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quinta-feira, 30 de julho de 2020

Por caminhos do Cabril (II)

A ponte seiscentista

Onde se fala da Ponte do Cabril, do rio Zêzere, suas barragens e outras pontes. De antigas estradas e vários caminhos. Dos dois Pedrógãos e outras vilas e lugares. De Silva Magalhães, Alfredo Keil e Nª Srª dos Milagres. Da água e de rios, de peixes e fontes. E também da Estrada da Beira, da beira da estrada e da Srª da Asneira.


Eis a velha ponte sobre o Zêzere, entre os dois Pedrógãos, a jusante da garganta do Cabril. Dizem que erguida ao tempo dos Filipes, entre as altas escarpas graníticas que ali comprimem o curso do rio.
Com os seus imponentes «talha-mares». Que, deste lado, “talharam” coisa nenhuma, mas servem de contrafortes aos dispostos a montante. Esses, sim, feitos para resistir às fortes enchentes do rebelde Zêzere, então longe de ser domado pelas barragens.
Em contraponto, no estio, e como se vê, o rio corria bem lá no fundo, uns trinta metros abaixo do tabuleiro da ponte, diz-se, qualquer coisa como a altura de um prédio de dez andares… Muito abaixo do nível que nos habituámos a ver. Pois hoje, com a albufeira e por norma, a ponte jaz grande parte submersa, e a água anda, coisa menos coisa, acima do arranque dos três arcos de volta perfeita. O maior destes, o central, apresenta um vão com cerca de vinte e dois metros de abertura. E o tabuleiro lançado sobre os arcos terá, entre margens, uns bons setenta e dois metros de comprido. É obra! E é magnífica!


Foi, durante mais de três séculos e muitas milhas em redor, a única passagem “a pé enxuto” entre a Beira-Baixa e o Litoral. Tal como antes havia sido a velha ponte romana que terá existido uns metros ao lado desta…
Apesar da sua grande altura, para se chegar até lá, muitos metros de íngreme e sinuoso caminho são precisos percorrer, boa parte ainda sobre a velha calçada romana, descendo muito, outro tanto subindo, de um ao outro dos Pedrógãos.
Mesmo já ao tempo do trânsito automóvel e até ao início da década de 30 do século XX, era descendo e subindo o velho caminho até à ponte que grande parte das mercadorias e passageiros circulavam entre a Beira-Baixa e o centro litoral. Era isso, ou atravessar as altas serras mais ao norte – a Estrela, a Gardunha, o Açor – por caminhos ainda mais íngremes e perigosos. Impraticáveis no inverno.


Só então [1], já por 1930 ou 31, uns doze quilómetros a jusante, seria finalmente acabada a ligação entre Figueiró dos Vinhos e Cernache do Bonjardim através da nova ponte das Bairradas, à Bouçã. Caminho novo, mais moderno, por onde passou a ser feito quase todo o tráfego que antes atravessava a velha ponte filipina. Mudança fundamental para o desenvolvimento de Cernache e de Figueiró. A vila sertanense, que já tinha ligação pelo Vale da Ursa [2] com Ferreira e Tomar, passou também a ser ponto de passagem para Coimbra e todo o litoral centro. E Figueiró viu reforçada em definitivo a sua importância como entreposto distribuidor dos lanifícios vindos da Covilhã, do Teixoso, do Tortosendo, e prosperidade pelas quatro décadas sequentes.
Nem a construção da barragem do Cabril, finalizada em 1954, e que possibilitou a passagem automóvel pelo seu coroamento, a uma cota já elevada, perto do nível das vilas do Pedrógão Grande e do Pedrógão Pequeno, reverteu a importância da rota por Cernache…
Em 1983, a construção da ponte d’Álvaro, benefício fundamental para as gentes da Beira-Baixa na sua ligação a Coimbra, retirou boa parte do tráfego à Bouçã. Mas só em 1995, com a entrada em funções da nova ponte do Pedrógão, integrada no novo troço do IC8, é que definitivamente a ponte das Bairradas perdeu a importância que mantivera por mais de seis décadas de bons serviços.
Esta nova ponte, lançada a cota elevada, ligeiramente a jusante e muito acima da velha obra filipina, eleva-se uns bons 150 metros acima das águas do Zêzere. Com cerca de 480 metros de comprimento, assenta em quatro pilares, o maior dos quais apresenta uma altura da ordem da centena de metros. O tramo central do tabuleiro vence um vão de 180 metros, os laterais 110 metros cada um, existindo ainda mais dois pequenos tramos do lado de cada arranque.

