sábado, 12 de janeiro de 2013

Malhoa e os “Salons” de Paris (V)


1900 – A Condessa de Paris

Não. Não se trata da d'Orléans, da pretendente ao trono gaulês, da mãezinha da Dona Amélia, da sogra estimada d’el-rei D. Carlos… não!
Tão sómente a Senhora Condessa de Mossamedes [1], retratada por Malhoa em 1899 e cuja tela ele enviou ao Salon de 1900. Esta é a Condessa que foi a Paris.


JMalhoa. Retrato da Ex.ma Sr.ª Condessa de Mossamedes, 1899.


Malhoa, em quatro momentos, deixa-nos indicações escritas sobre este retrato e suas andanças.
Anota a sua venda na «Receita» de Dezembro de 1899: «Recebi do Balthazar Cabral, pelo retrato que fiz a Condessa de Mossamedes – 120$000» e, na linha seguinte, «Importancia da moldura para o mesmo – 25$000».[2]
Regista, pela mesma altura, a data da sua feitura e algumas considerações sobre o seu mérito e destino: «…Pintei igualmente nos mezes de Novº e Dezembro o retrato da Condessa de Mossamedes, que muito tem agradado, e que eu conscienciosamente julgo sêr o unico que pode igualar em merecimento o retrato de Madª. Leal, que expus com tanto exito no “Salon” de 1897 junto com “Os Oleiros” e que tanto enthusiasmou foi celebrado pela imprensa Parisiense. Isto devido única e exclusivamente a modello têr a devida compreensão e pouzar-me bem. | José Malhôa | 31 Dezembro 1899[3]
Aponta, na «Despeza», o custo do envio do quadro a Paris: «Junho de 1900 | Despeza com a ida do retrato da Condessa de Mossamedes ao “Salon” – 17$640».

E, finalmente, anota no seu exemplar do Catalogue illustré du Salon, entre Malet e Mallet, a presença hors catalogue e o respectivo número «874a» do Retrato da Condessa de Mossamedes no Salon de 1900. Como se pode constatar aqui.


Tudo isto somado à indicação de The Studio, já anteriormente referida, «The Lecturer and The Priest of Constance were exhibited in 1899, and The Portrait of the Countess of Mossamedes in 1900» [4] deverá bastar para termos toda a certeza quanto ao quadro que Malhoa levou a Paris, ao Salon, em 1900. Este e não outro.

Pelo que podemos registar, finalmente,
Salon de Paris, 1900:

874a Retrato da Condessa 
             de Mossamedes, 1899.










Depois de Paris, o Retrato da Ex.ma Sr.ª Condessa de Mossamedes será apresentado em Lisboa, na 1ª Exposição da novel Sociedade Nacional de Bellas Artes, em 1901, com o nº 80 no catálogo. Só então, alguns comentários surgem na imprensa nacional:
«As honras da exposição cabem, sem duvida, a Malhôa, que se apresenta galhardamente. | Um dos seus melhores quadros é o retrato da sr.ª Condessa de Mossamedes, d’uma factura larga e solida, d’um magnifico desenho e côr sobria (nº80) [5]
«… temos Malhôa com os seus esplendidos retratos, que lhe valeram o ser premiado em Madrid, na terra dos mestres[6] [7]

Só em 1928, na Grande Exposição de Homenagem a José Malhoa, o retrato da Condessa aparece de novo, com o nº cat.137 e com a indicação da sua dimensão: 70x60.



E, para esturricar de vez As papas

Para que se perceba o que antes se disse [8], a propósito da errónea indicação de As papas como a obra presente neste Salon de 1900, fica a imagem publicada no Catálogo da Exposição de José Malhoa no Rio de Janeiro, em 1906.


Como se pode ver, este belíssimo estudo a carvão (com o boneco “da galinha e da poia” na margem direita do papel, possivelmente para diversão do pequeno Luiz ou da «Êta»), actualmente no acervo da Casa dos Patudos em Alpiarça, aparece com uma legenda completamente despropositada [9]
            Talvez aqui a origem do tal erro recorrente.



Eis o pormenor da galinha mais a poia.



12 Jan. 2013. LBG.


[1]  Que aqui nos é apresentada por Carlos Lobo d’Avila, meia dúzia de anos antes.  

