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terça-feira, 28 de abril de 2026

«Quem espera, desespera…»

              

             Hoje, 28 de Abril, seria o dia do aniversário de Malhoa.

          Apenas conhecida através do Livro da Homenagem ao Grande Pintor José Malhoa | Realizada com a exposição das suas obras, na Sociedade Nacional de Belas-Artes em Junho de 1928, esta pequena tábua - 37x45, segundo o catálogo -, aparentemente não datada e ali indicada como sendo de «192?», segundo a mesma fonte pertencente então ao «Ex.mº Snr. Eduardo Honório de Lima – Pôrto», tinha no Catálogo o nº 113 e reprodução a p&b na estampa LVI. Ao que parece, estará agora no MNSR, no Porto.

          É um quadrinho muito interessante. Pintado seguramente em Figueiró dos Vinhos, é um daqueles quadros onde Malhoa regista cenas da vida burguesa sob as faldas do Cabeço do Peão – que não eram só “labregos” ou “avinhados”, “lavouras” e “misérias”…

          A moça - que não sei quem fosse, nem me deito a adivinhar para não entrar na asneira costumeira – espera, bilhete ou carta na mão, por quem a irá levar ao correio que não tardará a partir…

O cenário, esse é evidente: uma das janelas do Atelier do «Casulo» - uma daquelas que desapareceram – e, através dela, vemos ainda dois dos prumos, então ainda em madeira, da varanda alpendrada, e também a esquina exterior da Sala logo ao cimo da escada que sobe à varanda. Percebemos ainda que a caixilharia era então azul e branca, mas já a precisar de uma demão.
No interior, a cadeira “de rabo de bacalhau”, se não é uma das que ainda por lá há, é muito parecida – não tem, de certezinha, é aqueles avivados doirados que alguém elucubrou… E o estuque era pintado a rosa-velho – vestígio que, não há muito tempo, ainda se vislumbrava na parte superior da cave aberta pelos anos 80, logo acima da cortina de betão.
O cavalete do Pintor também se percebe onde estaria: mais ou menos a meio do Atelier, junto ao arranque dos degraus que subiam para a habitação.
 
Para se perceber tudo, fica um desenho. O alçado esquemático da fachada principal do «Casulo», e a planta aproximada do piso térreo do conjunto – tudo como então era. E a encarnado, a eventual tomada de vistas.



Ah! Aquela “geringonça” sobre a porta de entrada no Atelier, ao jeito de “pedra de armas”, era mesmo uma Paleta de Pintor atravessada por dois Pincéis! – Aqui, logo acima da cabeça da Maria “dos Pintaínhos”.

Só mais duas notas:
          A tábua azul do peitoril faz lembrar, e tudo indica assim ser, a que vemos em «Ai, credo!», 1923, e no «Homem da gaiola», possivelmente pela mesma data. Ou seja, aquela mesma janela - ou a do lado - tanto serviu de poiso à mocinha burguesa - com almofada de recosto, evidentemente - como aos braços fortes e rudes do homem de foice ao ombro...
        Por fim, os meus maiores agradecimentos à Teresa e à sua preciosa ajuda a transformar uma imagem meio torta numa coisa decente. Grande beijo.
 

28 Abr.2026. LBG

 

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Os “sacaninhas” dos “putos”

(mais uma crónica de “M. Henrique Pinto”)


Como já foi dito e redito, de 1890 a 1896, “eu” e o “meu” amigo Malhoa passámos em revista a vida dos cachopos que, entre a Fonte do Cordeiro e o Chão da Amoreira, em Figueiró dos Vinhos, por ali cresciam, por aquelas terras, entre matos e bosques, brincavam e labutavam. 
Sobre essas pinturas Malhoa deixaria mesmo escrito: «pintados em Figueiró dos Vinhos, na Fonte do Cordeiro, servindo de modelo para os […] quadros o[s] filho[s] do Eduardo, então rendeiro da Fonte do Cordeiro, propriedade da família Serra».


A primeira vez que os trouxemos a Lisboa, à Exposição inaugural do Grémio (1891), eram apenas o Noé e a Preciosa os protagonistas. Os dois manos retratados pelo Malhoa em Noé e Preciosa, 1891, precisamente. O rapaz por “mim” apanhado n’A caça dos taralhões, 1891. Ambos colheita do fim de verão anterior, como é evidente.


Agradaram. Ao público e à generalidade da crítica. Particularmente o “meu” amigo Noé n’A caça dos taralhões.
E tanto agradou, que até aconteceram umas coisas meio estranhas. Contrariando os famigerados estatutos acabadinhos de aprovar, nessa primeira exposição não seriam atribuídos quaisquer prémios.


