terça-feira, 21 de maio de 2013

Uma Exposição no Museu Malhoa


JMalhoa. Estudo de Nu.
csp 63x48 a.|n.d.
A DUAS MÃOS | DESENHOS INÉDITOS de Manuel Henrique Pinto (1853-1912) e José Malhoa (1855-1933) é uma escolha que surgiu a propósito do Centenário da morte do primeiro destes dois artistas, dois amigos, dois companheiros de toda uma vida. A exposição, acompanhada da edição do correspondente catálogo, foi mostrada inicialmente em Setembro de 2012 em Figueiró dos Vinhos - terra que os dois pintores tomaram como sua e dos seus pincéis, e onde ambos acabariam por morrer, um duas décadas depois do outro.



MHPinto. Estudo para 
Esfolhando o milho.
c.1907. csp 61x48 n.a.|n.d.
Logo se pensou em trazê-la também a esta outra casa de Malhoa – o Museu José Malhoa nas Caldas da Raínha. Com enorme gosto, aos desenhos antes revelados, juntam-se agora mais alguns bem significativos – desde logo um peculiar e algo misterioso Estudo de Nu, sem data e assinado por Malhoa; um Estudo para Esfolhando o milho, de Pinto, uma versão não concretizada na tela, de algum modo malhoesca, como que torcendo a roupa; e, finalmente, um Estudo para O pífaro novo, certamente de Pinto, mas que, sem muito favor, podia também ser um estudo do outro para uma qualquer tela de pastorinhos figueiroenses…

MHPinto. Estudo para O pífaro novo. c.1903. csp 36x38 n.a.|n.d.


MHPinto.
 [ A Velha das Papas ]. c.1897.
 csp 38,5x29 a.|n.d.
A DUAS MÃOS | DESENHOS INÉDITOS reúne e põe em diálogo um interessante conjunto de desenhos dos dois artistas - boa parte deles, há muitas décadas, guardados juntos numa mesma pasta – e que algumas vezes nos confundem e se confundem. Como a dramática cabeça de [A Velha das Papas], as do Malhoa, que a assinatura mostra que é do outro; ou as várias raparigas namoradeiras que se tiram pela pinta ou por algum sinal mais escondido. O mesmo com [O Homem do Leme] de Henrique Pinto, embora aqui as outras mãos sejam as de João Vaz (1859-1931), outro amigo comum, companheiro de sempre e do Grupo do Leão.

MHPinto.
 [ O Homem do Leme ]. c.1912. 
ssp 47x31 a.|n.d.
Os desenhos agora mostrados correspondem, quase no essencial, ao período compreendido entre a conjunta descoberta de Figueiró, em 1883, a chamamento de Simões d’Almeida (1844-1926) - «uma influência enorme no desenho» [1] dirá Malhoa a propósito deste mestre e amigo, também por ambos partilhado - e a morte prematura de Manuel Henrique Pinto, em 1912. Um longo período de três décadas, onde mais se acentuou a amizade e o trabalho em comum.



JMalhoa. [ Noiva ]. 1887. 
csp 41x35. a.|d.


       E é de aproveitar o podermos estar agora no Museu José Malhoa, para irmos à descoberta de algumas obras a que estes desenhos nos remetem.

    Comecemos pela [Noiva], 1887 - talvez não a mesma, ou será? – mas esta nos fará remirar A Noiva, 1888, a outra, que lá está na sala grande.



MHPinto.
A caça dos taralhões, estudo. c.1891.
 csp 37x52 n.a.|n.d.
Olhemos bem o rapazito atento de A caça dos taralhões, c.1891; é o mesmo que na tela está Gritando ao Rebanho, 1891, pintado por Malhoa, também com uma costela à ilharga; ou o que aguenta a cabra em Uma Teima, 1894, (agora A Perrice) do Pinto – ele ou um dos irmãos, mas de certeza um dos «filho(s) do Eduardo, então rendeiro da Fonte do Cordeiro», modelos de tantas e tantas telas.


 
JMalhoa.
Descanso, estudo. c.1894. 
csp 62x47 a.|n.d.





E esta jovem mulher que descansa despida sobre o escadote de pose? Assim, tal qual, em Descanso, c.1894, está longe, em S. Paulo; mas na sala grande do Museu, aquecendo-se Antes da sessão, 1894, (agora Descanso do Modelo) podemos vê-la de pé, junto ao mesmo reposteiro verde – reconheceis a anatomia?!



MHPinto.
Dar de comer aos que têm fome, estudo. 
c.1902. csp 45,5x55 n.a.|n.d.


Reparemos agora no enérgico estudo de Pinto para Dar de comer aos que têm fome, 1902; ora, na outra ponta do Museu, lá encontraremos o quadro, depois chamado O Almoço - daqui para lá a mulher passou a usar chapéu; e foi com o mesmo chapéu que Malhoa também a pintou noutros dois quadros, mas para os ver é preciso ir a Alpiarça ou ao Rio de Janeiro…




JMalhoa. 
[ O Bêbado ] estudo para A procissão. 
1901. csp 47x31 a.|d.
 Atentemos neste magnífico retrato de [O Bêbado] - um dos primeiros deste modelo de Malhoa, e modelo de muitas telas; num desenho quase contemporâneo deste, com o mesmo casaco à banda, também está no Museu; mas já não o poderemos ver numa das suas maiores representações (esteve, já não está); no entanto, um pouco mais sóbrio, podemos encontrá-lo Lendo o Jornal, 1905; e, logo ao lado, de novo tão perdido de bêbado que nem o grito da filha escuta – Basta, Meu Pai! – também o reencontraremos.


JMalhoa. [ Namoro fantasma ]. 
csp 31x24 a.|n.d.
        

      E as raparigas que sofrem de amores? Estas ou outras parecidas hão-de por lá andar - vamos à sua procura… 
         E, com olhos de ver, de toda a pintura e de todos estes desenhos. Estes e outros tantos. Que são uns belos desenhos. De dois grandes pintores.

 No Museu José Malhoa, nas Caldas da Raínha, até 14 de Julho.



21 Mai. 2013. LBG



[1] Carta de Malhoa a Humberto Plágio, citada por este in José Malhôa (Pintor). Lisboa, 1928. p.26.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Antes da sessão, um Descanso (1894)...