Voltando às barragens e à velha Ponte.
Quase simultânea à do Cabril, a barragem da Bouçã, construída uns seiscentos metros a montante da ponte das Bairradas, entrou ao serviço um ano depois da anterior, em 1955. A sua albufeira estende-se, pois, ao longo da dúzia de quilómetros que medeiam até ao Cabril. É o enchimento da albufeira da Bouçã a causa da submersão de grande parte da velha ponte do Cabril, que se apresenta agora, quase sempre, com água pelos colarinhos.


Monumento Nacional classificado desde 16 Jun.1910 (ainda ao tempo da Monarquia) [3], a velha ponte seiscentista tornou-se assim, à conta da electricidade que nos alumia as noites, uma espécie de património anfíbio. Parte é apenas visitável pelos peixinhos. Mas quem não for boga ou achigã pode sempre admirar-lhe o coroamento e mesmo passá-la a pé de uma à outra margem.
E a caminhada entre os dois Pedrógãos, usando o velho caminho e atravessando a ponte, é tempo e esforço bem empregues. Pela diversidade da paisagem e penedias, pelo ar e cheiros que se respiram, pelos caminhos… E pela Ponte, claro!
[Talvez seja aconselhável começar do lado da Beira-Baixa e acabar à capelinha de Nª Srª dos Milagres do outro lado - a primeira rampa é a mais acentuada, e sempre será a descer… No tempo quente, convém não fazer o percurso com o sol a pino. E, seja a hora que for, não deve ser esquecida água para beber, sabendo que pode sempre reabastecer junto à ponte: há uma fonte, logo à direita, já em território do Pedrógão Grande]


As ilustrações antigas que acompanham o escrito são, por tudo isto, imagens raras aos dias de hoje. Dificilmente repetíveis - a não ser que aconteça alguma desgraça…

Por ordem cronológica aproximada (que, nestas coisas, nunca se sabe) e não pela ordem em que são mostradas, temos:
Uma gravura de 1875, sobre fotografia do tomarense António da Silva Magalhães (1834-1897), publicada no «Diario Illustrado» de 13 de Agosto desse ano [e já antes aqui mostrada].
A reprodução em postal de um quadro de Alfredo Keil (1850-1907) pintado, por certo, numa passagem pela região pelo final do século. Numa das voltas maiores que as habituais, bem longe do Beco, do Carril, de Dornes, da Frazoeira e Paio Mendes - o seu poiso de vilegiatura serrana. E quando não era em veraneio à Praia das Maçãs, na sua Villa Guida, bem entendido… [O quadro de Keil é este logo acima]
Ainda um velho postal ilustrado figueiroense [5] dos primeiros anos do séc.XX, e uma outra fotografia panorâmica muito provavelmente também da primeira década de novecentos ou final da anterior.

Finalmente, e só para ajudar a perceber, duas fotografias tomadas da margem direita, já no verão de 2011.
Uma sobre a velha ponte pouco menos que submersa - dos «talha-mares» emergem apenas os remates piramidais. Na margem oposta vê-se boa parte do sinuoso caminho que sobe até ao Pedrógão Pequeno. E a montante, além da curva do rio, divisa-se o imenso paraboloide em betão da barragem do Cabril.
A outra foto [esta logo aqui abaixo] mostra mais em pormenor parte da ladeira e uma curiosa obra de arte, um pequeno viaduto em cotovelo que dá continuidade ao caminho. 


Visto tudo isto, não haverá como confundir a belíssima Ponte do Cabril, a de seiscentos, Monumento Nacional, com uma outra qualquer…
Tal como a Estrada da Beira [4] não é a mesma coisa que a beira de qualquer estrada.
É bom que se pense nisso. Ou, simplesmente, que se pense.

