quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Uns dormindo... e o Zé Inácio a matutar

(ou: d’«A sesta» à ópera,
passando pel’«O almoço do trolha»)


Sobre José Inácio Pereira, o mestre pedreiro encarregado da obra do «Casulo», sabe-se pouco.
Apenas as ofertas e os elogios de reconhecimento que Malhoa fez questão de registar nas suas notas pessoais, dele nos dão conta: a 12 Mai.1899, «Alfinetes que comprei, um para o Pereira encarregado das obras no “Casulo”» e, em Mar.1900, pelo final da obra, «Compra da espingarda e pertences, para offerecer ao José Ignacio Pereira – d’Ancora [ou será d’Ancos / Anços(?) - ficamos sequer a saber se seria minhoto de longe ou vizinho do outro lado do Sicó…], pedreiro, que derigiu a minha obra do “Casulo” em Figueiró dos Vinhos, pelo interesse, e bom desempenho que tomou nos trabalhos da mesma obra». [os realces são meus]



Além disto que, parecendo pouco, é todavia certo [e desdiz conversa antiga…], é bem possível, embora menos certo, que Malhoa nos tenha deixado o retrato do José Inácio Pereira…   


José Malhoa. A sesta, 1898. óleo s/ madeira, 33x41. MNBA, Rio de Janeiro.

Sobre «A sesta», 1898, pequena e magnífica tábua a óleo no acervo do MNBA do Rio de Janeiro, já muito foi dito [1].
Em duas cartas a José Relvas, datadas de Figueiró, de 8 Ago. e 13 Set.1901, Malhoa descreve o que anda a pintar e o muito trabalho e tempo despendido, porque «a pintura tem que ser muito feita, sem o parecer» - refere; e especifica - «Desde que aqui me encontro, tenho feito (…) a sesta: quadrinho de 30 por 40, com 28 sessões, ainda não concluído…». Concluída «A sesta», esta só seria mostrada na Primavera seguinte, na 2ª SNBA (1902). E vendida na «Exposição de Arte Portuguesa» organizada no Rio no Verão daquele mesmo ano – foi então adquirida, tal como uma dezena de outras obras portuguesas, para a colecção da Escola Nacional de Belas Artes brasileira. 

Ora, apesar de tudo isto, de ainda andar de volta do quadrinho em 1901, de apenas o mostrar e só o vender em 1902, Malhoa fez questão de, junto à sua assinatura, firmar como data «1898» [o que, ainda hoje, causa engulhos e asnáticas datações].
Malhoa firma «1898» porque, muito provavelmente, fora essa a data da tomada do natural, a do registo da cena que depois, com tempo, diligentemente burilou, foi a data que Malhoa quis deixar recordada - a do começo das obras «do augmento do “Casulo”».

Vejamos então «A sesta», 1898, com um outro olhar. 


Ao longe, o convento do Carmo compõe a paisagem e diz-nos que estamos em Figueiró.
Mais perto, na orla e à sombra do pinhal do Serra, acabado o jantar [o almoço, diríamos hoje] partilhado em comum do alguidar de loiça coimbrã, dessedentados pela fresca água da mina na cântara de barro vidrado, dois trolhas gozam a merecida sesta – um de borco, outro de papo pró ar. Enquanto estes dormem, o Zé Inácio, mãos calejadas e corpo cansado, ainda cisma e matuta.  
Não como «o bronco e esmagado trabalhador dos campos, a passiva e resignada criatura que parece ter pedido ao boi, seu companheiro de trabalho, a sua passividade e resignação» - no dizer diletante do crítico de O Século em 20 Abr.1902 – mas, bem ao contrário, como o mestre pedreiro interessado no bom desempenho e condução da obra, que discorre na melhor maneira de resolver a pedra e cal o que mostra aquele bonecoem seu entender mal amanhado [já se sabe], que o arquitecto por ali deixou sem mais indicações [o costume, é evidente].
Ao lado do Zé Inácio, repousa ainda um grosseiro chapéu de junco – forte e feio, dos que aguentam a padiola de transportar pedras e massas que qualquer pedreiro tem de carregar  [não se trata, portanto e como parece claro, de um usual e leve chapéu de palha camponês…].

Foi isto que Malhoa pintou. Entre 1898 e 1901, durante uma trintena de sessões. Um belo Retrato do José Ignacio Pereira e seus camaradas.
Ou, se preferirem, uma versão avant la lettre de «O almoço [ou jantar] do[s] trolha[s]». [Saudações, Mestre Júlio!]



[E, a ser isto verdade, para os que acham que “naturalismo” e “realismo” se diferenciam consoante se representam camponeses ou operários, aqui têm um belo dilema para ir resolvendo…
Entretanto, sigam a doutrina do Evaristo, o do Pátio do mesmo nome, cujo postulado não anda longe daquela.]