[2] No ano seguinte, no mesmo dia 18 de Abril de 1900, aparecem mais estas três anotações, uma já antes referida, e aparentemente todas relacionadas com este personagem: «Retrato do pae do Balthazar Cabral c/ mª. 25.000 – 145$000», «Venda ao Balthazar Cabral do quadro “No forno” – 250$000» e «Retrato do Fº. Cabral Metello (moldura 25.000) – 140$000»

[3] Em nota de final de ano, em Dez. 1899, no seu livro de assentos «Receita | Despeza». Os sublinhados são do próprio JMalhoa. Está transcrito tal qual o original, apesar da linguagem confusa da penúltima frase.

[4] R.S. in The Studio. London, Aug. 15, 1905, vol.35. nº149. p.246. Sublinhado meu.

[5] Henrique de Vasconcellos, in Brasil-Portugal, nº 58, 16 Junho 1901, p.155.

[6] Xylographo, in Occidente, nº 807, 30 Maio 1901, p.118.

[7] Aqui haverá alguma ligeireza, infelizmente recorrente, do critico do Occidente. Nenhum dos retratos de Madrid estava ali exposto – um seria mostrado na SNBA no ano seguinte e só então premiado, o outro, o premiado em Madrid, só haveria de ser visto em Lisboa dois anos depois… É por estas e por outras que este Xylographo, por muitos considerado, a mim, canta bem, pouco me alegra.

[8]  Ver aqui, em particular a nota (4).

[9] Aliás, no referido catálogo da Exposição do Rio, 1906, aparecem mais algumas indicações que merecem cuidado e cautela. Desde logo, relembremos o aviso dado por Malhoa - «Cataloguei 112mas á ultima hora só pude levar commigo cento e quatro, por me tornar completamente impossível acabar os oito que faltavam». Depois, porque algumas obras aparecem com títulos diferentes do habitual dificultando a sua identificação (14- O viactico na aldeia, ou 29- Pae e filha, p. ex.). E surgem ainda outras imprecisões (como a legenda de 16- O azeite novo que o dá como medalhado em 1904, ou a indicação da presença da segunda versão de 24- Á passagem do combóio no Salon de 1905) que, em vez de boquiabrirem Seu Jaca, levam agora ao engano o Jaquim mais a Maria

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Malhoa e os “Salons” de Paris (IV)


1899 – O Prior e O Catedrático foram os dois passear… o cura montado no jumento.

Antes do mais, isto. O bocadinho do Catalogue illustré du Salon de 1899 referente a Malhoa [1]. Para se perceber que até na nobre arte do copianço, digo transcrição, há mãozinhas que dificilmente lá vão…[2]


Nesta sua terceira participação no Salon, Malhoa manda, como até aqui, dois quadros a Paris. E anota: «Março de 1899 | Despeza | 30 – Despeza com a ida dos dois retratos ao “Salon” despezas de viagem – 10$540».

Recordando, as obras que Malhoa enviou ao Salon de 1899 e respectivos números de catálogo, foram:

1306Le cathédratique.
1307Portrait de M. le curé de Coustanaix, Joô Alvès de Meira.

Ou seja, traduzindo e rectificando os erros originais, os quadros:
O Catedrático, c.1898.
Retrato do Prior de Constância (João Alves de Meira), 1899.

Destas duas obras pouco se sabe. Nunca expostas em Portugal, fazem parte do lote das que voltam a Paris no ano seguinte, para a Exposição Universal de 1900, e naufragam no regresso. As referências descritivas são escassas e imagens, que se conheçam, inexistentes.
Assim, só aqui podemos deixar um cheirinho.

Dando primazia ao clero, vejamos o que Malhoa nos deixa sobre o Retrato do Prior de Constância: «1899 | Despeza | Fevereiro | Estada nos Cazaes dos Pintainhos durante 14 dias em que fui pintar a Constância o retrato (gratuito) do padre João Alves de Meira destinado a sêr exposto no “Salon” de 1899 – 39.500».