Na 4ª Exposição do Grémio Artístico, em 1894, José Malhoa apresenta dois quadros de Nu – Antes da sessão, 1894, e Descanso, este não datado. Um ao alto, outro ao baixo. Um com a modelo de pé, outro com ela sentada. Ambos pintados ainda no atelier da Academia, ambos com a mesma jovem modelo.
Referidos e comentados pela imprensa da época – sempre eram algo de novo na obra do Pintor – fácil seria a sua identificação [1]. Mas não! Pouco tempo depois já lhe trocavam os nomes e, hoje em dia, não raro ainda atrapalham.


Em Antes da sessão, 1894, Malhoa mostra-nos a modelo de pé, de costas para o observador, frente a um reposteiro verde, aquecendo-se a um braseiro – como o nome indica(va), aquecia-se antes de iniciar a sua sessão de pose. Este quadro foi então doado à Academia como prova de Académico de Mérito. Depois mudaram-lhe o nome – passaram a chamar-lhe Descanso do Modelo. Da Academia passou ao Museu de Arte Contemporânea, deste até às Caldas, ao Museu de José Malhoa, onde hoje o podemos admirar sob este equívoco título.


Na tela Descanso, assinada mas não datada, Malhoa mostra já todo o espaço do velho atelier. Vemos ao fundo o tal reposteiro verde e um biombo – era ali que, ainda há pouco, a rapariga se despiu e se aquecia – percebemos agora! 


Quadros, molduras, o pote dos pincéis, cavaletes, mesas, cadeiras, uma salamandra acesa, a tralha do costume. E a mesma rapariga, agora sentada no escadote de pose, numa pausa do seu trabalho – daí o nome: Descanso. Mais além, também na pausa, o pintor fuma o seu cigarro e observa os esboços que acabou de fazer… isto, ou algum amigo e coleccionador vai vendo alguns novos trabalhos… conforme queiramos [2] Este quadro foi depois até ao Brasil, abrasileiraram-lhe o nome – é agora O Ateliê do Artista – e está no MASP de S. Paulo.

Mas em desenho, a rapariga cá ficou. E é um belo desenho! Preciso, com os contornos e linhas principais bem definidas. Os panejamentos, como transparentes, permitem ver as linhas da construção do escadote. As sombras, que se percebe terem sido bem estudadas na perfeita modelação do corpo, aparecem sumidas, como apagadas. E a quadrícula para transferência está igualmente ténue, como tivesse sido usada no início, numa ampliação anterior. 

José Malhoa. Descanso, estudo. c.1894. Desenho a carvão sobre papel, 62x47. a. | n.d































         Porque, agora, vendo melhor os contornos – e olhando para o verso da folha, onde os mesmos surgem em grosseiro traçado a carvão – tudo aponta para que a derradeira transferência, para a superfície final da tela, tenha sido feita por decalque desta mesma figura… A ser assim – e tal teoria só poderá ser comprovada face ao quadro do MASP [3] – estaremos perante a última vida em papel daquela “moça gostosa” que agora vai torcendo pelo Corinthians com uma pontinha do coração pela Portuguesa.
E tão “gostosa” ela anda [4], ao fim de todo este tempo, que às vezes ainda lhe dão uns vinte e tal anos a menos. É obra, aqui a menina!


[1] Veja-se, a este propósito, a crónica publicada por O Occidente (nº558, 21 Jun.1894, p.146), assinada por Manuel M. Rodrigues, relativa à Exposição desse ano no Atheneu Comercial do Porto. Através dela ficamos a saber que Malhoa levou à Invicta os quadros: A última gota, 1891, Os ouriços, 1894, Antes da sessão, 1894 e Descanso, c.1894. Todos eles estão descritos ao pormenor, não restando dúvidas sobre as obras em causa. Contudo, M. Rodrigues, descrevendo clara e pormenorizadamente os dois últimos, troca-lhes já os títulos. Começa pois, logo no ano da sua apresentação, a saga confusionista... 
(nota acrescentada em 7.8.2013)
[2] Sobre este segundo personagem têm surgido ultimamente naturais desejos de o identificar. Há quem veja ali Silva Porto, o saudoso Mestre do Grupo do Leão, morto precisamente no ano anterior à apresentação pública desta tela, vendo nisso uma homenagem de Malhoa ao velho Amigo, passada já a birrinha a propósito do Marquês de Pombal – pode ser, seria bonito, fisionomicamente difícil. Outros artistas, brasileiros e portugueses, têm sido aventados putativos candidatos ao lugar – incompatibilidades cronológicas ou fisionómicas impedem. Quem sabe, talvez, o Comandante Augusto Cardoso, herói de África, companheiro de Serpa Pinto, membro da Sociedade de Geografia, grande Amigo e Compadre de Malhoa e Henrique Pinto, com quem Malhoa mantinha uma conta corrente – recebia dinheiro emprestado, pagava-lhe em quadros – as circunstâncias e as parecenças permitem-no.
Ou, como diria Maria de Aires Silveira, a propósito d’ O Grupo do Leão, 1885, de Columbano, «…é um desconhecido, um mistério, como convém num quadro desta importância...»
[3] Neste desenho, a figura, da ponta da cabeça à linha onde a nádega assenta no banco, mede 41cm.
[4] «Adere irresistivelmente à retina a longa e elegante extensão das costas que fazem lembrar A Grande Odalisca em mudança de posição. Também esta modelo parece ter, pelo menos, uma vértebra a mais.» - dizem-me aqui ao ouvido.


... e para descanso das nossas cabeças

            Este, um artigo por mim publicado no catálogo A Duas Mãos | Desenhos Inéditos | Manuel Henrique Pinto e José Malhoa, pelo Centenário da morte de Manuel Henrique Pinto, editado pelo Município de Figueiró dos Vinhos - Clube Figueiroense, em Setembro de 2012.
            Agora que a menina está prestes a sair de novo à rua, numa nova apresentação da referida exposição - revista & aumentada e ainda em escolha de Sandra Leandro e minha – e que terá lugar no Museu José Malhoa nas Caldas da Raínha, a partir de sexta-feira, convém acrescentar mais umas coisinhas ao que foi então escrito.
            Tal tem a ver com a hipótese enunciada de «a derradeira transferência, para a superfície final da tela, te(r) sido feita por decalque desta mesma figura…». Dizia então que «tal teoria só poderá ser comprovada face ao quadro do MASP». E como não ando propriamente a brincar – embora possa parecer – a coisa foi confirmada. 
             Graças a ajudas desinteressadas, que registo e muito agradeço, e que foram desde visitas ao MASP armadas de fita-métrica – frustradas, que o quadro não estava lá – até pedidos à Coordenadoria de Acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, a resposta chegou. Não a tempo da edição do catálogo, mas um tempo depois:


...e o pote dos pincéis também 
ainda sobrevive.
«Prezado Sr Luis
Conseguimos fazer as medidas que o senhor solicitou.
Da nuca até o banco dá 33 cm e do topo da cabeça até o banco dá 40,2 cm.
Lamento muito pela demora, mas como disse anteriormente ela estava emprestada a outra instituição e só retornou semana passada ao MASP.
Atenciosamente
Tariana Maici de Souza Stradiotto»


         Confirma-se  assim – os 8mm de diferença são absolutamente desprezíveis e a outra medida também bate certa – que este desenho é mesmo o que terá servido a Malhoa para decalcar sobre a superfície da tela a “moça gostosa” que Descans(ava) no Ateliê do Artista ali na Academia das Bellas-Artes, pelo ano de 1894 – e não noutro qualquer.

