sábado, 27 de julho de 2013

Das Memórias de Figueiró II

Um S. Pantaleão muito martirizado

S. Pantaleão é um daqueles santos esquisitos, que quase ninguém conhece e poucos lhe viram a cara. Claro que a iconografia ou a imagem dos santos é coisa que varia muito ao longo dos tempos e das culturas…
Não cabe aqui grande conversa sobre as virtudes ou história do santo, sobre o seu culto e memórias – podem sempre ser consultadas por , sob várias formas, mais leves ou mais sérias.

Para além de um ou outro pormenor mais curioso, S. Pantaleão foi, até há relativamente pouco tempo, padroeiro da cidade do Porto e, há muito sem qualquer celebração religiosa, subsiste em Figueiró dos Vinhos dando o nome à sua Feira Anual. Em ambos os casos, parece que a difusão do seu culto se deveu à acção prosélita de D. Diogo de Sousa (1461-1532), bispo do Porto, arcebispo de Braga, filho dos Senhores de Figueiró. Curiosamente, em todas estas terras o santo popularmente festejado é, há muito, S. João. Pantaleão tem vindo a cair no esquecimento, pelo menos quanto à sua devoção…

Iconograficamente podem existir algumas dúvidas. «Há representações de São Pantaleão crucificado numa aspa, martírio semelhante ao de Santo André» - dizem. Além disso também se confunde por vezes a sua imagética com a de S. Sebastião – pode parecer-se com este, mas com menos “buracos” de setas… 
Mas aqui (vale a pena ler mais - a meio do artigo) um texto que tira as dúvidas: «Na história hagiográfica deste santo (…) aparece a sucessão de uma série de martírios que Pantaleão superou com a coragem de um leão, os quais têm a aparência inconfundível de um processo iniciático superior em que intervêm os quatro elementos naturais (ar, fogo, água, terra) (…) E logo depois deu-se a consumação do seu martírio, preso a uma oliveira – árvore sagrada no contexto religioso mediterrâneo – (…) fazendo este Mestre com que a sua quintessência da vida que é o sangue, fizesse florescer a árvore e dar frutos …». Trocando por miúdos – parece que o tentaram matar de várias maneiras e todas falharam, acabando por o atar a uma oliveira e o decapitaram, o sangue do mártir terá feito a velha árvore rebentar de novo.

Portanto, na imagética, S. Pantaleão não aparece «crucificado numa aspa» mas atado a uma oliveira. Tal como nesta imagem, provavelmente do séc. XIX, existente por Terras do Bouro.




Eis pois, não contando com as relíquias tardo-medievais aqui evocadas num belo texto de D. Manuel Clemente , a representação de S. Pantaleão, o patrono da feira de Figueiró dos Vinhos.

 Mas uma pergunta subsiste – para ainda dar nome à feira anual, por certo, em algum tempo, o santo deverá ter tido especial devoção… Nada resta? talvez, por hoje, disfarçado de algum S. Sebastião numa capela escondida? nem isso?


Resta pelo menos este. Uma pequena imagem (c.24cm) de S. Pantaleão, atado à oliveira e com algumas chagas dos tormentos. Aparentemente do séc. XVII ou XVIII, em mau estado de conservação, já sem o braço direito (que o colocaria, provavelmente, numa posição simétrica do outro, o do Bouro), com falhas e defeitos, um S. Pantaleão oriundo de Figueiró dos Vinhos. E, ao que tudo indica, da Cerca das Freiras… Tudo o mais que possa ser dito serão suposições.

27 Jul. 2013 (dia de S. Pantaleão). LBG


...Mea culpa !

No que acima está dito, com a pressa, por esquecimento ou ignorância, ficou algo por dizer.

Melhor, foi dito com ar definitivo «na imagética, S. Pantaleão não aparece “crucificado numa aspa” mas atado a uma oliveira». Sendo em parte verdade, como vimos pela história do santo, não o será totalmente. Acontece bastantes vezes S. Pantaleão surgir representado atado à dita árvore, mas com a forma clara de uma aspa (ou cruz de S. André). Como se pode ver nesta bela imagem existente na Sé do Porto e referida aqui, em mais um artigo que ajuda a compreender esta estória.