30 Jul.2020. LBG.

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[1]. Ainda a 20 Abr.1929, A Regeneração noticiava o começo dos «trabalhos de terraplanagem do troço de estrada das Bairradas». A estrada que, do lado de Figueiró dos Vinhos, iria fazer a ligação à nova ponte.
E pouco depois, a 10 de Agosto, dava-nos conta da normalidade laboral no andamento dos trabalhos, à sua peculiar maneira, em pungente e ternurenta prosa que não resisto a transcrever:
«Tambem lá para as bandas do Zezere, a Bairrada deu que falar. Alguns operarios empregados na obra de construção da estrada que nos ha de ligar a Castelo Branco, viram a semana passada os seus salarios reduzidos. Á noite, em assembleia magna, reuniram, à luz mortiça do céu estrelado e deliberaram: não abandonarem o serviço, exigirem ao sabado o mesmo salario e se tanto fosse preciso apelar para a sua força muscular, para fazer valer, as suas pretensões.
«Mestre André, que é ali o representante do patrão empreiteiro, quando viu a integridade do seu físico em perigo, filosofou: - Não! Morrer, por morrer, morra o patrão que é mais velho!
«E mandou vir o Patrão. Este veio e se Deus Nosso Senhor lhe não acode… o caso podia complicar-se. Mas, a G.N.R., numa força de 20 praças, vindas directamente de Lisboa, entrou em função, expulsou os operarios em revolta e tudo voltou à normalidade.
«Àqueles montes e penedias voltou a paz. De quando em vez o dinamite, num trabalho quasi santo, estoira com a rocha, a picareta rebrilhando ao sol, abre novos caminhos, emquanto as águas do Zezere, gargantearam pelos pedregosos vales, como em pleno mez de Maio, a balada eterna e enganadora: ”Trabalhai, meus irmãos, trabalhai. Que o trabalho dá saude e dá vigor”.»
Tudo a bem da Nação, evidentemente!

[2]. Ao Vale da Ursa existia, desde 1885, uma das então raras pontes sobre o curso do Zêzere. Obra do final do fontismo, veio resolver a passagem "a vau" (ou através da «barca de passagem» referida nesta crónica de 1875) da estrada real que ligava a Sertã a Tomar, passando por Cernache e Ferreira. Era uma ponte com tabuleiro metálico treliçado, em três tramos assentes sobre grossos pilares de alvenaria de pedra. Manteve-se ao serviço até inícios de 1951.
Tal como a Ponte do Cabril, encontra-se submersa. Mas totalmente e a boa profundidade, fruto do elevado nível da água na albufeira do Castelo do Bode (1951). Apenas em situações de seca extrema e drástico abaixamento da quantidade de água retida, é possível ver, emergindo no meio do vasto lago, parte da velha estrutura metálica (tal visão já a presenciei uma vez…).
Aquando da edificação da barragem, procedeu-se à construção, ligeiramente a montante, de uma nova ponte que veio substituir a anterior. A imagem abaixo (c.1950) regista a situação: no plano longínquo, a nova ponte ainda está em construção; mais a jusante, a velha ponte cumpre as últimas funções; enquanto parte das margens são já alagadas pelo início do enchimento da albufeira.


[3]. O decreto de 16 Jun.1910, por evidente gralha tipográfica, designa-a como «Fonte do Cabril», embora, claramente, fizesse parte da lista das «Pontes».
Em 26 Fev.1982, o decreto 28/82 veio esclarecer definitivamente que a designação é «Ponte do Cabril».

[4]. A Estrada da Beira, correspondendo em grande parte à actual EN17, foi um dos eixos principais de ligação entre o litoral-centro e o interior, de Coimbra a toda a Beira-Alta, e porta para Castela por Ciudad Rodrigo. Referida desde os tempos medievais [ver o interessante trabalho de: MONTEIRO, Helena Patrícia Romão. A estrada de Beira: reconstituição de um traçado medieval. UNL/FCSH/DH, dissertação de Mestrado. Jun.2012], a Estrada da Beira viu variar alguns troços ao longo dos tempos. No essencial, o seu traçado acompanha o curso do rio Mondego desde a Serra da Estrela, pela sua margem esquerda, entre este e o Alva, evitando as faldas mais altas, pelo lado norte do sistema montanhoso que divide transversalmente a meio o território português.
No texto acima, o sistema montanhoso referido é o mesmo, mas pelo seu lado sul. Também o Zêzere é rio nascido na Estrela, mas rodeando-a por leste, apresenta boa parte do seu curso junto às encostas sul do dito sistema.

