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terça-feira, 28 de abril de 2026

«Quem espera, desespera…»

              

             Hoje, 28 de Abril, seria o dia do aniversário de Malhoa.

          Apenas conhecida através do Livro da Homenagem ao Grande Pintor José Malhoa | Realizada com a exposição das suas obras, na Sociedade Nacional de Belas-Artes em Junho de 1928, esta pequena tábua - 37x45, segundo o catálogo -, aparentemente não datada e ali indicada como sendo de «192?», segundo a mesma fonte pertencente então ao «Ex.mº Snr. Eduardo Honório de Lima – Pôrto», tinha no Catálogo o nº 113 e reprodução a p&b na estampa LVI. Ao que parece, estará agora no MNSR, no Porto.

          É um quadrinho muito interessante. Pintado seguramente em Figueiró dos Vinhos, é um daqueles quadros onde Malhoa regista cenas da vida burguesa sob as faldas do Cabeço do Peão – que não eram só “labregos” ou “avinhados”, “lavouras” e “misérias”…

          A moça - que não sei quem fosse, nem me deito a adivinhar para não entrar na asneira costumeira – espera, bilhete ou carta na mão, por quem a irá levar ao correio que não tardará a partir…

O cenário, esse é evidente: uma das janelas do Atelier do «Casulo» - uma daquelas que desapareceram – e, através dela, vemos ainda dois dos prumos, então ainda em madeira, da varanda alpendrada, e também a esquina exterior da Sala logo ao cimo da escada que sobe à varanda. Percebemos ainda que a caixilharia era então azul e branca, mas já a precisar de uma demão.
No interior, a cadeira “de rabo de bacalhau”, se não é uma das que ainda por lá há, é muito parecida – não tem, de certezinha, é aqueles avivados doirados que alguém elucubrou… E o estuque era pintado a rosa-velho – vestígio que, não há muito tempo, ainda se vislumbrava na parte superior da cave aberta pelos anos 80, logo acima da cortina de betão.
O cavalete do Pintor também se percebe onde estaria: mais ou menos a meio do Atelier, junto ao arranque dos degraus que subiam para a habitação.
 
Para se perceber tudo, fica um desenho. O alçado esquemático da fachada principal do «Casulo», e a planta aproximada do piso térreo do conjunto – tudo como então era. E a encarnado, a eventual tomada de vistas.



Ah! Aquela “geringonça” sobre a porta de entrada no Atelier, ao jeito de “pedra de armas”, era mesmo uma Paleta de Pintor atravessada por dois Pincéis! – Aqui, logo acima da cabeça da Maria “dos Pintaínhos”.

Só mais duas notas:
          A tábua azul do peitoril faz lembrar, e tudo indica assim ser, a que vemos em «Ai, credo!», 1923, e no «Homem da gaiola», possivelmente pela mesma data. Ou seja, aquela mesma janela - ou a do lado - tanto serviu de poiso à mocinha burguesa - com almofada de recosto, evidentemente - como aos braços fortes e rudes do homem de foice ao ombro...
        Por fim, os meus maiores agradecimentos à Teresa e à sua preciosa ajuda a transformar uma imagem meio torta numa coisa decente. Grande beijo.
 

28 Abr.2026. LBG

 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Os “sacaninhas” dos “putos”

(mais uma crónica de “M. Henrique Pinto”)


Como já foi dito e redito, de 1890 a 1896, “eu” e o “meu” amigo Malhoa passámos em revista a vida dos cachopos que, entre a Fonte do Cordeiro e o Chão da Amoreira, em Figueiró dos Vinhos, por ali cresciam, por aquelas terras, entre matos e bosques, brincavam e labutavam. 
Sobre essas pinturas Malhoa deixaria mesmo escrito: «pintados em Figueiró dos Vinhos, na Fonte do Cordeiro, servindo de modelo para os […] quadros o[s] filho[s] do Eduardo, então rendeiro da Fonte do Cordeiro, propriedade da família Serra».


A primeira vez que os trouxemos a Lisboa, à Exposição inaugural do Grémio (1891), eram apenas o Noé e a Preciosa os protagonistas. Os dois manos retratados pelo Malhoa em Noé e Preciosa, 1891, precisamente. O rapaz por “mim” apanhado n’A caça dos taralhões, 1891. Ambos colheita do fim de verão anterior, como é evidente.


Agradaram. Ao público e à generalidade da crítica. Particularmente o “meu” amigo Noé n’A caça dos taralhões.
E tanto agradou, que até aconteceram umas coisas meio estranhas. Contrariando os famigerados estatutos acabadinhos de aprovar, nessa primeira exposição não seriam atribuídos quaisquer prémios.


A talhe de foice, já que vem a propósito, respiguemos alguma da crítica, a então “mais consensual”, digamos assim. [1]
Depois de muitos elogios ao “meu” quadro, à figura, à paisagem, lá se desencanta «um leve senão, um defeito de desenho; aquela perna esquerda é por demais comprida. No que diz respeito à paisagem só lastimamos que sendo tão bem feita, se recinta immenso da falta de côr local.» [sempre «a côr local»!? como se a esperta criatura alguma vez houvesse posto pé em Figueiró… e da «côr local» conhecesse mais que a do Jardim da Estrela…]. Conclui dizendo: «E é sobre este ponto que desejamos chamar a attenção do sr. Pinto que na verdade nos authorisa a esperarmos muito da sua bôa vontade e manifesto talento, e a quem por esse motivo colocamos em primeiro logar» [o sublinhado é meu, para se perceber bem].
Logo depois, seguem-se os habituais [e merecidos] elogios ao Silva Porto. Mas, hélas!, às tantas diz-se isto: «De todas as 15 telas d’este artista, a que mais chama as attenções do publico pelas suas dimensões e mesmo pela scena que reproduz, é, com franqueza, a que menos nos encanta (…) À porta da venda” é uma tela de dimensões avantajadas, figurando um desses carros de recoveiro de Torres, que todos os que tem percorrido as estradas dos arredores de Lisboa conhecem bem». E prossegue: «O quadro é bem pintado, nem outra cousa era de esperar; a scena é verdadeira, mas tudo aquillo é tão arranjado, a carroça tão limpinha de mais, tão nova que concorre para tornar a tela pouco interessante». 
E lá ficou o caldo entornado: o que era para ser, já o (não) era!


