quinta-feira, 27 de junho de 2013

Na infância de um museu, a arte da juventude



Manuel Henrique Pinto (1853-1912) e José Vital Branco Malhoa (1855-1933), ainda quase meninos, encontram-se pela primeira vez na Academia Real das Bellas Artes de Lisboa. Um vinha de Cacilhas, do outro lado do Tejo, num tempo sem cacilheiros, e nos primeiros anos faltava muito às aulas, por isso se mudou para a cidade. O outro, parece que com uma perna partida, veio das Caldas da Raínha para casa do «mano Joaquim» a fim de curar a mazela e abraçar vida nova. 
Acabaram por se juntar nas aulas e corredores de S. Francisco e fizeram-se amigos para toda a vida. Dos professores que ali tiveram, sem esquecer Thomaz José da Anunciação (1818-1879) e Miguel Ângelo Lupi (1826-1883), dois houve que mais os marcaram – Joaquim Gregório Nunes Prieto (1833-1907) e José Simões d’Almeida júnior (1844-1926) [1].


J.Simões d'Almeida júnior, M.Henrique Pinto
e  J.Malhoa, em Figueiró, c.1898.
Anos depois, no começo da aventura do Grupo do Leão, já homens feitos e pintores a fazerem-se, é este antigo Mestre, agora também um amigo, que os traz até Figueiró (1883) - «…venham para a minha Terra, que têm muito que pintar!». E eles vieram… - a história é já sabida.


J.Simões d'Almeida (sobº) e o primo Luiz A.Pinto,
no atelier do escultor,
pelos finais da primeira década de 1900.
O Pinto logo aqui casa com uma prima do Simões, a Maria da Conceição (1859-1941). O casamento (1885) é apadrinhado pelo Malhoa e pela sua mulher Júlia (1853-1919), casados já para cinco anos. Para cinco anos também, Mª da Conceição e o primo Simões haviam apadrinhado [2] um sobrinho comum, o «Zézito». Levou o nome do tio escultor e também o seu destino. Mais tarde, ao assinar na pedra ou no barro e para se distinguir do outro, teria de acrescentar ao seu nome de baptismo a palavra «sobrinho». José Simões d’Almeida, sob.º (1880-1950) foi mais um dos Artistas maiores que, do Cimo da Vila à Fontinha, por opção ou por berço, desta fizeram a sua Terra.


Muito justamente, é com os quatro de novo juntos que se inaugura o Museu e Centro de Artes Municipal de Figueiró dos Vinhos.


Mas aqui uma outra história. Um bocadinho daquela que não foi contada ainda. A história de Henrique Pinto e José Malhoa ainda jovens, enquanto estudantes das Bellas Artes ou, logo depois disso, cheios ainda de sonhos e candidatos aos concursos para pensionistas do Estado no estrangeiro. 


J.Malhoa e M.Henrique Pinto, c.1874. Ambas as fotos de «J.Loureiro Fº, C.do Duque 18».
A primeira, com dedicatória assinada por Malhoa, está datada de «2/10/74»

          A história que nos contam algumas fotos e uma dezena de obras da juventude, velhinhas e marcadas pelo tempo, mas que conseguiram chegar aos dias de hoje.



Comecemos por um interessante Desenho de Ornato, a carvão, não datado mas assinado «J. Malhôa» e com uma curiosa nota manuscrita «prova d’exame 1º(?) ano escola de Bellas Artes», tendo ainda, na sua parte superior e agora escondido pelo passe-partout, a indicação «Nº 5». A assinatura e a nota serão posteriores mas da mão do próprio. Estaremos, a ser assim, perante um dos primeiros desenhos de Malhoa enquanto aluno da Academia, talvez ainda anterior à data agora atribuída, c.1870. 


Com mais certezas, porque assinados e datados na altura da feitura, outros três desenhos a carvão de Malhoa. Por certo cópias de estampas, ainda ao jeito do Romantismo, que a «tomada do Natural» era prática que estava por vir. Duas Paisagens, ambas datadas de 1870 – aos quinze aninhos, portanto – soturnas e dramáticas, soando a Wagner e a florestas bávaras, muito longe do sol aberto da Lavandeira.
