Ora, claramente dentro desta mesma tipologia, podemos encontrar uma também interessante imagem de S. Pantaleão na Igreja Matriz de S. João Baptista em Figueiró dos Vinhos. Á vista de todos. E desta, é que eu me esqueci!
No retábulo à esquerda da Capela-Mor – o agora presidido por uma imagem mais recente do S. S. Coração de Jesus – lá está a imagem de S. Pantaleão, o patrono das Festas da Feira Anual. Atado à oliveira, mas com os ramos cruzados em X.

Como suspeitava, não numa «capela escondida» mas na Matriz da Vila, subsiste, e ainda bem, a imagem do santo que em tempos deve ter sido objecto de devoção importante das gentes figueiroenses. “Disfarçado” de S. Sebastião – e de tanto o ter ouvido, também eu já estava convencido – lá está ele, o médico mártir de Nicodémia.

S.Sebastião.
Imagem existente no Convento do Carmo, 
Figueiró dos Vinhos.
O corpo nu, já sujeito aos vários tormentos e pronto a ser decapitado, miraculosamente não apresenta praticamente marcas do padecimento, salvo a queimadura junto ao peito. 

Ao contrário das representações de S. Sebastião, normalmente prestes a agonizar, crivado de setas, flechas ou virotes, ou das respectivas marcas, como nesta imagem existente no Convento de Nª Sª do Carmo, ao fundo da Vila. Este, sim, é S. Sebastião. Mais "buraco", menos "buraco".

Fica a rectificação.


7 Ago. 2013. LBG

            


domingo, 21 de julho de 2013

“Ó Ernestina, vamos embora…

qu’isto foi tudo uma grande aldravice!”

           Eu sabia que tinha. Não sabia era aonde. Mas, um destes dias, lá me apareceu. Por isso aqui se partilha. Não só de coisas boas, também da ranhosice se escrevem estas estórias.
Hoje servimos um prato frio, filho de pai (ou mãe) incógnito, e falso como Judas! Ranhoso e rançoso. Manhoso. De quinta categoria. Do qual não valeria muito falar, não fora começar a ser useiro e vezeiro citá-lo, em todo ou em parte, como se fosse de primeira apanha.
Não é. E, antes que a moléstia alastre, o melhor é cortar cerce, matar de vez, acabar com a peste.

Trata-se de um famigerado postal, alegadamente de JMalhoa, supostamente dirigido à irmã – resta saber a qual delas? – surdido não se sabe bem donde nem como, e que, convenientemente, tal como surgiu, também desapareceu.
Desaparecido – ainda bem e já lá iremos – continua, contudo, a dar-nos cabo da paciência. Porque, volta e meia, por ignorância ou desleixo, lá temos uma frasezinha da fraudulenta missiva com honras de citação nalgum trabalho de mérito aparente. O que cheira logo a esturro e estraga tudo!

Ao que parece, o postalito fatela era tesourinho - «deprimente», pois claro! - do antigo CCFV [1]. Tal como outras coisas que nunca vi, mas ouvi falar - e refiro um dos alçados originais do projecto da ampliação do «Casulo», 1898, do Arq. Luiz Ernesto Reynaud [2]  – ter-se-á, entretanto, sumido!
Resta, do dito postal, a reprodução fac-similada publicada em 1995 [3] que aqui se mostra. E, graças às novas tecnologias, em melhor tamanho, para tirar todas as dúvidas.


Já agora, também se transcreve na íntegra. Para não haver desculpa e não mais alguma destas frases torpes e apócrifas voltar a ser citada como se da pena malhoesca proviesse.

«Figueiró dos Vinhos 
21 Agosto 1898
Caríssima irmã, desculpa a demora das minhas noticias mas, o clima e a beleza desta magnifica região têm-me prendido, como sempre.
A riqueza paisagística, a luz, as cores e a autenticidade desta gente constituem a fonte de inspiração ideal para o meu pincel. Sinto que vou passar aqui a fase mais importante da minha vida, por isso, decidi construir um Atelier e uma casa para me radicar futuramente.
Recebe um grande abraço
o teu irmão
José Malhoa.»

