quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Paris 1900 – L'Exposition Universelle

De meia dúzia, sobra um…


No mesmo ano em que, como já vimos, era exposto no Salon da Société des Artistes Français o Retrato da Ex.ma Sr.ª Condessa de Mossamedes [1], decorreu também em Paris a Exposição Universal de 1900.
Integrada nesta Exposição Universal realizou-se L’exposition décennale des Beaux-Arts | 1889 à 1900. Na secção portuguesa, Malhoa participa com seis obras. Algumas já habituadas ao ar do Sena e já aqui referidas, outras antes mostradas no Grémio lisboeta, e uma especialmente preparada para esta ocasião. Segundo o Catalogue illustré officiel, foram elas [2]:
 
54Les Potiers
55 A blanchir le linge
56Les Boulangères
57Le Professeur titulaire de chaire
58Portrait du prieur de Constancia
59 En voyant passer le train.



            Vejamo-las rapidamente, uma a uma.




Les Potiers / Os oleiros, c.1897, 130x165. O já nosso conhecido do Salon de 1897, seria agora merecedor duma Medalha de Oiro neste certame.


Les  Potiers / Os oleiros, c.1897. ost, 130x165


A blanchir le linge / A corar a roupa, 1899. Foi obra cuja única apresentação aconteceu nesta mostra. «Pintei n’este ano em Figueiró, o quadro “a córar a roupa” que vai figurar na exposição de Paris…» refere Malhoa em nota de final de ano, em 31 de Dezembro de 1899 [3]. Refere-se, por certo, a este quadro. E por certo também deste quadro é esta imagem [4].

A blanchir le linge / A corar a roupa, 1899. ost.

«Uma outra sua tela “As lavadeiras”, essa não podia vêr-se pela altura demasiada a que ficou. Foi pena porque esse quadro, cuja perspectiva assim se alterava pela deformação dos planos, era d’um quente e lindo colorido» [5] - resumem-se praticamente a isto as apreciações conhecidas a este interessante trabalho de Malhoa, realizado propositada e visto unicamente nesta ocasião. Não será, contudo, muito difícil de imaginar como seria. A foto que resta, embora a preto e branco, e o «estudo» deste mesmo quadro [6] existente no MNBA do Rio de Janeiro, darão preciosa ajuda…


A corar a roupa (estudo), c.1899. ost, 63x75. MNBA, Rio

            Pela amostra, deve ter sido uma grande tela!


A corar a roupa (estudo),1898. folha de álbum, 15x23. MJM, Caldas da Raínha

E, já agora, fica mais isto - um desenho preliminar, folha de álbum, datado do verão anterior, onde podemos perceber já as composições de ambas as telas. Note-se, na correspondente ao quadro de Paris, uma segunda figura com presença importante e que foi suprimida na versão definitiva.

(Só em 1928, na SNBA, será mostrada uma nova versão de A corar roupa, com mais roupa e menos lavadeiras. Essa tem foto no catálogo e há estudo só do linho. Mas não é coisa agora para aqui chamada).



Les Boulangères / As padeiras (mercado em Figueiró), 1898, 45x54. Apresentadas na 8ª Exposição do Grémio Artístico, 1898, e como vimos antes, compradas nesse mesmo verão, juntamente com Os oleiros, por Jerónimo Bravo [7]. Viajadas, haviam ido no ano anterior a Liverpool, e - sorte a delas! - seguiriam de Paris para S. Petersburgo onde seriam expostas no ano seguinte. Gozam ainda de boa saúde e muito se recomendam.

Les Boulangères / As padeiras (mercado em Figueiró), 1898. óleo, 45x54. c.p.



Le Professeur titulaire de chaire / O Catedrático, c.1898. É o mesmo do Salon de 1899, agora com outro título em francês. Como já explicado, de tal quadro não haverá imagens, restando este provável estudo.

Estudo para O Catedrático (?), 1898. osc, 33,5x40



Portrait du prieur de Constancia / Retrato do prior de Constância, 1899. Também com ligeira alteração no nome, é o já conhecido do Salon de 1899. E deste é que não resta qualquer imagem conhecida.