A talhe de foice, já que vem a propósito, respiguemos alguma da crítica, a então “mais consensual”, digamos assim. [1]
Depois de muitos elogios ao “meu” quadro, à figura, à paisagem, lá se desencanta «um leve senão, um defeito de desenho; aquela perna esquerda é por demais comprida. No que diz respeito à paisagem só lastimamos que sendo tão bem feita, se recinta immenso da falta de côr local.» [sempre «a côr local»!? como se a esperta criatura alguma vez houvesse posto pé em Figueiró… e da «côr local» conhecesse mais que a do Jardim da Estrela…]. Conclui dizendo: «E é sobre este ponto que desejamos chamar a attenção do sr. Pinto que na verdade nos authorisa a esperarmos muito da sua bôa vontade e manifesto talento, e a quem por esse motivo colocamos em primeiro logar» [o sublinhado é meu, para se perceber bem].
Logo depois, seguem-se os habituais [e merecidos] elogios ao Silva Porto. Mas, hélas!, às tantas diz-se isto: «De todas as 15 telas d’este artista, a que mais chama as attenções do publico pelas suas dimensões e mesmo pela scena que reproduz, é, com franqueza, a que menos nos encanta (…) À porta da venda” é uma tela de dimensões avantajadas, figurando um desses carros de recoveiro de Torres, que todos os que tem percorrido as estradas dos arredores de Lisboa conhecem bem». E prossegue: «O quadro é bem pintado, nem outra cousa era de esperar; a scena é verdadeira, mas tudo aquillo é tão arranjado, a carroça tão limpinha de mais, tão nova que concorre para tornar a tela pouco interessante». 
E lá ficou o caldo entornado: o que era para ser, já o (não) era!


O “meu” quadro A caça dos taralhões acabou comprado pelo rei, o Senhor D. Carlos. [Ainda foi à Exposição de Berlin (1896), depois disso não há meio de se saber dele…]. O quadro do Porto, À porta da venda, foi-o pela rainha Senhora Dona Amélia. E, assim, ficaríamos ambos contentes. Mas os prémios, nicles!

Só no ano seguinte, só na 2ª exposição, é que prémios do Grémio Artístico seriam finalmente atribuídos. A Primeira medalha a Silva Porto «como iniciador da pintura moderna em Portugal» [e não exactamente pela Barca de passagem em Serreleis (Minho), 1892, como usualmente se diz]; Segundas medalhas a J. Malhoa e V. Salgado; Terceiras medalhas a Marques de Oliveira, L. Freire, A. Mello, Henrique Pinto, João Vaz e D. Emília Santos Braga; e mais umas Menções honrosas e umas Terceiras medalhas noutras categorias.

O Malhoa haveria de recusar o seu prémio, atribuído a O último interrogatório do Marquês de Pombal, 1891. Também a crítica de então consideraria o quadro uma boa duma pintura, «magnífica» mesmo. Mas logo centrou defeitos quanto a um certo “achincalhamento” “jesuítico” da figura do Marquês [como se a “culpa” fora do Malhoa, ou do Pinheiro Chagas que descrevera a cena que Malhoa pintou (ou talvez por isso mesmo), em vez de ser fruto da Viradeira e dos esbirros da D. Maria I… Pontos de vista!?].


























“Eu” lá me contentei com uma Terceira medalha, atribuída ao “meu” Adormecido, 1891. Mais uma vez com o Noé, ainda pelo Chão da Amoreira, desta vez com o pastorinho tirando uma sesta depois do almoço, enquanto as cabras pastavam. [Malhoa também o pintou, mas acordado e Gritando ao rebanho].
[E, já nem “me lembro” se por toda esta cega-rega, certo é que não pus os pés na exposição seguinte - a única, entre Leão, Grémio e Sociedade, a que faltei.]


Deixemos isto. Voltemos à criançada. Afinal, hoje é o dia deles.


Depois do Noé e da Preciosa [ao Noé, também "eu" já fizera antes rápido retrato], veio o resto da ranchada de filhos do Eduardo Dias Coelho e da Tereza da Silva, os rendeiros da quinta da Fonte do Cordeiro. Vieram o amigo António [também teve "por mim" retrato alinhavado], o Venâncio, o Maximino, todos em múltiplos e variados preparos, por "mim" ou pelo Malhoa registados para a posteridade. Talvez ainda o Adelino ou o Zé. Quem sabe se a Aida ou o Saúl numas outras sestas, numas outras ceifas…


Estas são histórias já aqui contadas e recontadas ou apenas referidas, mas que podeis sempre ler de novo (carregando nas ligações coloridas) .

De novo, mesmo de novo, apenas uma coisinha, da qual só me “relembrei” faz algum tempo e está ainda por contar.
É que o “malandrote” do Noé, nascido a 26 Abr.1883, foi baptizado na Igreja de S. João Baptista a 14 de Maio desse mesmo ano. Teve por Madrinha uma tal de Maria da Conceição, solteira, a única que, para além do padre «coadjuctor» Diogo Baetta e Vasconcellos, sabia assinar o registo. Assinou «Maria da Conceição Almeida».


Passados uns meses, quando “eu” e o Malhoa arribámos pela primeira vez a Figueiró, haveríamos de a conhecer. Era a filha da Tia do Simões d’Almeida. a Senhora que nos deu abrigo. E foi fogo que arde sem se ver! Dois anos depois, na mesma igreja, a 3 Ago.1885, lá nos casámos.