Ora, tudo isto é triste, tudo isto é falso!
Basta olhar e ver - não engana ninguém, sequer algum parvo.

A caligrafia não é de Malhoa - e não é preciso um grande grafologista para o afirmar. A conversa e os termos, simpaticamente convenientes para peculiares modos de fazer, estão longe do léxico e cânones malhoescos. Quanto à ortografia, o(a) autor(a) [4] da macacada nem se preocupou em arremedar algo mais de acordo com a época da putativa datação. E a pontuação é de anedota, não fora triste.
É tudo fraude, da mais reles, irreproduzível e irrepetível…
Quanto à assinatura, um pouquinho mais cuidada, até pode ser que seja - não direi terminantemente que não… Em tal mas pouco provável caso, seria interessante ver o outro lado do postal – esta a única razão para lamentar o sumiço do original – pois apostaria que, no verso (ou de caras), o mais provável seria encontrar o nosso amigo Malhoa bem maduro, numa qualquer foto dos anos 20…
No meio de tanta baixeza, o suporte, o impresso da «Union Postale Universelle» deve ter sido a única coisa verdadeira. E nada mais há a dizer.

Aniquilado o estropício, enterre-se bem fundo, sem lhe rezar pela alma, sem lhe evocar pai ou mãe. E esqueça-se! Esqueça-se tudo! De uma vez por todas.
Eu, por mim, já esqueci.

Mas – e aviso já – se me aparece pelas trombas, mais alguma vez, uma das frasezinhas manhosas - «A riqueza paisagística… etc.», «…a autenticidade desta gente… e tal», «rebéubéu... para o meu pincel», «não sei quê… para me radicar futuramente» - e como não posso puxar da pistola (que não sou Goebbels - cruzes, credo! - nem citar frase trafulha será acto de Cultura), como não poderei cuspir (pois assim me ensinou minha Mãe, e tal patranha não consubstancia propriamente um qualquer mais odiento ministro), restar-me-á gritar a indignação (como a outra, farta das manigâncias do António Silva para coroar a Beatriz Costa raínha das costureiras lá do bairro [5]) e exclamar meio abespinhado: 
- "Ó Ernestina, vamos embora… qu’isto foi tudo uma grande aldravice!" 

«E toca o hino!»   



 21 Jul. 2014. LBG.




[1] Centro Cultural de Figueiró dos Vinhos – instituição, inicialmente com algum trabalho de mérito, que foi a proprietária do «Casulo» de Malhoa desde a sua aquisição pela Câmara Municipal em meados da década de 1980 até há relativamente poucos anos, quando o edifício, algo degradado, foi de novo adquirido e reabilitado pelo Município.

[2] Supostamente um dos outros três semelhantes a este que aqui se mostra. Como é evidente, deverão ter existido quatro – cada um representando uma das faces do novo edifício. Este sobreviveu, sabe-se como e conserva-se em razoável estado; dos outros desconhece-se paradeiro. Fonte credível assegura-nos que até há relativamente pouco tempo um deles estaria dependurado na antiga cozinha do «Casulo»…

Luiz Ernesto Reynaud, arqtº. 
Alçado lateral
Projecto de ampliação do «Casulo», 1898.
Desenho aguarelado, esc. 1:200



[3] Homenagem a José Malhôa (1855-1933): Centro Cultural de Figueiró dos Vinhos: 1995. – um folheto de poucas páginas, também meio desaparecido, felizmente ausente da colecção online da Biblioteca Municipal Simões de Almeida (tio), e que não deixa saudades.
Para além de reproduzir a “maravilha histórica” que hoje se mostra, ali se transcreve, logo na pág. seguinte, um artiguelho do “Almanaque Bertrand” – 1944, onde a única coisa certa deve ser a palavra «Malhôa», tal o chorrilho de inverdades e confusão de acontecimentos descritos em catadupa. Manter a “coisa” ignorada é, assim, uma medida de higiene.