9 Out.2019. LBG.

__________________
[1.] Sobre o assunto, entre outros, ver:
SALDANHA, Nuno. José Malhoa. Tradição e Modernidade. Lisboa: Scribe, 2010, p.50 e p.152. 
Idem. José Malhoa. 1855-1933. Catálogo Raisonné. Lisboa: Scribe, 2012, p.130.
E, principalmente: 
VALLE, Arthur. Os “Malhoas” da Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Comunicação ao «III Colóquio Internacional de Arte em Portugal e Brasil nos séculos XIX e XX”, Lisboa, Nov.2016, F.C.Gulbenkian. (disponível aqui)





terça-feira, 13 de agosto de 2019

«Cintra(s)» há muitas…

seu(s) palerma(s)!


O Malhoa sempre teve costas largas. Já se sabe.
Para o bem e para o mal. Para tudo e mais alguma coisa.
Entre as muitas estórias, anedotas, ditos, obras, o que seja, infundada e abusivamente atribuídas ou relacionadas com o Pintor, há uma relativamente inócua mas particularmente irritante - a que conta e repete à exaustão, cândida e insistentemente, ter sido Malhoa quem atribuiu a Figueiró dos Vinhos o epíteto de «Sintra do Norte».
Volta e meia, quando a julgávamos esquecida, morta e definitivamente enterrada, lá surge uma ou outra alma penada que a ressuscita e a coisa volta para nos assombrar. Há quem se compraza, quem lhe ache certa graça, há quem abomine tal epíteto.
Mas, que se saiba, não haverá uma única fonte, um escrito, uma carta, um testemunho idóneo, o que for, que permita sustentar de forma séria a paternidade malhoesca da coisa. A não ser o diz-que-disse. E por mais que a coisa seja repetida (algumas vezes até por quem tem obrigação de pensar bem antes de dizer a primeira parvoeira que lhe vem à cabeça)…

«Sintras», para além da simpática Vila de Sintra à beira do Serra do mesmo nome, para quem não sabe, há muitas!
É mania com origem num certo romantismo serôdio, uma parvoíce como outra qualquer, o querer atribuir os encantos da então estância de veraneio por excelência, de reis e rainhas e fidalguias, a outras terras ou locais que tinham igualmente seus encantos e suas virtualidades… Mas outros. Os seus próprios encantos, únicos, verdadeiramente genuínos.

[Também por cá temos, e há muito, uma «Lusa Atenas», uma «Veneza do Vouga» e outras que tais… Ou, mais recentemente, uma proliferação de genuínas e antiquíssimas «feiras medievais», «templárias» e quejandas por tudo quanto é buraco, e uma multiplicidade de antigos, únicos e tradicionais «doces conventuais» cuja receita ou foi copiada de um outro lado qualquer ou afinada a semana passada… E até, na bola, já vimos um «Jardel de Coimbra», um «Mini Messi» e mais uns que nem é bom lembrar…Basicamente, a conversa é a mesma.]

Pois é. E «Sintras» há muitas!

Logo a «Sintra do Alentejo», a linda vila de Castelo de Videvirada às faldas norte da Serra de S. Mamede. Onde a excelência das águas [também do vinho e do cabrito de cachafrito do D. Pedro V], a abundância de vegetação, o clima ameno, a harmonia da urbe e a simpatia das gentes sempre chamam a mais uma visita. Ali atribui-se a D. Pedro V, que a visitou em 1861, a responsabilidade de tal baptismo. Vá-se lá saber...
 
Depois a «Sintra da Beira», o «cognome dado à simpática vila de Alpedrinha por D. Leonor de Almeida (1750-1839), a marquesa de Alorna, quando [ali] esteve (…) Esta sensível poetiza, grande admiradora da natureza, à qual dedicou vários poemas, ao fazer tal comparação terá sido surpreendida pela beleza e pujança desta terra e do seu enquadramento natural». E a gente fica quase convencida.

E até Ermesinde... Em 1916, com o prolongamento da linha nº9 da Praça de D. Pedro, bem do centro da Invicta, pela Areosa e Aguas Santas, esta passa a ser muito usada «ao domingo por parte de centenas ou milhares de portuenses, que buscavam em Ermesinde um espaço de lazer e de sossego, desfrutando de uma magnífica paisagem ribeirinha, junto a um Leça de águas límpidas e margens bem arborizadas, que serviam de cenário natural a piqueniques, onde se reuniam famílias inteiras ou grupos de jovens que assim se distraíam de forma bastante sadia e alegre». Ermesinde converte-se «então, numa verdadeira estância balnear e campestre, merecendo plenamente os epítetos de “Pérola do Leça”, Sintra do Porto ou ainda Sintra do Norte». Ena! afinal, «Sintras do Norte» já são duas!