E, do ano seguinte, Uma ninhada, 1871, com cadela meio escanzelada e hortaliça estrangeira…
















Para finalizar esta pequena mostra de desenhos, o Retrato de minha Mãe, 1872, onde o jovem Malhoa, então com 17 anos, retrata Ana Clemência. Um carvão ainda tímido de traço, que o Artista sempre guardou zelosamente e cujo destino, a par do «retrato da minha falecida mulher», deixará bem determinado, e que nos é dado ver agora…





Retrato, este do próprio Malhoa - e para lá das várias fotos da época [3] que também se reproduzem - é o medalhão em gesso da autoria de João Rodrigues Vieira (1856-1898). Condiscípulo na Academia, companheiro no futuro Grupo do Leão, escultor promissor, pintor e professor de desenho depois, Rodrigues Vieira regista neste Retrato de Malhoa, 1874, o perfil do colega aos dezanove anos. Que se conheça, é o primeiro retrato de Malhoa, ainda imberbe, ainda estudante das Belas-Artes, feito por um Artista amigo.


Só anos mais tarde, primeiro no óleo (1882) de António Ramalho (1859-1916), depois na galvanoplastia (1883) [4] de Simões d’Almeida e, finalmente, no célebre retrato colectivo de O Grupo do Leão, 1885 [5], de Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929), teremos outras representações de Malhoa, então já homem feito.


Talvez ainda por esta altura, cerca de 1874, talvez um pouco antes, foi tempo de deitar tintas às telas – melhor, a pequenos cartões ou a estes colados sobre fracas tramas, que as boas eram coisa cara. Suportes frágeis, pouca longevidade tiveram. Estes, em muito mau estado [6], serão dos poucos a chegar até nós.

 Nabos e cenoiras, c.1874, e mais outros tubérculos, muito provavelmente de Henrique Pinto, é um exercício de pintura ainda ao gosto antigo, daquele em voga nas exposições da velha Promotora – «essas pintadas exibições ortículas» [7]. Uma pequena mas bela amostra do que então se fazia.

Como em todas as boas histórias, há também a parte do mistério – «mas quem será…?». Um par de pinturas - Barros e plantas - gémeas na temática, no suporte, no tamanho, mesmo na forma de pintar. E dois Pintores, ainda verdes mas sonhadores, que se fazem retratar com elas, como se fossem as suas obras primas – as primeiras, bem entendido. A foto, que também tem par, foi revelada há um ano [8], as obras são-no agora.


M.Henrique Pinto e J.Malhoa, c.1875
A(s) foto(s), uma pintando a outra desenhando –  e interessa agora só a primeira – pode ser datada com razoável certeza pelo início do ano de 1875 – outras, uma com dedicatória do ano anterior, mostram os retratados ligeiramente mais jovens e mais magros. Nesta, Manuel Henrique Pinto está de pé, enquanto José Malhoa faz que pinta. Sobre o cavalete, um quadro – precisamente um destes – no chão, meio encoberto pelas pernas de Pinto, uma outra pintura – nem mais nem menos que o outro quadro aqui presente.

Que importância teriam estas pinturas para os Pintores as levarem ao estúdio e se fazerem retratar com elas? Seriam as provas finais do curso, ou as provas de concurso? Não o sabemos; sabemos que as guardaram e conservaram. E, partindo do princípio que cada uma é de cada qual, é a de Malhoa a que este finge pintar e a de Pinto a que está junto a si? Ou os “malandros” levaram a encenação tão a sério que nos trocaram as voltas? Talvez nunca o saibamos; sem marcas, sem assinaturas, permanecerão um mistério [9]. Mas são marcas de uma sã camaradagem e de um começo de vida artística que muitíssimas vezes continuaria a ser feita a par.



Por fim, já em tela razoável, assinada e datada «JMalhoa 1875», com a rubrica de Francisco de Assis Rodrigues, Director Geral da Academia, «FAssís, DG.», pelo tardoz, indicando claramente que foi um trabalho de exame ou concurso, temos uma Cabeça de cavalo, 1875. Feita aos vinte anos, era uma cabeça que prometia…
Sem muitas fontes onde confirmar, resta alguma especulação.