Ainda sobre Estrada da Beira, vale a pena transcrever Sant'Anna Dionísio, no Guia de Portugal, 3º vol., referente às Beira, Beira Litoral I, e editado já pela F.C.Gulbenkian em 1945, p.426:
«Estrada da Beira
«Assim é ainda hoje por muitos conhecida a Estrada Nacional n.º 9-1.ª desde Coimbra a Celorico da Beira (135 km.). Antes da existência dos caminhos de ferro, as duas vias de acesso mais frequentadas da Beira Alta, partindo de Coimbra, eram, consoante se demandavam terras da margem direita ou esquerda do Mondego, a estrada do Buçaco-Mortágua-Viseu ou a estrada da Foz de Arouce-Poiares-Ponte da Mucela. A esta última reservou-se tradicionalmente a designação de Estrada da Beira. Por ela faziam, outrora, suas jornadas os estudantes que vinham das bandas da Estrela, em azémolas ajoujadas com roupas e carnes de fumeiro para a Lusa-Atenas e por ela regressavam, nas férias grandes, aos pátrios lares, da beira-serra. Històricamente, essa estrada velha, em muitos pontos decalcada pela ampla e macia estrada actual, está ligada para cima da Foz de Arouce, à memoràvel retirada da terceira invasão napoleónica, na primavera de 1811. Alguns dos seus pontos de vistas não esquecem. Nêsse caso está o panorama que se desvenda do alto da Mucela, ao deparar-se com o vale do Alva. (...)»

Como já se percebeu, a Estrada da Beira não era propriamente para aqui chamada. Apenas e a propósito da volta à Srª da Asneira

[5]. Em tempo: Originalmente havia escrito «pedroguense», referindo-me à origem da imagem que abre este artigo. Errei, que já não lembro de tudo... 
Trata-se na realidade de um postal editado em Figueiró dos Vinhos, pela Casa Godinho, por volta do ano de 1905. E o exemplar que possuo circulou entre 29 e 30 de Jul.1909, enviado pelo filho Luiz a Manuel Henrique Pinto. A foto foi posteriormente reenquadrada e tratada, mas a origem é esta. Fica, pois, a emenda e a chamada de atenção. 
31 Ago.2020. LBG.



domingo, 3 de maio de 2020

Por caminhos do Cabril (I)

Fundeiros, Cimeiros ou do Meio, os Escalos

(do 365 ao desenfastio)

Um 365, à mesa nove! – não há empregado de mesa que se preze que o não tivesse gritado ao balcão do restaurante ou outra casa de pasto.
Quer dizer, havia. Hoje em dia os mais novos já não saberão… Mas sabem-no o sr. António, o Zé, o Tino, o sr. Américo. E isso, a mim, chega.
Muito antes da proliferação dos doces da casa com mais ou menos natas, das babas-de-camelo e suas variantes, dos quindim e brigadeiro agora à conta da imigração brasileira, antes mesmo da praga do molotof que virou quase monopólio, antes de tudo isto, a sobremesa era invariavelmente e salvo situações excepcionais: ou fruta ou pudim.
A fruta era a da época, bem entendido, que não havia cá coisas importadas ou esquisitas. O pudim era o simples mas fiel pudim flan. Tirado na própria altura da forminha de alumínio [havia quem preferisse comê-lo na forma], a escorrer caramelo e a tremelicar sobre o pires na sua breve e derradeira viagem até à mesa. Feito na casa, com mais ou menos ovos, leite e outros cuidados. Veio mais tarde a facilidade do pacote para dar cabo de tudo – embora, se o pacote fosse o do chinês, o «mandarin», a coisa continuasse a ser uma alternativa decente.
E assim, por ser a única coisa que se mantinha inalterada na carta de menu o ano inteiro [a fruta variava conforme a estação], sete dias por semana [não havia dia de fecho], trinta por mês, trezentos sessenta e cinco ao ano, assim ganhou o epíteto.
Evidentemente acabava por ser um enjoo.

No entanto, ainda agora, volta e meia [mas só volta e meia] depois dumas favas à portuguesa ou de um pernil assado pelo Tino [já apertam as saudades!] se a gorduraça toda se não desfez com o tinto, e quero coisa pouca para a tirar do palato, nada melhor que fazer sinal ao António, proscrito atrás do balcão – Ó sôr António, um 365 e duas colheres! - E lá vem ele, todo satisfeito, bigode tremendo ao ritmo do pudim – Hã, hã, e vai lá logo? quarenta mil… hoje são quarenta mil.