E que, a partir do final da semana e até 14 de Julho, poderão ver (ou rever), juntamente com mais dúzia e meia de outros interessantes desenhos - três deles absolutamente inéditos - de Malhoa e Henrique Pinto, no Museu José Malhoa nas Caldas da Raínha.


14 Mai. 2013. LBG


sexta-feira, 15 de março de 2013

Parabéns!


15 de Março de 1853


 
           Eis um postal, datado de 14 março 1908 – num tempo em que, apesar dos comboios serem ainda a vapor e de o percurso entre o Paialvo e Tomar se completar em carruagem de mulas, e ainda sem a modernice da sobretaxa do «correio azul», se tinha a garantia do correio chegar no dia imediato - com carimbo de «Lisboa Central», confirmando a data, sobre estampilha com a fronha do Senhor Dom Carlos, muito simples e sucinto:

            «Manel | - Parabens – | José Malhôa | Julia Malhôa | Mª Rita Malhôa»; mais a data e o endereço do destinatário.


            No verso, já que de um postal ilustrado se trata, uma foto de um grupo de touristes - onde se reconhece o próprio Malhoa, de pé sobre a esquerda - num qualquer passeio por essa Europa fora, num char-à-bancs com cocheiro de cartola e charuto.


            Eis, pois, como Malhoa, a sua Mulher e a irmã Maria Rita, enviaram os parabéns pelo 55º aniversário do amigo «Manel».

            Manuel Henrique Pinto nasceu em Cacilhas, ao que tudo indica [1] a 15 de Março de 1853. Farão hoje precisamente cento e sessenta anos.



          Também este recorte do jornal tomarense A Verdade, de 10.3.1901, assinala tal data, sete anos antes daquele postal.

            De entre um e outro, é este belíssimo retrato de MHPinto a pintar, "concentradíssimo" e de “beiça armada”, na companhia da sua filha Julieta, que vai também riscando algo no caderninho. Datado de 1905, Os Colegas [2] é um grande quadro de JMalhoa que capta, numa alegre nota de côr, toda a intimidade do trabalho do Pintor, do Amigo de toda uma vida, e da sua querida Afilhada. Tudo «colegas» do pincel. 
              E uma boa escolha para assinalar este dia.

JMalhoa. Os colegas, 1905. ost, 53x43.

              Parabéns! pois.


            Ah! e também Parabéns! à Fernanda, uma querida amiga, e à Maria João, a neta da Julieta aqui de cima e que fez o favor de nascer no mesmo dia do Bisavô – um «chi» apertado.  



            15 Mar. 2013. LBG.
             


[1]  Veja-se, contudo, José Abrantes Raposo, in Manuel Henrique Pinto: Vida e Obra, Ensaio Bio-Iconográfico. Almada: Casa da Cerca; Câmara Municipal de Almada, 2002.
Na p.27 desta obra pioneira, o nosso amigo Abrantes Raposo publica, como resultado da sua laboriosa investigação, o Assento de Baptismo de uma criança a quem foi dado o nome de Manoel, filho de Francisco Jorge Pinto e Sebastiana Rosa, e que terá nascido em Cacilhas a 2 de Abril de 1852... Ora, apesar de os pais, Francisco e Sebastiana, serem os mesmos e tal documento dar, evidentemente, que pensar, percebemos também que, entre aquela data e estoutra, medeia tempo suficiente para, caso o pequeno Manoel tenha morrido, como não pouco usual ao tempo, possa ter ocorrido nova gestação e ao novo rebento ter sido dado o mesmo nome do  falecido, como uso também era.
De qualquer modo, o que é certo, como nos dizem várias outras fontes, é que MHPinto e a sua família consideravam o dia 15 de Março de 1853 como o do seu nascimento. Se andaram toda a vida enganados, só uma procura exaustiva nos poderá dizer. Por agora, esta serve muito bem.

[2] Bastas vezes considerado como retratando o pintor Ezequiel Pereira – sabe-se lá porquê?! – não merece dúvidas que tal consideração será erro crasso e recorrente.
Aqui há meia dúzia de anos, julguei que tinha “contratado” quem me “tratasse” do “malandro” do Ezequiel (personagem contra quem nada me move – it's just business…); parece que ainda estrebucha. Um destes dias tenho eu de o “assassinar” de vez...


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Entrudo


A propósito do Carnaval, o «Entrudo» como soía dizer-se, eis uns pequenos apontamentos de JMalhoa que retratam os costumes da época, pelos finais do séc.XIX. E também O Xexé, 1895, tela um pouco maior, que pode ser admirada na Casa-Museu Anastácio Gonçalves.

Entre a folia e o vinho – pois então! – aqui em ambiente claramente urbano – apesar do que possam dizer e bem antes das pielas rurais figueiroenses –  datados quase todos estes estudos pela mesma altura [1]Eis o Entrudo alfacinha, mais ou menos popular, pela última década de oitocentos.


JMalhoa. [Costumes IAgonias!, 1894. osm 18x11.
JMalhoa. [Costumes II], 1894. osm 17x10.
JMalhoa. [Costumes III], 1894. osm 17x10.

JMalhoa.   O Xexé, 1895. ost 27x47. CMAG.

JMalhoa. [Figuras de Carnaval], n.d.11x16,5.

JMalhoa. [Ébrio de costas], n.d. asp 24x24. [2]
Museu Nogueira da Silva, Universidade do Minho.



12 Fev. 2012. LBG.



[1] Embora haja divergência entre 1894 e 1899, quanto à data das três pequenas tábuas de Costumes, consoante as fontes consultadas. Idem quanto às suas dimensões.