O “meu” quadro A caça dos taralhões acabou comprado pelo rei, o Senhor D. Carlos. [Ainda foi à Exposição de Berlin (1896), depois disso não há meio de se saber dele…]. O quadro do Porto, À porta da venda, foi-o pela rainha Senhora Dona Amélia. E, assim, ficaríamos ambos contentes. Mas os prémios, nicles!

Só no ano seguinte, só na 2ª exposição, é que prémios do Grémio Artístico seriam finalmente atribuídos. A Primeira medalha a Silva Porto «como iniciador da pintura moderna em Portugal» [e não exactamente pela Barca de passagem em Serreleis (Minho), 1892, como usualmente se diz]; Segundas medalhas a J. Malhoa e V. Salgado; Terceiras medalhas a Marques de Oliveira, L. Freire, A. Mello, Henrique Pinto, João Vaz e D. Emília Santos Braga; e mais umas Menções honrosas e umas Terceiras medalhas noutras categorias.

O Malhoa haveria de recusar o seu prémio, atribuído a O último interrogatório do Marquês de Pombal, 1891. Também a crítica de então consideraria o quadro uma boa duma pintura, «magnífica» mesmo. Mas logo centrou defeitos quanto a um certo “achincalhamento” “jesuítico” da figura do Marquês [como se a “culpa” fora do Malhoa, ou do Pinheiro Chagas que descrevera a cena que Malhoa pintou (ou talvez por isso mesmo), em vez de ser fruto da Viradeira e dos esbirros da D. Maria I… Pontos de vista!?].


























“Eu” lá me contentei com uma Terceira medalha, atribuída ao “meu” Adormecido, 1891. Mais uma vez com o Noé, ainda pelo Chão da Amoreira, desta vez com o pastorinho tirando uma sesta depois do almoço, enquanto as cabras pastavam. [Malhoa também o pintou, mas acordado e Gritando ao rebanho].
[E, já nem “me lembro” se por toda esta cega-rega, certo é que não pus os pés na exposição seguinte - a única, entre Leão, Grémio e Sociedade, a que faltei.]


Deixemos isto. Voltemos à criançada. Afinal, hoje é o dia deles.


Depois do Noé e da Preciosa [ao Noé, também "eu" já fizera antes rápido retrato], veio o resto da ranchada de filhos do Eduardo Dias Coelho e da Tereza da Silva, os rendeiros da quinta da Fonte do Cordeiro. Vieram o amigo António [também teve "por mim" retrato alinhavado], o Venâncio, o Maximino, todos em múltiplos e variados preparos, por "mim" ou pelo Malhoa registados para a posteridade. Talvez ainda o Adelino ou o Zé. Quem sabe se a Aida ou o Saúl numas outras sestas, numas outras ceifas…


Estas são histórias já aqui contadas e recontadas ou apenas referidas, mas que podeis sempre ler de novo (carregando nas ligações coloridas) .

De novo, mesmo de novo, apenas uma coisinha, da qual só me “relembrei” faz algum tempo e está ainda por contar.
É que o “malandrote” do Noé, nascido a 26 Abr.1883, foi baptizado na Igreja de S. João Baptista a 14 de Maio desse mesmo ano. Teve por Madrinha uma tal de Maria da Conceição, solteira, a única que, para além do padre «coadjuctor» Diogo Baetta e Vasconcellos, sabia assinar o registo. Assinou «Maria da Conceição Almeida».


Passados uns meses, quando “eu” e o Malhoa arribámos pela primeira vez a Figueiró, haveríamos de a conhecer. Era a filha da Tia do Simões d’Almeida. a Senhora que nos deu abrigo. E foi fogo que arde sem se ver! Dois anos depois, na mesma igreja, a 3 Ago.1885, lá nos casámos.

Entretanto o petiz, o pequeno Noé foi crescendo… e juntando mais irmãos.

Percebem agora quem é que tinha de abrir os cordões à bolsa, lá pela Páscoa, à conta do folar para o afilhado?!
E percebem também quem foi, afinal, o mecenas daquela treta da «Escola Naturalista de Figueiró do Vinhos» [a «escola» cujos Mestres foram o sr. Pinto e o sr. Malhoa, e onde os discípulos não eram mais que o Manel e o Zé]. Perceberam?!
Ainda bem.

Que foi com gosto. 
E com muita amizade por todos aqueles putos reguilas.

1 Jun.2020. MHP (por interposta pessoa)

_____________________________________
[1]. Refiro, obviamente a crítica publicada n’O Occidente, nº441, de 21 Mar.1891, a p.67. E dessa vez assinada «A.A.», muito provavelmente o sr. Abel Acácio.