Mesmo nas ilhas atlânticas… «Aqui, a 550 metros de altitude e apenas a 9 quilómetros de distância do centro do Funchal, a meia encosta do anfiteatro funchalense, respira-se uma atmosfera romântica, de cartão-postal. Contribuem para isso os jardins e as quintas, com as suas flores e árvores frondosas. Não foi por acaso que alguém chamou ao Monte [Nossa Senhora do Monte, a padroeira da Madeira] “a Sintra Madeirense”, epíteto muito divulgado pelo antigo e distinto jornalista João Augusto de Ornelas (1833-1886), e que acabou por ser frequentemente adotado nas referências à freguesia em obras nacionais e estrangeiras».


[E ainda haverá mais… Como uma terra, julgo que termal, algures, onde já passei mas agora não recordo – mais uma «Sintra qualquer…». Ou, ainda, «Nova(s) Sintra(s)» - um jardim-parque no Porto, um bairro na Póvoa do Varzim...]


Voltando a Figueiró.
Certo, certo, quanto a esta «Sintra do Norte» e a Malhoa, apenas os singelos versos de uma antiga marcha do rancho, lá pelos finais de 40, da autoria do Zé Nunes [sempre assim o conheci, velho amigo da família], maestro e ensaiador, e que a filha, a minha amiga Mizé, há uns tempos recordou.

«Figueiró terra de sonho
Tua beleza ao longe ecoa,
Louvada e enaltecida
Em lindas telas de Malhoa.

«Deus a guarde e a proteja
Em seu caminho triunfal,
Para que viva e seja
Sempre a mais linda de Portugal.

«Vamos rapazes e raparigas
Lançar ao vento nossas cantigas,
Que são a voz muito sentida
Da nossa terra, da nossa vida.

«Terra de encantos, luz e cor,
Meu Figueiró tão sedutor,
Teu ar lavado, singelo porte
Dão-te a legenda Sintra do Norte


E, com isto, podia ficar por aqui.

Todavia, faz hoje precisamente uma grosa de anos, a 13 de Agosto de 1875, o Diario Illustrado publicava na primeira página uma gravura do Cabril do Zêzere, com a velha ponte filipina entre os dois Pedrogãos, e a sugestiva legenda «A Cintra da Beira Baixa». Lá dentro, ao fundo da segunda página, um Folhetim com o mesmo título.


Sem muitos comentários, ficam ambas as peças. Para ler [a prosa é deliciosa - quer na descrição da aventura da viagem, como da beleza do lugar e das paisagens; dá ainda para perceber que a gravura foi feita a partir de uma foto, possivelmente de A. Silva Magalhães de Tomar; e termina com o relato dum antigo episódio guerrilheiro entre liberais locais e caceteiros miguelistas vindos de Tomar - deliciai-vos]. 
E serve para entender a eventual origem da coisa. Bem sei que não é propriamente Figueiró, mas é ali mesmo ao lado [e sempre se gostou muito de copiar do vizinho…].

Ah! já agora, lembrar que, nessa altura, o Malhoa mal tinha os vinte anos feitos e ainda faltavam uns tantos para descobrir «o Figueiró das cores»... Tirai isso da ideia.



13 Ago.2019. LBG.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Da Arte da Lide

citando dos tércios,
contrariando a querença natural

«Neste mês de julho, a Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça irá inaugurar uma Exposição de fotografias de Carlos Relvas. Antecipando esta exposição, apresentamos como peça do mês uma pintura de José Malhoa representando Carlos Relvas montando o Salero, o seu cavalo preferido, numa praça de touros, possivelmente na praça de touros de Setúbal, que tem o seu nome.
«Esta pintura foi encomendada por Carlos Relvas ao pintor em 1881, mas apenas foi realizada em 1887. A obra retoma as convenções grandiloquentes do retrato equestre. O cavalo retratado é um dos últimos cavalos de toureio de Carlos Relvas, um puro-sangue lusitano, chamado Salero. Este encontra-se bem adornado, empinado com brio e de perfil.
«Carlos Relvas, também retratado de perfil, está elegantemente vestido, rodando a cabeça para o espetador e cumprimentando-o com o tricórnio.
«A praça de touros parece surgir depois do retrato, artificio cénico, tratado com uma luminosidade intensa e um cromatismo tímbrico bem naturalista, a luz intensa do dia, marcada por fortes sombras projetadas.
«O retrato tem um sentido dedicado exclusivamente ao personagem, mesmo pelas flores caídas no chão, exposto na atitude mais nobre da montaria, com numerosos exemplos anteriores nas representações da realeza e dos membros da nobreza.
«Invulgar na obra de Malhoa, a solução do retrato equestre em corpo inteiro, terá sido talvez um pedido do próprio Carlos Relvas, tratando-se do momento apoteótico do fim da lide.»