En voyant passer le train / À passagem do combóio, 1896, 40x65. Inicialmente apresentado na 7ª Exposição do Grémio Artístico, 1897, já sem preço de catálogo - sinal de haver sido vendido, ainda com o verniz a secar, a José Relvas. O mesmo que o haveria de emprestar e perder agora.
«À passagem do comboio – é uma animada scena, tão frequente, a que o pincel de Malhôa apanhou em flagrante toda a vida e intensa expressão d’alegria expontanea. O comboio foge rapidamente e o rapazio, que correu ás barreiras a vel-o passar, ainda não acabou a esfuziada de gritos e risos; teem todos o gesto animado das grandes ocasiões, um lança a perna sobre o ripado, agita-os um extremecimento de vida, só a rapariguinha que traz ao collo a irmã pequenina, conserva attitude socegada de quem, tendo um dever a cumprir, não pode deixar-se arrebatar por enthusiasmos.» - assim o descrevera Ribeiro Arthur aquando da apresentação, em 1897 [8].
            Deste há imagens com fartura [9].

En voyant passer le train / À passagem do combóio, 1896. óleo, 40x65

           
             Malhoa fará uma segunda versão de À passagem do combóio, c.1905. Aparentemente menos interessante, e onde enfia o barrete ao cachopo deitado sobre a cerca. Levá-lo-á ao Brasil em 1906 [10], ali será vendido a «Baldº Carq.ja Fuentes», por «1:900$000 (…) em moeda brazileira». É, muito possivelmente, este, não datado, e que entretanto terá vindo mais recentemente repatriado.

À passagem do combóio, c.1905. ost, 47x67, c.p.


Assim, a correr, é esta a história possível das seis obras que Malhoa levou à Exposição Universal de Paris, 1900.

Depois, na volta, o barco que as trazia afundou-se. Perderam-se cinco das obras de Malhoa e mais uma série de outras de outros Artistas nacionais. Foi grande a perda - como se pode calcular! A esta exposição internacional havia ido do melhor que então por cá era produzido.

Em 8 de Abril de 1901, com letra nervosa, Malhoa assenta no seu livro: «Recebi na Inspecção Geral da exposição Nacional de Paris, ondé inspector o Ressano Garcia a importancia do seguro dos meus quadros, que figuraram na mesma exposição, os quadros que se perderam no naufragio do “Saint Andre” foram, “Os Oleiros” pertencentes ao Bravo, valor um conto de reis, “a córar a roupa”, tres mil e quinhentos francos, (os quaes me foram pagos a 250 rs estando o Cambio a 259 !) “À passagem do Comboio, pertencente ao José Relvas, valor 300$000 [11], “O Cathedratico”  1.500 francos, retrato do prior de Constancia 300$000 – Total - 2:850$000».

Do desastre, safaram-se As padeiras, bafejadas pela sorte de não haverem embarcado por terem viajem marcada até à Rússia. Foram e vieram. E todos agradecemos. É um belo quadro!


A Medalha de Paris 1900, frente e verso - não é a d'oiro, que essa pagava-se.



Moral da estória:
Fica provada, pelo menos neste caso, premonitoriamente e apesar do que dizem, a vantagem da rota de Kronstadt, bem mais segura que a infeliz viagem mediterrânica, a bordo de um velho navio francês a cair aos bocados, em nome de santo, e (falta saber, mas tenho a fezada) conduzida por algum inepto capitão tudesco…


17 Jan. 2013. LBG.



[1] Sobre isto pode ver o artigo anterior.

[2] Para além do Catálogo, confirma-o, em grande parte, A. Acácio Martins Velho (1848-1929), amigo tomarense, no seu Folhetim | Paris e a Exposição | (impressões de Viagem), publicado durante largas quinzenas in A Verdade: Semanário [então quinzenal] Democrático de Tomar.
No nº1073, 21ºano, 25 Novembro 1900, (13ºfolhetim), quando chega à Pintura e à «nossa exposição [que] comprehende 122 telas…» [na verdade, pelo catálogo, 123 trabalhos], Martins Velho escreve: «Malhôa o mais devotado pintor dos costumes nacionaes e das scenas campestres da nossa terra apresentou seis bellos trabalhos dos quaes distinguiremos – os Oleiros, os Padeiros [traduzindo trocou o género], o Professor e a Passagem do comboyo

[3] Já anteriormente citada, então na íntegra. Do livro manuscrito «Receita | Despeza».