Todavia, quanto ao particular da «côr local» [recorrentemente tão cara ao sr. Abel Acácio e a mais uns tantos, cujos gostos pessoais iam mais para a hortaliça com rama…], é justo recordar o que outros críticos, porque devotos de Stº Humberto e habituados a calcorrear matos e montes atrás de uma lebre ou de uma perdiz, disseram a tal propósito. Refiro-me particularmente ao sr. Fialho d’Almeida e ao sr. Zacharias d’Aça que, embora nunca hajam estado pelo Chão da Amoreira, sentiram imediatamente tal paisagem como vera e realista pintura. Fica o texto do sr. d’Aça:



sábado, 16 de maio de 2020

Um almoço no «Leão d’Ouro»

de A procissãoBasta, meu pai!

Ao jeito de amuse-bouche, como agora se diz, só para abrir o palato ao que ainda há-de vir…

Recordando o «Grande almoço de confraternização e de homenagem ao pintor José Malhôa» realizado «no Restaurant Leão d’Ouro em 17 de Junho de 1928». Eis o menu, com capa de Julião Machado (1863-1930): duas páginas interiores, uma com a designação do acontecimento [o atrás transcrito], outra com a «Lista» [à portuguesa] dos comes e bebes, e a conta-capa onde se fica a conhecer a tipografia «Imp. Libanio da Silva – Lisboa».



Na capa, Julião Machado redesenhou o Camões [o de Malhoa para o Museu de Artilharia (1907)], mão esquerda ainda no pomo do espadim, a direita já erguida, não segura o gorro emplumado, saúda Malhoa empunhando uma taça de champagne [«vinho espumoso» de acordo com a portuguesíssima «Lista»].
A legenda confidencia-nos o brinde do vate. «Luiz de Camões: - A José Malhôa, o épico da luz e da côr de Portugal!»


A «Lista» do almoço é igualmente bem disposta. Títulos de conhecidos quadros de Malhoa ilustram cada parte do repasto [espero que consigam ler…].


Por fim, um instantâneo do acontecimento.
A sala do «Leão d’Ouro» [a inaugurada em 1885, evidentemente]. Ao fundo, à direita, lá estará o quadro do Columbano «O grupo do Leão» [os reflexos não deixam ver, mas é]. E, para cá do arco, a “Paisagem com ribeiro” do Ribeiro Cristino.
No relógio bate quase a uma e meia. Os convivas acabados de sentar, as garrafas de Colares velho perfiladas, já abertas, ainda intocadas, os criados de mesa igualmente perfilados. Tudo a postos para o início da  função.
De oculinhos redondos e a olhar para nós, reconhece-se imediatamente Agostinho Fernandes.
Malhoa deverá ser o quinto mais além [quase só lhe vemos a cabeça, já com ralos cabelos, adivinhamos o resto]. Para cá dele, de barbas, talvez António Lobo da Silveira…
E chapéus, muitos chapéus!
[Os palhinhas, então, são imensos! iguais àquele de «À beira-mar» que, segundo ouvi dizer, já deviam estar fora de moda há um ror de anos…]


Esta é uma fotografia que circula por aí com frequência. Já a vi dita como de «1935»!? 
[E, se calhar, é mesmo, se nem vemos o Malhoa!? Lá está o gajo a aldrabar-nos... - dirão vozes que não chegam aos céus.]
Pois, olhem bem para as garrafas de Colares. As duas junto à cara do Fernandes. Vêem ali o nosso Camões, taça erguida, a saudar os convivas?!






Ou aqui, logo no primeiro plano, sobre os pratos destes comensais: lá está o vate desenhado pelo Julião Machado!





Assim é. Aqui tudo é certinho. E, se querem chatear, aproveitem... o Camões.

Saúde! e bom Almoço.

16 Mai.2020. LBG.

domingo, 3 de maio de 2020

Por caminhos do Cabril (I)

Fundeiros, Cimeiros ou do Meio, os Escalos

(do 365 ao desenfastio)

Um 365, à mesa nove! – não há empregado de mesa que se preze que o não tivesse gritado ao balcão do restaurante ou outra casa de pasto.
Quer dizer, havia. Hoje em dia os mais novos já não saberão… Mas sabem-no o sr. António, o Zé, o Tino, o sr. Américo. E isso, a mim, chega.
Muito antes da proliferação dos doces da casa com mais ou menos natas, das babas-de-camelo e suas variantes, dos quindim e brigadeiro agora à conta da imigração brasileira, antes mesmo da praga do molotof que virou quase monopólio, antes de tudo isto, a sobremesa era invariavelmente e salvo situações excepcionais: ou fruta ou pudim.
A fruta era a da época, bem entendido, que não havia cá coisas importadas ou esquisitas. O pudim era o simples mas fiel pudim flan. Tirado na própria altura da forminha de alumínio [havia quem preferisse comê-lo na forma], a escorrer caramelo e a tremelicar sobre o pires na sua breve e derradeira viagem até à mesa. Feito na casa, com mais ou menos ovos, leite e outros cuidados. Veio mais tarde a facilidade do pacote para dar cabo de tudo – embora, se o pacote fosse o do chinês, o «mandarin», a coisa continuasse a ser uma alternativa decente.
E assim, por ser a única coisa que se mantinha inalterada na carta de menu o ano inteiro [a fruta variava conforme a estação], sete dias por semana [não havia dia de fecho], trinta por mês, trezentos sessenta e cinco ao ano, assim ganhou o epíteto.
Evidentemente acabava por ser um enjoo.

No entanto, ainda agora, volta e meia [mas só volta e meia] depois dumas favas à portuguesa ou de um pernil assado pelo Tino [já apertam as saudades!] se a gorduraça toda se não desfez com o tinto, e quero coisa pouca para a tirar do palato, nada melhor que fazer sinal ao António, proscrito atrás do balcão – Ó sôr António, um 365 e duas colheres! - E lá vem ele, todo satisfeito, bigode tremendo ao ritmo do pudim – Hã, hã, e vai lá logo? quarenta mil… hoje são quarenta mil.