[4] Não sei, nem interessa agora saber, a autoria da fraudezinha de trazer por casa, mas a letrinha tem um não sei quê…

[5] Cena do filme A Canção de Lisboa, 1933, do Arqtº. J. Cottinelli Telmo (1897-1948), que vale sempre a pena ver de novo – aqui, logo aos 2:17.



domingo, 7 de julho de 2013

Ainda sobre a arte da juventude

No artigo anterior, a propósito de uma das exposições agora patentes no Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos, referem-se algumas fotografias e imagens da época. O espaço e a necessidade de mostrar antes do mais as Obras ali expostas, levou a que algumas dessas fotos tenham ficado por revelar.
Para uma melhor compreensão do texto anterior, mostram-se agora todas elas. Repetem-se algumas com novas legendas, e acrescentam-se as outras, as que ficaram no tinteiro. O texto pode sempre ser relido mais abaixo…




















José Malhoa, aqui fotografado cerca de 1874, aos 19 anos.


No verso da foto, dedicatória a M.H.Pinto …no dia em que ia «entregar a primeira carta à manasinha», datada de 2 Out. 1874.
Hoje em dia não sabemos muito bem quem seria esta «manazinha», mas se trata de namoro, talvez já a Juliana Júlia - com quem Malhoa se viria a casar em 29 de Janeiro de 1880.













Manuel Henrique Pinto fotografado provavelmente pela mesma altura, então com 21 anos. 
Note-se a semelhança dos chapelinhos…
























Manuel Henrique Pinto 
José Malhoa, fotografados possivelmente no ano seguinte, c.1875. 
Pinto de pé, Malhoa “pintando”.
O chapelinho do ano anterior lá está, pendurado no cavalete. O lacinho, meio à-Lavallière, também já aparece. E reparemos bem na tela que Malhoa faz que pinta, e na outra, no chão, que aparece por detrás das pernas de Pinto…

Manuel Henrique Pinto 
e José Malhoa
em mais do mesmo. 
Agora em troca de posições – Pinto, sentado, “esboça” algo sobre a tela branca, Malhoa observa.
Pelas indumentárias, poucas dúvidas subsistem que esta foto é contemporânea da anterior.
Também as fotos surgem a par.



























Pormenor da primeira foto: a tela que está no chão por entre as pernas de Pinto. 
Tal tela é a mesma que podemos ver ali


Outro pormenor da primeira foto: a mão de Malhoa sobre a outra tela, a que está no cavalete. A mesma tela que também podemos ver no artigo anterior




















João Rodrigues Viera (1856-1898), José Moura Girão (1840-1916), Veríssimo José Baptista (?), Manuel Henrique Pinto (1853-1912), João Vaz (1859-1931) e, em baixo, José Malhoa (1855-1933). Todos condiscípulos da Academia das Belas Artes. Todos, à excepção do amigo Veríssimo que trocou os pincéis por outra vida, membros do futuro Grupo do Leão. Retratados, mais ou menos ainda pela mesma altura, numa foto, como todas as anteriores, de «J. Loureiro, Fº, Calçada do Duque, 18».

João Rodrigues Vieira, então ainda dedicado à Escultura, é o autor do Retrato de J. Malhoa, 1874, um medalhão em gesso que também ali se mostra.





Requerimento à Academia Real das Bellas Artes, datado de 16 de Março de 1875 – um dia depois de completar 22 anos – onde Manuel Henrique Pinto pede seja passada certidão com o resultado do concurso ao lugar de pensionista do Estado no Estrangeiro.
No canto superior esquerdo, o despacho assinado pelo escultor Francisco de Assis Rodrigues, então Director Geral da Academia - «FAssís, DG.»
A mesma assinatura que atesta, no verso da tela Cabeça de cavalo, 1875, de Malhoa, que tal pintura foi executada como trabalho da Academia…


No verso, a certidão passada e assinada por Joaquim Pedro de Souza, Secretário da Academia.















