvidas, ficamos a saber que naquele domingo «a Philarmonica Figeiroense foi cumprimentar o sr. Commendador José Malhôa e felicital-o pelo seu feliz regresso do Rio de Janeiro á sua patria e, aproveitando o ensejo, a sua direcção offereceu-lhe uma pasta que continha a photographia do seu elegante chalet “Villa Casulo” e um passe double “O Casulo”, por Filipe José da Cruz, regente da philarmonica».
«A pasta, que foi previamente feita em Lisboa, de que foi encarregado o pintor Julio de Menezes, é de velludo carmezim, com a legenda: “Offerece a Philarmonica Figueiroense”, contendo aquella a photographia e a mensagem que em seguida publicamos.»
A transcrição da dita mensagem é fiel [3] e pode ser lida na íntegra. Deliciemo-nos com a prosa, especialmente com o período onde se coloca a hipótese de Figueiró ser «arrazado pelos cyclones e desaparecer pelas evoluções vulcânicas»… - não havia necessidade!

O Figueiroense, 22.9.1906, p.2

          A notícia continua, indicando as personalidades que se incorporaram no cortejo a convite da Direcção da Filarmónica: para além de Manuel Quaresma Paiva, Joaquim de Souza, João Luiz Júnior (Agria) e Amadeu Simões Lopes, os directores da agremiação e subescritores da missiva, damos conta do Dr. Manuel de Vasconcellos, de dois Lacerdas – Samuel e Padre Acúrcio – de António (Lopes) Serra e mais uma dúzia de homens bons. Depois, descreve-se o acto da entrega da pasta carmesim a Malhoa, as palavras de circunstância, «rompendo em seguida a philarmonica com o referido passe double, e subindo n’essa occasião ao ar bastante fogo»… - foi festa a valer!
            E remata com um comentário onde se lamenta que tal manifestação tenha sido combinada «em segredo», reconhecendo no entanto que tal fora «no intuito de fazer surpreza ao insigne artista», mas que tal aconteceu «n’uma occasião em que muitas pessoas das de maior representação estão fóra…», censurava.

            Todavia, logo nessa mesma edição de O Figueiroense, ainda se pode ler, na pág. 3, um artigo assinado por Augusto d'Araújo Lacerda, louvando embora Malhoa e os seus feitos além Atlântico, onde se percebe o começo de uma grande "dor de corno"... 

O Figueiroense, 22.9.1906, p.3


E, no número seguinte, a cefaleia córnea continua a exprimir-se pela pena de «Um cavalheiro» que, na pág.2, resolve desmentir O Século e a sua «correspondencia d’esta villa»; e mais «Um taberneiro honrado» que, na pág.3, entre vários lamentos e indignações, promete vingança, mais não seja ameaçando com o «baptizado» do vinho a servir aos seus «bem bons freguezes» da facção rival...

O Figueiroense, 27.9.1906, p.2
O Figueiroense, 27.9.1906, p.3

Infelizmente, não nos chegaram as correspondentes edições d’O Echo de Figueiró [4] - isso é que deveria ser lindo…!

         Resta acrescentar que, ao contrário do noticiado pel’O Figueiroense, a pasta não era de « velludo carmezim» - é vermelhinha, sim, mas forrada a seda!
E, como se pode ver pela fotografia, pintada cuidadosamente e assinada «MS» (se é a marca do referido «Júlio de Menezes», não sabemos?!); com os dizeres «A philarmonica Figueiroense a José Malhoa» (aqui imitando a assinatura do Pintor, portanto uma das primeiras vezes em que comprovadamente esta não é do seu próprio punho… mas, nisto, compreende-se); e com a representação do «Casulo», uma paleta e pincéis, uma lira com palma, e uma faixa datada «16.9.906». 
         …E ainda queria o Lacerda que adiassem a função e esperassem por não sei quem?! Claro que a pasta tinha de ser entregue naquela data precisa!