Passaram há dias os 165 anos do nascimento de Malhoa. Pois eu só os vi servirem 365 !?
Pela tricentésima sexagésima quinta vez, vi os mesmos quadros do costume [e, quando não são quadros do celebrado, insistem num que nem lembra ao diabo e devia ser proibido – mas ele há gostos para tudo…], as mesmas fotos do costume, os mesmos vídeos do costume, as mesmas conversas do costume.
E enjoa um pedacinho. Mete fastio.
Conforme a capela, a claque [diz-se «grupo organizado de adeptos», eu sei], conforme a tasca, invariavelmente, a pagela é a do santinho costumeiro, o cromo é o do Eusébio [com as cores do União de Tomar], o pudim, o servido nos anos anteriores. Repetindo a receita e, até, os mesmos enganos [se emendam uma linha, no parágrafo seguinte lá continua a mesma criatura com o nome trocado – sinal que nem se lê o que se escreve, sequer que o escrito é lido por alguém, atento pelo menos – é assim como deixar ir também aquela gema duvidosa prá tijela… o resultado já se sabe].
Meu rico sr. António! [mesmo que, à noite, só estejam vinte ou quinze mil gatos pingados, o seu prognóstico é bem mais acertado...]


Urge desenjoar.
E, para desenfastiar [à falta daquelas lulas] o melhor é coisa nova.
Não julguem que trago bavaroise ou receita francesa, sequer umas fatias de Tomar meio deslassadas [as bem feitas, são bem boas!], tampouco uma bela e rosada lagosta da beira-mar com muita mayonnaise mas talhada. Chega o que chegou.
- Ó sôr António, c'os cafés, traga daquela amarela… a ver se isto vai lá…
É já, é p’ra já. E p’rá doutora, o costume, hã?

Experimentemos, então, receita simples, das antigas, quase caída ao esquecimento.
Subamos à região do Cabril, um pouco ao lado de Figueiró. Ali, à beira do Zêzere, por Vale de Góis, come-se bom peixe do rio. Agora, com a barragem, é rei o achigã, espécie importada das américas, se de bom tamanho, grelhado e com aquele molho verde é do melhor! E o velho empregado simpático.
Ao tempo de Malhoa, a coisa era mais simplória, sem a barragem, apenas peixinho frito: uns barbos, umas bogas, uns bordalos ou uns escalos quando maiorzitos. Pois é isto mesmo!
Tomemos a velhinha, agora na moda, EN2 e rumemos para norte. Passada a vila do Pedrógão Grande, uns quatro quilómetros depois, ainda antes da Venda da Gaita, vire-se à esquerda. Já vamos encontrar os Escalos, primeiro os Escalos Fundeiros, logo depois os Escalos do Meio, mais acima os Escalos Cimeiros…


E eis a «Aldeia dos Escallos», pintada por Malhoa, algures por aqui, no ano da graça de 1885.


Coisa rara, pouco vista! Para muitos, tal como eu, por certo pela primeira vez.
E, isto sim, é serviço público! Novidade para todos. Remédio para a vista. E sempre desenfastia…

Trata-se de um quadro apresentado na 5ª exposição de Arte Moderna (a do Grupo do Leão, de 1885) e do qual apenas era conhecida a gravura publicada n’O Occidente, nº256, de 11 Fev.1886, p.32. Pelo menos a crer na prolífera e variada literatura malhoesca [e que eu saiba].



No mesmo jornal, à p.27, fez Monteiro Ramalho a devida apreciação a esta e às restantes obras que Malhoa então mostrou. «É uma obra de primeira ordem» escreveu sobre esta, desenvolvendo: «realisa admiravelmente o lugarejo beirão, mal caiado, desmantelado, tendo perto a corrente fraca d'um pobre ribeiro limoso, e por traz as enormes ramarias copadas d'um borque de carvalhos».


E, como se percebe pela legenda da gravura, o quadro foi comprado pela rainha. Pela Senhora Dona Maria Pia de Saboia, evidentemente [1].


Agora, se o lugar registado por Malhoa era nos Escalos Fundeiros, nos do Meio ou nos Cimeiros, sinceramente, não sei. Passado quase século e meio muito mudou. E, embora o número de habitantes possa não ser hoje muito maior que então, as construções são de certeza mais e bem diferentes daquilo que eram. Mas foi por aqui, é certo.



Esta fotografia pode sugerir qualquer coisa. Mas é muito subjectiva, tirada ao sentimento. Tem já uns quatro anos. Foi, a crer no registo digital, captada a 30.3.2016. Já à saída dos Escalos Fundeiros, após várias voltas ao lugar, onde nada despertara atenção quanto à imagem que levava na cabeça [que se resumia então à gravura d’O Occidente]. Sem mais ilusões e no caminho de regresso, foi parar o carro e disparar - convicto que a tomada de vista não seria aquela, apenas para registar a paisagem, a atmosfera e o enquadramento geral do povoado. Sugere, no entanto.