Por esta altura, Malhoa tinha entre mãos a decoração do tecto da Igreja Matriz de Constância. Em 18 de Novembro de 1898 havia recebido a «1ª prestação de 600$000 p/c da decoração a fazer para a igreja de Constancia» e em 14 de Abril de 1899, receberia mais 200$000 pela 2ª prestação. No dia seguinte, anota: «Paguei ao Manuel João 100$000 por conta de 400$000 quantia por que tratou comigo de fazer a decoração (pintura e douradura) do tecto da igreja parochial de Constancia». Recordemos que, em Dezembro de 1898, Malhoa havia vendido As papas, 1898, por 500$000, ao Dr. Francisco Falcão, ao que parece, um dos mecenas das obras de restauro da Igreja de N.ª S.ª dos Mártires. E, por fim, assinalemos que dos Casais dos Pintaínhos era a sua fiel criada – a «Maria dos Pintaínhos» - que o acompanharia até ao fim da vida.

Não sabemos como todos estes factos se interligam; que papéis têm a criada, o doutor e o prior; mas dá para perceber que o Retrato do Prior de Constância, 1899, surge neste contexto e nestas circunstâncias, por terras de encontro do Zêzere com o Tejo.[3]
E deve ter sido um belo retrato… para ter ido até Paris.

Mais, só em Abril de 1901, quando Malhoa recebe o dinheiro do seguro pela perda dos quadros naufragados. Aí ficamos a saber o seu valor «… “O Cathedrático” 1.500 francos [4], retrato do prior de Constancia 300$000». E, pela ausência da indicação de proprietário, referida noutros dois que tinham dono, supõe-se que estes aguardassem ainda a sua apresentação em Lisboa para serem vendidos.

Quanto a O Catedrático, c.1898, quase todos os autores [5] nos dizem que se tratava de um «simples burro».
            Ora, aqui há uns anos surgiu no mercado, num leilão da Leiria & Nascimento, um pequeno óleo sobre cartão, 33,5x40, assinado e datado de 1898, com a cabeça de um simpático jerico lãzudo. É bem capaz de se tratar de um estudo para O Catedrático [6]. Ficamos, pois, a conhecer as fuças de tão ilustre personagem. 

J.Malhoa. Estudo para O Catedrático (?), 1898. osc, 33,5x40

            Não é que o não conhecêssemos… dezassete anos antes, na 1ª Exposição de Quadros Modernos (Grupo do Leão), o António Ramalho, outro pândego, já nos tinha mostrado o dito, então recém bacharelado. Num tempo muito longe de Bolonha, natural é que a vida académica demorasse… cumprindo-se no entanto o ditado: «um burro carregado de livros é um doutor».

António Ramalho Júnior. O Bacharel, c.1881, óleo, 54x46.  [7]

          Em 1898, este antigo Bacharel, mais lanudo, chegou finalmente a Doutor e assumiu a cátedra.



9 Jan. 2013. LBG


[1] A quase totalidade dos primeiros catálogos, até 1907, encontram-nos disponíveis aqui.


[2] «e bem prega frei Tomás…» que também me enganei! (mas já emendei).

[3] Podem ver aqui um estudo do Zêzere e a foto do tecto da Igreja de Constância.

[4] Os francos foram pagos a 250 reis. Malhoa, então, queixou-se que o câmbio estava em $259.

[5] Todos, não! Há pelo menos duas crónicas, a propósito da Exposição Universal de Paris 1900 onde O Catedrático voltou, em que a apreciação foi esta: «Dois retratos de Malhoa eram bastante caracteristicos…» e, mais adiante, «Os seus retratos do “Cathedratico” e do “Prior de Constancia” (…) sobre terem caracter, eram, como tudo o mais que este artista expunha, largamente pintados», e o outro vai pelo mesmo. Nem uma palavrinha sobre um dos quadros retratar o asno?! Falavam a sério ou com subtil ironia? Ou, a fazer escola, falavam do que para nem sequer olharam?