Foto do verso do Retrato de minha Mãe, 1872, de J. Malhoa.
Como se pode ver, Malhoa usou as costas de uma estampa de geometria para desenhar o retrato de Ana Clemência. Ainda estudante e apenas com 17 anos, o papel era coisa cara e havia que aproveitar tudo…








José Malhoa “pintando” a cabeça do «Salero», c. 1882. Fotografia de Carlos Relvas (1838-1894) executada no seu estúdio da Golegã.
Esta foto, mais ou menos inédita [1], documenta, muito provavelmente, o início da longa relação entre Malhoa e a família Relvas – primeiro com o pai Carlos, depois com o filho José, primeiro na Golegã, depois em Alpiarça…
Aqui vemos um dos primeiros estudos para o retrato do Cavalo «Salero», 1882, mas, pelo que é possível descortinar, talvez ainda não o estudo conhecido, a Cabeça do Cavalo «Salero», 1882, ambos – o retrato do cavalo inteiro e o tal estudo da cabeça – apresentados na 2ª Exposição de Quadros Modernos (Grupo do Leão) e hoje no espólio da Casa dos Patudos. Esta cabeça, que aqui vemos no cavalete, parece ser um estudo ainda preliminar (ou será a mesma, resultado de a esta se ter acrescentado mais uma fatia de tábua?). 
Carlos Relvas registou, nesta bela foto, talvez o primeiro esboço do primeiro trabalho para o qual chamou o ainda jovem Pintor.
Depois do retrato do «Salero», Malhoa irá pintar para os Relvas muita coisa – o próprio Carlos Relvas a cavalo no «Salero», a Mulher de Relvas, a Filha de Relvas, Relvas montado no «Rolito» e o «Rolito» sem Relvas e, ainda, Relvas sentado e sem cavalos - mas isso é depois. 
Como depois repetirá o rol com José Relvas, a Mulher deste e os seus Filhos, substituindo cavalos pelo cão, o «Kaiser»…
Todavia o primeiro trabalho de Malhoa para Carlos Relvas, ainda em 1882, terá sido este - retratar-lhe o seu querido «Salero». Foi de propósito à Golegã e tudo. Quem sabe, chamado, porque Relvas - o pai Carlos - tenha visto uma outra Cabeça de cavalo pintada por um jovem promissor uns anos antes...?

No verso da fotografia, magnificamente impresso com as medalhas e prémios conquistados por Carlos Relvas, a dedicatória de Malhoa  «À Exmª Snrª D. Maria da Conceição Almeida», a tia de Simões d’Almeida que os havia hospedado – a ele e a Pinto – aquando da primeira estada em Figueiró.
Está datada de 31 Agosto 1883, e assinala o início de uma outra história…







7 Jul. 2013. LBG.








[1] Muito semelhante a uma outra, publicada em 1885 em o Occidente, a propósito da 4ª Exposição do Grupo do Leão (1884), numa gravura onde surgem reunidas as fotografias dos nove Artistas expositores desse ano e a de Alberto Oliveira. 
Isto sugere, portanto, que essa outra foto de Malhoa é também da autoria de C. Relvas e anterior, um bom par de anos, à sua publicação pelo Occidente.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Na infância de um museu, a arte da juventude



Manuel Henrique Pinto (1853-1912) e José Vital Branco Malhoa (1855-1933), ainda quase meninos, encontram-se pela primeira vez na Academia Real das Bellas Artes de Lisboa. Um vinha de Cacilhas, do outro lado do Tejo, num tempo sem cacilheiros, e nos primeiros anos faltava muito às aulas, por isso se mudou para a cidade. O outro, parece que com uma perna partida, veio das Caldas da Raínha para casa do «mano Joaquim» a fim de curar a mazela e abraçar vida nova. 
Acabaram por se juntar nas aulas e corredores de S. Francisco e fizeram-se amigos para toda a vida. Dos professores que ali tiveram, sem esquecer Thomaz José da Anunciação (1818-1879) e Miguel Ângelo Lupi (1826-1883), dois houve que mais os marcaram – Joaquim Gregório Nunes Prieto (1833-1907) e José Simões d’Almeida júnior (1844-1926) [1].