[A referir ainda que a paisagem registada na fotografia deverá ser hoje bem diferente. Ano e pouco depois, terá sido por ali a origem do grande incêndio que devastou toda a região… Segundo peritos oficiais, foi ali encontrado o tronco de árvore calcinado, alegadamente atingido por um raio, a origem à tragédia. Um velho carvalho seco, disseram. Vai-se a ver, ainda foi um daqueles além, pintados pelo Malhoa…]


Então, mas e o quadro? donde desencantaste a imagem? – estará a perguntar a curiosidade do leitor.
Pois eu digo. Desta vez posso dizer, que o quadro é meu, e é seu, a bem dizer é de nós todos. Mas está nas mãos do Centeno [esse mesmo, o conhecido «Ronaldo do Eurogrupo», o que nos trata dos impostos]. Faz parte de uma coisa que se chama «Fundo de Pintura do Ministério das Finanças».
E para o descobrir, não julgue, caro leitor, que lhe basta reler - sempre com prazer - as obras do professor França, ou folhear de trás para a frente todos os livrinhos e álbuns editados pelo Montez, consultar cuidadosa e meticulosamente um qualquer Catálogo raisonné, e por aí fora… Acredite, não vai encontrar! Tem mesmo de se debruçar a sério na interessante bibliografia dos relatórios e contas, dos anuários e assim, do Ministério da Finanças.
Aí, sim, a ilustrar uma dessas apaixonantes publicações, pode encontrá-lo. E com as indicações todas: «Aldeia dos Escallos», José Malhoa, 1885, óleo sobre tela, 149x105 cm [aqui é que começo a ter as minhas dúvidas: para lá das medidas postas ao inverso do usual, fico com a sensação de estarem exageradas, pois o quadro não deverá ser tão grande (eu depois explico…), posso estar enganado, mas talvez o hajam medido pela moldura…].
Quanto à imagem.
Elas são duas. Uma amputada, a outra exageradamente alargada. Já se sabe: designer que se preze [e não tenha levado nas orelhas a tempo] pouco liga à integridade dos quadros – aquilo não passa de mais um boneco – precisa é que a página fique equilibrada (seja lá o que isso for). Daí, zás, fit to page e está a andar… nem que um quadrado passe a ser um rectângulo tão comprido como o combóio da Azambuja. Ou, então, corta aí esse pedaço que não faz falta nenhuma e só está a chatear
À imagem que mostrei acima, tive de lhe fazer umas manigâncias, juntar fermento, deixar levedar a ver se crescia, para a conseguir pôr mais decentezinha. Tudo a olho, sem certezas, como se percebe.


Mas é triste. Bastante triste, não se saber destas obras [por certo de muitas mais] que enxameiam gabinetes e salões [e muito bem, diga-se, que por lá estarão muito bem] sem que haja um inventário, sem que se saiba onde param, ou o que na verdade são. Não se percebe. Não se percebe o que fazem a DGPC, o Instituto dos Museus [ou lá como se chama agora], nem para que serve afinal a Matriznet [também de quarentena por estes dias, ao que parece]. Idiossincrasias do sistema, dir-me-ão.

É por isto, quando precisam algo de novo para além dos 365 do costume, é mais simples virem solícitos aos colecionadores, aos particulares – Precisava da sua ajuda: aquele quadro de fulano, assim e assado, sabe de quem é? acha que mo consegue? arranja-me o contacto?
Pois, é bem mais fácil. E, por norma, há sempre toda a boa vontade. Mas já nos aproximamos do modo Brísida Vaz, o da casa de meninas. 
Talvez seja altura de pôr as coisas como deveriam ser. E sabermos, afinal, qual é o nosso património comum.


3 Mai.2020. LBG.

_______________________________

[1]. Sem querer dar lições de História [em tempos de confinamento, deixo isso à nova “telescola”] é bom que se entenda o seguinte:
1. Entre meados de Dez.1885 e meados de Jan.1886, a altura em que a 5ª exposição do Grupo do Leão esteve patente e, consequentemente, a rainha teve ocasião de comprar o quadro, como efectivamente, e a crer no dito pelo jornal de 11 Fev.1886, o terá comprado, em todo esse período e por mais três anos, em Portugal só houve uma rainha: a Senhora Dona Maria Pia, a mulher do rei D. Luiz I.
2. Por essa altura, a Menina Dona Amélia d’Orleães (1865-1951) ainda não havia posto pé em Portugal, estava solteira, sequer era duquesa de Bragança, tampouco rainha de Portugal. Terá chegado à Pampilhosa a 18 Maio de 1886; casou com D. Carlos, o duque de Bragança, a 22 Maio 1886, tornando-se assim duquesa; e só seria rainha quando o marido foi aclamado rei, em 28 Dez.1889, após da morte de D. Luiz.
3. Deste modo, é de todo impossível que o quadro, alguma vez em seu «historial», possa ser considerado como propriedade da «Rainha D. Amélia (1885)».

terça-feira, 28 de abril de 2020

«Varões Assinalados»

pelos vint’oito d’Abril

Entre duas datas assinaláveis, o 25 de Abril, para nos lembrar a conquista da Liberdade [entre muitas outras, a de eu poder estar aqui a escrever o que me dá na gana e a do meu caro leitor, desse lado, o poder querer, ou não, ler, e ambos descansados, conforme nossa vontade, sem ninguém [1] ter nada a ver com isso]; e o 1º de Maio que nos recorda a luta dos operários de Chicago, em 1886, pela justa jornada das oito horas de trabalho [este, como todos os direitos das classes trabalhadoras – dia de descanso semanal obrigatório, férias pagas, apoio no desemprego, na doença, na reforma, e por aí fora… e que hoje podem parecer coisa de somenos - custaram muitos anos, muito sangue, muito suor, bastantes lágrimas a conquistar, e vai outro tanto para os ir mantendo…]. Assuntos sérios, e que dispensam palermices mais recentes.

Precisamente entre aquelas duas datas, dizia, assinala o calendário o dia do nascimento de Malhoa. Baptizado «Jose, que nasceo a vinte oito de Abril proximo pafsado [1855]». Faz 165 anos, portanto.