[6] em adenda, 13 Jul 2014 - Dizemos «É bem capaz...» porque nisto não há certezas. Não fora o catálogo da L&N nos dizer que o óleo está datado de «1898» (e, sem ver o quadro ao vivo, nada temos que nos faça duvidar de tal leitura...), atendendo apenas ao tamanho da pintura e ao que a imagem nos mostra, a primeira ideia seria considerar este jerico como o protagonista do quadro apresentado na 2ª Exposição do Grémio Artístico, 1892, intitulado Pensando no caso. Pois, de acordo com o respectivo catálogo, tal quadro está assim referenciado: «101 - Pensando no caso - 40x32 - 36$000». De imediato nos chama a atenção o facto de as dimensões serem praticamente as mesmas!? E, procurando um pouco mais sobre isto, lendo o que nos diz quem o terá visto, encontramos na crónica de «João Sincero», n'O Occidente de 11 Maio 1892, esta descrição: «uma cabeça de burrico lanzudo, Pensando no caso philosophicamente» - frase que bem podia ser aplicada o quadro que agora vemos. Ora, apenas a data, posterior a isto tudo, e mais de acordo com a apresentação no Salon de 1899, nos leva a supor que se trate de um estudo para O Catedrático. «Estudo» evidentemente, porque é suposto, como vimos, que o quadro que foi a Paris se tenha afundado.
Pode, no entanto, ser Pensando no caso e o estudo para O Catedrático ao mesmo tempo. Em tal hipótese, não seria a vez única que Malhoa faria marosca para levar a Paris quadros em reprise - o Salon exigia obras nunca antes vistas em lado algum, recordemos. E como veremos mais tarde, para levar a Paris (1902) o retrato da D. Teresa Pereira da Costa, já depois de apresentado com enorme êxito em Madrid (1901), o bom do Malhoa dirá «...que refiz quase por completo...» - vá lá a gente saber?! Pode por isso, neste caso, ter usado o quadro mostrado em 1892 como base para a nova pintura e só então o ter datado, e ao novo dado o doutoramento...
Eis pois as razões de ser apenas «bem capaz». 
Mas esteja o bicho Pensando no caso, c.1892, ou seja o estudo para O Catedrático, c.1898, ou ambos ao mesmo tempo, dúvidas não há que estamos perante um verdadeiro intelectual!

[7]  Reprodução da gravura constante de Exposição de Quadros Modernos | Catalogo Illustrado | Publicado por: | Alberto d’Oliveira | Lisboa | 1881. Exemplar nº17, em papel velino, [1ª edição]. Por isto esta gravura poderá parecer diferente do habitual. É - não tem a legenda nem o defeito no focinho da alimária.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Nos 160 anos de Júlia Malhoa


Hoje, 7 de Janeiro, perfazem cento e sessenta anos desde o nascimento de Juliana Júlia de Carvalho - Júlia Malhoa, pelo casamento.
Há um ano já se assinalou esta data - ainda não aqui mas no outro endereço – em nota que, em devido tempo, para aqui foi copiada. Sobre este assunto já quase tudo foi dito. Só para recordar, podemos relembrar istomais isto ou isto.


Hoje aproveitamos para deixar só mais esta foto da Senhora Dona Júlia Malhoa. Uma fotografia de «R.P.M.Bastos | Galeria Photografica | 25, Calçada do Duque, 25 | Lisboa».

É uma foto curiosíssima. Mostra-nos Júlia Malhoa quase nos mesmos preparos que nos é mostrada na tela de 1883. Tal qual a deverá ter conhecido Ramalho Ortigão para ter escrito, recordemos: «O retrato nº 53, de Malhoa, é o único acabado nesta exposição. Esta qualidade, junta à de uma semelhança perfeita, torna-mo extremamente simpático, e fez-me esquecer, para aplaudir o autor, de uma certa anemia de empaste e de uma dominante de acorde em cor-de-rosa, que prejudica a intensidade nervosa da expressão na figura».

Fica, portanto, a fotografia. Sempre pode dar uma ajuda para se perceber isto e aquilo.
Só mais uma nota: repare-se nas “orelhinhas” da Senhora. As mesmas que Malhoa regista no Retrato de D. Júlia Malhoa, 1883, e no outro, com igual título, bem mais atamancado e saleroso… e ainda no magnífico Retrato de minha Mulher, 1914. Apêndices auriculares que, curiosamente, não encontramos em nenhum dos outros retratos, desenhos e o diabo a quatro que nos querem fazer crer que representam a mesma Senhora. Entendidos?!


7 Jan. 2013. LBG

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Turiferar ou não turiferar…

quando Fialho recusa o turíbulo



Como prometido, aqui fica na íntegra a parte do artigo referente a Malhoa, da autoria de Fialho d’Almeida (1857-1911), publicado inicialmente em A Patria, Abril de 1899, e depois em À Esquina (jornal de um vagabundo), com as suas impressões sobre a 9ª Exposição do Grémio Artístico desse ano.