[4] Publicada in Serões. nº10, Abril 1906, Lisboa, Livraria Ferreira. Acessível aqui.
Aproveite para ler Ramalho Ortigão e o seu belo artigo vespertino da viagem de Malhoa ao Brasil - mais vale que me ler a mim ou outras parvoíces…
E, para o outro lado do Atlântico, umas páginas mais adiante, isto: Bernardelli, Visconti e tal - deve interessar.

[5] José de Figueiredo, in Portugal na Exposição de Paris. Lisboa: Empreza da História de Portugal, 1901. Apesar do título que dá ao quadro,  traduzido pessoalmente do francês, era sobre este que falava.

[6] Como abordado em anterior artigo, designado pelo próprio Malhoa como «”a corar a roupa” (estudo)» e vendido no Rio em 1902, por Guilherme Rosa, para a colecção da Escola Nacional de Bellas Artes. Não se percebendo porque se insiste em data-lo de 1905…?! É um «estudo» deste aqui, e pronto! E um grande «estudo», por sinal!

[7] No seu livro «Receita | Despeza», no verão de 1898, Malhoa anota «Venda dos “Oleiros” e “Padeiras” ao Bravo – 500$000» (fez desconto, que no catálogo estavam por 500$000 e 250$000, respectivamente).
Mais uma vez, não se entende a indicação de haver sido «vendido em Março de 1900», quando já estaria de malas aviadas até Paris... (mais uma cartinha mal lida... e, como também lá falta esta Exposição que não será «menor», é mais uma fichazinha boa para pendurar na parede.)

[8] B. Sesinando Ribeiro Arthur, in Arte e Artistas Contemporaneos, 2ª serie. Lisboa: Livraria Ferin, 1898. p.252 a 253 – A setima exposição do Gremio Artistico.

[9] Desde logo a fotogravura do catálogo de 1897, publicada também no Occidente, em Branco e Negro… e, já “postumamente”, no catálogo de 1928. A acima mostrada.
Existe ainda uma xilogravura «segundo original de José Malhoa», «realizada por Charles Baude, em 1900, para a revista Le Monde Illustré, e de que o pintor ofereceu uma “prova de artista”, impressa sobre papel de esquisso, a José Relvas.» Existente no acervo dos Patudos, foi publicada e comentada por José António Falcão in Os Corpos e as Almas: Obras de José Malhoa na Colecção da Casa dos Patudos. Alpiarça, Fig.º dos Vinhos: Casa dos Patudos, Clube Figueiroense, 2006. p.17 e 35. (o citado no início deste segundo parágrafo) . E que pode ver aqui.

[10] No Catálogo da Exposição do Rio tem o nº24 e a indicação «(Paris Salon 1905)». Como já referimos na nota (9) do artigo anterior, esta, como outras, deverão ser imprecisões ou erros. Consultados os catálogos de Paris 1905 (quer o da Société des Artistes Français, quer o da Société Nationale des Beaux-Arts – ambos com a assinatura de posse de Malhoa) nada foi encontrado que tal confirme, sequer (como relativamente ao Salon de 1900) qualquer nota manuscrita. Chatouillant, e chega!

[11] Ficamos sem saber o destino do dinheirinho dos quadros do Bravo e do Relvas – está registado na «Receita», nada aparece na «Despeza»… isto não quer dizer que não tenha acontecido de outra forma, nem tudo foi anotado.
Sabemos que a Relvas deu a gravura de Baude, referida acima na nota (9) deste artigo, obviamente para compensar a perda do quadro; ao Bravo irá fazer mais tarde uns retratos, a preço jeitoso, dele e da Mulher…


sábado, 12 de janeiro de 2013

Malhoa e os “Salons” de Paris (V)


1900 – A Condessa de Paris

Não. Não se trata da d'Orléans, da pretendente ao trono gaulês, da mãezinha da Dona Amélia, da sogra estimada d’el-rei D. Carlos… não!
Tão sómente a Senhora Condessa de Mossamedes [1], retratada por Malhoa em 1899 e cuja tela ele enviou ao Salon de 1900. Esta é a Condessa que foi a Paris.