Pela certidão [10] passada a Henrique Pinto por ocasião do «concurso ao logar de pensionista em pintura de paisagem» desse ano, ficamos a saber que este apresentou, na 3ª prova, a «cópia d’uma cabeça de cão, do natural e na mesma dimensão, foi qualificado – bom». É provável que tal cabeça seja o Retrato do Néné, mais tarde mostrado, já «Pert (encente) ao sr. P. da Costa», na primeira Exposição do Grupo do Leão (1881) – dessa obra apenas se conhece a gravura então publicada no catálogo.

Não sabemos se, no tal concurso onde ambos participaram, o cão era modelo comum e único ou se, eventualmente, Malhoa terá ido de cavalo. Se assim foi, é muito possível que esta seja a sua obra concorrente - fica a hipótese. E a cavalo galopam depois mais umas tantas histórias...

Anulados os concursos, este como o anterior - coisa sabida - não se julgue que o desalento venceu, e foi «partir paletas e pincéis…» como sói dizer-se. No verão desse mesmo ano, Henrique Pinto, talvez animado com o «bom» que lhe valeu o canídeo, renova matrícula [11] - «… tendo acabado a aula de pintura da paysagem (…) deseja aperfeiçoar-se no estudo da pintura de animaes…». E José Malhoa, segundo outros registos [12], anos depois também ainda por lá andaria… Que o estudo e o trabalho nunca fizeram mal a ninguém - mal é os não ter.

Sem falar por contar, sem fadas ou quimeras, aqui ficam alguns pedaços desta parte da história. Resta sempre por dizer. «E era uma vez…» - vamos a tempo de recomeçar - olhando de novo cada desenho, cada quadro, de dois meninos que um dia quiseram ser Pintores…

             Estas, e mais outras - bem como Obras de José Simões d'Almeida júnior e de José Simões d'Almeida (sobrinho) - podem ser vistas, até finais de Outubro, no Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos. 


Jun. 2013. LBG




[1] «…dois grandes mestres» - dirá Malhoa. E referindo-se mais particularmente a Simões - «uma influência enorme no desenho». Carta citada por Humberto Plágio, in José Malhôa (Pintor). Lisboa.1928. p26.

[2] Sem absoluta certeza, ou foi Mª da Conceição ou a Mãe desta, também Conceição, a madrinha de Simões (sobº) - as fontes não são claras. De qualquer modo a história será parecida e fica toda em família…

[3] De arquivo particular.

[4] Ambas as obras no acervo do Museu José Malhoa, Caldas da Raínha.

[5] No acervo do MNAC – Museu do Chiado, Lisboa.

[6] Registe-se o paciente e laborioso trabalho de Paulo J. Ricardo da Cunha na recuperação possível das obras agora apresentadas.

[7] João Ribeiro Christino da Silva, in Estética Citadina. Lisboa: Imprensa Libanio da Silva. 1923. p.28. Onde nos explica ainda, a propósito da Sociedade Promotora das Belas Artes: «Depois dos tempos áureos dessa Sociedade, aí entre 1855 e 1865 em que os mais notaveis artistas de então ali apresentavam as suas melhores telas e esculpturas, (…) depressa veio a decadência, (…) o que abundava mais nos últimos certamens eram barcos de guerra e mercantes sábiamente pintados de cór, ou amplas telas com várias ortaliças, parecendo o salão uma sucursal da Praça da Figueira».

[8] Ver: A Duas Mãos | Desenhos inéditos: Manuel Henrique Pinto (1853-1912) e José Malhoa (1855-1933): Pelo Centenário da morte de Manuel Henrique Pinto. Figueiró dos Vinhos: Clube Figueiroense; Município de Figueiró dos Vinhos. 2012.

[9] Durante mais de meio século a coisa esteve mais ou menos clara: o quadro do vaso caído, o que na foto aparece no chão junto a H. Pinto – do outro nem se sabia a existência - era “um trabalho escolar de Malhoa”. Uma leitura mais atenta da foto e a redescoberta do outro quadro, tudo põem em causa. Mais a mais, que a tradição oral vale o que vale, e a mais próxima, nestas coisas e muitas das vezes, é a mais traiçoeira...

[10] Em arquivo particular.