«Peça do mês – Julho
Carlos Relvas montando o Salero numa Praça de Touros
óleo sobre tela | José Malhoa, 1887 | diâm. 124cm. | CP–MA. Inv. nº 84.46»


O texto acima transcrevo-o de um post das redes socias da Casa dos Patudos. Será – não devo estar enganado - da lavra do meu caro Nuno Prates, dedicado e dinâmico Conservador daquele museu de Alpiarça, a quem deixo desde aqui um grande abraço. Gostei muito.
Gostei do texto, gosto da notícia. Pois parece que, finalmente, entre as duas simpáticas e vizinhas instituições, a Casa-Estúdio Carlos Relvas, da Golegã, e a Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça, legado de José Relvas, começa a haver colaboração. Qualquer das duas merece a atenção de uma visita. E esta exposição, «Carlos Relvas e a Arte Fotográfica: O Retrato», que pode ser vista até dia 29 de Setembro na antiga casa do filho José, por maioria de razão.

Ademais, vem mesmo a propósito de umas coisas que tinha aqui há muito para contar. Serve de mote e aguça o sentido.

[Como as estórias são várias e encadeiam como as cerejas, o melhor é dividi-las por capítulos. E, para mais fácil leitura, as notas vão no final do capítulo respectivo - caso não interessem, é passar adiante…]
_________________________

I. Cumprir apresentações, circulando pelos quadrantes

Não tem agora cabimento falar da vida e genialidade de Carlos Augusto de Mascarenhas Relvas de Campos (Golegã, 1838-1894) enquanto fidalgo, rico lavrador ribatejano, cavaleiro tauromáquico e diversificado sportsman, fotógrafo amateur, espírito curioso e inventor, benemérito, enfim, do homem culto, elegante, informado, de muitas perícias e várias artes. Sobre tudo isto, já por aí há muito dito.
Mas convém sublinhar, no que respeita ao nosso caro Malhoa, e contrariando crença arreigada e sempre muito repetida, é com Carlos Relvas que se inicia a profícua e longa relação entre o Pintor e a família Relvas. Primeiro foi na Golegã, só depois em Alpiarça.
Vamos lá a ver: entre 1881 ou 1882 e, na prática, quase até à morte de Carlos Relvas, ocorrida a 23 Jan.1894, nessa primeira dúzia de anos, é a Carlos que Malhoa pinta os cavalos, o pinta a ele em cima dos cavalos, lhe pinta e desenha a mulher, lhe pinta a filha, e mais umas coisas que logo veremos… E ainda lhe faz um magnífico desenho com os planos do revolucionário bote, o Salva-Vidas Relvas, 1883, inventado e desenvolvido entre 1880 e 1883. Fica aqui a phototypia engendrada por Relvas sobre o desenho de Malhoa [1]. O desenho, esse, é bem melhor vê-lo ao vivo, e é, aliás, a única marca de Malhoa que ainda permanece na Casa-estúdio da Golegã…


Durante este período de tempo, por seu lado e sua arte, Carlos Relvas retrata Malhoa, não uma, mas pelo menos umas três vezes! [Como também iremos ver mais à frente…]

Já com José de Azevedo Mascarenhas Relvas (Golegã, 1858 - Alpiarça, 1929), filho do anterior, é bem sabida, alardeada e abundantemente documentada a longa ligação a Malhoa. Com períodos de maior ou menor intensidade, com fluxos díspares na conhecida troca epistolar, tal relação durará igualmente até à morte deste [2], ocorrida a 31 Out.1929. No ano seguinte ao falecimento de José Relvas, por encomenda da viúva D. Eugénia, Malhoa executará ainda dois retratos seus. E, como se tornara uso na família, póstumos e a partir de fotografia - pelo menos quanto à figura - que para o de corpo inteiro ainda existe um estudozinho [já há anos aqui mostrado] da cadeira e da mesa de trabalho de Relvas. Vale a pena recordar de novo, o Estudo e o Retrato de José Relvas, 1930.


Voltando atrás. A «primeira» das inúmeras cartas trocadas entre Malhoa e José Relvas, abundantemente referidas por Saldanha, dá conta do envio para Alpiarça do Retrato de D. Margarida Relvas, 1888, um desenho a carvão [3]. Tal desenho, muito provavelmente a primeira encomenda de José Relvas a Malhoa, será – é bom não esquecer [4] – uma segunda versão do desenho feito pelo Pintor no ano anterior, a pedido de Carlos Relvas, retratando D. Margarida Amália Mendes de Azevedo e Vasconcelos Relvas de Campos, a mulher deste e mãe daquele, falecida a 22 Mar.1887 [5]. Desenho que Carlos Relvas fotografa e publica, a par de outras fotografias suas, num luxuoso livro em memória de D. Margarida Relvas, editado já em 1888, com o sermão do cónego Alves Mendes proferido durante as exéquias. Será o primeiro dos muitos retratos póstumos e a partir de fotografia que Malhoa fez para a família Relvas.