Este é o artigo que fica célebre por causa das «Tristes Malhoas». Antes não ficasse. Como sempre, o fait-divers sobrepõe-se à substância, e esta outra parte é bem mais interessante. Todavia, para saciar a curiosidade, aqui fica o último parágrafo do artigo, o tal que ficou para a história. Mas que não tem grande história…


A parte sobre Malhoa sim. É um belo naco de prosa.
Claro que, no final, Fialho “blasfema”… e esta, somada a uma outra “blasfémia” - a de clamar contra os «infanticídios» a propósito das decorações no palácio Foz – tem-lhe valido a “excomunhão plena” até aos dias de hoje. O que é uma pena! Atente-se na prosa, na forma e no conteúdo, e deliciemo-nos. Poucos mais haverá que nos digam tanto.


Columbano. Retrato de Fialho d'Almeida, 1891.
Fica também o retrato do Escritor. O pintado por Columbano, pois então. Oito anos antes destas linhas.

E Os Gatos, do Simões Sob.º, 1914, em bronze, que lhe encimam o mausoléu de mármore branco no cemitério da Cuba. O gesso dos felinos que sempre o acompanharam - «… miando pouco, arranhando sempre, e não temendo nunca.» -  encontra-se no Museu de José Malhoa, oferta do próprio autor.

Chega de incenso, vamos à prosa.


«José Malhôa é um laborioso pintor, que partido de modestos recursos, e sem o ronflar de pomposos elogios, vem serenamente subindo a montanha verde onde a sua figura d’artista espargirá clarões d’uma gloria honradamente ganha a preço de labutas incessantes. Sem nunca ter ido a baptismos d’arte lá de fôra, nem parecer ter em maior conta o que boquejem d’elle por ahi, acostumou-se desde prompto a não desperdiçar em convivios de cenaculos litterarios, tempo e energias que adrede canalisadas, dão dinheiro, e virilisam o ser, por orgulhosas ensimesmações, té á consciência d’uma superioridade qualquer, intellectual, moral ou affectiva, conforme as dominantes do cérebro, da consciencia ou do coração.

Ha perto de vinte annos que assisto ás exhibições de quadros d’este artista, e vejo o esforço discreto, probo, corajoso, para suster o vôo sempre mais alto, ou pelo menos não resvalar d’alturas já vencidas, o que n’estes nossos pintores contemporaneos é pecha certa, tanto que se apanhem despachados ou célebres – venho a dizer, com doze discipulos pagos, e o logar de cabeça de pau n’alguma escola industrial. Contando apenas comsigo, mediu rigorosamente o alcance dos seus recursos e seus meios, e todo o seu aprumo de artista consiste em ter sempre á altura dos assumptos, a aptidão fulgural dos seus pinceis, isto para jámais soffrer cheques d’esthetica, ou fazer rir os que pretendera impressionar.

Salvo alguma vêz em que, por suggestão de maus historiadores, a ambição natural o levou a exprimir problemas altos de mais prá sua alçada, como n’esse quadro do Julgamento de Pombal, que é ainda assim um razoavel exercicio de pintura decorativa, Malhôa tem tido o senso de ficar modesto nos seus sonhos, e de, por isso mesmo, os ter vindo gradualmente a realizar por entre os applausos até dos seus antigos detractores.