J.Simões d'Almeida júnior, M.Henrique Pinto
e  J.Malhoa, em Figueiró, c.1898.
Anos depois, no começo da aventura do Grupo do Leão, já homens feitos e pintores a fazerem-se, é este antigo Mestre, agora também um amigo, que os traz até Figueiró (1883) - «…venham para a minha Terra, que têm muito que pintar!». E eles vieram… - a história é já sabida.


J.Simões d'Almeida (sobº) e o primo Luiz A.Pinto,
no atelier do escultor,
pelos finais da primeira década de 1900.
O Pinto logo aqui casa com uma prima do Simões, a Maria da Conceição (1859-1941). O casamento (1885) é apadrinhado pelo Malhoa e pela sua mulher Júlia (1853-1919), casados já para cinco anos. Para cinco anos também, Mª da Conceição e o primo Simões haviam apadrinhado [2] um sobrinho comum, o «Zézito». Levou o nome do tio escultor e também o seu destino. Mais tarde, ao assinar na pedra ou no barro e para se distinguir do outro, teria de acrescentar ao seu nome de baptismo a palavra «sobrinho». José Simões d’Almeida, sob.º (1880-1950) foi mais um dos Artistas maiores que, do Cimo da Vila à Fontinha, por opção ou por berço, desta fizeram a sua Terra.


Muito justamente, é com os quatro de novo juntos que se inaugura o Museu e Centro de Artes Municipal de Figueiró dos Vinhos.


Mas aqui uma outra história. Um bocadinho daquela que não foi contada ainda. A história de Henrique Pinto e José Malhoa ainda jovens, enquanto estudantes das Bellas Artes ou, logo depois disso, cheios ainda de sonhos e candidatos aos concursos para pensionistas do Estado no estrangeiro. 


J.Malhoa e M.Henrique Pinto, c.1874. Ambas as fotos de «J.Loureiro Fº, C.do Duque 18».
A primeira, com dedicatória assinada por Malhoa, está datada de «2/10/74»

          A história que nos contam algumas fotos e uma dezena de obras da juventude, velhinhas e marcadas pelo tempo, mas que conseguiram chegar aos dias de hoje.



Comecemos por um interessante Desenho de Ornato, a carvão, não datado mas assinado «J. Malhôa» e com uma curiosa nota manuscrita «prova d’exame 1º(?) ano escola de Bellas Artes», tendo ainda, na sua parte superior e agora escondido pelo passe-partout, a indicação «Nº 5». A assinatura e a nota serão posteriores mas da mão do próprio. Estaremos, a ser assim, perante um dos primeiros desenhos de Malhoa enquanto aluno da Academia, talvez ainda anterior à data agora atribuída, c.1870. 


Com mais certezas, porque assinados e datados na altura da feitura, outros três desenhos a carvão de Malhoa. Por certo cópias de estampas, ainda ao jeito do Romantismo, que a «tomada do Natural» era prática que estava por vir. Duas Paisagens, ambas datadas de 1870 – aos quinze aninhos, portanto – soturnas e dramáticas, soando a Wagner e a florestas bávaras, muito longe do sol aberto da Lavandeira.
















E, do ano seguinte, Uma ninhada, 1871, com cadela meio escanzelada e hortaliça estrangeira…
















Para finalizar esta pequena mostra de desenhos, o Retrato de minha Mãe, 1872, onde o jovem Malhoa, então com 17 anos, retrata Ana Clemência. Um carvão ainda tímido de traço, que o Artista sempre guardou zelosamente e cujo destino, a par do «retrato da minha falecida mulher», deixará bem determinado, e que nos é dado ver agora…





Retrato, este do próprio Malhoa - e para lá das várias fotos da época [3] que também se reproduzem - é o medalhão em gesso da autoria de João Rodrigues Vieira (1856-1898). Condiscípulo na Academia, companheiro no futuro Grupo do Leão, escultor promissor, pintor e professor de desenho depois, Rodrigues Vieira regista neste Retrato de Malhoa, 1874, o perfil do colega aos dezanove anos. Que se conheça, é o primeiro retrato de Malhoa, ainda imberbe, ainda estudante das Belas-Artes, feito por um Artista amigo.


