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quarta-feira, 25 de abril de 2012

Da venda a retalho

Duas telas de José António e de Pedro Jorge Pinto



Sem muitas considerações, que as imagens valem por elas mesmas, ficam aqui duas telas, em duas versões, uma de José António Jorge Pinto, outra de Pedro Jorge Pinto.

As primeiras versões foram retiradas do catálogo 102 da Cabral Moncada Leilões, de Dezembro de 2008. As segundas, mais fresquinhas, são do catálogo 57 da Renascimento, para o leilão de Abril.


Há três anos e pouco, ambas as telas, ainda inteiras, eram-nos dadas como da autoria de Pedro Jorge Pinto.



Intituladas então “Paisagem com Touro ”e “Burro puxando Nora”, apresentavam-se como datadas de 1934 e 1930, e dimensionadas com 55x92 e 62x76, respectivamente. Na primeira era reportado um «pequeno rasgão».

Hoje, após um, digamos, ligeiro restauro, originado sabe-se lá porquê, aparecem já diferenciadas na autoria – Pinto, 1895, para o “Bovino Pastando”, ost (colado em madeira) 39,5x69; e Pedro Jorge Pinto, 1930, para a “Nora com Mula”, ost (idem) 35x78.
Constata-se assim, para lá do burro se ter elevado, ainda não a cavalo, mas a muar, que a superfície de ambas as telas diminuiu consideravelmente e novos enquadramentos dos motivos, ligeiramente diferentes dos concebidos pelos Autores, nos deleitam.

Mas, e valha-nos isso, já alguém percebeu que o bovino, capado ou não, terá sido pintado por outras mãos e bem mais cedo que o anteriormente referido.

Para não asnear, nesta conversa de solípedes, faço-me de mula e nada mais digo. Nem sobre a excelência das peritagens, nem sobre a arte do corte e tesoura ou de bem retalhar toda a tela.

Ficam as imagens e cada qual tire as conclusões que entender.

Devo, todavia, esclarecer, e à causa de mais confusões, que o «Pinto», o do boi, será, sem sombra de dúvida, o pai do Pedro – José António Jorge Pinto - como, aliás, sempre me pareceu, mas que o peremptório «assinado e datado de 1934» anterior, tornava menos provável…


José António Jorge Pinto (1875-1945), lisboeta de nascimento, cacilhense de origem como seu tio Manuel Henrique Pinto. Foi discípulo de Ferreira Chaves e Veloso Salgado. Começa por se apresentar na 7ª Exposição do Grémio Artístico, 1897, com três quadros a óleo. No ano seguinte repete a experiência com mais alguns óleos e um desenho – é-lhe atribuída uma menção honrosa. Mas logo se dedica preferencialmente à cerâmica, primeiro na fábrica Constância, depois na de Campolide. Expõe com irregularidade na SNBA, onde conquista algumas medalhas. Republicano e Maçon, participa no associativismo operário de cariz republicano. Professor do ensino industrial, fez parte do quadro inicial do Instituto Superior Técnico.
São de sua autoria numerosos painéis de azulejo de inegável interesse.
Em Lisboa, podem ser vistos os da Leitaria A Camponeza (1908), simpático bistrot na Rua dos Sapateiros; os de alguns quiosques (c.1915/6) no Cais do Sodré, no Jardim Constantino ou no Parque Silva Porto, em Benfica; parte dos painéis que ornamentam o degradado Pavilhão dos Desportos – Carlos Lopes – ao Parque Eduardo VII (c.1922) - a outra parte, a sempre citada, é de Jorge Colaço.
Podemos ainda admirar azulejos seus no Sanatório da Parede (c.1903/8), em várias moradias da Linha e ainda na estação da CP do Bombarral (c.1930). Na Casa Cruz Magalhães (1914) - actual Museu Rafael Bordalo Pinheiro – e na Casa Malhoa [1].
E não se podem ignorar dois importantes trabalhos, também raramente citados: os painéis para a Casa dos Patudos (1905), a de José Relvas, em Alpiarça (alguns pode ver aqui) , e para o Palácio da Brejoeira (c.1909), em Monção – esse mesmo.[2]



Pedro Jorge Pinto (1900-1983), filho do precedente, discípulo de Columbano e Veloso Salgado, participa já nas exposições da SNBA, não só com pintura a óleo, mas também com aguarela, desenho e gravura. Várias vezes galardoado pela SNBA – 1ªs medalhas em aguarela e desenho, 2ª medalha em pintura -, conquista a medalha de ouro na Exposição Internacional do Rio de Janeiro, em 1922. Professor do ensino industrial, foi durante longos anos docente na Escola António Arroio.
Também dedicado à cerâmica, são de sua autoria numerosos painéis de azulejos, desde os que ornavam o muro do Mercado de Setúbal, recentemente derrocado, até ao imponente painel cerâmico da Cervejaria Solmar, às Portas de Stº. Antão, bem anos 50's e que vale bem uma visita.[3]


E, nestas coisas, convém saber distinguir o alvarinho da imperial… e não emborcar a primeira zurrapa que se nos oferece.