[11] FBAUL. [Disponível na Secretaria da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa] – Requerimento apresentado por M. H. Pinto, datado de 17.6.1875 – consulta feita pela Professora Sandra Leandro, a quem muito agradeço a disponibilização, colaboração e crítica.

[12] AHFBAL. [Disponível no Arquivo da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa] – Registo de matrícula: «Curso de Pintura Historica | José Victal Branco Malhoa, 27 anos | filho de Joaquim Malhoa | morador na Rua da Oliveira ao Carmo nº9 | profissão estudante | Aula de Modelo Vivo | 23 de Outubro de 1882 | Aluno Voluntário».





terça-feira, 21 de maio de 2013

Uma Exposição no Museu Malhoa


JMalhoa. Estudo de Nu.
csp 63x48 a.|n.d.
A DUAS MÃOS | DESENHOS INÉDITOS de Manuel Henrique Pinto (1853-1912) e José Malhoa (1855-1933) é uma escolha que surgiu a propósito do Centenário da morte do primeiro destes dois artistas, dois amigos, dois companheiros de toda uma vida. A exposição, acompanhada da edição do correspondente catálogo, foi mostrada inicialmente em Setembro de 2012 em Figueiró dos Vinhos - terra que os dois pintores tomaram como sua e dos seus pincéis, e onde ambos acabariam por morrer, um duas décadas depois do outro.



MHPinto. Estudo para 
Esfolhando o milho.
c.1907. csp 61x48 n.a.|n.d.
Logo se pensou em trazê-la também a esta outra casa de Malhoa – o Museu José Malhoa nas Caldas da Raínha. Com enorme gosto, aos desenhos antes revelados, juntam-se agora mais alguns bem significativos – desde logo um peculiar e algo misterioso Estudo de Nu, sem data e assinado por Malhoa; um Estudo para Esfolhando o milho, de Pinto, uma versão não concretizada na tela, de algum modo malhoesca, como que torcendo a roupa; e, finalmente, um Estudo para O pífaro novo, certamente de Pinto, mas que, sem muito favor, podia também ser um estudo do outro para uma qualquer tela de pastorinhos figueiroenses…

MHPinto. Estudo para O pífaro novo. c.1903. csp 36x38 n.a.|n.d.


MHPinto.
 [ A Velha das Papas ]. c.1897.
 csp 38,5x29 a.|n.d.
A DUAS MÃOS | DESENHOS INÉDITOS reúne e põe em diálogo um interessante conjunto de desenhos dos dois artistas - boa parte deles, há muitas décadas, guardados juntos numa mesma pasta – e que algumas vezes nos confundem e se confundem. Como a dramática cabeça de [A Velha das Papas], as do Malhoa, que a assinatura mostra que é do outro; ou as várias raparigas namoradeiras que se tiram pela pinta ou por algum sinal mais escondido. O mesmo com [O Homem do Leme] de Henrique Pinto, embora aqui as outras mãos sejam as de João Vaz (1859-1931), outro amigo comum, companheiro de sempre e do Grupo do Leão.

MHPinto.
 [ O Homem do Leme ]. c.1912. 
ssp 47x31 a.|n.d.
Os desenhos agora mostrados correspondem, quase no essencial, ao período compreendido entre a conjunta descoberta de Figueiró, em 1883, a chamamento de Simões d’Almeida (1844-1926) - «uma influência enorme no desenho» [1] dirá Malhoa a propósito deste mestre e amigo, também por ambos partilhado - e a morte prematura de Manuel Henrique Pinto, em 1912. Um longo período de três décadas, onde mais se acentuou a amizade e o trabalho em comum.



JMalhoa. [ Noiva ]. 1887. 
csp 41x35. a.|d.


       E é de aproveitar o podermos estar agora no Museu José Malhoa, para irmos à descoberta de algumas obras a que estes desenhos nos remetem.

    Comecemos pela [Noiva], 1887 - talvez não a mesma, ou será? – mas esta nos fará remirar A Noiva, 1888, a outra, que lá está na sala grande.



MHPinto.
A caça dos taralhões, estudo. c.1891.
 csp 37x52 n.a.|n.d.
Olhemos bem o rapazito atento de A caça dos taralhões, c.1891; é o mesmo que na tela está Gritando ao Rebanho, 1891, pintado por Malhoa, também com uma costela à ilharga; ou o que aguenta a cabra em Uma Teima, 1894, (agora A Perrice) do Pinto – ele ou um dos irmãos, mas de certeza um dos «filho(s) do Eduardo, então rendeiro da Fonte do Cordeiro», modelos de tantas e tantas telas.