Passaram há dias os 165 anos do nascimento de Malhoa. Pois eu só os vi servirem 365 !?
Pela tricentésima sexagésima quinta vez, vi os mesmos quadros do costume [e, quando não são quadros do celebrado, insistem num que nem lembra ao diabo e devia ser proibido – mas ele há gostos para tudo…], as mesmas fotos do costume, os mesmos vídeos do costume, as mesmas conversas do costume.
E enjoa um pedacinho. Mete fastio.
Conforme a capela, a claque [diz-se «grupo organizado de adeptos», eu sei], conforme a tasca, invariavelmente, a pagela é a do santinho costumeiro, o cromo é o do Eusébio [com as cores do União de Tomar], o pudim, o servido nos anos anteriores. Repetindo a receita e, até, os mesmos enganos [se emendam uma linha, no parágrafo seguinte lá continua a mesma criatura com o nome trocado – sinal que nem se lê o que se escreve, sequer que o escrito é lido por alguém, atento pelo menos – é assim como deixar ir também aquela gema duvidosa prá tijela… o resultado já se sabe].
Meu rico sr. António! [mesmo que, à noite, só estejam vinte ou quinze mil gatos pingados, o seu prognóstico é bem mais acertado...]


Urge desenjoar.
E, para desenfastiar [à falta daquelas lulas] o melhor é coisa nova.
Não julguem que trago bavaroise ou receita francesa, sequer umas fatias de Tomar meio deslassadas [as bem feitas, são bem boas!], tampouco uma bela e rosada lagosta da beira-mar com muita mayonnaise mas talhada. Chega o que chegou.
- Ó sôr António, c'os cafés, traga daquela amarela… a ver se isto vai lá…
É já, é p’ra já. E p’rá doutora, o costume, hã?

Experimentemos, então, receita simples, das antigas, quase caída ao esquecimento.
Subamos à região do Cabril, um pouco ao lado de Figueiró. Ali, à beira do Zêzere, por Vale de Góis, come-se bom peixe do rio. Agora, com a barragem, é rei o achigã, espécie importada das américas, se de bom tamanho, grelhado e com aquele molho verde é do melhor! E o velho empregado simpático.
Ao tempo de Malhoa, a coisa era mais simplória, sem a barragem, apenas peixinho frito: uns barbos, umas bogas, uns bordalos ou uns escalos quando maiorzitos. Pois é isto mesmo!
Tomemos a velhinha, agora na moda, EN2 e rumemos para norte. Passada a vila do Pedrógão Grande, uns quatro quilómetros depois, ainda antes da Venda da Gaita, vire-se à esquerda. Já vamos encontrar os Escalos, primeiro os Escalos Fundeiros, logo depois os Escalos do Meio, mais acima os Escalos Cimeiros…


E eis a «Aldeia dos Escallos», pintada por Malhoa, algures por aqui, no ano da graça de 1885.


Coisa rara, pouco vista! Para muitos, tal como eu, por certo pela primeira vez.
E, isto sim, é serviço público! Novidade para todos. Remédio para a vista. E sempre desenfastia…

Trata-se de um quadro apresentado na 5ª exposição de Arte Moderna (a do Grupo do Leão, de 1885) e do qual apenas era conhecida a gravura publicada n’O Occidente, nº256, de 11 Fev.1886, p.32. Pelo menos a crer na prolífera e variada literatura malhoesca [e que eu saiba].



No mesmo jornal, à p.27, fez Monteiro Ramalho a devida apreciação a esta e às restantes obras que Malhoa então mostrou. «É uma obra de primeira ordem» escreveu sobre esta, desenvolvendo: «realisa admiravelmente o lugarejo beirão, mal caiado, desmantelado, tendo perto a corrente fraca d'um pobre ribeiro limoso, e por traz as enormes ramarias copadas d'um borque de carvalhos».


E, como se percebe pela legenda da gravura, o quadro foi comprado pela rainha. Pela Senhora Dona Maria Pia de Saboia, evidentemente [1].


Agora, se o lugar registado por Malhoa era nos Escalos Fundeiros, nos do Meio ou nos Cimeiros, sinceramente, não sei. Passado quase século e meio muito mudou. E, embora o número de habitantes possa não ser hoje muito maior que então, as construções são de certeza mais e bem diferentes daquilo que eram. Mas foi por aqui, é certo.