Depois desta episódica encomenda [em que o filho para não ficar atrás do pai também quis um retrato da mãe desenhado pelo Malhoa], será preciso esperar quase sete bíblicos anos, até às portas da morte de Carlos Relvas, pelo (re)início da longa relação epistolar e mecenática entre José Relvas e o Pintor. Em 8 Jan.1894, uma carta de Malhoa dá conta do envio para os Patudos do Retrato de Carlos Relvas, 1894, conforme referido por Saldanha, e que terá custado 350$000 réis [6]. Não sendo, desta vez, um retrato póstumo [Carlos Relvas só viria a morrer no dia 23 Jan., mas havia já caído do cavalo, teimara em não se tratar e, por certo, a septicémia que o haveria de vitimar há muito alastrara…] não se sabe exactamente se a encomenda foi já do filho se ainda do pai, sequer se teve sessões de pose ou se, mais uma vez, tudo foi feito a partir de fotografia…


Pela mesma altura José Relvas adquire a Malhoa a primitiva versão de As Cócegas, 1894, pintada em Figueiró no verão anterior - no catálogo da 4ª exposição do Grémio Artístico, inaugurada a 14 de Março, o quadro aparece já com a indicação prévia «pertence ao sr. R.». [Anos mais tarde, Relvas viria a vendê-lo a um espanhol... e perdeu-se-lhe o rasto.]

Dois anos passados, nova desgraça e nova encomenda: o retrato póstumo da filha de Relvas, Retrato de Luísa Relvas, 1896, falecida nesse ano a 28 de Junho, e feito mais uma vez a partir de uma fotografia, com Maria Luísa de violino nas mãos [7].


Ora, ao contrário do que está estabelecido nos cânones, tal retrato deverá ser, muito provavelmente, o que Malhoa anuncia no catálogo do ano seguinte na 7ª exposição do Grémio sob o título Retrato de M.elle R. Se esteve, ou não, efectivamente presente no salão do Grémio, nunca o saberemos: Os Oleiros (a versão pequena) e À passagem do Combóio [um dos quadros também vendidos previamente a Relvas, e que mais tarde desaparecerá na volta de Paris 1900ofuscariam, nas críticas e relatos que nos chegaram, as demais obras que Malhoa então apresentou [8]. Mas o título e a coincidência nas medidas da(s) tela(s) de “ambos” apontam claramente para que seja, afinal, um só retrato… [A leitura das cartas, por vezes, anda longe de ser ciência exacta.]

E a saga de José Relvas vs. Malhoa desenvolver-se-á nos anos sequentes. Entre outras desgraças familiares e novas encomendas. Na compra e na venda, ou na oferta, de muitos outros quadros e desenhos. E em cartas, muitas cartas. Mas essa é história sabida, já recontada, e não é isso que nos traz agora.

_________________________
[1]. E esta é a gravura de Caetano Alberto, publicada no Occidente a 21 Jan.1884, «segundo photographias de Carlos Relvas».


Para ver ainda «Carlos Relvas com o collete salva-vidas» e o resto das notícias sobre o invento, em nota assinada por Gervásio Lobato no Occidente, é clicar aqui (ao fundo da página e nas três seguintes…)
[2]. Quanto a isto, leia-se Saldanha quando nos diz ser ainda em 1925 que Malhoa «recebe a última visita conhecida de José Relvas» e nos remete para a «carta, de José Malhoa a José Relvas, Lisboa, 27 Mai. 1925.». Contudo, o episódio dos retratos póstumos justifica a afirmação.
Ver SALDANHA, Nuno (2006). JOSÉ Vital Branco MALHOA (1855-1933): O pintor, o mestre e a obra. Universidade Católica Portuguesa, FCH. Tese de doutoramento. Dez. 2006. p.160.
[3]. Ver SALDANHA, Nuno (2010). José Malhoa: Tradição e Modernidade. Lisboa: Scribe. pp.35 e 98.     
[4]. Como, e bem, já referido por FALCÃO, José António (2006). Os Corpos e as Almas: Obras de José Malhoa na Colecção da Casa dos Patudos. Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça (Catálogo da Exposição realizada no Clube Figueiroense – Casa da Cultura, Figº. dos Vinhos, 2006). p.14.
[5]. Numa pesquisa rápida, o dia da morte, tal como o ano do nascimento da Senhora, parece que variam conforme os autores… Opta-se, assim, pela data alegadamente gravada no epitáfio do jazigo da Golegã, segundo: FEIO, Cláudia. Ritualizar a morte no século XIX: O funeral de D. Margarida Relvas (1837-1887) na Golegã. Aqui.
[6]. Ver SALDANHA. Op. cit. pp. 40 e 99.
[7]. Ver SALDANHA. Op. cit. pp. 41, 42 e 99.
E, já agora, só para esclarecer: nur das, nichts mehr!