 
JMalhoa.
Descanso, estudo. c.1894. 
csp 62x47 a.|n.d.





E esta jovem mulher que descansa despida sobre o escadote de pose? Assim, tal qual, em Descanso, c.1894, está longe, em S. Paulo; mas na sala grande do Museu, aquecendo-se Antes da sessão, 1894, (agora Descanso do Modelo) podemos vê-la de pé, junto ao mesmo reposteiro verde – reconheceis a anatomia?!



MHPinto.
Dar de comer aos que têm fome, estudo. 
c.1902. csp 45,5x55 n.a.|n.d.


Reparemos agora no enérgico estudo de Pinto para Dar de comer aos que têm fome, 1902; ora, na outra ponta do Museu, lá encontraremos o quadro, depois chamado O Almoço - daqui para lá a mulher passou a usar chapéu; e foi com o mesmo chapéu que Malhoa também a pintou noutros dois quadros, mas para os ver é preciso ir a Alpiarça ou ao Rio de Janeiro…




JMalhoa. 
[ O Bêbado ] estudo para A procissão. 
1901. csp 47x31 a.|d.
 Atentemos neste magnífico retrato de [O Bêbado] - um dos primeiros deste modelo de Malhoa, e modelo de muitas telas; num desenho quase contemporâneo deste, com o mesmo casaco à banda, também está no Museu; mas já não o poderemos ver numa das suas maiores representações (esteve, já não está); no entanto, um pouco mais sóbrio, podemos encontrá-lo Lendo o Jornal, 1905; e, logo ao lado, de novo tão perdido de bêbado que nem o grito da filha escuta – Basta, Meu Pai! – também o reencontraremos.


JMalhoa. [ Namoro fantasma ]. 
csp 31x24 a.|n.d.
        

      E as raparigas que sofrem de amores? Estas ou outras parecidas hão-de por lá andar - vamos à sua procura… 
         E, com olhos de ver, de toda a pintura e de todos estes desenhos. Estes e outros tantos. Que são uns belos desenhos. De dois grandes pintores.

 No Museu José Malhoa, nas Caldas da Raínha, até 14 de Julho.



21 Mai. 2013. LBG



[1] Carta de Malhoa a Humberto Plágio, citada por este in José Malhôa (Pintor). Lisboa, 1928. p.26.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Antes da sessão, um Descanso (1894)...



Na 4ª Exposição do Grémio Artístico, em 1894, José Malhoa apresenta dois quadros de Nu – Antes da sessão, 1894, e Descanso, este não datado. Um ao alto, outro ao baixo. Um com a modelo de pé, outro com ela sentada. Ambos pintados ainda no atelier da Academia, ambos com a mesma jovem modelo.
Referidos e comentados pela imprensa da época – sempre eram algo de novo na obra do Pintor – fácil seria a sua identificação [1]. Mas não! Pouco tempo depois já lhe trocavam os nomes e, hoje em dia, não raro ainda atrapalham.


Em Antes da sessão, 1894, Malhoa mostra-nos a modelo de pé, de costas para o observador, frente a um reposteiro verde, aquecendo-se a um braseiro – como o nome indica(va), aquecia-se antes de iniciar a sua sessão de pose. Este quadro foi então doado à Academia como prova de Académico de Mérito. Depois mudaram-lhe o nome – passaram a chamar-lhe Descanso do Modelo. Da Academia passou ao Museu de Arte Contemporânea, deste até às Caldas, ao Museu de José Malhoa, onde hoje o podemos admirar sob este equívoco título.


Na tela Descanso, assinada mas não datada, Malhoa mostra já todo o espaço do velho atelier. Vemos ao fundo o tal reposteiro verde e um biombo – era ali que, ainda há pouco, a rapariga se despiu e se aquecia – percebemos agora! 