[2] A designação deste estudo a aguarela, obviamente não a original de Malhoa, e que me limitei por isso a colocar entre parênteses rectos, já não sei donde surdiu. As imagens estavam em arquivo e muitas já não recordo a origem. Só depois de copiar tomei consciência. Mas é curiosa - «Ébrio...». 
Aparentemente o sujeito estará tão bêbado como os outros - a carraspana, a tosga, a perua deixou-o tão entornado e toldado como aos outros todos… só ainda não deitou a carga ao mar como o primeiro lá de cima - mas não está «bêbado», encontra-se «ébrio». Talvez devido à farpela ou a eventual origem social. Ou porque já é «pintura de casacón», «tableautin», ou lá o que é… Pois que «ébrio» seja!
(E, em verdade, nem sabemos se aqui deveria estar – pode nada ter a ver com os festejos carnavalescos, e ser um estudo para uma decoração qualquer… mas estava aqui à mão.)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O Coelho a ver passar o combóio...

Sobre a cachopada da Fonte do Cordeiro.



Aviso prévio ou declaração de interesses: Um – o título nada tem a ver com política ou outra coisa qualquer… mas podia. Dois – desta vez, fantasio um bocadinho e falo de cor… se toda a gente o faz, também eu posso. Três – à Débora e ao Eduardo Antônio, descendentes directos desta rapaziada… e a quem muito agradeço.


         Numa carta, possivelmente de finais de Maio de 1891 ou 92 [1], Malhoa pede para Tomar, ao «Manel amigo», o envio de uma foto: «Manda-me assim que possas o cliché e uma photographia do amigo Antonio e da Preciosa que fizemos na fonte da fonte do Cordeiro, onde estão encostados ao muro, vistos de costas e olhando para baixo.» Mais à frente, entre os «assumptos para tratar», diz que tem em mente um trabalho que designa já por «Os curiosos».


JMalhoa. Os curiosos, 1892. [2] [3]






    
    Tal fotografia, que hoje nos é completamente desconhecida, terá servido, como é bom de ver pela descrição pormenorizada da cena, para a execução, precisamente, de Os curiosos, 1892. Quadro mostrado na 3ª Exposição do Grémio Artístico e, como vimos, comprado pelo conde de Proença a Velha [2]. Nele podemos encontrar, a crer em Malhoa, a Preciosa e o «amigo António», vistos de costas, a olhar para baixo, encostados ao muro da Fonte do Cordeiro, em Figueiró dos Vinhos [3].



JMalhoa. Noé e Preciosa, 1891. [4]
A Preciosa já era cachopa nossa conhecida. Dois anos antes havia sido apresentada aos frequentadores do Salão do Grémio, logo na 1ª Exposição, com outro dos irmãos, o Noé. Os dois, muito compenetrados, com um pedaço de pão na mão, haviam sido mostrados em Noé e Preciosa, 1891 [4].

Além disto, Malhoa também nos deixou outras notas, uma já aqui referida [5], de 31 de Maio de 1902, onde nos diz «… venda de dois quadros (…) um intitulado “Os ouriços” [6] outro “a ultima gota” [7], pintados em Figueiró dos Vinhos, na Fonte do Cordeiro, servindo de modelo para os dois quadros o filho do Eduardo [8], então rendeiro da Fonte do Cordeiro, propriedade da família Serra.»


JMalhoa. Os ouriços, c.1894. [6]



Por outro lado, sempre soubemos que pelo início dessa década de 90, a das Exposições do Grémio, era pela Fonte do Cordeiro e pelo vizinho Chão da Amoreira que muitos dos quadros de grande formato de JMalhoa e MHPinto foram pintados a par [9]: com os mesmos pastorinhos, ora Gritando ao rebanho, 1891, ora Adormecido, 1891 [10]; com os mesmos cachopos ruços, descalços e de calças «rachadas-ao-meio-atrás», muito atentos n’ A caça dos taralhões, c.1891, [11] n’ A caça aos grilos, 1891, [12] nos Preparativos para a caça, 1893, [13] ou À caça, 1895, [14] (aos pássaros, claro); a mesma rapaziada que ensaia na gaita de cana as Primeiras tentativas, 1891, [15]  que leva O almoço para o pai, 1891, [16] ou aguenta estoicamente Uma teima, 1894, [17] da cabra que não há meio de arredar.


JMalhoa. Gritando ao rebanho, 1891. MJM. [10]
MHPinto. Adormecido, 1891. [10]
MHPinto. A caça aos grilos, 1891. [12]

Nestes e noutros menos conhecidos, estudos e retratos avulso, é possível observar vários anos de trabalho em comum dos dois Artistas, e os mesmos miúdos e as mesmas vidas. Sempre «os filhos do Eduardo, o rendeiro da Fonte do Cordeiro» - é olhar para eles!

MHPinto. A caça dos taralhões, c.1891. [11]
MHPinto. Preparativos para a caça, 1893. [13]
JMalhoa. À caça, 1895. [14]

             O cenário, A Fonte do Cordeiro, c.1891, é mostrado por MHPinto logo na 1ª Exposição do Grémio. Os pequenos actores foram sendo apresentados, a par, ao longo das mostras seguintes, consoante as cenas e o enredo dum filme que nos descreve a sua própria vida.


MHPinto. A Fonte do Cordeiro, c.1891. 

            O grand finale, esse, talvez tenha sido o quadro de Malhoa À passagem do combóio, 1896 [18]. Sem combóio - que era coisa ali nunca vista - muito bem sugerido à visão do espectador. E com a troupe completa, ou quase, despedindo-se de nós, encerrando uma bela actuação em sessões contínuas de meia dúzia de temporadas. E de tal sorte, que esta última cena terá direito a derradeira reprise em Paris, e a nova edição remasterizada embora de menor qualidade para o mercado brasileiro.

MHPinto. Uma teima, 1894. MJM. [17]


Posto isto, uma palavrinha aos protagonistas.
Tal palavra surge pelo curso paciente do lápis do «amigo António». Ele mesmo!

Explico: há uns meses, andava eu de volta da cartinha citada ao início, quando a Biblioteca Simões d’Almeida (tio) disponibilizou on-line um interessante manuscrito de António Dias Coelho, intitulado Ka-lumba(1º volume). Por mera curiosidade fui dar uma vista de olhos - Eh lá! Mas este é o «amigo António»!? – exclamei para comigo. Ficou à espera…
Mas não é coisa para se ignorar, e vem agora muito a propósito.