Publicado originalmente em 21 Mar. 2012.
Revisto em 25 Abr. 2012. LBG.


[1]. Ver nota em aqui
[2]. Agradeço o contributo pessoal e a tese do Arq. António Cota para a revisão da biografia de José Antº Jorge Pinto.
[3]. Na nota biografica de Pedro Jorge Pinto seguiu-se, no essencial, Fernando de Pamplona - Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses, Civilização, 2000.


terça-feira, 24 de abril de 2012

Das bodas do José e da Júlia…



Hoje, 29 de Janeiro, fariam anos de casados José e Júlia Malhoa.




Para comemorar as Bodas de Prata de tal data, ofereceram-se este par de argolas de guardanapo no mesmo metal. Uma com a data do enlace «1880», a outra com 25 anos mais «1905». Era a altura da “Arte-Nova”, e as argolas acompanham o estilo.

(Cinco anos mais tarde, Manuel H. Pinto e Mª da Conceição repetirão entre si a graça, com argolas semelhantes e datas ajustadas – 1885 e 1910)

Mais que as argolas, convém não esquecer, José e Júlia presenteiam-se, nesse ano de 1905, com casa nova, nas Avenidas também Novas, projectada pelo novo Arquitecto Manuel Joaquim Norte Júnior, logo premiada com o novo Prémio Valmor (será a terceira a receber tal prémio - não atribuído no ano anterior, para desespero do Lambertini, e apesar dos tectos e frescos do Malhoa…).

Ei-la, acabadinha de fazer, toda airosa, na Avenida António Maria do Avelar, ainda, e ainda sem carros.


E, como as argolas, também à “la page” - “Arte-Nova”, pois então!
Tal como os frisos e painéis azulejares que a embelezam. Eloy, dizem [1], Malhoa e Ramalho.

Do António Ramalho Júnior, a tela a óleo de A Glória, também “Arte-Nova” chapada, assim e do avesso reproduzida nos painéis de azulejo que ladeiam o grande janelão do atelier. Fica para assinalar a data.

 (Hoje, tal edifício é a Casa-Museu Anastácio Gonçalves, e vale sempre uma visita...)






Sobre o casamento propriamente, foi pelas oito da manhã do dia 29 de Janeiro de 1880, na Igreja do Sacramento, ali ao Chiado.

Malhoa devia estar, mais ou menos, assim.

E pronto!







Para mau gosto, já basta uma versão do assento do acto que por aí anda, e em duplicado ainda por cima!
Metade é aldrabado - copiado mal-e-porcamente. Alguém pensou que tinha descoberto segredinho novo, salivou, arreganhou a boca, mordeu a língua, turvou-se-lhe a vista - tresleu - e com a sofreguidão comeu metade das palavras. O resultado é lastimável. E não havia necessidade…
(Eu bem que avisei, aqui atrasado…Agora, queixem-se que tenho mau feitio!)
Assim, onde e quando lerem que Malhoa, por essa altura, «mora na Rua da Conceição» fiquem sabendo que deveriam ler «… na Rua do Crucifixo, nº 50, freguesia da Conceição». O endereço, como outras coisas, foi tragado com a avidez da gula!
Esta era, aliás, a mesmíssima morada do “mano” Joaquim. Na esquina com S. Nicolau, mais pertinho da loja dos chapéus e das escadinhas de S. Francisco por onde subia até à Academia.
Mas a nova asneirola já rola, ufana, resultado da ânsia coscuvilheira.

E siga a marinha!




Publicado originalmente em 29 Jan.2012. LBG.



 [1] Sobre este assunto, ver a interessante tese do Arq. António Cota Fevereiro, Álvaro Augusto Machado, José António Jorge Pinto e o movimento arte nova em Portugal, ULL, Maio 2011. Ali se percebe a diferença entre as pinturas originais a fresco atribuídas a Eloy e os azulejos que as substituíram (c. 1914?), muito provavelmente, da autoria de José António Jorge Pinto. Repetindo os motivos de Malhoa e Ramalho nos painéis principais, mas alterando o desenho nos frisos decorativos. A comparação entre fotos de 1905/6 e outras mais tardias parece prová-lo claramente.