Quadros, molduras, o pote dos pincéis, cavaletes, mesas, cadeiras, uma salamandra acesa, a tralha do costume. E a mesma rapariga, agora sentada no escadote de pose, numa pausa do seu trabalho – daí o nome: Descanso. Mais além, também na pausa, o pintor fuma o seu cigarro e observa os esboços que acabou de fazer… isto, ou algum amigo e coleccionador vai vendo alguns novos trabalhos… conforme queiramos [2] Este quadro foi depois até ao Brasil, abrasileiraram-lhe o nome – é agora O Ateliê do Artista – e está no MASP de S. Paulo.

Mas em desenho, a rapariga cá ficou. E é um belo desenho! Preciso, com os contornos e linhas principais bem definidas. Os panejamentos, como transparentes, permitem ver as linhas da construção do escadote. As sombras, que se percebe terem sido bem estudadas na perfeita modelação do corpo, aparecem sumidas, como apagadas. E a quadrícula para transferência está igualmente ténue, como tivesse sido usada no início, numa ampliação anterior. 

José Malhoa. Descanso, estudo. c.1894. Desenho a carvão sobre papel, 62x47. a. | n.d































         Porque, agora, vendo melhor os contornos – e olhando para o verso da folha, onde os mesmos surgem em grosseiro traçado a carvão – tudo aponta para que a derradeira transferência, para a superfície final da tela, tenha sido feita por decalque desta mesma figura… A ser assim – e tal teoria só poderá ser comprovada face ao quadro do MASP [3] – estaremos perante a última vida em papel daquela “moça gostosa” que agora vai torcendo pelo Corinthians com uma pontinha do coração pela Portuguesa.
E tão “gostosa” ela anda [4], ao fim de todo este tempo, que às vezes ainda lhe dão uns vinte e tal anos a menos. É obra, aqui a menina!


[1] Veja-se, a este propósito, a crónica publicada por O Occidente (nº558, 21 Jun.1894, p.146), assinada por Manuel M. Rodrigues, relativa à Exposição desse ano no Atheneu Comercial do Porto. Através dela ficamos a saber que Malhoa levou à Invicta os quadros: A última gota, 1891, Os ouriços, 1894, Antes da sessão, 1894 e Descanso, c.1894. Todos eles estão descritos ao pormenor, não restando dúvidas sobre as obras em causa. Contudo, M. Rodrigues, descrevendo clara e pormenorizadamente os dois últimos, troca-lhes já os títulos. Começa pois, logo no ano da sua apresentação, a saga confusionista... 
(nota acrescentada em 7.8.2013)
[2] Sobre este segundo personagem têm surgido ultimamente naturais desejos de o identificar. Há quem veja ali Silva Porto, o saudoso Mestre do Grupo do Leão, morto precisamente no ano anterior à apresentação pública desta tela, vendo nisso uma homenagem de Malhoa ao velho Amigo, passada já a birrinha a propósito do Marquês de Pombal – pode ser, seria bonito, fisionomicamente difícil. Outros artistas, brasileiros e portugueses, têm sido aventados putativos candidatos ao lugar – incompatibilidades cronológicas ou fisionómicas impedem. Quem sabe, talvez, o Comandante Augusto Cardoso, herói de África, companheiro de Serpa Pinto, membro da Sociedade de Geografia, grande Amigo e Compadre de Malhoa e Henrique Pinto, com quem Malhoa mantinha uma conta corrente – recebia dinheiro emprestado, pagava-lhe em quadros – as circunstâncias e as parecenças permitem-no.
Ou, como diria Maria de Aires Silveira, a propósito d’ O Grupo do Leão, 1885, de Columbano, «…é um desconhecido, um mistério, como convém num quadro desta importância...»
[3] Neste desenho, a figura, da ponta da cabeça à linha onde a nádega assenta no banco, mede 41cm.
[4] «Adere irresistivelmente à retina a longa e elegante extensão das costas que fazem lembrar A Grande Odalisca em mudança de posição. Também esta modelo parece ter, pelo menos, uma vértebra a mais.» - dizem-me aqui ao ouvido.