Só anos mais tarde, primeiro no óleo (1882) de António Ramalho (1859-1916), depois na galvanoplastia (1883) [4] de Simões d’Almeida e, finalmente, no célebre retrato colectivo de O Grupo do Leão, 1885 [5], de Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929), teremos outras representações de Malhoa, então já homem feito.


Talvez ainda por esta altura, cerca de 1874, talvez um pouco antes, foi tempo de deitar tintas às telas – melhor, a pequenos cartões ou a estes colados sobre fracas tramas, que as boas eram coisa cara. Suportes frágeis, pouca longevidade tiveram. Estes, em muito mau estado [6], serão dos poucos a chegar até nós.

 Nabos e cenoiras, c.1874, e mais outros tubérculos, muito provavelmente de Henrique Pinto, é um exercício de pintura ainda ao gosto antigo, daquele em voga nas exposições da velha Promotora – «essas pintadas exibições ortículas» [7]. Uma pequena mas bela amostra do que então se fazia.

Como em todas as boas histórias, há também a parte do mistério – «mas quem será…?». Um par de pinturas - Barros e plantas - gémeas na temática, no suporte, no tamanho, mesmo na forma de pintar. E dois Pintores, ainda verdes mas sonhadores, que se fazem retratar com elas, como se fossem as suas obras primas – as primeiras, bem entendido. A foto, que também tem par, foi revelada há um ano [8], as obras são-no agora.


M.Henrique Pinto e J.Malhoa, c.1875
A(s) foto(s), uma pintando a outra desenhando –  e interessa agora só a primeira – pode ser datada com razoável certeza pelo início do ano de 1875 – outras, uma com dedicatória do ano anterior, mostram os retratados ligeiramente mais jovens e mais magros. Nesta, Manuel Henrique Pinto está de pé, enquanto José Malhoa faz que pinta. Sobre o cavalete, um quadro – precisamente um destes – no chão, meio encoberto pelas pernas de Pinto, uma outra pintura – nem mais nem menos que o outro quadro aqui presente.

Que importância teriam estas pinturas para os Pintores as levarem ao estúdio e se fazerem retratar com elas? Seriam as provas finais do curso, ou as provas de concurso? Não o sabemos; sabemos que as guardaram e conservaram. E, partindo do princípio que cada uma é de cada qual, é a de Malhoa a que este finge pintar e a de Pinto a que está junto a si? Ou os “malandros” levaram a encenação tão a sério que nos trocaram as voltas? Talvez nunca o saibamos; sem marcas, sem assinaturas, permanecerão um mistério [9]. Mas são marcas de uma sã camaradagem e de um começo de vida artística que muitíssimas vezes continuaria a ser feita a par.



Por fim, já em tela razoável, assinada e datada «JMalhoa 1875», com a rubrica de Francisco de Assis Rodrigues, Director Geral da Academia, «FAssís, DG.», pelo tardoz, indicando claramente que foi um trabalho de exame ou concurso, temos uma Cabeça de cavalo, 1875. Feita aos vinte anos, era uma cabeça que prometia…
Sem muitas fontes onde confirmar, resta alguma especulação.



Pela certidão [10] passada a Henrique Pinto por ocasião do «concurso ao logar de pensionista em pintura de paisagem» desse ano, ficamos a saber que este apresentou, na 3ª prova, a «cópia d’uma cabeça de cão, do natural e na mesma dimensão, foi qualificado – bom». É provável que tal cabeça seja o Retrato do Néné, mais tarde mostrado, já «Pert (encente) ao sr. P. da Costa», na primeira Exposição do Grupo do Leão (1881) – dessa obra apenas se conhece a gravura então publicada no catálogo.

Não sabemos se, no tal concurso onde ambos participaram, o cão era modelo comum e único ou se, eventualmente, Malhoa terá ido de cavalo. Se assim foi, é muito possível que esta seja a sua obra concorrente - fica a hipótese. E a cavalo galopam depois mais umas tantas histórias...