Entretanto o petiz, o pequeno Noé foi crescendo… e juntando mais irmãos.

Percebem agora quem é que tinha de abrir os cordões à bolsa, lá pela Páscoa, à conta do folar para o afilhado?!
E percebem também quem foi, afinal, o mecenas daquela treta da «Escola Naturalista de Figueiró do Vinhos» [a «escola» cujos Mestres foram o sr. Pinto e o sr. Malhoa, e onde os discípulos não eram mais que o Manel e o Zé]. Perceberam?!
Ainda bem.

Que foi com gosto. 
E com muita amizade por todos aqueles putos reguilas.

1 Jun.2020. MHP (por interposta pessoa)

_____________________________________
[1]. Refiro, obviamente a crítica publicada n’O Occidente, nº441, de 21 Mar.1891, a p.67. E dessa vez assinada «A.A.», muito provavelmente o sr. Abel Acácio.

Todavia, quanto ao particular da «côr local» [recorrentemente tão cara ao sr. Abel Acácio e a mais uns tantos, cujos gostos pessoais iam mais para a hortaliça com rama…], é justo recordar o que outros críticos, porque devotos de Stº Humberto e habituados a calcorrear matos e montes atrás de uma lebre ou de uma perdiz, disseram a tal propósito. Refiro-me particularmente ao sr. Fialho d’Almeida e ao sr. Zacharias d’Aça que, embora nunca hajam estado pelo Chão da Amoreira, sentiram imediatamente tal paisagem como vera e realista pintura. Fica o texto do sr. d’Aça:



quarta-feira, 27 de maio de 2020

DA PINTVRA ANTIGVA [em paredes]

e

Da Fabrica que faleçe ha [Villa de Figueiró] [1]


Auto-retrato de Francisco d’Olanda, dando o seu livro à malícia do tempo, in De Aetatibus Mundi Imagines











.
Eu, se calhar, fazia melhor em estar calado.
Mas acabo de pagar o IMI. E fi-lo de uma só vez!
[Que me lembro sempre de uma conversa com a Senhora Vereadora, e minha querida amiga Marta, em que ela se lamentava desta coisa das prestações atrasar os recebimentos do Município. Faço-o em Figueiró, com outras Câmaras aproveito a benesse.]
Assim, porque contribuindo, ainda que com umas centenas de euros, para a coisa, sinto-me no direito de também aqui mandar uns bitaites.

Diz que a «Câmara Municipal [de Figueiró dos Vinhos] recupera as cores originais do edifício e das janelas». Depois, tanto se fala em «recuperar o tom original das paredes», como na «retoma da cor específica original» [coisas, tom e cor, bem distintas]. Diz também que tal «mereceu demorada pesquisa». E pespega-nos com uma foto dos velhos Paços do Concelho (creio que c.1905).
Nessa foto, apesar de ser a p&b (ou sépia, no original), percebem-se os paramentos exteriores pintados num tom fortíssimo, e pode-se entender a cor como uma caiação à base de uma terra escura – provavelmente não um ocre (que na foto seria por certo mais claro), mas possivelmente um almagre (oxidum rubrum ferri) [2] ou outra terra vermelha.



Para que todos percebam, sem ser preciso «demorada pesquisa» ou deitarmo-nos a adivinhar, e porque foi uso generalizado por todo o séc.XIX em palácios, conventos e outros edifícios públicos, em linguagem corrente, falo de “amarelo quase torrado” (o que, parece, não seria) ou “vermelho sangue de boi”… [Também se usou, embora menos, o azul e, mesmo, o verde, variando muito, então sim, a intensidade do tom].
É, pelo menos, o que a foto nos mostra.

E isto, a ser assim, assusta! Assusta, e muito!

Mas pode ser que não seja… pode a foto ser apenas uma ilustração de circunstância…
[Isto pensava eu! até voz amiga me chamar a atenção de ali, na outra foto, por debaixo dos panos (os dos andaimes), já se ver a fachada posterior enrubescida de vergonha. A coisa vai mesmo de vento em pôpa!?… Mas prossigamos, como se ignorantes fossemos]

Afinal, qual seria «a cor específica original»? E de qual «edifício dos Paços do Concelho» estaremos a falar?