JMalhoa. Retrato da Ex.ma Sr.ª Condessa de Mossamedes, 1899.


Malhoa, em quatro momentos, deixa-nos indicações escritas sobre este retrato e suas andanças.
Anota a sua venda na «Receita» de Dezembro de 1899: «Recebi do Balthazar Cabral, pelo retrato que fiz a Condessa de Mossamedes – 120$000» e, na linha seguinte, «Importancia da moldura para o mesmo – 25$000».[2]
Regista, pela mesma altura, a data da sua feitura e algumas considerações sobre o seu mérito e destino: «…Pintei igualmente nos mezes de Novº e Dezembro o retrato da Condessa de Mossamedes, que muito tem agradado, e que eu conscienciosamente julgo sêr o unico que pode igualar em merecimento o retrato de Madª. Leal, que expus com tanto exito no “Salon” de 1897 junto com “Os Oleiros” e que tanto enthusiasmou foi celebrado pela imprensa Parisiense. Isto devido única e exclusivamente a modello têr a devida compreensão e pouzar-me bem. | José Malhôa | 31 Dezembro 1899[3]
Aponta, na «Despeza», o custo do envio do quadro a Paris: «Junho de 1900 | Despeza com a ida do retrato da Condessa de Mossamedes ao “Salon” – 17$640».

E, finalmente, anota no seu exemplar do Catalogue illustré du Salon, entre Malet e Mallet, a presença hors catalogue e o respectivo número «874a» do Retrato da Condessa de Mossamedes no Salon de 1900. Como se pode constatar aqui.


Tudo isto somado à indicação de The Studio, já anteriormente referida, «The Lecturer and The Priest of Constance were exhibited in 1899, and The Portrait of the Countess of Mossamedes in 1900» [4] deverá bastar para termos toda a certeza quanto ao quadro que Malhoa levou a Paris, ao Salon, em 1900. Este e não outro.

Pelo que podemos registar, finalmente,
Salon de Paris, 1900:

874a Retrato da Condessa 
             de Mossamedes, 1899.










Depois de Paris, o Retrato da Ex.ma Sr.ª Condessa de Mossamedes será apresentado em Lisboa, na 1ª Exposição da novel Sociedade Nacional de Bellas Artes, em 1901, com o nº 80 no catálogo. Só então, alguns comentários surgem na imprensa nacional:
«As honras da exposição cabem, sem duvida, a Malhôa, que se apresenta galhardamente. | Um dos seus melhores quadros é o retrato da sr.ª Condessa de Mossamedes, d’uma factura larga e solida, d’um magnifico desenho e côr sobria (nº80) [5]
«… temos Malhôa com os seus esplendidos retratos, que lhe valeram o ser premiado em Madrid, na terra dos mestres[6] [7]

Só em 1928, na Grande Exposição de Homenagem a José Malhoa, o retrato da Condessa aparece de novo, com o nº cat.137 e com a indicação da sua dimensão: 70x60.



E, para esturricar de vez As papas

Para que se perceba o que antes se disse [8], a propósito da errónea indicação de As papas como a obra presente neste Salon de 1900, fica a imagem publicada no Catálogo da Exposição de José Malhoa no Rio de Janeiro, em 1906.


Como se pode ver, este belíssimo estudo a carvão (com o boneco “da galinha e da poia” na margem direita do papel, possivelmente para diversão do pequeno Luiz ou da «Êta»), actualmente no acervo da Casa dos Patudos em Alpiarça, aparece com uma legenda completamente despropositada [9]
            Talvez aqui a origem do tal erro recorrente.



Eis o pormenor da galinha mais a poia.



12 Jan. 2013. LBG.


[1]  Que aqui nos é apresentada por Carlos Lobo d’Avila, meia dúzia de anos antes.  