A sua exposição d’este anno é para assim dizer o melhor resumo das suas aptidões adquiridas. Ha um talento que em vêz de força neurica, é apenas trabalho accumulado, e creaturas portanto que chegam, pela pachorra e pelo methodo, a pinaculos que outras muito antes attingiram pelo vôo. O triumpho é a meu vêr mais alto, nos primeiros, que são os desajudados de Deus, e que, sem asas, ateimaram em escalar o ceu, como Satan. Dos tres quadros que Malhôa est’anno amostra, o peor (retrato de D. Eugenia Relvas e seus filhos), é inda assim um boccado para que se póde olhar com sympathia, reconhecendo as difficuldades de agrupar n’aquella pose, as tres cabeças, e de dar á scenasinha familiar, sem mimeiras nem denguices, a ternura e idealização juvenil que ella requer. As duas velhas das Papas são um estudo da sordidez plebea, piolhosa, ramelosa, em que liquida a velhice ankilosada de trabalho, porfiando nos mistéres lazarentos da lucta pelo pão. Malhôa tem deferencias chistãs por estas cafurnas da miseria, e a lista dos seus quadros de plebe, é já numerosa, e faz mesmo uma dramaturgia humoral na pequerrucha historia da pintura portugueza, que seria curioso reunir um dia ou outro. As velhas das Papas teem um desafogo de factura e um cozido de côr, onde se vêem vinte annos de pintura, e a tranquilla hombridade d’um trabalhador sadio que procura exceder-se, e não vegeta, como alguns mysantropos maníacos, na adoração das suas proprias borracheiras. No Forno é uma nota diferente, irradiante, hillare, da adolescencia talvez d’essas mesmas mulheritas que estão já decrepitas nas Papas, e que neste quadrito primaveram ainda, como rosas silvestres, na veneziana alegria do amarello e do escarlate. É uma das coisas lindas que Malhôa tem na sua obra: tres raparigas do norte, occupadas no labor de coser brôa, sob o alpendre da casa onde os pintos vagueiam, e verduras de parreiral cortam o ceu… O desenho é muito gracil, correcto, e a rapariga da pá, meio curvada, n’uma postura cheia de perigos para o desenhista, sahe triumphantemente da experiencia, e poisa a primor, sem o menor signal de rigidez. Toda a domesticidade da scena vem para nós a rir, como evocando; a graça das mulheres brota com apetites de pêcego e fructa nova, á luz hillare que se lhe diffunde das saias encarnadas. Quão longe estamos, n’esta esfusiante e forte mocidade, da monotonia cadaverica e daltonica de Columbano, bestificado pela thuriferação incontinente[1] dos parvos, e recorrendo a artificios do antigo para nos dar illusões de original!»[2]


José Simões d'Almeida Sob.º. Os Gatos, 1914.   Bronze, sobre a cúpula do mausoléu de Fialho d'Almeida, na Cuba.


4 Jan. 2013. LBG



[1] O quantificativo, ainda presente na 1ª edição do livro em 1903, já não consta da edição póstuma, de 1923…

[2] José Valentim Fialho d’Almeida, in A Patria, 21 Abril 1899. Artigo republicado in Á Esquina (Jornal d’um vagabundo). Lisboa: Livraria Clássica Editora, 5ª edição, 1923. p.178 a 182.

Malhoa e os “Salons” de Paris (III)

1898 – As velhas d’As papas, e No forno co’as novas



Datada de Figueiró, de 26 de Setembro de 1897, endereçada ao «Manel amigo» [1] e assinada pelo «Zezé», podemos ler: «Tenho continuado com as “velhas”, mas a melhor a do primeiro plano tem estado muito mal, a ponto de eu julgar que ela se finava na última sessão! Resultado, tenho feito e desmanchado, isto no meio de contrariedades que tu podes imaginar! Agora cá a tenho de casa, cama e pucarinho, com o médico, para ver se salvo o trabalho».
Sabemos que, contrariedades, exageros e cuidados à parte, o trabalho foi salvo, e no ano seguinte Malhoa apresentá-lo-á, em duas versões como começava a ser habitual: no Salon de Paris e no Grémio Artístico – La bouillie, 1898, e, em versão reduzida, As papas, c.1897.
        O quadro maior, o conhecido, 85x120, datado de 1898, é o que participa no Salon de 1898 e, no ano seguinte, na 9ª Exposição do Grémio,1899, já com a indicação «pertence ao Ex.mo Sr. Dr. F.». O quadro mais pequeno, talvez um pouco anterior, cujas características se desconhecem e nunca vimos [2], foi apenas apresentado na 8ª Exposição do Grémio, 1898 [3]. Ficamos também a saber que, ao contrário de estória costumeira, as velhas eram figueiroenses de gema e não a criada-do-não-sei-quantos - a história fica contada pela pena do próprio Malhoa. Tudo o resto, ou são patranhas antigas [4] ou trapalhação da modernidade [5].