[8]. O catálogo da 7ª exposição do Grémio Artístico mostra-nos, aliás, três quadros já pertença de Relvas – sem preços de venda e com a indicação conjunta: «Pertencem ao Ex.mº Sr. R.». Para lá do já referido À passagem do comboio, podemos ainda ler A torre da cadeia (Figueiró dos Vinhos) e A casa d’Affonso (Figueiró dos Vinhos) [ou, melhor, «a casa d’Áffunsa | Figueiró dos Vinhos», como parece ler-se na legenda manuscrita por Malhoa na própria pintura, junto à assinatura e à data, «1896»].

Voltando ao catálogo.
No início da lista, podemos ver os dois retratos que Malhoa apresentou. Ambos sem indicação de preço e de pertença, tal como era usual. Pois não eram para venda, e seriam, é bom de entender, pertença de quem os havia encomendado e pago – o próprio retratado ou um seu familiar [na sociedade de então, queira-se ou não, no caso das senhoras, o marido; no caso de menores, o pai…]. Sabemos hoje que a senhora «M.me A.W.» era D. Ada Weinstein. Resta, portanto, saber quem seria a menina «M.elle R.», cujo retrato mede tal qual o de Mª Luísa Relvas… Será que vai uma aposta?
_________________________

II. Findas as cortesias, arrecuemos ao páteo de quadrilhas
e vamos lá tratar dos cavalos – os de Carlos Relvas, claro.

Hoje rebaptizadas Cavalo “Salero” (ou simplesmente, Salero), 1882, e Cabeça do Cavalo “Salero” (estudo),1882, a tela com um metro de largo e a tábua, esta com menos de metade daquele tamanho, foram apresentadas na 2ª exposição de Quadros Modernos (Grupo do Leão, 1882) com uma outra dignidade equina: Salero, retrato e Estudo para o retrato de Salero [pois cavalo que merece retrato, é um senhor cavalo!]. E como os dois primeiros da longa lista de 21 títulos que Malhoa então mostrou [ali, e não noutro lado qualquer].


Estes dois quadros são o resultado da primeira encomenda feita a Malhoa pela família Relvas - por Carlos, evidentemente. Por via da qual Malhoa se terá deslocado propositadamente à Golegã.
Nessa ocasião Relvas retratou Malhoa. E retrata-o precisamente a pintar o Salero – ou melhor, a fazer que pinta, que é foto de estúdio, preparada e com cenário por de trás.
[Fez uns seis anos, já aqui falei desta foto (e de uma outra, tomada certamente também por Relvas pela mesma ocasião, referida na nota ao mesmo artigo). Tal como de uma certa Cabeça de cavalo, 1875, que poderia ter servido de motivo a Carlos Relvas para o convite ao promissor pintor (Malhoa tinha então 26/27 anos) para lhe retratar o seu muito querido cavalo Salero.]


A foto, dizia na altura «mais ou menos inédita» ou praticamente desconhecida, tem sido entretanto bastante divulgada, quer em novas publicações quer em recentes exposições sobre a obra de Carlos Relvas - e ainda bem! Normalmente reproduzida no cliché integral, ou perto disso, permite perceber bem toda a mise-en-scène preparada por Relvas para retratar Malhoa – o cenário pintado, o cavalete armado e o banco do pintor, os demais adereços.


Aqueloutra prova, reenquadrado o cliché e colada sobre um cartão de Carlos Relvas, foi ofertada por Malhoa a Mª da Conceição Simões d’Almeida aquando da primeira estada em Fig.º dos Vinhos (1883) e apresenta o bordo inferior mal cortado à cause do passe-partout onde esteve colocada longos anos, mas serve muito bem para, aqui e agora, podermos ver em pormenor a imagem do quadro que Malhoa faz que pinta.


Ora, ao contrário das dúvidas que então colocava e depois de uma posterior olhada à tábua existente na Casa dos Patudos, quer-me parecer, convictamente, que a tábua junto à qual Carlos Relvas retratou Malhoa é aquilo que veio a ser, efectivamente, o Estudo para o retrato de Salero, 1882 [ou, se quiserem, a Cabeça do Cavalo “Salero” (estudo)]. A assim ser, é tal fotografia um documento marcante, o duplo registo do início da relação de Malhoa com os Relvas, datável de 1881 ou, possivelmente, já de 1882.
Olhemos com atenção a foto da tábua no cavalete. É bem perceptível que as pontas das orelhas do cavalo (principalmente a da nossa direita) acabam, melhor, não acabam, para além do limite do suporte. Por outro lado, sobra bastante superfície abaixo do pescoço do cavalo, espaço esse ocupado com o estudo avulso de uma perna (ou mão ou o que seja) mal amanhada sob a queixada do animal… [As manchas mais escuras, entre o pescoço do Salero e a manga do casaco de Malhoa, são eventuais retoques dados na revelação da prova fotográfica].