[2] No ano seguinte, no mesmo dia 18 de Abril de 1900, aparecem mais estas três anotações, uma já antes referida, e aparentemente todas relacionadas com este personagem: «Retrato do pae do Balthazar Cabral c/ mª. 25.000 – 145$000», «Venda ao Balthazar Cabral do quadro “No forno” – 250$000» e «Retrato do Fº. Cabral Metello (moldura 25.000) – 140$000»

[3] Em nota de final de ano, em Dez. 1899, no seu livro de assentos «Receita | Despeza». Os sublinhados são do próprio JMalhoa. Está transcrito tal qual o original, apesar da linguagem confusa da penúltima frase.

[4] R.S. in The Studio. London, Aug. 15, 1905, vol.35. nº149. p.246. Sublinhado meu.

[5] Henrique de Vasconcellos, in Brasil-Portugal, nº 58, 16 Junho 1901, p.155.

[6] Xylographo, in Occidente, nº 807, 30 Maio 1901, p.118.

[7] Aqui haverá alguma ligeireza, infelizmente recorrente, do critico do Occidente. Nenhum dos retratos de Madrid estava ali exposto – um seria mostrado na SNBA no ano seguinte e só então premiado, o outro, o premiado em Madrid, só haveria de ser visto em Lisboa dois anos depois… É por estas e por outras que este Xylographo, por muitos considerado, a mim, canta bem, pouco me alegra.

[8]  Ver aqui, em particular a nota (4).

[9] Aliás, no referido catálogo da Exposição do Rio, 1906, aparecem mais algumas indicações que merecem cuidado e cautela. Desde logo, relembremos o aviso dado por Malhoa - «Cataloguei 112mas á ultima hora só pude levar commigo cento e quatro, por me tornar completamente impossível acabar os oito que faltavam». Depois, porque algumas obras aparecem com títulos diferentes do habitual dificultando a sua identificação (14- O viactico na aldeia, ou 29- Pae e filha, p. ex.). E surgem ainda outras imprecisões (como a legenda de 16- O azeite novo que o dá como medalhado em 1904, ou a indicação da presença da segunda versão de 24- Á passagem do combóio no Salon de 1905) que, em vez de boquiabrirem Seu Jaca, levam agora ao engano o Jaquim mais a Maria

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Malhoa e os “Salons” de Paris (IV)


1899 – O Prior e O Catedrático foram os dois passear… o cura montado no jumento.

Antes do mais, isto. O bocadinho do Catalogue illustré du Salon de 1899 referente a Malhoa [1]. Para se perceber que até na nobre arte do copianço, digo transcrição, há mãozinhas que dificilmente lá vão…[2]


Nesta sua terceira participação no Salon, Malhoa manda, como até aqui, dois quadros a Paris. E anota: «Março de 1899 | Despeza | 30 – Despeza com a ida dos dois retratos ao “Salon” despezas de viagem – 10$540».

Recordando, as obras que Malhoa enviou ao Salon de 1899 e respectivos números de catálogo, foram:

1306Le cathédratique.
1307Portrait de M. le curé de Coustanaix, Joô Alvès de Meira.

Ou seja, traduzindo e rectificando os erros originais, os quadros:
O Catedrático, c.1898.
Retrato do Prior de Constância (João Alves de Meira), 1899.

Destas duas obras pouco se sabe. Nunca expostas em Portugal, fazem parte do lote das que voltam a Paris no ano seguinte, para a Exposição Universal de 1900, e naufragam no regresso. As referências descritivas são escassas e imagens, que se conheçam, inexistentes.
Assim, só aqui podemos deixar um cheirinho.

Dando primazia ao clero, vejamos o que Malhoa nos deixa sobre o Retrato do Prior de Constância: «1899 | Despeza | Fevereiro | Estada nos Cazaes dos Pintainhos durante 14 dias em que fui pintar a Constância o retrato (gratuito) do padre João Alves de Meira destinado a sêr exposto no “Salon” de 1899 – 39.500».

