quinta-feira, 24 de setembro de 2026

«O tempo quer seringar-me, mas eu f…..o-o!»




«Por aqui um tempo medonho e eu dentro do atelier, quasi as escuras, vou jogando a Cabra Cega com os pinceis, tela e tintas! De vêz em quando olho pª fora, e vendo o ceu cinzento e bategas d’agua, deito-lhe a língua de fora, e volto as costas… por despreso.
        «O modelo em que estou trabalhando é o mesmo que me serviu pª o “Grão de bico” – Vamos a vêr se faço asneira! Acabo de preparar o Campo de batalha, que é: tela, pinceis, tintas cavalete, tudo no seu lugar, e aqui vim escrever-lhe estas linhas enquanto o modelo não vem! -»

«Figueiró Vinhos 3 Outº 1912»


«O tempo quer seringar-me, mas eu f…..o-o! Estou a pintar dentro de casa! O modelo é o do Grão de Bico, mas, desta vez a comer uma talhada de melão! 
           «Só a desenhar, tenho três sessões!!»

(não datado, provavelmente 4 Out. 1912)

 

«Tenho o meu homem da talhada de melão quasi esboçado.»

(«Figueiró dos Vinhos | 5 Out 12» - carimbo CTT)        


 


«Mando á exposição da Sociedade Nacional de Bellas Artes, a cabeça do homem do melão, só para que não digam que estou zangado com a Sociedade. […] Um abraço do seu | José M.

           «Figueiró dos Vinhos, 13 Abril 1914»



    José Malhoa - «Saboreando», 1914. óleo s/ tela, 58x72cm.

    Em leilão, por estes dias, na Cabral Moncada Leilões.
    


Notas: 
.Trechos escolhidos de cartas ou postais de José Malhoa para Cruz Magalhães, datas assinaladas no texto - acervo da Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos.
. Imagem: Cabral Moncada, Leilões – Catálogo do Leilão 242.  



24 Set.2026. LBG




quarta-feira, 12 de agosto de 2026

A ver o Eclipse

    « Livro de Receitas / Despezas
    « Maio de 1900
    
    « 28 _ Nesta data fui com a Julia a Viseu vêr o eclipse,
              despeza nesta viagem   ______________________  14$000 »





















12 Ago.2026. LBG
 

terça-feira, 28 de abril de 2026

«Quem espera, desespera…»

              

             Hoje, 28 de Abril, seria o dia do aniversário de Malhoa.

          Apenas conhecida através do Livro da Homenagem ao Grande Pintor José Malhoa | Realizada com a exposição das suas obras, na Sociedade Nacional de Belas-Artes em Junho de 1928, esta pequena tábua - 37x45, segundo o catálogo -, aparentemente não datada e ali indicada como sendo de «192?», segundo a mesma fonte pertencente então ao «Ex.mº Snr. Eduardo Honório de Lima – Pôrto», tinha no Catálogo o nº 113 e reprodução a p&b na estampa LVI. Ao que parece, estará agora no MNSR, no Porto.

          É um quadrinho muito interessante. Pintado seguramente em Figueiró dos Vinhos, é um daqueles quadros onde Malhoa regista cenas da vida burguesa sob as faldas do Cabeço do Peão – que não eram só “labregos” ou “avinhados”, “lavouras” e “misérias”…

          A moça - que não sei quem fosse, nem me deito a adivinhar para não entrar na asneira costumeira – espera, bilhete ou carta na mão, por quem a irá levar ao correio que não tardará a partir…

O cenário, esse é evidente: uma das janelas do Atelier do «Casulo» - uma daquelas que desapareceram – e, através dela, vemos ainda dois dos prumos, então ainda em madeira, da varanda alpendrada, e também a esquina exterior da Sala logo ao cimo da escada que sobe à varanda. Percebemos ainda que a caixilharia era então azul e branca, mas já a precisar de uma demão.
No interior, a cadeira “de rabo de bacalhau”, se não é uma das que ainda por lá há, é muito parecida – não tem, de certezinha, é aqueles avivados doirados que alguém elucubrou… E o estuque era pintado a rosa-velho – vestígio que, não há muito tempo, ainda se vislumbrava na parte superior da cave aberta pelos anos 80, logo acima da cortina de betão.
O cavalete do Pintor também se percebe onde estaria: mais ou menos a meio do Atelier, junto ao arranque dos degraus que subiam para a habitação.
 
Para se perceber tudo, fica um desenho. O alçado esquemático da fachada principal do «Casulo», e a planta aproximada do piso térreo do conjunto – tudo como então era. E a encarnado, a eventual tomada de vistas.



Ah! Aquela “geringonça” sobre a porta de entrada no Atelier, ao jeito de “pedra de armas”, era mesmo uma Paleta de Pintor atravessada por dois Pincéis! – Aqui, logo acima da cabeça da Maria “dos Pintaínhos”.

Só mais duas notas:
          A tábua azul do peitoril faz lembrar, e tudo indica assim ser, a que vemos em «Ai, credo!», 1923, e no «Homem da gaiola», possivelmente pela mesma data. Ou seja, aquela mesma janela - ou a do lado - tanto serviu de poiso à mocinha burguesa - com almofada de recosto, evidentemente - como aos braços fortes e rudes do homem de foice ao ombro...
        Por fim, os meus maiores agradecimentos à Teresa e à sua preciosa ajuda a transformar uma imagem meio torta numa coisa decente. Grande beijo.
 

28 Abr.2026. LBG

 

sexta-feira, 24 de abril de 2026