«Seu» Coelho, o «amigo António»,
na  varanda da casa da rua Bernardino,
em Santos. Julho de 1970.
António Dias Coelho (Fig.º dos Vinhos, 26 Jul. 1887 – Santos-SP, 12 Fev. 1971), filho de Tereza da Silva e Eduardo Dias Coelho, «então rendeiro da Fonte do Cordeiro, propriedade da família Serra», foi um homem de três continentes e múltiplas aventuras.

    Nascido na quinta da Fonte do Cordeiro, por ali, entre o Chão da Amoreira, a Senhora dos Remédios e o Cimo da Vila, passou a infância - brincou e aprendeu a vida, andou aos pássaros e aos grilos, foi pastor e guardou cabras, e foi o «amigo António» de Malhoa e Henrique Pinto. 


          Foi à escola e fez o exame do «segundo e honroso grau de instrução primária» (p.118). Depois, abalou. Andou por Torres Novas e Lisboa - criado de visconde e moço de taberna. Foi às sortes e assentou praça na Armada. Comeu «o pão que o diabo amassou às chifradas», no seu próprio dizer.

       O desespero ou a esperança levaram-no a África (1910). Parece que correu Angola, por lá tomou mulher pelos ritos gentios, e tomou novo nome: «Ka-lumba» – afinal não tão novo assim, quererá dizer «Coelho» em língua nativa - e deixou descendência africana.

    Atravessa o Atlântico e aporta a terras de Vera Cruz. Na Santos paulista - a do café e a do Pelé - casa de novo (1915) e assenta vida e família. Retorna por coisa de um ano a Portugal, em 1925, e logo volta. O Brasil é a sua definitiva casa.

Frente aos pilares da Fonte do Cordeiro,
provavelmente durante a viagem a Figueiró, em 1952.
     Em 1952 fará nova viagem, agora de matar saudade, à sua Figueiró natal e a outros locais da vida antiga. Alguns anos depois escreverá «Ka-lumba» - dizem que em seis volumes, este o primeiro – onde nos conta toda a ventura e aventura da vida de um Coelho, orgulhoso e de corpo inteiro.


O livro do «amigo António» é um mimo. Escrito a lápis, em letrinha miúda, e capitulares por maiúsculas. Ilustrado com belas fotos, pacientemente coladas às páginas, muitas delas, talvez, tiradas aquando da viagem de 1952. Numa linguagem própria, misturando o linguajar figueiroense que lhe veio do berço ao brasileirar adquirido. Às vezes de poética forçada e algum arremedo de erudição, solta-se quando escreve à vontade sobre si e os seus. É então saboroso. E revela toda uma Cultura de vida, da experiência e do saber, de quem sempre quis entender mais, perguntando sempre e escutando todas as respostas – como o próprio nos diz.
Nem tudo o que escreve corresponderá a verdade, pelo menos como a sabemos hoje. Grande parte dos lapsos nem serão culpa sua – percebe-se que procurou documentar-se e ler do que tinha à mão – e, por essa altura, muito do que se escreveu ainda hoje engana. De outras vezes terá sido atraiçoado por memória menos fresca ou visão já desfocada do passado – veja-se a referência às «duas irmãs de Malhoa» (p.57) que, por essa altura, seriam na realidade a mulher Júlia e a irmã Rita (ou então a Mª da Conceição d’Almeida Pinto); ou quando nos dá uma data certa «1891» (p.106) para o episódio delicioso do «crime do merino empanzinado» (p.86) - não é de todo crível que por tudo aquilo tenha passado apenas com quatro aninhos… a dureza da vida cedo começava, mas não vale exagerar [19]. Lapsos de somenos, contudo, e nada que desmereça a leitura.

Venâncio,
Aida, Preciosa, o pai Eduardo Dias Coelho,
e a mãe Tereza da Silva.
Ficamos a saber, pelo que nos diz o «amigo António», [20] que os filhos de Eduardo e Tereza foram muitos. Por ordem cronológica: o Saúl (1878-1907), a Aida (1880-1965), o Maximino (1881-1911), o Noé (1883-1955), a Preciosa (1885-1918), o António (1887-1971), o Venâncio (1890-1962) e, já depois de 1892, o José (?-c.1936), e o Adelino (1896-1896), «de vida efémera» tal como, já antes, a Jesuína (1889-1889), de quem o António nem fala.

Quase todos de vida errante pelas Áfricas ou os «Brasis», que a vida não era (como volta a não ser) para brincadeiras…


Saúl, o irmão mais velho.
O Saúl, o mais velho, veio a casar com a Augusta [21], a do «ti Francisco mouco» e da tia Vicência, teve dois filhos – o Manoel e a Madalena [22]. Morreu de «febres», a 7 Setembro de 1907, na Roça Esperança, na Ilha do Príncipe (p.72,73).
          «O teu irmão Saúl vai com destino à Ilha do Príncipe, contratado para dirigir negros no cultivo dos cacauzais da Roça Esperança, administrada pelo nosso conterrâneo Manuel dos Santos Abreu [23]» - conta-nos António, citando uma carta que a Mãe lhe mandou em 1904. (p.187). 

Julieta Pinto. Na Roça Esperança.
óleo pintado durante a estada na Ilha do  Príncipe. (foto antiga)
Pela mesma carta, sabemos que o Maximino também partiu para África, voluntário numa companhia militar com destino a Angola. Três anos depois, já no Príncipe, Maximino assiste a morte de Saúl e retorna doente. Depois, agora com António, volta a rumar a Angola, onde morrerá, no Bié, em 1911.

Venâncio, Maximino (de uniforme) e Noé.
O Noé também terá andado pelo mundo – Espanha e França, com algumas estadas no Brasil. «Morreu pobre mas sempre honesto» (p.117). É dos poucos que morre onde nasceu, tal como os pequeninos Jesuína e Adelino, a Preciosa, vítima da pneumónica, e o Venâncio, este possivelmente depois de muitas outras voltas… O José, de quem pouco se sabe, morre na guerra de Espanha. 
Aida e o António morrerão em Santos, cidade que acolherá quase toda a geração seguinte dos muitos filhos de Tereza e Eduardo Dias Coelho «então rendeiro da Fonte do Cordeiro»…


Chega de conversa. E a palavra ao «amigo António», naquilo que agora nos interessa.