[Há ainda o 30 d’Abril, mas agora não interessa nada]

Ora, para assinalarmos a passagem do aniversário de Malhoa, nada melhor que um presentinho. Um inédito, ou quase… [que, vivos, não haverá uma dúzia que o hajam visto]: a caricatura de Malhoa feita por Francisco Valença (1882-1963) para «Varões Assinalados». Mas o original – traçado e colorido à mão pelo artista, assinado pelo autor e, bem mais tarde, em Jan.1925, por este ofertado e dedicado ao caricaturado.


Sobre Francisco Valença, um dos grandes caricaturistas do dealbar de novecentos, nascido em Lisboa a 2 Dez.1882, mais do que eu possa dizer, antes esta Nota Breve [que pode e deve ler aqui] escrita, e bem, por outra mão.
Só, a acrescentar, a participação regular de Valença nos Salões da SNBA, na secção de «Caricatura», entre 1902 e 1910 (menção honrosa em 1903, 3ª medalha em 1904, em 1906, e 1ª medalha em 1909). No último ano desta sua regular presença, na 8ª.SNBA (1910), Valença apresenta, entre algumas mais, as primeiras seis caricaturas de «Varões Assinalados».
Depois disso só o voltaremos a encontrar na 21ª.SNBA (1924), quando se anuncia, ufano, já galardoado com o «Grand-prix» obtido na Exposição Internacional do Rio de Janeiro, a de 1922, onde expusera com grande êxito o conjunto completo das caricaturas de «Varões Assinalados».

Paralelamente às suas participações nas exposições da SNBA, F.Valença edita, ainda em 1902, um primeiro e único exemplar de «Salão Cómico», álbum de caricaturas das obras expostas no Salão das Belas Artes. 
[Na linha, aliás, do que vinham fazendo Raphael Bordallo Pinheiro e o seu filho Manuel Gustavo nos sucessivos jornais por estes editados - O António Maria, Pontos nos ii, A Paródia - desde as exposições do Grupo do Leão, passando pelas do Grémio Artístico e, mesmo no ano anterior, em secções com título precisamente idêntico, «Salão Comico», publicadas em vários números d’A Paródia, e já sobre a exposição inaugural da nova SNBA.]
 
charge de Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro ao quadro de Malhoa, «Cebolas», 
apresentado na 1ª.SNBA, in A Paródia, 12 Jun.1901, p.187. [2]
Este projecto de Valença será retomado. Primeiro avulso, uma ou duas páginas em publicações onde colabora. Em «A Sátira», por exemplo, em Jun.1911 a propósito da 9ª.SNBA, e já em parceria com o escritor Carlos Simões, ensaia em sete páginas da revista o que virão a ser os Catálogos Cómicos - chama-lhe então «O monoculo d’A Satira na Exposição Nacional de Bellas-Artes».
 
Charge ao quadro de Girão, «Viva a República!»,
um dos caricaturados por Valença in A Sátira, 1 Jun.1911, p.22.
Depois, a partir de 1914 (11ª.SNBA) já com o novo título, «Catalogo Comico», Valença edita pequenos cadernos que são aquilo que o próprio nome indica. Abrem com um texto crítico-satírico sobre a exposição assinado por Simões, e apresentam uma série de caricaturas legendadas sobre algumas das obras expostas e desenhadas por Valença. Estes catálogos alternativos aos catálogos oficiais da SNBA serão publicados em, pelo menos, seis edições sucessivas até 1919 (16ª.SNBA); haverá uma sétima da qual ignoro data, e uma oitava aquando da 21ª.SNBA, a tal de 1924.

«Acendendo o cigarro», óleo de Malhoa caricaturado por Valença,
in 
Catálogo Cómico, 1915.
Como Valença “viu” o quadro «Maré baixa (Praia das Maçãs)» de Malhoa,
in Catálogo Cómico, 1919. 
[3]









«Varões Assinalados» foi, como já se percebeu, a obra marcante no reconhecimento público de Valença.
Editado em fascículos «bi-mensais», anunciava-se como «o mais luxuoso e artístico jornal de caricaturas que se tem publicado no país», vendido ao preço avulso de 60 réis cada fascículo (preço que manterá até final) mas podendo ser assinado por 12 números (com o mesmo valor proporcional) e, em termos de mercado, antecipava desde logo a sua futura cotação: «A collecção (…) valerá dentro de cinco anos dez vezes mais do que o seu preço de custo».

Até o Camões, cotovelo remendado, charuto e bengala, anunciava as virtualidades da obra…





Cada fascículo era vendido com uma sobrecapa em papel de baixa gramagem e cor variável onde, para além do cabeçalho, o frontispício e restantes páginas eram aproveitadas para publicidade comercial ou promoção da edição. Lá dentro um par de folhas soltas, bom papel e cuidada impressão: uma com a caricatura feita por Valença em policromia, a outra com a biografia, mais ou menos ironizada ou satirizada, do caricaturado. Para isto Valença rodear-se-á do melhor que então havia na escrita e na crónica nacional.

Valença rodeado dos seus escribas, folha suplementar ao último fascículo de «Varões Assinalados».



A bem da verdade, a receita não era nova. Tal como na estória dos «Salão Cómico» e «Catálogo Cómico», Valença foi ao menu do Mestre Raphael Bordallo e, qual Chef da moda, um ou outro ingrediente mais, tratou de aggiornare o caldo. E bem, acrescente-se.
Se o «Álbum das Glórias» dera três dúzias de fascículos entre Mar.1880 e Jan.1883, e fora apenas acrescentado, com o Hintze, o Zé Luciano e o Bulhão Pato, já em 1902; havia agora que tender umas boas quatro dúzias! Se antes escreveram o Ortigão, o Azevedo (morreu cedo, coitado!) e mais uns outros; era a vez de juntar o Gomes Leal, o Chagas, o Brun, o Eugénio Vieira, o Acácio de Paiva e tantos mais, uns feitos, outros a fazerem-se, mas todos de boa colheita! Se a impressão e a cor haviam sido conforme podia então ser; era altura de aproveitar toda uma nova tecnologia, aprimorar no tempêro e apresentação!