Esta fotografia pode sugerir qualquer coisa. Mas é muito subjectiva, tirada ao sentimento. Tem já uns quatro anos. Foi, a crer no registo digital, captada a 30.3.2016. Já à saída dos Escalos Fundeiros, após várias voltas ao lugar, onde nada despertara atenção quanto à imagem que levava na cabeça [que se resumia então à gravura d’O Occidente]. Sem mais ilusões e no caminho de regresso, foi parar o carro e disparar - convicto que a tomada de vista não seria aquela, apenas para registar a paisagem, a atmosfera e o enquadramento geral do povoado. Sugere, no entanto.

[A referir ainda que a paisagem registada na fotografia deverá ser hoje bem diferente. Ano e pouco depois, terá sido por ali a origem do grande incêndio que devastou toda a região… Segundo peritos oficiais, foi ali encontrado o tronco de árvore calcinado, alegadamente atingido por um raio, a origem à tragédia. Um velho carvalho seco, disseram. Vai-se a ver, ainda foi um daqueles além, pintados pelo Malhoa…]


Então, mas e o quadro? donde desencantaste a imagem? – estará a perguntar a curiosidade do leitor.
Pois eu digo. Desta vez posso dizer, que o quadro é meu, e é seu, a bem dizer é de nós todos. Mas está nas mãos do Centeno [esse mesmo, o conhecido «Ronaldo do Eurogrupo», o que nos trata dos impostos]. Faz parte de uma coisa que se chama «Fundo de Pintura do Ministério das Finanças».
E para o descobrir, não julgue, caro leitor, que lhe basta reler - sempre com prazer - as obras do professor França, ou folhear de trás para a frente todos os livrinhos e álbuns editados pelo Montez, consultar cuidadosa e meticulosamente um qualquer Catálogo raisonné, e por aí fora… Acredite, não vai encontrar! Tem mesmo de se debruçar a sério na interessante bibliografia dos relatórios e contas, dos anuários e assim, do Ministério da Finanças.
Aí, sim, a ilustrar uma dessas apaixonantes publicações, pode encontrá-lo. E com as indicações todas: «Aldeia dos Escallos», José Malhoa, 1885, óleo sobre tela, 149x105 cm [aqui é que começo a ter as minhas dúvidas: para lá das medidas postas ao inverso do usual, fico com a sensação de estarem exageradas, pois o quadro não deverá ser tão grande (eu depois explico…), posso estar enganado, mas talvez o hajam medido pela moldura…].
Quanto à imagem.
Elas são duas. Uma amputada, a outra exageradamente alargada. Já se sabe: designer que se preze [e não tenha levado nas orelhas a tempo] pouco liga à integridade dos quadros – aquilo não passa de mais um boneco – precisa é que a página fique equilibrada (seja lá o que isso for). Daí, zás, fit to page e está a andar… nem que um quadrado passe a ser um rectângulo tão comprido como o combóio da Azambuja. Ou, então, corta aí esse pedaço que não faz falta nenhuma e só está a chatear
À imagem que mostrei acima, tive de lhe fazer umas manigâncias, juntar fermento, deixar levedar a ver se crescia, para a conseguir pôr mais decentezinha. Tudo a olho, sem certezas, como se percebe.


Mas é triste. Bastante triste, não se saber destas obras [por certo de muitas mais] que enxameiam gabinetes e salões [e muito bem, diga-se, que por lá estarão muito bem] sem que haja um inventário, sem que se saiba onde param, ou o que na verdade são. Não se percebe. Não se percebe o que fazem a DGPC, o Instituto dos Museus [ou lá como se chama agora], nem para que serve afinal a Matriznet [também de quarentena por estes dias, ao que parece]. Idiossincrasias do sistema, dir-me-ão.

É por isto, quando precisam algo de novo para além dos 365 do costume, é mais simples virem solícitos aos colecionadores, aos particulares – Precisava da sua ajuda: aquele quadro de fulano, assim e assado, sabe de quem é? acha que mo consegue? arranja-me o contacto?
Pois, é bem mais fácil. E, por norma, há sempre toda a boa vontade. Mas já nos aproximamos do modo Brísida Vaz, o da casa de meninas. 
Talvez seja altura de pôr as coisas como deveriam ser. E sabermos, afinal, qual é o nosso património comum.