 Sobre a amizade: «… não ficar indiferente à presença nesta terra dessa figura inconfundível que por aqui apareceu na oitava década do século XIX (…) José Malhoa – o artista consagrado que, além das raras virtudes que o credenciavam, era um homem do povo, e amigo dos amigos…» (p.4)

Simões d'Almeida (tio), MHPinto, JMalhoa,
 com as «botifarras de caçador»,em Figº dos Vinhos. c.1898. 
     Da figura, das botifarras e do labor: «Malhoa, quando a esta terra aportou, de chapelinho redondo, gravata listada, botifarras de caçador e uma caixa de pintor a tiracolo, além de alguns tostões no bolso, que seriam todos os seus haveres; percorria de manhã cedo e ao cair da tarde as imediações do burgo estremenho em cata de termos para os seus milhares de quadros.» (p.5)

JMalhoa. Primeiras tentativas, 1891. [15]

         Sobre o dia-a-dia de cachopo: «… os meus maiores atractivos eram os advertidos [sic] e simpáticos grilos, cantarem de dia e à noite ao luar. Era a prestimosa passarada, voar de árvore em árvore, e de galho em galho, catando as parasitas daninhas aos campos. Eram os prados e os bosques. Eram os ninhos. Eram os ovos acomodados no seu bojo, artisticamente forrados de felpo macio. Eram os silvados agrestimos [sic], aonde a brava coelhada, já refeita do estômago, se alapardava e dormia a sesta (…) Para mim, era tudo isto, e mais alguma coisa, o que para as crianças é, quando a vida começa, abre, expande, canta e sorri, tendo à sua frente toda a natureza em festa…» (p.48)

Júlia Malhoa, MHPinto e Mª da Conceição,o filho Luiz, e Alfredo (o do chapéu),
frente «à casa da eira».c.1891/3. [21] [24]

       Do assumir o protagonismo: «Ao recordar-me deste artista insuplantável, e desse meu passado distante, no cimo da vila, por ali perto da capela do mártir São Sebastião, à sombra das cerejeiras floridas em meio das oliveiras e dos clássicos e despreocupados castanheiros, que ainda lá estão [24], a emoldurar as paisagens maravilhosas da recta da estrada para a Castanheira, os seus quadros falam de tudo isso e de alguém. E hoje é assim - aqueles além, são fulano e fulano. [25]» (p.47)

JMalhoa. O almoço para o pai, 1891. [16] [26]
O próprio, enquanto modelo: «Como eu era o mais nutrido e corado da turma, passei a ser pelo mestre Malhoa apelidado de “Lua Cheia” [26]; e por ele também o mais visado para servir de palhaço, digo de modelo, ao seu génio de artista consagrado no manejo do pincel. Meses a fio, em dias alternados, trilhei o caminho do seu atelier ao ar livre, a fim de dar o relevo, que tanto o precisava com a minha presença, aos muitos dos seus quadros primorosos. E quantas e quantas não foram essas vezes? e quantas não foram elas? e quantas?? Umas vezes vestido de tanga. E outras vezes vestido de despido... [27] [28]» (p.46)

JMalhoa. A última gota, 1891. [7] [27] [28]

            E um mistério para resolver: «À sombra reconfortante da sua frondosa ramaria, pintou o imortal Malhôa alguns dos seus primorosos quadros do meu tempo de criança; entre os quais, para mim de indelével recordação, figura o da minha extremosa mãe, com todos os filhos em forma, quando entre as oito e as nove horas da manhã lhes ministrava o repasto do almoço. » (p.46)

Este quadro, assim descrito, ou é coisa completamente desconhecida ou, entre tudo o que hoje sabemos, só poderá ser À passagem do combóio, 1896. O que é muito provável, se olharmos bem para o que dele resta [29].

Charles Baude, d'aprés Malhoa. En voyant passer le train À passagem do combóio ,1900.
Casa Museu dos Patudos.  [29] 
A assim ser, estaríamos apenas perante uma parte dos irmãos e não «todos os filhos em forma» - o que se afigura perfeitamente natural. Por essa data, 1895/6, os três mais velhos, Saúl, Aida e Maximino – que, aliás, quase nunca aparecem nesta saga familiar a tinta d’óleo [30] – teriam todos mais de quatorze anos e, por essa altura e naquela vida, era idade onde já se não andava na gandaia… a labuta à séria ocupá-los-ia.

Deste modo, o retrato da «extremosa mãe, com todos os filhos em forma, quando entre as oito e as nove (…) lhes ministrava o repasto do almoço» resumir-se-á, provavelmente, aos mais novitos, aos que já com algumas obrigações familiares – cuidar dos animais e da criação, levar e trazer o gado do pasto, ir às pinhas ou aos gravetos… - ainda tinham vida livre de garotada. O cenário não é estranho na obra figueiroense de Malhoa – já o havíamos divisado em Os ouriços, 1894, e podemos vê-lo n’ A Sesta (a dos ceifeiros), 1895, e n’ As Cócegas, a de 1894 e nas de1904, por exemplo.

JMalhoa. À passagem do combóio, 1896. (desaparecido). [18] [29] [31]


              O «amigo António», com oito ou nove anos, esparramado sobre o varal da vedação; o Noé, já com doze ou treze, de barrete e calças rotas nos joelhos; o Venâncio, agora com seis anitos, empoleirado na trave, «ainda não acabou a esfuziada de gritos e risos»; a Preciosa, com nove ou dez anos enfezados, subiu à pedra para ganhar altura e segura uma das cestas do almoço já tragado - certamente veio com a Mãe trazer a bucha aos catraios que andavam com as ovelhas no restolho deixado da ceifa – a mãe Tereza trouxe, além da outra cesta, o mais pequenito ao colo (não sabemos se o Adelino ou o Zé…).

Esta é uma narração perfeitamente possível deste quadro. E, a acreditar no que nos conta António, bem provável de ser real. A outra, a frenética de Ribeiro Arthur [31], também – basta a sugestão dos paus de fio e imaginar o cavalete de Malhoa dentro duma carruagem em movimento… o título, bem engendrado por Malhoa, inspirado nas muitas viagens entre Lisboa e o Paialvo, faz o resto.

Eis como, sete anos antes de o ver e apanhar pela primeira vez no Paialvo (p.128), o «amigo António», o «seu» Coelho, viu passar o combóio - …por da’baixo, naquilo qu’era dos Serras, ao em’direito d’aldeia d’Ana’viz… [32] .