A mais antiga imagem que conheço [mas isto sou eu, um não conhecedor] do edifício da Câmara é uma gravura a p&b, publicada na Illustração Portugueza em 12 Jul.1886.
Não sabendo se por fantasia do artista ou por ter sido mesmo assim, vemos um edifício simples mas digno, bem de finais de XIX. Aparentemente com belas cantarias trabalhadas: nos cunhais, nas pilastras que enquadram o módulo central de entrada, no soco do embasamento. Aparentemente também em cantaria seria o listel que marcava a separação do andar nobre e do piso térreo. [Ora, nada disto veremos nas fotos posteriores?!]. Também as cantarias que emolduram os vãos aparentam, na gravura, uma bem maior imponência face ao que veremos depois em fotografias…. Igualmente a caixilharia apresenta-se aqui bem mais rica do que a veremos fotografada. [Sobre tudo isto, não é crível que tenha havido mudanças tão radicais ente 1886 e 1897 ou 1905…].
Olhando a gravura, e face à profusão de cantaria, pensaremos imediatamente que o revestimento do paramento não fosse outro que caiado a branco…
[Mas, lá está, tudo isto pode não passar da fantasia do artista… e a realidade ter sido outra bem diversa...]



De 1897, publicada n’O Século a 18 Jul., há uma outra. Mais próxima das fotos que virão a seguir, pelo que as considerações serão as mesmas.
Quanto à cor, esta gravura deixa-nos completamente em branco!





Posteriores àquelas gravuras, existem imagens da antiga Casa da Câmara já em fotografia [suporte onde a fantasia tende a ser mais comedida]. Eis duas [e aqui já as paredes são escuras]. Um postal editado pela «Casa Godinho» c.1905, e um outro já bem posterior, finais da década de 20, salvo erro.
As diferenças principais estão na iluminação pública – a primeira mostra lampiões baixos para serem acesos a lume e manualmente, a segunda mostra candeeiros inacessíveis, possivelmente já eléctricos [e ainda um poste eléctrico ou telefónico à esquina do sr. Joãozinho da Praça]. Na primeira foto ainda lá está a coroa sobre o escudo nacional, na outra o símbolo monárquico desapareceu.
Depois de vermos a primeira gravura, surpreendemo-nos com estas duas fotografias. Até parece que são de uma outra coisa!? A riqueza aparente das cantarias desapareceu quase por completo. Parecem resumir-se às molduras dos vãos [e mais pobrezitas, por sinal] e ao soco [pouco maior que um rodapé]. Cunhais, pilastras, cornijas, empenas do frontão, tudo parece agora feito em massa ou, quando muito e nalgumas partes, num mísero forro de pedra serrada… [ou nem isso].
[Percebe-se agora que a gravura de 1886 não passou mesmo da fantasia do artista e não deverá ter alguma vez correspondido à verdade. Ou, quem sabe, corresponda a um esboço do projecto idealizado…?! Portanto, nunca saberemos se alguma vez os velhos Paços do Concelho foram caiados a branco…]
Por outro lado, nestas duas fotografias, vê-se perfeitamente que os panos de reboco eram pintados numa cor forte, que as escorrências da água sob os peitoris lá iam marcando a pintura ou, vinte anos depois, que esta se encontrava toda manchada a descolorir… [o que é perfeitamente normal e expectável].
Fosse como fosse, fácil é perceber a razão da Casa da Câmara ter sido caiada a almagre [ou outra coisa parecida]. Confrontada então pela massa imponente dos três pisos de elevado pé direito da que fora a antiga Torre dos Souza, tendo quase às ilhargas o Solar, de um lado, e a Matriz do outro, à pobre Casa da Câmara só a força de um forte colorido podia emprestar presença e dignidade inerentes ao seu lugar central no Largo mais importante da Vila.

A velha Casa da Câmara, entre o Solar e a Matriz, tendo pela frente o que restava da Torre 
dos Vasconcellos e Souza. Só mesmo aquela corzinha a safava…



O truque da cor nos edifícios sempre fez milagres [ou antes pelo contrário] e é coisa sabida há muito, muito tempo. [Os nossos bisavós sabiam-no, e não eram assim burros de todo…]

Ficamos é sem saber se sempre assim foi, ou se e quando terá mudado de cor… E, finalmente, qual seria exactamente essa cor e qual o tom? [mas, isto, deixamos para quem sabe…].

Passando trinta e poucos anos em Monarquia e toda a primeira República, aquela fachada simples mas de escorreito desenho, aquele rectângulo ao baixo coroado por um pequeno frontão aberto no centro, aquele volume modesto mas de forte colorido lá foi cumprindo funções - quer enquanto edifício público quer como fecho urbano do nascente da Praça. Meio século passado em tais serviços, vieram tempos novos. E logo tomou a Câmara o dr. Barreiros.
«Simbolisa o desleixo, o abandono dos povos, o atrazo do país» - assim se referirá ele ao velho edifício.

Certo é, dez anos passados do 28 de Maio [está agora a fazer 84 anos], o dr. Barreiros e a sua Comissão Administrativa apresentavam aos figueiroenses os novos Paços do Concelho. «Símbolo de dura luta (…) que a comissão administrativa da Câmara Municipal tinha reconstruido e ampliado, e que um incêndio devorou na noite de 28 para 29 de Maio de 1936» - dirá a propósito.
Não durou muito, portanto. Nas vésperas da sua inauguração, já com grande parte do recheio e dos arquivos públicos instalados, boa parte do novo edifício ardeu. Assim foi.