Vejamos agora a imagem do quadro tal como hoje existe (e que já deveria assim estar na exposição do Leão, em Dezembro de 1882). Vêem a marca da emenda na tábua, na horizontal, ao nível das orelhas do bicho? E a ponta da orelha em primeiro plano, agora já acabada acima da tal costura? Percebem que o bocado de madeira que agora está lá em cima, foi o que desapareceu da parte de baixo? Perceberam tudo?!
O amigo Malhoa era um artista! E, de um estudo de campo mal enjorcado, fez um quadro para a 2ª exposição de Quadros Modernos! Serra em baixo, cola por cima. Se temos perna a mais, com um simples fundo preto nunca me comprometo. Em duas ou três pinceladas terminam-se as orelhas. Com mais umas tantas afivela-se uma cabeçada catita. E cá temos a Cabeça do Salero comm’il faut
Repare-se no catálogo do Leão: ao contrário do Salero, retrato, o de corpo inteiro, o Estudo ainda não era «pertencente ao Sr. Carlos Relvas». Mas ele deve ter ficado surpreso e todo contente com o belo resultado, e também o levou para casa… Junto com o Salero, retrato, 1882, claro!


Foi o início de uma bela amizade.
E, dessa amizade, surdiram mais retratos de cavalos e mais retratos de Malhoa. Cada um fez e deu de si o que melhor sabia.


Eis Malhoa, retratado por Carlos Relvas, em pelo menos mais duas ocasiões. Pela fisionomia não assim tão distantes umas da outra. E, note-se, o que vai ganhando em elegância e atitude de poseur, lá vai perdendo em cabelo…


Quanto aos cavalos, fora de novo o Salero [a esse já lá iremos], há pelo menos mais dois. O problema é que ninguém se entende quanto ao chamar os nomes aos bichos!?
Falcão diz-nos que Malhoa pintou «… em 1890 Carlos Relvas montando Salero nos Campos da Golegã, e em 1891 Coquito, outro célebre cavalo da casa Relvas» [9]. Saldanha, por sua vez, aponta «entre as obras executadas nesse ano [1891] (…) [a] que realizou para Carlos Relvas (o cavalo Rollito)» e, mais adiante, na listagem final das obras de Malhoa, refere em 1890, «Carlos Relvas montando o “Rollito”», e em 1891, «Cavalo Rollito em liberdade» [10]. Dois anos depois, confirmando os mesmos nomes e títulos, adianta quanto ao primeiro quadro: «Retrato de Carlos Relvas com o seu cavalo Rollito, que Malhoa retratou por duas vezes, e não do cavalo Salero, como tem sido referido», e completa, «este retrato foi feito a partir de uma fotografia de Carlos, embora com outro cavalo, provavelmente por o Rollito já ter morrido». Já, referindo-se à segunda pintura, é parco em explicações, limitando-se a dizer que o dito Rollito era «outro dos cavalos preferidos de Carlos Relvas, também retratado por Malhoa no ano anterior, montado pelo seu dono» [11]. [Aqui ficamos sem saber, como o bicho já estaria morto no ano anterior, se, desta vez, a liberdade equina foi retratada do natural ou por fotografia… Mas, também, não têm obrigação de nos contar tudo…]
Por fim, uma publicação mais recente da Casa dos Patudos [por certo da mão do meu caro Prates] dá-nos uma nova versão quanto ao animal retratado e descreve-nos até o local da cena: «… retrata Carlos Relvas montando um dos seus cavalos, o Pérola. Carlos Relvas encontra-se vestido com um fato de montar e chapéu de cor cinzenta. Em segundo plano, uma paisagem campestre que representa a Alverca do Campo, na Golegã» [12].
Pois, quer seja Relvas a montar o «Salero», o «Rollito» ou o «Pérola», seja o «Coquito» ou o «Rollito» a trotar em liberdade, aqui ficam as imagens de ambas as telas - com o mesmo ou com dois cavalos diferentes, sejam lá eles quais fossem.


[E pode o amigo leitor entreter-se a ver se lhes encontra parecenças…]

_________________________
[9]. Ver FALCÃO. Op. cit. p.13.
[10]. Ver SALDANHA. Op. cit. pp. 38 e 382.
[11]. Ver SALDANHA, Nuno (2012). José Malhoa 1855-1933: Catálogo Raisonné. Lisboa: Scribe. pp. 240 e 354
[12]. Ver Peça do mês - Novembro (2017), aqui. Que, às vezes, não é por a coisa estar impressa em papel ou editada em livro, com todos os efes e erres, que passa a ser mais verdadeira.
_________________________

III. De volta ao redondel, mão firme nos compridos.

Na 7ª exposição de Arte Moderna (Grupo do Leão, 1887) Malhoa apresentou em cartel apenas oito exemplares, diversos em peso e trapio. Entre tais oito, puderam então ser apreciados, nada mais nada menos que 4-RELVAS-4. Mas todos os oito vão ser merecedores da nossa atenção.