24 Jan. 2013. LBG


Notas de leitura:
a. A indicação do tipo (p.123) remete para as páginas originais de Ka-lumbadisponível aqui.
b. Optou-se por emendar alguns lapsos ortográficos e de pontuação nas citações de António Dias Coelho aqui transcritas.
c. Sugestão: como o artigo é grande e as notas de rodapé extensas, abra de novo o texto noutro separador, alterne entre a leitura do texto e a das notas, vai ver que se cansa menos. (E com as desculpas de não saber mais para pôr esta coisa a funcionar de outra forma)
d. Como usual, clicando sobre as fotos pode vê-las em tamanho maior, o mesmo sobre as palavras escritas a laranja que são normalmente ligações a outras páginas ou sítios da rede.
e. Não se percebe porquê, mas isto agora só funciona bem com acesso pelo Google Crome... através do Google anterior ou Internet Explorer algumas coisas, por mais cuidados que tenha, podem aparecer desconfiguradas...



[1] Carta de JMalhoa para MHPinto, não datada, sublinhado do próprio, e publicada na íntegra in A Duas Mãos | Desenhos inéditos: Manuel Henrique Pinto (1853-1912) e José Malhoa (1855-1933): Pelo Centenário da morte de Manuel Henrique Pinto. Figº dos Vinhos: Clube Figueiroense – Casa da Cultura, Município de Figueiró dos Vinhos. 2012.

[2] O quadro foi apresentado na 3ª Exposição do Grémio, 1893, mas está datado, como se pode ver nas fotos, de 1892. 
(Agora, reproduzindo-se tal como a ameba, parece que já haverá dois –  um pró conde, outro prá condessa, um ao alto, outro atravessado! francamente…)

[3] Não esquecer que a pintura poderá ter sido feita com o auxílio de uma fotografia tirada antes daquela data. Então, o «amigo António» teria três ou quatro anos e a Preciosa cinco ou seis…
Sobre isto, a "maldade" de Manuel Gustavo (em baixo, ao meio) pede esmolas.

[4] Neste quadro, que deverá ter sido pintado no ano anterior ao da mostra, vemos o Noé com cerca de sete anos e a Preciosa com quatro ou cinco.

[5] Pode ler aqui na íntegra.

[6] Apresentado em 1894, na 4ª Exposição do Grémio, deverá ter sido pintado no Outono anterior. Pela tradição, retrata o pequenito Venâncio – confere – teria então três aninhos.


[7] Datado de 1891, apresentado no ano seguinte na 2ª Exposição do Grémio, muito provavelmente retrata o António, então com quatro anos de idade. (sobre este quadro ver também as notas 27 e 28)

[8] Malhoa deveria querer dizer «os filhos» - pelas datas e fisionomias diferentes não é crível que se trate do mesmo cachopo. (ver notas 6 e 7)

[9] «A par» quer dizer «a par» - como aqui se entenderá e já foi referido noutras ocasiões.
As velhas apreciações do tipo «quadro [de Malhoa] inspirado no do sr. Pinto» ou «pintado [por Pinto] um tanto á maneira de Malhoa» ainda se aceitam, quando escritas em 1892, pela surpresa do público ou desconhecimento da crítica - «Por isso o publico, que o anno passado soltou um brado unanime de admiração perante a Caça aos taralhões, este anno ficou bastante frio deante dos quadros enviados pelo sr. Pinto, - e também dos dois do sr. Malhoa. É que são variações de mais do mesmo thema. Ainda se fossem do mesmo artista, mas de dois! O caso fez-lhe espécie…» (João Sincero in Occidente, 11.5.1892)
Papaguear, cento e tal anos depois, a mesma ladainha a propósito de tudo o que mexe com isto, é não perceber o que já devia estar percebido há muito (e se é para passar a mão pelo pêlo… – não, obrigado!). «Inspirado» - inspirado foi o mesmo ar sadio do Cabeço do Peão, inspirado ao mesmo tempo, pelo Malhoa, pelo Pinto e pelos filhos do Eduardo.

[10] Apresentados ambos na 2ª Exposição do Grémio, 1892, ambos tomados no mesmo local, muito provavelmente com o Noé, aos oito anos, em ambos (ou, se assim quisermos, o Maximino mais o Noé). Este, enquanto Adormecido, valeu a Pinto uma 3ª medalha nessa exposição - malgré tout :  A barca do Silva Porto, O Marquês do Malhoa, ou a douta opinião do sr. João Sincero.
E, Gritando..., tem direito a boneco pelo Manuel Gustavo (à esquerda, ao meio).

[11] Este foi o primeiro da série! - mostrado na 1ª Exposição do Grémio Artístico, 1891, mas por certo pintado em 90, mostra-nos o mesmo Noé com sete anos (ou talvez o Maximino com oito ou nove).

[12] Da mesma leva do Adormecido, aqui caçadores são dois - o mais velhito a ensinar ao pequeno como se faz…. podemos imaginar o António, aos quatro anos, aprendendo com o Noé, de oito, como se tira o grilo da toca.

[13] Tela presente na 4ª Exposição do Grémio, 1894, pintada em 1893 - já com sapatos cardados nos pés, talvez ainda o Noé… Armando a costela.
Gustavo embirrou c'os sapatos (à direita, a meio)

[14] Este poderia ser o António, então com sete anos, e já de lição aprendida, se a tela fosse de 1894, para ser mostrada, como o foi, na 5ª do Grémio em 1895… (mas tenho para mim que o quadro já vinha de uns anos antes, e com algum percalço pelo meio… mas não é agora a hora dessa conversa). Aposto ainda no Noé…
Ou a Infância do Senhor dos Passos, para M. Gustavo Bordalo Pinheiro (à esquerda, em baixo). E também para o A. Ramalho, mas este em postal privado.

[15] Aqui temos, sem dúvida, a Preciosa, com seis anitos e a mesma fatiota de Os Curiosos, a escutar, talvez, o Maximino, o que tinha o cabelo menos ruço, então com nove ou dez anos. Mas isto é só um palpite.
A propósito. Sobre estas Primeiras tentativas, 1891, e À caça, 1895, dois quadros que andaram sumidos durante largo tempo, bom seria recordar a sua, ao que julgo, primeira mostra pública fora do circuito leiloeiro dos últimos cem anos. Aconteceu em Figueiró dos Vinhos, em Outubro de 2008, numa interessante exposição organizada por José Ant.º Proença. No respectivo catálogo - José Malhoa, 1855-1933: A Exaltação da Luz. Figueiró dos Vinhos; Município de Fig.º dos Vinhos, 2008 – surge anexa uma folhinha de errata, para a qual modestamente contribuí, onde, finalmente e de novo, se dão os nomes às coisas. Outro tanto aconteceu, mas por outra via, com A última gota, 1891, publicada nesse mesmo ano in José Malhoa. Bologna; Lisboa: Franco Maria Ricci; Arting Editores, 2008 – também crismada com um outro nome qualquer, que trazia havia 25 anos.
Ou seja: palpites, sempre houve muitos!