Na verdade e simplificando, tratava-se do velho edifício com mais um andar em cima. Ocupava exactamente a mesma superfície de terreno, a frente apresentava os mesmos sete vãos, as ilhargas os mesmos quatro. Em vez de dois, tinha três pisos. Talvez mais uns aproveitamentos sob o telhado. E possivelmente bastantes alterações interiores.
A única fotografia que se conhece [quero dizer, que eu conheço] é esta, publicada no livro Doze Anos de Administração Municipal (1930-1942), escrito por [ou para] o dr. Manuel Simões Barreiros. E mostra o edifício logo após o incêndio.



[Como qualquer um já percebeu, Barreiros reconstruiu e ampliou o velho edifício; este, praticamente pronto, ardeu; depois, como veremos adiante, o dr. Barreiros voltará a reconstruí-lo de novo, ali por 1940/42. Uma história dramática, de perseverança, como era apanágio de Barreiros, mas simples e clara – ou não?!
Pois esta não é a história que se pode ler na placa que lá está à porta?! Mistérios de profundidade conhecedora - é o que é.]

Olhemos a fotografia.
Aparentemente o edifício estaria pintado de branco.
As janelas do piso térreo parecem ter ainda as mesmas cantarias. A entrada faz-se agora sob um pórtico abobadado e ligeiramente projectado para o exterior, sobre o qual assenta o varandim do Salão Nobre. O pórtico, tal como o arranque dos cunhais, parecem ser feitos em aparelho de pedras almofadadas – na verdade, serão em massa fingindo tal aparelho.
No andar nobre, os vãos parecem ser ainda os mesmos, mas com algumas alterações. Em cada corpo lateral, a janela do meio foi rasgada em sacada. Todos os vãos deste andar aparecem agora rematados superiormente por arremedos de frontões, meio neo-joaninos, e que parecem ligar-se ou prolongar a cantaria das molduras [as partes ardidas, mostram que também aqui era a fingir].
No segundo andar, afinal o novo piso, os vãos aparentam ter menos altura [um pouco à maneira dos palácios de setecentos].
As pilastras do corpo central e as dos cunhais parecem ser, ao longo dos andares, em massa e pintadas de escuro.

Logo, logo após o incêndio dos novos Paços do Concelho, ainda o borralho fumegava, já se discutia nos jornais sobre a bondade da reconstrução do edifício sinistrado ou, pelo contrário, as vantagens de construir noutro local.
[Houve mesmo «Projecto de Urbanização do Local Escolhido para o Novo Edifício dos Paços do Concelho de Figueiró dos Vinhos», tal como uns estudos para o próprio e dito cujo. Tudo muito Deus, muita Pátria e ainda mais Autoridade, como era de função. Para além dos novíssimos Paços do Concelho, o plano previa uma nova Igreja, tão grande como a Matriz, Escolas e outros equipamentos. Fora a Escola e a Casa do Povo, tudo não passou do papel, e ainda bem.]
No entanto, paralela e avisadamente, lá se iam fazendo as reparações no edifício ardido. No relatório «A gerência municipal de 1940», datado de 2 Nov. desse ano, Barreiros diz às tantas «reconstruíram-se, em parte, os antigos Paços do Concelho, onde já funcionam tôdas as repartições públicas» (BARREIROS, op.cit. p.106). Três anos depois, ao publicar no livro esta fotografia, dirá «é um símbolo de perseverança, da vontade de vencer e um sinal de vitória – representa os Paços do Concelho, reconstruídos de novo e tal qual se encontram em 1943».



Salvo eventuais alterações interiores [que, agora e para o caso, nada interessam], o que vemos é o mesmíssimo edifício de 1936. Talvez sejam outras a urnas que, sobre a cornija, rematam as pilastras e os cunhais. E parece terem desparecido, ao nível do andar nobre, seja lá o que fosse que unia visualmente as vergas de cantaria aos frisos arremedando frontões joaninos. Os frisos, em massa percebe-se agora, por lá ficaram, desasados e meio ridículos…

E é este edifício [ou melhor, o ampliado em 1936] que chegou aos nossos dias.



Chegados nós aqui, é tempo de repetir a pergunta: de qual «edifício dos Paços do Concelho» estaremos a falar?
Porque, como toda a gente perceberá, o edifício não é o mesmo. Houve um, com dois pisos, que durou perto de 60 anos. E há outro [se bem que acrescentado sobre o primeiro] que assim existe há longos 84 anos.
Houve um com determinada volumetria. Há um outro cuja volumetria é, grosso modo, 50% maior.
[Eu sei que a matemática não é bem o forte, mas vejam lá se os números, os do tempo e os do espaço, lhes entram nas cabeças…]