            Por tudo isto, o quadro mostrado no Salon de 1898 - La bouillie / As papas, 1898 - é, sem muita dúvida, este – o do «Ex.mo Sr. Dr. F» [6]:


JMalhoa. La bouillie / As papas, 1898. ost, 85x120, c.p.

Em Março de 1898, Malhoa assentou no seu livrinho: «Despeza com a remessa dos meus dois quadros “La bouillie” e “Au four” pª serem expostos no “Salon” d’este anno, e dos quais tive a noticia de serem recebidos a 1 de Abril – 60$000».
Deste modo, lá terão ido. E, segundo o catálogo do Salon de 1898, receberam os seguintes títulos e respectivos números de catálogo:

1371La bouillie
1372Au four; costumes du Minho (Portugal) 

         Este outro quadro, Au four; costumes du Minho (Portugal) / No forno, 1897 ou 1898 [7], é o que o artigo de The Studio nos diz «feito no seu especial género – o “género Malhoa”, como se diz em Portugal» - este mesmo:        

JMalhoa. Au four; costumes du Minho (Portugal) No forno, c.1897. ost, 45x54. 


«No Forno é uma nota diferente, irradiante, hillare, da adolescencia talvez d’essas mesmas mulheritas que estão já decrepitas nas Papas, e que neste quadrito primaveram ainda, como rosas silvestres, na veneziana alegria do amarello e do escarlate. É uma das coisas lindas que Malhôa tem na sua obra: tres raparigas do norte, occupadas no labor de coser brôa, sob o alpendre da casa onde os pintos vagueiam, e verduras de parreiral cortam o ceu…» [8].
É muito provavelmente o primeiro de uma longa série de quadros de forte colorido, com as alegres raparigas “minhotas” de Figueiró, atarefadas nos seus trabalhos do dia-a-dia, e inspirados de algum modo no - queiramos ou não - grande romance naturalista de Júlio Dinis [9].

As referências à participação de Malhoa no Salon de 1898 na imprensa internacional continuam a ser elogiosas: «…une jolie scène, la Bouille de M. Malhoa»[10]; «dans “la bouillie” nous montre une vieille édentée fort bien observée»[11]; «Il y en a, et même de brutale, en la Bouille, de M. Malhoa; mais comme la scène a dû être prise sur le vif!»[12].
            No ano seguinte, como passa a ser regra, ambas as obras terão então ocasião de serem mostradas ao público nacional. Estarão presentes na 9ª Exposição do Grémio Artístico e o respectivo catálogo disso nos dá conta:
43 – As pápas - L.1,20 – A.0,85 - (Pertence ao Ex.mo Sr. Dr. F.)
44 – No forno – L.0,54 – A.0,45 – 300$000 [13]

No forno tem, além disto, direito a reprodução no dito catálogo. 


É então, a propósito desta apresentação em Lisboa, que teremos escritos e impressões mais completas sobre estes quadros. De Fialho, parte já foi citada, mas vale a pena ler tudo. Pelo que o deixaremos na íntegra em novo artigo já a seguir merece!
Quanto a o Occidente, de 30 Abril de 1899, em artigo assinado por «R», dá-nos conta do encerramento da mostra cinco dias antes com a presença do Rei e da Raínha, e sobre Malhoa, depois de se encantar com o retrato de Eugénia Relvas e seus filhos, diz-nos: «… As papas e No forno que são duas telas preciosas, a ultima de um colorido vivissimo mas sem crueza e antes harmonioso e alegre.»


JMalhoa. As Papas «estudo», c.1897. ost, 60x54.   ver [6]




4 Jan. 2013. LBG





[1]  Carta de JMalhoa a Manuel Henrique Pinto, c.p.

[2]  No Catálogo da 8ªGA, está indicado como tendo 40x55.

[3]  No seu registo pessoal «Receita | Despeza», em Dezembro de 1898, Malhoa esclarece tudo: «”As papas” quadro exposto no “Salon” em 1898, vendido ao Dr. Francisco Falcao, de Constancia – 500$000». E logo abaixo: «”As papas” estudo para o quadro acima exposto na exposição do “Gremio Artistico” em 1898, vendido por intervenção do José Relvas, á Exmª Snrª D. Maria do Ceu Mendes – 200$000».