Anulados os concursos, este como o anterior - coisa sabida - não se julgue que o desalento venceu, e foi «partir paletas e pincéis…» como sói dizer-se. No verão desse mesmo ano, Henrique Pinto, talvez animado com o «bom» que lhe valeu o canídeo, renova matrícula [11] - «… tendo acabado a aula de pintura da paysagem (…) deseja aperfeiçoar-se no estudo da pintura de animaes…». E José Malhoa, segundo outros registos [12], anos depois também ainda por lá andaria… Que o estudo e o trabalho nunca fizeram mal a ninguém - mal é os não ter.

Sem falar por contar, sem fadas ou quimeras, aqui ficam alguns pedaços desta parte da história. Resta sempre por dizer. «E era uma vez…» - vamos a tempo de recomeçar - olhando de novo cada desenho, cada quadro, de dois meninos que um dia quiseram ser Pintores…

             Estas, e mais outras - bem como Obras de José Simões d'Almeida júnior e de José Simões d'Almeida (sobrinho) - podem ser vistas, até finais de Outubro, no Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos. 


Jun. 2013. LBG




[1] «…dois grandes mestres» - dirá Malhoa. E referindo-se mais particularmente a Simões - «uma influência enorme no desenho». Carta citada por Humberto Plágio, in José Malhôa (Pintor). Lisboa.1928. p26.

[2] Sem absoluta certeza, ou foi Mª da Conceição ou a Mãe desta, também Conceição, a madrinha de Simões (sobº) - as fontes não são claras. De qualquer modo a história será parecida e fica toda em família…

[3] De arquivo particular.

[4] Ambas as obras no acervo do Museu José Malhoa, Caldas da Raínha.

[5] No acervo do MNAC – Museu do Chiado, Lisboa.

[6] Registe-se o paciente e laborioso trabalho de Paulo J. Ricardo da Cunha na recuperação possível das obras agora apresentadas.

[7] João Ribeiro Christino da Silva, in Estética Citadina. Lisboa: Imprensa Libanio da Silva. 1923. p.28. Onde nos explica ainda, a propósito da Sociedade Promotora das Belas Artes: «Depois dos tempos áureos dessa Sociedade, aí entre 1855 e 1865 em que os mais notaveis artistas de então ali apresentavam as suas melhores telas e esculpturas, (…) depressa veio a decadência, (…) o que abundava mais nos últimos certamens eram barcos de guerra e mercantes sábiamente pintados de cór, ou amplas telas com várias ortaliças, parecendo o salão uma sucursal da Praça da Figueira».

[8] Ver: A Duas Mãos | Desenhos inéditos: Manuel Henrique Pinto (1853-1912) e José Malhoa (1855-1933): Pelo Centenário da morte de Manuel Henrique Pinto. Figueiró dos Vinhos: Clube Figueiroense; Município de Figueiró dos Vinhos. 2012.

[9] Durante mais de meio século a coisa esteve mais ou menos clara: o quadro do vaso caído, o que na foto aparece no chão junto a H. Pinto – do outro nem se sabia a existência - era “um trabalho escolar de Malhoa”. Uma leitura mais atenta da foto e a redescoberta do outro quadro, tudo põem em causa. Mais a mais, que a tradição oral vale o que vale, e a mais próxima, nestas coisas e muitas das vezes, é a mais traiçoeira...

[10] Em arquivo particular.

[11] FBAUL. [Disponível na Secretaria da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa] – Requerimento apresentado por M. H. Pinto, datado de 17.6.1875 – consulta feita pela Professora Sandra Leandro, a quem muito agradeço a disponibilização, colaboração e crítica.

[12] AHFBAL. [Disponível no Arquivo da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa] – Registo de matrícula: «Curso de Pintura Historica | José Victal Branco Malhoa, 27 anos | filho de Joaquim Malhoa | morador na Rua da Oliveira ao Carmo nº9 | profissão estudante | Aula de Modelo Vivo | 23 de Outubro de 1882 | Aluno Voluntário».