[16] Como o anterior e muitos dos outros, esteve na 2ª Exposição do Grémio. Talvez seja o António, aos quatro anos. A caricatura deste quadro, publicada n’ O António Maria, pode ter valido ao «amigo António» a nova alcunha de «Lua-cheia»… (ver a nota 26).
Imagem reproduzida a partir de: Saldanha, Nuno – José Malhoa: 1855-1933: catálogo raisonné. Lisboa: Scribe, 2012.

[17] Mostrada na 5ª Exposição do Grémio, 1895. O «amigo António» aos sete anos, ou ainda o Noé, então com onze?
Mais outra vez em que esta rapaziada passa pela pena de M.Gustavo Bordalo Pinheiro.

[18] Já aqui referido em artigo anterior. E, ainda, no final do presente texto.

[19] …além de não bater certo com outra data que antes refere, «1892», como a da mudança da família para a Srª dos Remédios (p.59), onde localiza agora o desfecho desta cena.

[20] Corrigido e completado por outras fontes, documentais e familiares. Designadamente na troca da ordem de idades entre António e Preciosa, na existência do José e da Jesuína, e nas datas de nascimento e morte que são possíveis saber.
[20a] E, entretanto e à medida que se foram sabendo com maior exactidão, posteriormente rectificadas (3 Dez. 2018, 18 Mai.2019)

[21] Muito provavelmente a irmã mais nova deste Alfredo Simões d’Almeida, aqui fotografado, talvez com Malhoa do lado de cá da objectiva, junto à «casa da eira», com Júlia Malhoa, Manuel Henrique Pinto e a mulher, Mª da Conceição Simões d’Almeida, e o filho Luiz. A foto deverá ser deste período – cerca de 1891/3. O primo Alfredo é o do chapéu.

[22] Esta virá a ser, com alguma certeza, uma das «aprendizas» de costura na(s) Varanda(s) dos rouxinóis, 1914/15. Ainda a conheci - chorosa pela morte do marido e a ausência dos filhos no outro lado do Mar – chegou a fazer-me uns calções...

[23] Uns dois anos depois, parte também para a Roça da Esperança a filha de Henrique Pinto, a Julieta, entretanto casada com o Zé Abreu, irmão do Manoel. Por lá nascerá e morrerá, ao fim de poucos anos de vida, o primeiro neto de Pinto, o Alberto – o único que Malhoa não apadrinha.

[24] Note-se, nesta descrição, a localização do poiso de Malhoa, no período anterior à edificação do «Casulo», correspondendo à «casa da eira» da tia de Simões d’Almeida.

[25] O que tentamos agora fazer… Infelizmente tarde demais para «seu Coelho» que, parece, muito queria ter visto alguns destes quadros.

[26] Alcunha que poderá indiciar ser o «Lua Cheia» a figura de O almoço para o pai, 1891, então com quatro anos de idade (ver nota 16).

[27] «Despido», que se conheça, só poderá ter sido em A última gota, 1891, com os mesmos quatro anos de idade.

[28] Sobre tal quadro, e sobre muito do aqui dito, vejamos o que escreve Ribeiro Arthur, in Arte e Artistas Contemporaneos, (1ª serie). Lisboa: Livraria Ferin, 1896. p.195,196 – A segunda exposição do Gremio Artistico:
«Expõe Malhôa tambem uns quadros de genero, simples pastoraes, que parecem ter sido feitas de collaboração com o seu collega Henrique Pinto, tanto a factura d’elles se assemelha á d’este artista. Houve quem chamasse áquella serie Escola de Figueiró dos Vinhos. Em toda ella se distinguem as mesmas qualidades, e avultam os mesmos defeitos. Excluiremos d’este numero o seu quadro – A ultima gota -, que é de uma execução larga e bella. Um garotinho nu, sentado n’um interior de cabana, emborca a malga para lhe escorropichar a ultima gota de caldo. Uma panella de ferro está na trempe, sob a qual ardem uns troços; o lume crepita e uns pequenos acessorios, taes como uns grandes sóccos, dão áquelle meio rustico uma pitoresca realidade. É uma formosa téla digna do nome do artista.»
Apesar disto, claro como a água da fonte com que se fez o caldo, houve quem lhe fugisse o pé prá taberna…

[29] Refiro-me à foto publicada nos catálogos antigos e à xilogravura «segundo original de José Malhoa», existente no acervo dos Patudos, «realizada por Charles Baude, em 1900, para a revista Le Monde Illustré, e de que o pintor ofereceu uma “prova de artista”, impressa sobre papel de esquisso, a José Relvas.», publicada por José António Falcão in Os Corpos e as Almas: Obras de José Malhoa na Colecção da Casa dos Patudos. Alpiarça; Fig.º dos Vinhos: Casa dos Patudos; Clube Figueiroense, 2006.
Como é evidente, a xilogravura, embora hoje mais nítida, não será tão fiel como a fotogravura no que toca à fisionomia dos modelos registada por Malhoa. Idem para a segunda versão da pintura, feita c.1905, certamente de cor e a partir das anteriores.

[30] Poderão aparecer noutras obras da mesma época, a ceifar, a sachar ou a regar… mas incógnitos. E o melhor é não ir por aí…

[31] Ver no artigo anterior - B. Sesinando Ribeiro Arthur, in Arte e Artistas Contemporaneos, 2ª serie. Lisboa: Livraria Ferin, 1898. p.252, 253 – A setima exposição do Gremio Artistico.

[32] E agora percebo, finalmente, a origem da «referência simbólica à era industrial sugerida no contraste dos fumos fabris na distância» que a minha boa amiga Matilde Tomaz do Couto descortinou num breve mas belo comentário a A rega dos alfobres, 1891, in Malhoa e Bordalo: confluências duma geração. Caldas da Raínha: IMC-MJM, 2005. p.16. Está explicado: são os fumos da locomotiva deste tgv do Caparito.