E,
fica bem claro, neste Outono o que
vemos são as cerejeiras da quinta da Fontinha em Figueiró e não, por muito que
a vários custe, plátanos, choupos ou castanheiros, de Chão de Couce ou de
Raio-que-os-parta…
Três
anos depois, na SNBA de 1921, Malhoa apresenta, de facto, um (outro) Outono, pelo qual pede 250$00. Alguém
pode achar que estamos perante o mesmo quadro?
Obviamente
que não!
Ninguém,
em seu perfeito juízo, pode conceber que um quadro, comprado para o Museu
d'Arte Contemporânea por 800$00 – uma bela quantia à época – e que no seu
acervo está há três anos, de lá saia para ser posto à venda por 250$00, em
1921. E que, de novo, volte ao Museu. Ou pode?!
Do
mesmo modo que a sucessão das estações nos dá um novo Outono cada ano, Malhoa
terá pintado vários Outono(s), Vinha(s) no Outono e por aí fora… Estamos, claramente, perante quadros
distintos.
É
pois altura de se acabar de vez com o equívoco!
Equívoco que vem de trás. Originado, por um lado, por
nas várias listagens de obras e exposições de Malhoa, até hoje publicadas, nunca aparecer assinalada a referida
Exposição dos “Consagrados” do início 1918 e as 21 obras ali mostradas –
algumas, como é o caso, pela primeira vez.
Por outro lado, por uma outra treta, felizmente já em
desuso, e que leva, inclusive, a que nalgumas publicações esta obra apareça
“convenientemente” datada como de 1919 – isto apesar de claramente assinada:
«José Malhoa, 1918». Tal treta procura, à viva força, relacionar dramaticamente
este Outono, 1918, com a morte de
Júlia Malhoa [1], situando-o
ora como prenúncio desta, ora como a primeira obra realizada após o período de
nojo. Como entre o Outono do ano de 1917 - a última estação da queda da folha
em que o quadro pode ter sido pintado - e o dia 2 de Janeiro de 1919 – pese a
alguns, a data da morte de Júlia - medeia mais de um ano e muitos outros
quadros pintados…Também, por este lado, estamos conversados.
Como
conversados ficamos no que toca a trazer para este assunto uma croniqueta
obscura de 1921. Francamente!? Interessa-me cá bem, quanto a este «excepcional»
Outono, 1918, o que alguém escreveu
sobre um outro Outono qualquer de que
não reza a história!? Eu estou a olhar para alhos, o outro fala-me de bugalhos!
Ora bolas! «Mestre Malhoa está muito longe nesta exposição» - pois está! Nisto,
pelo menos uns três anos… e, depois da crónica despropositada, mais uns quatro
sem expor na Sociedade… Às vezes, tamanha “erudição”, se não fosse triste, era
ridícula. Adiante.
Porque
hoje estou bonzinho, fica o Catálogo [2] da dita Exposição dos “Consagrados” da
SNBA, em Janeiro de 1918. E não digam que o levam daquí...
Publicado
originalmente em Jan. 2012. LBG.
[1] …E, nesta
conversa, quando não é o Outono, lá
vem o Remédio…não tem remédio!
[2] Para uma melhor leitura das folhas do Catálogo, clicar sobre as imagens.