No interior da pasta, forrado a seda branca, lá está a mensagem citada, de caligrafia cuidada, sobre papel papiro dobrado ao meio. 
        A partitura do «passe double», ao que consta, encontrar-se-á na actual Filarmónica Figueiroense [5]. Quanto à alegada «photographia» do «Casulo» - e não se percebe se o articulista se refere a alguma foto que acompanharia os restantes papéis, se à representação pintada na capa – se tal fotografia existiu, pode ser uma qualquer que o tempo se encarregou de misturar com muitas outras…
Como esta, poucos anos depois de prontas as obras de ampliação do Arq. Luiz Ernesto Reynaud, acabadas por volta de 1900 ou 1901. Com o volume do atelier – o primitivo «Casulo» - ainda com os três vãos originais. Com a pequena entrada de luz meridional/nascente na cobertura do atelier que se opunha à grande claraboia virada a norte/poente (– não, aquilo não é nenhum «sótão»…!). Com os níveis de pavimento entre o atelier e a moradia ainda desfasados, de acordo com a antiga implantação da casinha térrea. A varanda da moradia, então de madeira e ferro, com as guardas em troncos de sobro retorcido e toda aberta a nascente/norte. E o jardim e o lago, aqui acabadinhos de arranjar e todos mimosos…
          Que assim era.


Por fim, atente-se a tudo o que foi escrito. E perceba-se, de uma vez por todas, que a pastinha vermelha, o histórico «passe double» de Filipe José da Cruz, a tocata da Filarmónica, o foguetório no ar, a romagem dos citados cavalheiros e a zanga do Lacerda, ocorreram nesta precisa data, por ocasião e por causa desta homenagem a Malhoa no seu regresso da triunfante “viagem cabralina”. E não por outra razão qualquer. Por mais que se deseje.
Que assim foi… (pelo menos até que algo efectivamente mais palpável, eventualmente, nos possa dizer o contrário).


16 Set. 2012. LBG.


[1] Como em artigos anteriores, do antigo espólio pessoal de Malhoa, actualmente no Museu José Malhoa ou em colecção particular.
[2] A última data muito provavelmente está enganada. O Figueiroense publicava-se aos sábados e no cabeçalho deste nº 469 lá vem: «Sabbado, 9 de Setembro de 1906», só que pelo calendário tal sábado foi dia 8… Coincidência ou não, este será o primeiro de quatro números onde desaparece do cabeçalho do jornal a indicação do antigo «Proprietario e Administrador - Francisco António d’Aguiar». Só a 6 de Outubro, no nº 473, voltará indicação de semelhante teor, mas agora com novo «Proprietario e Director - J. A. Lacerda Junior».
[3]  Uma só ressalva: no original, em papel papiro e de leitura já muito sumida, o membro da Direcção da Filarmónica referido como «João Luiz Agria», assina «João Luiz Júnior».
[4] Jornal rival da mesma época, que no seu início teve como um dos seus redactores e proprietários Carlos Silva Graça, possivelmente ligado por grau de parentesco a José Joaquim da Silva Graça, vizinho pedroguense, director e proprietário do jornal lisboeta O Século.
[5] Sobre a história da Filarmónica pode ainda ver: MEDEIROS, Carlos – Historial das Filarmónicas de Figueiró dos Vinhos. CMFV, 2007


[Nota, em 18 Jan. 2018] Porque, "misteriosamente", os links que remetiam para os recortes dos jornais da época, e estavam acessíveis através do site da Biblioteca Municipal Simões de Almeida (tio), deixaram de funcionar, optou-se por os eliminar e por integrar todos os recortes no corpo do artigo. Daí a grande extensão que agora aparenta e que pode ser um pouco mais desagradável graficamente. Mas pareceu preferível publicar integralmente todas as notícias referidas ao longo do texto, a remeter o leitor para coisa nenhuma... Fica, assim e pelo menos, à vontade do leitor o ler ou o não ler tais recortes.









quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Ao jeito de adenda,

sobre dois quadros já aqui referidos.