3 Mai.2020. LBG.

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[1]. Sem querer dar lições de História [em tempos de confinamento, deixo isso à nova “telescola”] é bom que se entenda o seguinte:
1. Entre meados de Dez.1885 e meados de Jan.1886, a altura em que a 5ª exposição do Grupo do Leão esteve patente e, consequentemente, a rainha teve ocasião de comprar o quadro, como efectivamente, e a crer no dito pelo jornal de 11 Fev.1886, o terá comprado, em todo esse período e por mais três anos, em Portugal só houve uma rainha: a Senhora Dona Maria Pia, a mulher do rei D. Luiz I.
2. Por essa altura, a Menina Dona Amélia d’Orleães (1865-1951) ainda não havia posto pé em Portugal, estava solteira, sequer era duquesa de Bragança, tampouco rainha de Portugal. Terá chegado à Pampilhosa a 18 Maio de 1886; casou com D. Carlos, o duque de Bragança, a 22 Maio 1886, tornando-se assim duquesa; e só seria rainha quando o marido foi aclamado rei, em 28 Dez.1889, após da morte de D. Luiz.
3. Deste modo, é de todo impossível que o quadro, alguma vez em seu «historial», possa ser considerado como propriedade da «Rainha D. Amélia (1885)».

terça-feira, 13 de agosto de 2019

«Cintra(s)» há muitas…

seu(s) palerma(s)!


O Malhoa sempre teve costas largas. Já se sabe.
Para o bem e para o mal. Para tudo e mais alguma coisa.
Entre as muitas estórias, anedotas, ditos, obras, o que seja, infundada e abusivamente atribuídas ou relacionadas com o Pintor, há uma relativamente inócua mas particularmente irritante - a que conta e repete à exaustão, cândida e insistentemente, ter sido Malhoa quem atribuiu a Figueiró dos Vinhos o epíteto de «Sintra do Norte».
Volta e meia, quando a julgávamos esquecida, morta e definitivamente enterrada, lá surge uma ou outra alma penada que a ressuscita e a coisa volta para nos assombrar. Há quem se compraza, quem lhe ache certa graça, há quem abomine tal epíteto.
Mas, que se saiba, não haverá uma única fonte, um escrito, uma carta, um testemunho idóneo, o que for, que permita sustentar de forma séria a paternidade malhoesca da coisa. A não ser o diz-que-disse. E por mais que a coisa seja repetida (algumas vezes até por quem tem obrigação de pensar bem antes de dizer a primeira parvoeira que lhe vem à cabeça)…

«Sintras», para além da simpática Vila de Sintra à beira do Serra do mesmo nome, para quem não sabe, há muitas!
É mania com origem num certo romantismo serôdio, uma parvoíce como outra qualquer, o querer atribuir os encantos da então estância de veraneio por excelência, de reis e rainhas e fidalguias, a outras terras ou locais que tinham igualmente seus encantos e suas virtualidades… Mas outros. Os seus próprios encantos, únicos, verdadeiramente genuínos.

[Também por cá temos, e há muito, uma «Lusa Atenas», uma «Veneza do Vouga» e outras que tais… Ou, mais recentemente, uma proliferação de genuínas e antiquíssimas «feiras medievais», «templárias» e quejandas por tudo quanto é buraco, e uma multiplicidade de antigos, únicos e tradicionais «doces conventuais» cuja receita ou foi copiada de um outro lado qualquer ou afinada a semana passada… E até, na bola, já vimos um «Jardel de Coimbra», um «Mini Messi» e mais uns que nem é bom lembrar…Basicamente, a conversa é a mesma.]

Pois é. E «Sintras» há muitas!

Logo a «Sintra do Alentejo», a linda vila de Castelo de Videvirada às faldas norte da Serra de S. Mamede. Onde a excelência das águas [também do vinho e do cabrito de cachafrito do D. Pedro V], a abundância de vegetação, o clima ameno, a harmonia da urbe e a simpatia das gentes sempre chamam a mais uma visita. Ali atribui-se a D. Pedro V, que a visitou em 1861, a responsabilidade de tal baptismo. Vá-se lá saber...
 