Tentemos visualmente. 
[Já nem digo para irem experimentar aquele vestidinho larocas que levaram ao primeiro baile do liceu… agora, uns bons aninhos depois e aqueles quilinhos a mais, percebem como ficariam ridículas/os?]
Passa-se o mesmo com os edifícios. De melhor ou menos bom desenho [e, francamente, o outro era bem melhor que o actual], merecem também respeito e consideração. E ataviam-se de acordo com as suas características e circunstâncias.
Lembram-se de, lá atrás, explicar as razões para a velha Casa da Câmara ter sido pintada com o tal almagre forte? Por ser modesta em altura, confrontada pelo enorme volume da desaparecida Torre, pelas fortes presenças do Solar e da Matriz, e que só o peso de um forte colorido lhe pode dar a presença e dignidade inerentes ao seu importante lugar no Largo central da Vila. E de, em comentário, dizer que os nossos bisavós não eram assim burros de todo… Lembram?
Pois é. Agora será precisamente ao contrário. O novo grande volume do edifício da Câmara, pintado a “sangue de boi” (ou coisa que o valha), irá esmagar tudo o que em volta se implanta. [E nós, bisnetos e trinetos dos velhos sabidos, somos, pelo visto, meio burros. Percebemos pouco da poda, e gostamos de nos armar em parvos.]

Nem vou perder tempo com muitas considerações técnicas sobre o comportamento das actuais tintas, em especial as de forte colorido, quanto às escorrências e às manchas da água das chuvas, sequer sobre o comportamento dos pigmentos vermelhos sob os raios ultra-violetas do Sol… Não vale a pena. Logo se verá.

O que está feito, está feito! E seja o que Deus, nosso Senhor, quiser
Lhe peço que não haja muitos a virem ali da dos Passarões, rua da Torre acima, já bem aviados, imbuídos ainda de alguma afición, que marrem com a coisa e resolvam citar lá do meio da praça: - Ó voi! Ó ba… Eh, bicho lindo! Era dispensável. 
E não havia necessidade.


27 Mai.2020. LBG.
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[1]. Glosa a dois títulos de Francisco d’Olanda (1517/8-1584/5):
Da Pintura Antigua. Lisboa, 1548.
Da Fabrica que faleçe ha Çidade de Lysboa. Por frãçisco dolãda, Anno de 1571.
[2]. ASSIS RODRIGUES, Francisco de - Diccionario Technico e Historico de Pintura, Esculptura, Architectura e Gravura. Lisboa, Imprensa Nacional, 1876.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Uns dormindo... e o Zé Inácio a matutar

(ou d’«A sesta» à ópera,
passando pel’«O almoço do trolha»)


Sobre José Inácio Pereira, o mestre pedreiro encarregado da obra do «Casulo», sabe-se pouco.
Apenas as ofertas e os elogios de reconhecimento que Malhoa fez questão de registar nas suas notas pessoais, dele nos dão conta: a 12 Mai.1899, «Alfinetes que comprei, um para o Pereira encarregado das obras no “Casulo”» e, em Mar.1900, pelo final da obra, «Compra da espingarda e pertences, para offerecer ao José Ignacio Pereira – d’Ancora [ou será d’Ancos / Anços(?) - ficamos sequer a saber se seria minhoto de longe ou vizinho do outro lado do Sicó…], pedreiro, que derigiu a minha obra do “Casulo” em Figueiró dos Vinhos, pelo interesse, e bom desempenho que tomou nos trabalhos da mesma obra». [os realces são meus]



Além disto que, parecendo pouco, é todavia certo [e desdiz conversa antiga…], é bem possível, embora menos certo, que Malhoa nos tenha deixado o retrato do José Inácio Pereira…   


José Malhoa. A sesta, 1898. óleo s/ madeira, 33x41. MNBA, Rio de Janeiro.

Sobre «A sesta», 1898, pequena e magnífica tábua a óleo no acervo do MNBA do Rio de Janeiro, já muito foi dito [1].
Em duas cartas a José Relvas, datadas de Figueiró, de 8 Ago. e 13 Set.1901, Malhoa descreve o que anda a pintar e o muito trabalho e tempo despendido, porque «a pintura tem que ser muito feita, sem o parecer» - refere; e especifica - «Desde que aqui me encontro, tenho feito (…) a sesta: quadrinho de 30 por 40, com 28 sessões, ainda não concluído…». Concluída «A sesta», esta só seria mostrada na Primavera seguinte, na 2ª SNBA (1902). E vendida na «Exposição de Arte Portuguesa» organizada no Rio no Verão daquele mesmo ano – foi então adquirida, tal como uma dezena de outras obras portuguesas, para a colecção da Escola Nacional de Belas Artes brasileira. 

Ora, apesar de tudo isto, de ainda andar de volta do quadrinho em 1901, de apenas o mostrar e só o vender em 1902, Malhoa fez questão de, junto à sua assinatura, firmar como data «1898» [o que, ainda hoje, causa engulhos e asnáticas datações].
Malhoa firma «1898» porque, muito provavelmente, fora essa a data da tomada do natural, a do registo da cena que depois, com tempo, diligentemente burilou, foi a data que Malhoa quis deixar recordada - a do começo das obras «do augmento do “Casulo”».

Vejamos então «A sesta», 1898, com um outro olhar. 