Por esta altura, Malhoa tinha entre mãos a decoração do tecto da Igreja Matriz de Constância. Em 18 de Novembro de 1898 havia recebido a «1ª prestação de 600$000 p/c da decoração a fazer para a igreja de Constancia» e em 14 de Abril de 1899, receberia mais 200$000 pela 2ª prestação. No dia seguinte, anota: «Paguei ao Manuel João 100$000 por conta de 400$000 quantia por que tratou comigo de fazer a decoração (pintura e douradura) do tecto da igreja parochial de Constancia». Recordemos que, em Dezembro de 1898, Malhoa havia vendido As papas, 1898, por 500$000, ao Dr. Francisco Falcão, ao que parece, um dos mecenas das obras de restauro da Igreja de N.ª S.ª dos Mártires. E, por fim, assinalemos que dos Casais dos Pintaínhos era a sua fiel criada – a «Maria dos Pintaínhos» - que o acompanharia até ao fim da vida.

Não sabemos como todos estes factos se interligam; que papéis têm a criada, o doutor e o prior; mas dá para perceber que o Retrato do Prior de Constância, 1899, surge neste contexto e nestas circunstâncias, por terras de encontro do Zêzere com o Tejo.[3]
E deve ter sido um belo retrato… para ter ido até Paris.

Mais, só em Abril de 1901, quando Malhoa recebe o dinheiro do seguro pela perda dos quadros naufragados. Aí ficamos a saber o seu valor «… “O Cathedrático” 1.500 francos [4], retrato do prior de Constancia 300$000». E, pela ausência da indicação de proprietário, referida noutros dois que tinham dono, supõe-se que estes aguardassem ainda a sua apresentação em Lisboa para serem vendidos.

Quanto a O Catedrático, c.1898, quase todos os autores [5] nos dizem que se tratava de um «simples burro».
            Ora, aqui há uns anos surgiu no mercado, num leilão da Leiria & Nascimento, um pequeno óleo sobre cartão, 33,5x40, assinado e datado de 1898, com a cabeça de um simpático jerico lãzudo. É bem capaz de se tratar de um estudo para O Catedrático [6]. Ficamos, pois, a conhecer as fuças de tão ilustre personagem. 

J.Malhoa. Estudo para O Catedrático (?), 1898. osc, 33,5x40

            Não é que o não conhecêssemos… dezassete anos antes, na 1ª Exposição de Quadros Modernos (Grupo do Leão), o António Ramalho, outro pândego, já nos tinha mostrado o dito, então recém bacharelado. Num tempo muito longe de Bolonha, natural é que a vida académica demorasse… cumprindo-se no entanto o ditado: «um burro carregado de livros é um doutor».

António Ramalho Júnior. O Bacharel, c.1881, óleo, 54x46.  [7]

          Em 1898, este antigo Bacharel, mais lanudo, chegou finalmente a Doutor e assumiu a cátedra.



9 Jan. 2013. LBG


[1] A quase totalidade dos primeiros catálogos, até 1907, encontram-nos disponíveis aqui.


[2] «e bem prega frei Tomás…» que também me enganei! (mas já emendei).

[3] Podem ver aqui um estudo do Zêzere e a foto do tecto da Igreja de Constância.

[4] Os francos foram pagos a 250 reis. Malhoa, então, queixou-se que o câmbio estava em $259.

[5] Todos, não! Há pelo menos duas crónicas, a propósito da Exposição Universal de Paris 1900 onde O Catedrático voltou, em que a apreciação foi esta: «Dois retratos de Malhoa eram bastante caracteristicos…» e, mais adiante, «Os seus retratos do “Cathedratico” e do “Prior de Constancia” (…) sobre terem caracter, eram, como tudo o mais que este artista expunha, largamente pintados», e o outro vai pelo mesmo. Nem uma palavrinha sobre um dos quadros retratar o asno?! Falavam a sério ou com subtil ironia? Ou, a fazer escola, falavam do que para nem sequer olharam?