A publicação de «Varões Assinalados» começa em Set.1909, ainda em período monárquico, já depois do regicídio.
E começa logo com a caricatura de Miguel Bombarda: «Doutor para Rilhafolles [o hospital psiquiátrico que depois levaria o seu nome], Bombarda para a reacção» - reza a legenda. O médico e activista republicano é desenhado a “tratar da saúde” a uma jesuítica figura e aos macróbios que a “infectam”. O texto é de André Brun. A coisa começava logo assim, portanto!
Seguir-se-iam António José d’Almeida e um variado conjunto de personalidades da vida política, cultural e social de então, na sua esmagadora maioria de cariz empenhadamente republicano [a lista pode ser consultada a seguir].

O índice final com os 48 caricaturados e os autores de cada biografia (e um sapo bordalliano)







Com o 5 de Outubro e a implantação da República, em Nov.1910, surge a única caricatura que reúne três personagens: Machado dos Santos, António Maria da Silva e Luz d’Almeida: «Tres varões assinaládos» - proclamava a legenda sobre os três «primos» «rachadores», os chefes da Carbonária recém vitoriosa. Para que também não restassem dúvidas!
Pela mesma data, Hermes da Fonseca, então eleito presidente da República do Brasil e que, de passagem por Portugal, assistira ao fim da Monarquia, era também assinalada figura.

Malhoa será o penúltimo da lista. A sua caricatura é editada num último e quádruplo fascículo que reúne as últimas quatro caricaturas e respectivas notas biográficas, e cuja sobrecapa indica a data de Ago.1911.
Contudo, o texto referente ao nº45, Augusto de Vasconcellos, está datado de «7-11-912»; o sequente, sobre Duarte Leite, tem a data «11-912»; o de Malhoa regista «20-11-1912»; já o último, referente a Antº Ribeiro Seabra, não tem data alguma. Ora isto deverá querer dizer que a data da capa, e as das caricaturas, não corresponderão exactamente à verdade; e, muito provavelmente, este último múltiplo fascículo deve ter saído atrasado mais de um ano… [Nem que fosse para, até nisto, imitar o atraso final do «Album das Glórias» - diríamos com ironia].
Assim, a crer nas datas apostas àqueles três textos, dever-se-á dizer que a publicação de «Varões Assinalados» se desenrola entre 1909 e 1912, e não «1909-1911» como usualmente se afirma.

[Na «Casa Comum», Fundação Mário Soares, encontram-se quase todos os fascículos tal como foram vendidos. Se os quiser espreitar, pode aceder aqui.]


Chegamos então ao Malhoa varão assinalado.
Quer na caricatura, quer no texto biográfico, sátira não há. Alguma ironia, um ou outro trocadilho nas palavras, tímidos sorrisos provocam, não arrancam gargalhada. Que o respeitinho é muito bonito!
E, percebe-se bem, foi o respeito e admiração que Valença nutria por Malhoa a razão principal de o incluir nesta restrita galeria de notáveis da época. Por muito que, ainda hoje, tal possa contradizer outras narrativas.



Malhoa foi caricaturado sem qualquer exagero de traço ou toque mais mordaz. Aquilo é quase um retrato - dir-se-á. Normalmente sentado como se a nós retratasse, na cabeça o quico que então usava no atelier, a característica e farfalhuda lavallière de seda negra, os pincéis e a paleta. E só aqui, nos pincéis e na paleta, encontramos alguma coisa do seu universo iconográfico, alguns dos personagens e objectos das suas obras. Mas sem a mínima ou caricatural deformação, antes reproduzidos fiel e reverencialmente, como receio houvesse em beliscar obra de Mestre.
Ali revemos o bêbado cambaleante mais o chapéu de sol perdido n’«A volta da romaria», 1901 [ou, quem sabe?, pela cor e estampado, aquele que o António Carlos segura na «Cabeça de velho», 1903 (a da Casa dos Patudos)]; o rapazito que apanha as canas de foguete n’«A procissão», 1903; a bilha de barro da prova d’«O azeite novo», 1904 [e não, definitivamente não é qualquer dos canjirões d’«Os bêbados»!]. E cores, muitas cores! E só nas escorrências das cores, uma pontinha de desordem, a que seria habitual em qualquer caricatura, se vislumbra.




O texto é assinado por Carlos Simões, como vimos o colaborador mais assíduo de Valença por estes anos, e o que mais textos produziu nesta assinalável empreitada.
Para lá dos trocadilhos e graçolas do tipo «queria? já não quer?», nada traz de novo à habitual conversa mais ou menos biográfica sobre Malhoa. A que durante longos anos foi sendo repetida à exaustão. O próprio o reconhece no último parágrafo.
E apenas aí nos diz coisa nova e inabitual, sobre um alegado hábito de Malhoa: «o de ir todas as noites ao Gato Preto, fumar o seu cubano e cavaquear com amigos de velha data». Surpreende, no mínimo! [4]


Então, e o famigerado original, qu’é dele?! – impacienta-se o leitor, fartinho de tanta conversa.
Pois, quase não tem mais conversa, foi já tudo explicado. Resta apenas ver.