[4]  No que toca à tal criada e a uma alegada ida d’As papas, de novo, ao Salon de 1900.
Esclareçamos: ao contrário do comummente escrito, não volta a haver “papas requentadas” para ninguém. O catálogo oficial de 1900 é omisso, mas no seu exemplar, no local exacto, entre os nºs 874 e 875, Malhoa anotou a caneta «874a – Malhôa (J) – Retrato Condçª Mossamedes». (Entre ambos, em comum, só mesmo os bigodes das velhas…)  Para lá do que já referimos antes – ver artigo de The Studio e nota 8.
E porque tal mito não deve ter nascido de geração espontânea, a única explicação para a sua existência reside numa legenda da reprodução do estudo a carvão de As papas (o “dos Patudos”, o “da galinha e da poia”) publicada no Catálogo da Exposição do Rio de Janeiro, 1906, em que tal indicação aparece inopinadamente e terá feito escola…

[5]  Que também aqui se volta a repetir. Mais uma vez as novéis fichazinhas CRJM/0346 e CRJM/0350 mostram-se muito pouco recomendáveis.

[6] Ele há pelo menos mais umas Papas, um dito «estudo», uma tela com 62,5x55, onde apenas vemos a velha do segundo plano – a “pior das velhas” – aqui, aparentemente, bem “melhor” que a velha do quadro definitivo… Neste «estudo» aparecem ainda, no plano mais próximo, o prato da outra velha e a mão desta segurando a colher donde escorre o mel sobre as papas de milho, como se a outra velha, «a do primeiro plano», tivesse sido abruptamente cortada - todavia, observação atenta do verso do quadro dá para perceber que nada mais terá sido pintado no resto da tela. E, pelo seu tamanho e pelo seu historial, este não deverá ser o quadro da 8ª do Grémio, o tal vendido à D. Mª do Céu Mendes. Tratar-se-á, assim, de uma outra versão, parcial, de As papas.

[7] Datado de 1897 no catálogo da Grande Exposição de Homenagem de 1928, onde são indicadas as dimensões 43x52. Ligeiramente diferentes dos 45x54 constantes no catálogo da 9ªGA, 1899. Contudo, aparentemente e pela ampliação de uma outra fotografia, parece ter sido datado de 1898...

[8] ALMEIDA, Fialho de - in A Patria, 21 Abril 1899. Artigo republicado in Á Esquina (Jornal d’um vagabundo). Lisboa: Livraria Clássica Editora, 5ª edição, 1923, p.178 a 182. E que poderá ler na íntegra aqui.

[9]  É por esta data que Malhoa pinta o João Semana, 1897, personagem de As Pupilas do Senhor Reitor. Depois, seguir-se-ão muitas outras “minhotas” figueiroenses em A corar a roupa, c.1899, As cebolas, c.1900, A Descamisada, 1903, a Clara (ela mesma) Torcendo a roupa,1903, O Soalheiro, 1904, vários Cuidados de Amor, c.1905, 7º não furtar… as uvas do Sôr Prior, c.1905. e As Pupilas do Sr. Reitor (as próprias), 1906… - quase todos com lucrativa passagem pelo mercado brasileiro.

[10] Lepage, in Art Meridional, 11 Julho 1898, apud Matilde Tomaz do Couto, in Malhoa e Bordalo, confluências duma geração. Caldas da Rainha: IPM-MJM, 2005, p.16.

[11] Reforme, 12 Junho 1898, apud idem, p.17.

[12] Tuster, in Monteur Universel, 5 Junho 1898, apud idem, p.17.

[13]  Como se pode ver, No forno apresentava-se para venda em 1899. E Malhoa dar-nos-á disso conta, em Abril 1900, quando escreve, no dia «18 - Venda ao Balthazar Cabral do quadro “No forno” – 250$000». (Aliás o mesmo proprietário que aparece no catálogo da Grande Exposição de Homenagem de 1928). Pelo que se não percebe como é que o mesmo quadro poderá ter sido «Comprado por José Relvas em Dezembro de 1897, por 200$000 réis» - como nos querem doutamente fazer crer… Mais um mistério!?
Podemos esclarecer: na tal data e pelo tal preço, Relvas comprou um quadro, sim, mas O mineiro. E só deste Malhoa assentou a venda. Afinal, mais um pormenor… e muita paciência.