Ao longe, o convento do Carmo compõe a paisagem e diz-nos que estamos em Figueiró.
Mais perto, na orla e à sombra do pinhal do Serra, acabado o jantar [o almoço, diríamos hoje] partilhado em comum do alguidar de loiça coimbrã, dessedentados pela fresca água da mina na cântara de barro vidrado, dois trolhas gozam a merecida sesta – um de borco, outro de papo pró ar. Enquanto estes dormem, o Zé Inácio, mãos calejadas e corpo cansado, ainda cisma e matuta.  
Não como «o bronco e esmagado trabalhador dos campos, a passiva e resignada criatura que parece ter pedido ao boi, seu companheiro de trabalho, a sua passividade e resignação» - no dizer diletante do crítico de O Século em 20 Abr.1902 – mas, bem ao contrário, como o mestre pedreiro interessado no bom desempenho e condução da obra, que discorre na melhor maneira de resolver a pedra e cal o que mostra aquele bonecoem seu entender mal amanhado [já se sabe], que o arquitecto por ali deixou sem mais indicações [o costume, é evidente].
Ao lado do Zé Inácio, repousa ainda um grosseiro chapéu de junco – forte e feio, dos que aguentam a padiola de transportar pedras e massas que qualquer pedreiro tem de carregar  [não se trata, portanto e como parece claro, de um usual e leve chapéu de palha camponês…].

Foi isto que Malhoa pintou. Entre 1898 e 1901, durante uma trintena de sessões. Um belo Retrato do José Ignacio Pereira e seus camaradas.
Ou, se preferirem, uma versão avant la lettre de «O almoço [ou jantar] do[s] trolha[s]». [Saudações, Mestre Júlio!]



[E, a ser isto verdade, para os que acham que “naturalismo” e “realismo” se diferenciam consoante se representam camponeses ou operários, aqui têm um belo dilema para ir resolvendo…
Entretanto, sigam a doutrina do Evaristo, o do Pátio do mesmo nome, cujo postulado não anda longe daquela.]



9 Out.2019. LBG.

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[1.] Sobre o assunto, entre outros, ver:
SALDANHA, Nuno. José Malhoa. Tradição e Modernidade. Lisboa: Scribe, 2010, p.50 e p.152. 
Idem. José Malhoa. 1855-1933. Catálogo Raisonné. Lisboa: Scribe, 2012, p.130.
E, principalmente: 
VALLE, Arthur. Os “Malhoas” da Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Comunicação ao «III Colóquio Internacional de Arte em Portugal e Brasil nos séculos XIX e XX”, Lisboa, Nov.2016, F.C.Gulbenkian. (disponível aqui)





terça-feira, 13 de agosto de 2019

«Cintra(s)» há muitas…

seu(s) palerma(s)!


O Malhoa sempre teve costas largas. Já se sabe.
Para o bem e para o mal. Para tudo e mais alguma coisa.
Entre as muitas estórias, anedotas, ditos, obras, o que seja, infundada e abusivamente atribuídas ou relacionadas com o Pintor, há uma relativamente inócua mas particularmente irritante - a que conta e repete à exaustão, cândida e insistentemente, ter sido Malhoa quem atribuiu a Figueiró dos Vinhos o epíteto de «Sintra do Norte».
Volta e meia, quando a julgávamos esquecida, morta e definitivamente enterrada, lá surge uma ou outra alma penada que a ressuscita e a coisa volta para nos assombrar. Há quem se compraza, quem lhe ache certa graça, há quem abomine tal epíteto.
Mas, que se saiba, não haverá uma única fonte, um escrito, uma carta, um testemunho idóneo, o que for, que permita sustentar de forma séria a paternidade malhoesca da coisa. A não ser o diz-que-disse. E por mais que a coisa seja repetida (algumas vezes até por quem tem obrigação de pensar bem antes de dizer a primeira parvoeira que lhe vem à cabeça)…

«Sintras», para além da simpática Vila de Sintra à beira do Serra do mesmo nome, para quem não sabe, há muitas!
É mania com origem num certo romantismo serôdio, uma parvoíce como outra qualquer, o querer atribuir os encantos da então estância de veraneio por excelência, de reis e rainhas e fidalguias, a outras terras ou locais que tinham igualmente seus encantos e suas virtualidades… Mas outros. Os seus próprios encantos, únicos, verdadeiramente genuínos.

[Também por cá temos, e há muito, uma «Lusa Atenas», uma «Veneza do Vouga» e outras que tais… Ou, mais recentemente, uma proliferação de genuínas e antiquíssimas «feiras medievais», «templárias» e quejandas por tudo quanto é buraco, e uma multiplicidade de antigos, únicos e tradicionais «doces conventuais» cuja receita ou foi copiada de um outro lado qualquer ou afinada a semana passada… E até, na bola, já vimos um «Jardel de Coimbra», um «Mini Messi» e mais uns que nem é bom lembrar…Basicamente, a conversa é a mesma.]

Pois é. E «Sintras» há muitas!