... e para descanso das nossas cabeças

            Este, um artigo por mim publicado no catálogo A Duas Mãos | Desenhos Inéditos | Manuel Henrique Pinto e José Malhoa, pelo Centenário da morte de Manuel Henrique Pinto, editado pelo Município de Figueiró dos Vinhos - Clube Figueiroense, em Setembro de 2012.
            Agora que a menina está prestes a sair de novo à rua, numa nova apresentação da referida exposição - revista & aumentada e ainda em escolha de Sandra Leandro e minha – e que terá lugar no Museu José Malhoa nas Caldas da Raínha, a partir de sexta-feira, convém acrescentar mais umas coisinhas ao que foi então escrito.
            Tal tem a ver com a hipótese enunciada de «a derradeira transferência, para a superfície final da tela, te(r) sido feita por decalque desta mesma figura…». Dizia então que «tal teoria só poderá ser comprovada face ao quadro do MASP». E como não ando propriamente a brincar – embora possa parecer – a coisa foi confirmada. 
             Graças a ajudas desinteressadas, que registo e muito agradeço, e que foram desde visitas ao MASP armadas de fita-métrica – frustradas, que o quadro não estava lá – até pedidos à Coordenadoria de Acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, a resposta chegou. Não a tempo da edição do catálogo, mas um tempo depois:


...e o pote dos pincéis também 
ainda sobrevive.
«Prezado Sr Luis
Conseguimos fazer as medidas que o senhor solicitou.
Da nuca até o banco dá 33 cm e do topo da cabeça até o banco dá 40,2 cm.
Lamento muito pela demora, mas como disse anteriormente ela estava emprestada a outra instituição e só retornou semana passada ao MASP.
Atenciosamente
Tariana Maici de Souza Stradiotto»


         Confirma-se  assim – os 8mm de diferença são absolutamente desprezíveis e a outra medida também bate certa – que este desenho é mesmo o que terá servido a Malhoa para decalcar sobre a superfície da tela a “moça gostosa” que Descans(ava) no Ateliê do Artista ali na Academia das Bellas-Artes, pelo ano de 1894 – e não noutro qualquer.

E que, a partir do final da semana e até 14 de Julho, poderão ver (ou rever), juntamente com mais dúzia e meia de outros interessantes desenhos - três deles absolutamente inéditos - de Malhoa e Henrique Pinto, no Museu José Malhoa nas Caldas da Raínha.


14 Mai. 2013. LBG


sexta-feira, 15 de março de 2013

Parabéns!


15 de Março de 1853


 
           Eis um postal, datado de 14 março 1908 – num tempo em que, apesar dos comboios serem ainda a vapor e de o percurso entre o Paialvo e Tomar se completar em carruagem de mulas, e ainda sem a modernice da sobretaxa do «correio azul», se tinha a garantia do correio chegar no dia imediato - com carimbo de «Lisboa Central», confirmando a data, sobre estampilha com a fronha do Senhor Dom Carlos, muito simples e sucinto:

            «Manel | - Parabens – | José Malhôa | Julia Malhôa | Mª Rita Malhôa»; mais a data e o endereço do destinatário.


            No verso, já que de um postal ilustrado se trata, uma foto de um grupo de touristes - onde se reconhece o próprio Malhoa, de pé sobre a esquerda - num qualquer passeio por essa Europa fora, num char-à-bancs com cocheiro de cartola e charuto.


            Eis, pois, como Malhoa, a sua Mulher e a irmã Maria Rita, enviaram os parabéns pelo 55º aniversário do amigo «Manel».

            Manuel Henrique Pinto nasceu em Cacilhas, ao que tudo indica [1] a 15 de Março de 1853. Farão hoje precisamente cento e sessenta anos.



          Também este recorte do jornal tomarense A Verdade, de 10.3.1901, assinala tal data, sete anos antes daquele postal.

            De entre um e outro, é este belíssimo retrato de MHPinto a pintar, "concentradíssimo" e de “beiça armada”, na companhia da sua filha Julieta, que vai também riscando algo no caderninho. Datado de 1905, Os Colegas [2] é um grande quadro de JMalhoa que capta, numa alegre nota de côr, toda a intimidade do trabalho do Pintor, do Amigo de toda uma vida, e da sua querida Afilhada. Tudo «colegas» do pincel. 
              E uma boa escolha para assinalar este dia.

JMalhoa. Os colegas, 1905. ost, 53x43.

              Parabéns! pois.