Ver o modo como acabou por ser feito. Como se vê: aos bocadinhos!
Uns quatro pedaços de papel, pacientemente colados uns aos outros, e um sobre outro, completam esta espécie de puzzle. Pois emendas e retoques, não se podendo apagar e fazer de novo, implicavam um novo pedaço de desenho aposto ao anterior. Assim era.
Veja-se o recorte com a cabeça de Malhoa [tentados a ver o que lá estaria por debaixo, não?!] cuja costura passa abaixo da linha dos ombros, dá a volta cortando o ombro esquerdo do Pintor, sobe junto ao limite do fundo colorido, entrevê-se na horizontal logo acima do quico da cabeça, para descer de novo à beira da linha preta que enquadra o fundo. Ou as tiras de papel acrescentadas à direita, a alargar o suporte, para completar a ponta da paleta [duas? porque não apenas uma?!] talvez em duas tentativas…

Claro, hoje em dia, mais de um século depois, os efeitos do tempo, da luz, as variações de humidade, algum pó, a bicheza [a microscópica, a que mais ataca!] lá amareleceram os papéis de forma diversa, actuaram sobre as colagens, e tudo ficou mais marcado. E muito bom está ele! 
E as cores?! Parecem pintadas ontem!
Na ocasião da impressão deveria estar em melhor estado, obviamente. De qualquer modo, no processo de transferência fotográfica para a feitura das chapas qualquer imperfeição terá sido resolvida. [Menos na paleta: que, na gravura, um olhar mais atento logo topa dois saltos no traçado do canto emendado no original...]
Com 32,8x27,0 [a suposta folha inicial teria 32,8x24,5] apresenta-se colado, apenas na parte superior, sobre uma cartolina maior [37,8x32,8] de cor escura e pardacenta. As falhas no bordo superior da folha do desenho podem ter sido obra de bicho ou, em eventual mudança de suporte, do descola e cola.
Aparentemente, estará tal como Valença o deu a Malhoa. O cartão que encerra o conjunto pela parte traseira, travado por preguinhos na moldura de madeira, deve ter sido, tal como esta, reaproveitado por Valença de uma outra obra sua. Virado do avesso, o cartão apresenta uma etiqueta colada, manuscrita a tinta e que diz em duas linhas: «Francisco Valença | 6 – Aviso… importante» [a linha com o título foi riscada a lápis].
A assinatura inicial, a reproduzida na gravura editada, ainda lá está no mesmo sítio. Depois, aquando da oferta, foi acrescentada a dedicatória: «Ao grande e glorioso Mestre José Malhôa, | com a mais sincera admiração e viva simpatia, | Ofe. F. Valença | Janº.1925» e ainda «(Original dos “Varões Assinalados” – Agosto 1911)».



E, para acabar, duas coisas mais.
Dois desenhos de Valença, duas primeiras páginas do semanário humorístico «Sempre Fixe». Estes já de 1928, dois anos após o golpe do 28 Maio, em plena ditadura militar.

O primeiro, publicado a 31 Mai., aproveita o decreto que alterou a regra do sentido do trânsito rodoviário, mudança que iria entrar em vigor no dia seguinte. Informação cívica e política.
[O boneco do ardina não era novo, fazia, aliás, parte do habitual cabeçalho do jornal desde o seu terceiro número, publicado a 27 Mai.1926, curiosamente na véspera do golpe. E havia sido usado já de forma muito semelhante, no nº10, 15 Jul.1926. Então acompanhado por letras garrafais com os dizeres que passariam a ser a regra durante as décadas sequentes: «Este numero foi visado pela comissão de CENSURA».]




O segundo, ocupando igualmente toda a primeira página do jornal, é de duas semanas depois. Agora a propósito da «Homenagem ao Grande Pintor José Malhoa», realizada em Jun.1928 na SNBA. E lá dentro, ao alto da pág.2, mais uma pequena nota.



E eu, se o usasse, também tiraria.
Ao Valença e aos Bordallos. Ao «Sempre Fixe» e à imprensa livre. [Também à menina Maria.]
E ao Malhoa, claro, que faria anos hoje!


28 Abr.2010. LBG.

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 [1]. Curiosamente e no entanto, quando estou muito tempo sem publicar coisa alguma aqui no blog e o resolvo fazer de novo, verifica-se, nas horas imediatamente a seguir, um número esmagador de ávidos leitores provenientes dos EUA (algumas vezes também da Federação Russa). Como todos sabemos, estas coisas ligadas a Arte em Portugal no séc.XIX são assunto que desperta o maior interesse por essas partes do globo… Bem hajam.

[2]. Depois, venham-me cá dizer que eu não tenho razão…!? Há mais de um século que o Manel Gustavo “diz” a mesma coisa.

[3]. Há quem teimosamente o chame de “A Pedra de Sal”, pode ser que assim lhe passem a chamar, sei lá, “Os Canhões de Navarone”… «O que também está certo!» - como diria o Pedroto.

[4]. O Gato Preto, que se saiba, era loja de comércio onde se vendiam, entre de muitas outras proveniências, as loiças, as cavacas e a água das Caldas, também bengalas, brindes e utilidades. Ficava na esquina do Arco do Bandeira com a rua da Vitória. E o dono, o Júlio Menezes era (sim senhor!) das relações de Malhoa - até lhe levara «apenas o custo da fábrica» pelos «448 azulejos» para as obras do «Casulo» [aqueles que, alguns acham, o Bordallo foi lá pôr a Figueiró].
Mas, convenhamos, mesmo se aquilo estivesse aberto à noite, sair de casa, ir das Picoas ao meio da Baixa, e voltar, «todas as noites», era preciso vontade! Apenas se o cavaquear fosse mesmo muito bom e o charuto ainda melhor…! E, das três, uma: ou Simões está a falar de qualquer outra coisa que hoje em dia desconhecemos, ou é figura de retórica, piada, remoque que não percebemos, ou delirou.