Depois a «Sintra da Beira», o «cognome dado à simpática vila de Alpedrinha por D. Leonor de Almeida (1750-1839), a marquesa de Alorna, quando [ali] esteve (…) Esta sensível poetiza, grande admiradora da natureza, à qual dedicou vários poemas, ao fazer tal comparação terá sido surpreendida pela beleza e pujança desta terra e do seu enquadramento natural». E a gente fica quase convencida.

E até Ermesinde... Em 1916, com o prolongamento da linha nº9 da Praça de D. Pedro, bem do centro da Invicta, pela Areosa e Aguas Santas, esta passa a ser muito usada «ao domingo por parte de centenas ou milhares de portuenses, que buscavam em Ermesinde um espaço de lazer e de sossego, desfrutando de uma magnífica paisagem ribeirinha, junto a um Leça de águas límpidas e margens bem arborizadas, que serviam de cenário natural a piqueniques, onde se reuniam famílias inteiras ou grupos de jovens que assim se distraíam de forma bastante sadia e alegre». Ermesinde converte-se «então, numa verdadeira estância balnear e campestre, merecendo plenamente os epítetos de “Pérola do Leça”, Sintra do Porto ou ainda Sintra do Norte». Ena! afinal, «Sintras do Norte» já são duas!

Mesmo nas ilhas atlânticas… «Aqui, a 550 metros de altitude e apenas a 9 quilómetros de distância do centro do Funchal, a meia encosta do anfiteatro funchalense, respira-se uma atmosfera romântica, de cartão-postal. Contribuem para isso os jardins e as quintas, com as suas flores e árvores frondosas. Não foi por acaso que alguém chamou ao Monte [Nossa Senhora do Monte, a padroeira da Madeira] “a Sintra Madeirense”, epíteto muito divulgado pelo antigo e distinto jornalista João Augusto de Ornelas (1833-1886), e que acabou por ser frequentemente adotado nas referências à freguesia em obras nacionais e estrangeiras».


[E ainda haverá mais… Como uma terra, julgo que termal, algures, onde já passei mas agora não recordo – mais uma «Sintra qualquer…». Ou, ainda, «Nova(s) Sintra(s)» - um jardim-parque no Porto, um bairro na Póvoa do Varzim...]


Voltando a Figueiró.
Certo, certo, quanto a esta «Sintra do Norte» e a Malhoa, apenas os singelos versos de uma antiga marcha do rancho, lá pelos finais de 40, da autoria do Zé Nunes [sempre assim o conheci, velho amigo da família], maestro e ensaiador, e que a filha, a minha amiga Mizé, há uns tempos recordou.

«Figueiró terra de sonho
Tua beleza ao longe ecoa,
Louvada e enaltecida
Em lindas telas de Malhoa.

«Deus a guarde e a proteja
Em seu caminho triunfal,
Para que viva e seja
Sempre a mais linda de Portugal.

«Vamos rapazes e raparigas
Lançar ao vento nossas cantigas,
Que são a voz muito sentida
Da nossa terra, da nossa vida.

«Terra de encantos, luz e cor,
Meu Figueiró tão sedutor,
Teu ar lavado, singelo porte
Dão-te a legenda Sintra do Norte


E, com isto, podia ficar por aqui.

Todavia, faz hoje precisamente uma grosa de anos, a 13 de Agosto de 1875, o Diario Illustrado publicava na primeira página uma gravura do Cabril do Zêzere, com a velha ponte filipina entre os dois Pedrogãos, e a sugestiva legenda «A Cintra da Beira Baixa». Lá dentro, ao fundo da segunda página, um Folhetim com o mesmo título.


Sem muitos comentários, ficam ambas as peças. Para ler [a prosa é deliciosa - quer na descrição da aventura da viagem, como da beleza do lugar e das paisagens; dá ainda para perceber que a gravura foi feita a partir de uma foto, possivelmente de A. Silva Magalhães de Tomar; e termina com o relato dum antigo episódio guerrilheiro entre liberais locais e caceteiros miguelistas vindos de Tomar - deliciai-vos]. 
E serve para entender a eventual origem da coisa. Bem sei que não é propriamente Figueiró, mas é ali mesmo ao lado [e sempre se gostou muito de copiar do vizinho…].

Ah! já agora, lembrar que, nessa altura, o Malhoa mal tinha os vinte anos feitos e ainda faltavam uns tantos para descobrir «o Figueiró das cores»... Tirai isso da ideia.



13 Ago.2019. LBG.