            Ah! e também Parabéns! à Fernanda, uma querida amiga, e à Maria João, a neta da Julieta aqui de cima e que fez o favor de nascer no mesmo dia do Bisavô – um «chi» apertado.  



            15 Mar. 2013. LBG.
             


[1]  Veja-se, contudo, José Abrantes Raposo, in Manuel Henrique Pinto: Vida e Obra, Ensaio Bio-Iconográfico. Almada: Casa da Cerca; Câmara Municipal de Almada, 2002.
Na p.27 desta obra pioneira, o nosso amigo Abrantes Raposo publica, como resultado da sua laboriosa investigação, o Assento de Baptismo de uma criança a quem foi dado o nome de Manoel, filho de Francisco Jorge Pinto e Sebastiana Rosa, e que terá nascido em Cacilhas a 2 de Abril de 1852... Ora, apesar de os pais, Francisco e Sebastiana, serem os mesmos e tal documento dar, evidentemente, que pensar, percebemos também que, entre aquela data e estoutra, medeia tempo suficiente para, caso o pequeno Manoel tenha morrido, como não pouco usual ao tempo, possa ter ocorrido nova gestação e ao novo rebento ter sido dado o mesmo nome do  falecido, como uso também era.
De qualquer modo, o que é certo, como nos dizem várias outras fontes, é que MHPinto e a sua família consideravam o dia 15 de Março de 1853 como o do seu nascimento. Se andaram toda a vida enganados, só uma procura exaustiva nos poderá dizer. Por agora, esta serve muito bem.

[2] Bastas vezes considerado como retratando o pintor Ezequiel Pereira – sabe-se lá porquê?! – não merece dúvidas que tal consideração será erro crasso e recorrente.
Aqui há meia dúzia de anos, julguei que tinha “contratado” quem me “tratasse” do “malandro” do Ezequiel (personagem contra quem nada me move – it's just business…); parece que ainda estrebucha. Um destes dias tenho eu de o “assassinar” de vez...


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Entrudo


A propósito do Carnaval, o «Entrudo» como soía dizer-se, eis uns pequenos apontamentos de JMalhoa que retratam os costumes da época, pelos finais do séc.XIX. E também O Xexé, 1895, tela um pouco maior, que pode ser admirada na Casa-Museu Anastácio Gonçalves.

Entre a folia e o vinho – pois então! – aqui em ambiente claramente urbano – apesar do que possam dizer e bem antes das pielas rurais figueiroenses –  datados quase todos estes estudos pela mesma altura [1]Eis o Entrudo alfacinha, mais ou menos popular, pela última década de oitocentos.


JMalhoa. [Costumes IAgonias!, 1894. osm 18x11.
JMalhoa. [Costumes II], 1894. osm 17x10.
JMalhoa. [Costumes III], 1894. osm 17x10.

JMalhoa.   O Xexé, 1895. ost 27x47. CMAG.

JMalhoa. [Figuras de Carnaval], n.d.11x16,5.

JMalhoa. [Ébrio de costas], n.d. asp 24x24. [2]
Museu Nogueira da Silva, Universidade do Minho.



12 Fev. 2012. LBG.



[1] Embora haja divergência entre 1894 e 1899, quanto à data das três pequenas tábuas de Costumes, consoante as fontes consultadas. Idem quanto às suas dimensões.

[2] A designação deste estudo a aguarela, obviamente não a original de Malhoa, e que me limitei por isso a colocar entre parênteses rectos, já não sei donde surdiu. As imagens estavam em arquivo e muitas já não recordo a origem. Só depois de copiar tomei consciência. Mas é curiosa - «Ébrio...». 
Aparentemente o sujeito estará tão bêbado como os outros - a carraspana, a tosga, a perua deixou-o tão entornado e toldado como aos outros todos… só ainda não deitou a carga ao mar como o primeiro lá de cima - mas não está «bêbado», encontra-se «ébrio». Talvez devido à farpela ou a eventual origem social. Ou porque já é «pintura de casacón», «tableautin», ou lá o que é… Pois que «ébrio» seja!
(E, em verdade, nem sabemos se aqui deveria estar – pode nada ter a ver com os festejos carnavalescos, e ser um estudo para uma decoração qualquer… mas estava aqui à mão.)