Logo a «Sintra do Alentejo», a linda vila de Castelo de Videvirada às faldas norte da Serra de S. Mamede. Onde a excelência das águas [também do vinho e do cabrito de cachafrito do D. Pedro V], a abundância de vegetação, o clima ameno, a harmonia da urbe e a simpatia das gentes sempre chamam a mais uma visita. Ali atribui-se a D. Pedro V, que a visitou em 1861, a responsabilidade de tal baptismo. Vá-se lá saber...
 
Depois a «Sintra da Beira», o «cognome dado à simpática vila de Alpedrinha por D. Leonor de Almeida (1750-1839), a marquesa de Alorna, quando [ali] esteve (…) Esta sensível poetiza, grande admiradora da natureza, à qual dedicou vários poemas, ao fazer tal comparação terá sido surpreendida pela beleza e pujança desta terra e do seu enquadramento natural». E a gente fica quase convencida.

E até Ermesinde... Em 1916, com o prolongamento da linha nº9 da Praça de D. Pedro, bem do centro da Invicta, pela Areosa e Aguas Santas, esta passa a ser muito usada «ao domingo por parte de centenas ou milhares de portuenses, que buscavam em Ermesinde um espaço de lazer e de sossego, desfrutando de uma magnífica paisagem ribeirinha, junto a um Leça de águas límpidas e margens bem arborizadas, que serviam de cenário natural a piqueniques, onde se reuniam famílias inteiras ou grupos de jovens que assim se distraíam de forma bastante sadia e alegre». Ermesinde converte-se «então, numa verdadeira estância balnear e campestre, merecendo plenamente os epítetos de “Pérola do Leça”, Sintra do Porto ou ainda Sintra do Norte». Ena! afinal, «Sintras do Norte» já são duas!

Mesmo nas ilhas atlânticas… «Aqui, a 550 metros de altitude e apenas a 9 quilómetros de distância do centro do Funchal, a meia encosta do anfiteatro funchalense, respira-se uma atmosfera romântica, de cartão-postal. Contribuem para isso os jardins e as quintas, com as suas flores e árvores frondosas. Não foi por acaso que alguém chamou ao Monte [Nossa Senhora do Monte, a padroeira da Madeira] “a Sintra Madeirense”, epíteto muito divulgado pelo antigo e distinto jornalista João Augusto de Ornelas (1833-1886), e que acabou por ser frequentemente adotado nas referências à freguesia em obras nacionais e estrangeiras».


[E ainda haverá mais… Como uma terra, julgo que termal, algures, onde já passei mas agora não recordo – mais uma «Sintra qualquer…». Ou, ainda, «Nova(s) Sintra(s)» - um jardim-parque no Porto, um bairro na Póvoa do Varzim...]


Voltando a Figueiró.
Certo, certo, quanto a esta «Sintra do Norte» e a Malhoa, apenas os singelos versos de uma antiga marcha do rancho, lá pelos finais de 40, da autoria do Zé Nunes [sempre assim o conheci, velho amigo da família], maestro e ensaiador, e que a filha, a minha amiga Mizé, há uns tempos recordou.

«Figueiró terra de sonho
Tua beleza ao longe ecoa,
Louvada e enaltecida
Em lindas telas de Malhoa.

«Deus a guarde e a proteja
Em seu caminho triunfal,
Para que viva e seja
Sempre a mais linda de Portugal.

«Vamos rapazes e raparigas
Lançar ao vento nossas cantigas,
Que são a voz muito sentida
Da nossa terra, da nossa vida.

«Terra de encantos, luz e cor,
Meu Figueiró tão sedutor,
Teu ar lavado, singelo porte
Dão-te a legenda Sintra do Norte


E, com isto, podia ficar por aqui.

Todavia, faz hoje precisamente uma grosa de anos, a 13 de Agosto de 1875, o Diario Illustrado publicava na primeira página uma gravura do Cabril do Zêzere, com a velha ponte filipina entre os dois Pedrogãos, e a sugestiva legenda «A Cintra da Beira Baixa». Lá dentro, ao fundo da segunda página, um Folhetim com o mesmo título.


Sem muitos comentários, ficam ambas as peças. Para ler [a prosa é deliciosa - quer na descrição da aventura da viagem, como da beleza do lugar e das paisagens; dá ainda para perceber que a gravura foi feita a partir de uma foto, possivelmente de A. Silva Magalhães de Tomar; e termina com o relato dum antigo episódio guerrilheiro entre liberais locais e caceteiros miguelistas vindos de Tomar - deliciai-vos]. 
E serve para entender a eventual origem da coisa. Bem sei que não é propriamente Figueiró, mas é ali mesmo ao lado [e sempre se gostou muito de copiar do vizinho…].

Ah! já agora, lembrar que, nessa altura, o Malhoa mal tinha os vinte anos feitos e ainda faltavam uns tantos para descobrir «o Figueiró das cores»... Tirai isso da ideia.



13 Ago.2019. LBG.