[6] em adenda, 13 Jul 2014 - Dizemos «É bem capaz...» porque nisto não há certezas. Não fora o catálogo da L&N nos dizer que o óleo está datado de «1898» (e, sem ver o quadro ao vivo, nada temos que nos faça duvidar de tal leitura...), atendendo apenas ao tamanho da pintura e ao que a imagem nos mostra, a primeira ideia seria considerar este jerico como o protagonista do quadro apresentado na 2ª Exposição do Grémio Artístico, 1892, intitulado Pensando no caso. Pois, de acordo com o respectivo catálogo, tal quadro está assim referenciado: «101 - Pensando no caso - 40x32 - 36$000». De imediato nos chama a atenção o facto de as dimensões serem praticamente as mesmas!? E, procurando um pouco mais sobre isto, lendo o que nos diz quem o terá visto, encontramos na crónica de «João Sincero», n'O Occidente de 11 Maio 1892, esta descrição: «uma cabeça de burrico lanzudo, Pensando no caso philosophicamente» - frase que bem podia ser aplicada o quadro que agora vemos. Ora, apenas a data, posterior a isto tudo, e mais de acordo com a apresentação no Salon de 1899, nos leva a supor que se trate de um estudo para O Catedrático. «Estudo» evidentemente, porque é suposto, como vimos, que o quadro que foi a Paris se tenha afundado.
Pode, no entanto, ser Pensando no caso e o estudo para O Catedrático ao mesmo tempo. Em tal hipótese, não seria a vez única que Malhoa faria marosca para levar a Paris quadros em reprise - o Salon exigia obras nunca antes vistas em lado algum, recordemos. E como veremos mais tarde, para levar a Paris (1902) o retrato da D. Teresa Pereira da Costa, já depois de apresentado com enorme êxito em Madrid (1901), o bom do Malhoa dirá «...que refiz quase por completo...» - vá lá a gente saber?! Pode por isso, neste caso, ter usado o quadro mostrado em 1892 como base para a nova pintura e só então o ter datado, e ao novo dado o doutoramento...
Eis pois as razões de ser apenas «bem capaz». 
Mas esteja o bicho Pensando no caso, c.1892, ou seja o estudo para O Catedrático, c.1898, ou ambos ao mesmo tempo, dúvidas não há que estamos perante um verdadeiro intelectual!

[7]  Reprodução da gravura constante de Exposição de Quadros Modernos | Catalogo Illustrado | Publicado por: | Alberto d’Oliveira | Lisboa | 1881. Exemplar nº17, em papel velino, [1ª edição]. Por isto esta gravura poderá parecer diferente do habitual. É - não tem a legenda nem o defeito no focinho da alimária.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Nos 160 anos de Júlia Malhoa


Hoje, 7 de Janeiro, perfazem cento e sessenta anos desde o nascimento de Juliana Júlia de Carvalho - Júlia Malhoa, pelo casamento.
Há um ano já se assinalou esta data - ainda não aqui mas no outro endereço – em nota que, em devido tempo, para aqui foi copiada. Sobre este assunto já quase tudo foi dito. Só para recordar, podemos relembrar istomais isto ou isto.


Hoje aproveitamos para deixar só mais esta foto da Senhora Dona Júlia Malhoa. Uma fotografia de «R.P.M.Bastos | Galeria Photografica | 25, Calçada do Duque, 25 | Lisboa».

É uma foto curiosíssima. Mostra-nos Júlia Malhoa quase nos mesmos preparos que nos é mostrada na tela de 1883. Tal qual a deverá ter conhecido Ramalho Ortigão para ter escrito, recordemos: «O retrato nº 53, de Malhoa, é o único acabado nesta exposição. Esta qualidade, junta à de uma semelhança perfeita, torna-mo extremamente simpático, e fez-me esquecer, para aplaudir o autor, de uma certa anemia de empaste e de uma dominante de acorde em cor-de-rosa, que prejudica a intensidade nervosa da expressão na figura».

Fica, portanto, a fotografia. Sempre pode dar uma ajuda para se perceber isto e aquilo.
Só mais uma nota: repare-se nas “orelhinhas” da Senhora. As mesmas que Malhoa regista no Retrato de D. Júlia Malhoa, 1883, e no outro, com igual título, bem mais atamancado e saleroso… e ainda no magnífico Retrato de minha Mulher, 1914. Apêndices auriculares que, curiosamente, não encontramos em nenhum dos outros retratos, desenhos e o diabo a quatro que nos querem fazer crer que representam a mesma Senhora. Entendidos?!


7 Jan. 2013. LBG