«Aprender, aprender sempre…» recomendava o velho Vladimiro. Como caíu em desgraça, isto anda esquecido. Além de se aprender pouco, parece que há vergonha em admitir que se não sabe… Pois bem, é sempre altura de aprender mais qualquer coisinha e de emendar a mão se asneira dissemos.
O caso não é de asneira, mas faltou alguma coisa. Emendemos pois a mão.

Ontem, a despropósito, saltaram duas fotografias do caixote. Da época, sumidas, uma delas anotada presumivelmente pela mão do Malhoa. De boa colheita, posso garantir. Como não eram o que procurava, iam de novo abeberar, quando se fez luz! - tinham a ver com dois escritos recentes e haviam feito falta. Por isso aqui ficam.


A primeira é a foto de O Soalheiro, 1904. Pequena, demasiado sumida pelo tempo – tem seguramente mais de um século. E, não acrescentando muito ao que já foi dito, serve, pelo menos, para dar um fim feliz à novela.
Prova que aquele quadro há dois meses referido e mostrado numa foto de fraca resolução tirada da net, sempre existiu e não é de «fábrica coberta» - ao contrário de outros que surdem não se sabe muito bem d’onde…  E, apesar da fraca qualidade de ambas as reproduções, não haverá alguém que não admita estar perante o mesmo quadro. Quanto a ser ou não O Soalheiro, o anteriormente escrito diz quanto basta.


A segunda fotografia é de umas Cebolas. E há duas fotos – uma mais pequena e esta em tamanho postal. Assinalada no verso, a lápis, «as cebôllas» e posteriormente riscado «as», e por outra mão emendado «Embaraçando» - o que deve ser asneira…

Na verdade sabe-se muito bem o que é Embraçar cebolas, 1896 – quadro repetidamente reproduzido. Como também se sabe o que é As Cebolas Vermelhas, 1908 – Oignons Rouges, no Salon de 1909, Cebollas Rojas, em Buenos Aires, 1910, quadro reproduzido no respectivo catálogo - e não, não foram a Santiago do Chile ! (apesar de…, e a crer no catálogo).
Portanto, estas Cebolas não são seguramente nenhuma das referidas.


Ora, no artiguinho sobre a "Exposição Guilherme Rosa" no Rio de Janeiro 1902, faço referência, na nota [11], a um outro artigo de jornal que descreve umas Cebolas e refiro também que na 1ª Exposição da SNBA, 1901, Malhoa apresentou um quadro com tal título.
Vejamos então melhor o que nos diz o anónimo articulista de 1902: «”As cebolas” é outro trabalho magnífico, em que, além da impeccabilidade das figuras das “ceboleiras”, há o estudo da paizagem, que é delicioso». Serve.
A crer nesta fonte, percebemos que o quadro levado e vendido por Rosa no Rio em 1902, representa umas «ceboleiras» e uma deliciosa paisagem.
Olhando para o que é possível ver nesta fotografia, admite-se que tal descrição a este se aplique. Note-se, por outro lado, uma certa semelhança compositiva entre a figura da principal ceboleira e a lavadeira de A corar a roupa, c.1899, outro dos quadros dessa mostra, hoje no MNBA do Rio.

Por fim, olhe-se com cuidado para a «Foto do atelier de Malhoa em Campo de Ourique, cerca de 1901» que acompanha aquele artigo – se o quadro, meio encoberto pela cadeira austríaca, por baixo de A corar a roupa e ao lado de Gozando os rendimentos, prontinhos para ir para o Rio, não é este… macacos me mordam!
Parece pois, salvo mais douta opinião, que aqui temos Cebolas, c. 1900, o quadro da 1ª Exposição da SNBA e o que Guilherme Rosa vendeu no Brasil em 1902.

E peço desculpa por não ser uma «Paisagem».


5 Set. 2012. LBG.