No dia seguinte ao da abertura da exposição, o Diario Illustrado dava conta minuciosa de todo o evento: do «incommodo» de «El Rei», do rol dos expositores, das primeiras compras realizadas, do pagamento das entradas às quintas-feiras, do atraso do catálogo, e de uma novidade - «o sr. Arthur Benarus, distincto photographo amador, ofereceu-se para reproduzir os quadros».


E, em pequenas chamadas de primeira página publicadas três e sete dias depois, insistiu na novidade das «photographias do sr. Benarus».


Pois, benditas photographias, bendito Arthur Benarus, bendito Malhoa que as anotou, e bendito quem as guardou durante este tempo todo. Que nos vão dar, agora, um jeitaço…!

Olhando de novo à parte malhoesca do catálogo, logo percebemos que apenas os dois primeiros títulos eram para venda. Os restantes seis, sem preços, quase todos retratos, já teriam dono. Vamos então a isso.


Pensativa, 1887, diz-nos o Diario Illustrado e confirma-o Malhoa no verso dum cartão do sr. Benarus, foi «comprado pelo Marquês da Foz» e logo na vernissage. Era um óleo s/ tela, c.62x45, e podemo-lo ver aqui, talvez em melhor proporção que na imagem costumeira, na foto de Arthur Benarus.

Um belo quadro. Dizem as crónicas que «admiravelmente pintado o velludo azul do casaco guarnecido de arminho tão alvo e fino que parece ondular ao mais leve sopro».



O Nabão, Thomar, 1887, muito provavelmente, mas sem absoluta certeza, será esta paisagem. Um óleo s/ madeira, 36x66, que vem tendo sucessivos outros nomes: «Lavadeiras», «Paisagem de Casario com Rio»… Mas que é, sem qualquer dúvida, uma interessante paisagem do rio Nabão, tomada em Tomar.




Retrato da sr.ª Condessa de Burnay, c.1887, será, eventualmente, este.


[Saldanha achou que se trataria do retrato de «Maria Amélia Macedo» e tratou de discorrer abundantemente: «Embora apareça referida como Condessa de Burnay, Maria Amélia Burnay Macedo (n.1891), era filha de Carolina de Carvalho Burnay, e portanto, neta do 1º conde de Burnay, nunca tendo sido titular. Maria Amélia era sobrinha de Elisa Burnay, que foi discípula de Malhoa.» [13]. Ora, apesar de ali assinalar a data de nascimento da alegada retratada (data, efectivamente, certa!), não terá reparado ou não deve saber fazer contas, e quer que a gente acredite que a putativa retratada, quatro anos antes de ter nascido já tinha o retratinho pintado pelo Malhoa?! É obra!
Vamos lá tentar ser mais seriozinhos. Henrique Burnay (1838-1909), o 1º conde de Burnay, casado com D. Maria Amélia de Carvalho (1847-1924), teve dez filhos. Como, para o caso, só nos interessam as mulheres: Maria Amélia de Carvalho Burnay (n.1865), Carolina de Carvalho Burnay (n.1866), Elisa de Carvalho Burnay (n.1871) e Sofia de Carvalho Burnay (n.1875). Em 1887, todas ainda solteiras. Assim, para quem souber fazer umas contas, a Maria Amélia (a mais velha entre todos os irmãos, então com 22 anos, e com o mesmo nome da alegada) ou a Carolina (de 21 anos, a futura mãe da dita) podem ser boas candidatas ao lugar… Note-se que Malhoa designa a retratada por «sr.ª», e não por menina ou m.elle., o que deverá eliminar as outras duas, então ainda menores de idade. Percebido? Não queiram é fazer de nós parvos…]


Retrato do sr. dr. Serpa Pinto, c.1887, que teve direito a gravura e tudo no catálogo do Leão.


Apesar disto, e de dar para ver que se trata do retrato de um velho, lá temos de levar com mais uma bela lição sobre a proliferação [ - foge cão que te fazem barão! – p’ra onde, se me fazem visconde?! ] dos títulos nobiliárquicos durante o liberalismo constitucional: «Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto (1846-1900), 1º Visconde de Serpa Pinto, explorador, deputado e governador de Cabo Verde, foi aqui retratado com cerca de 41 anos» [14]
Muito interessante, sem dúvida. Não fora tudo precisamente ao contrário: o retratado não é Alexandre de Serpa Pinto, nunca terá posto pé em África, nunca foi visconde, teria na altura perto de 89 respeitáveis primaveras e, se era chamado de «dr.», só podia ser uma de duas coisas – “doutor de leis” ou “doutor de medicina” (então não havia cá outros “doutores”, excepto em Coimbra onde tudo quanto era gente assim era tratado…).


Um cartãozinho do sr. Benarus vem em nosso auxílio, com preciosa nota de Malhoa a confirmar tudo, e mais uma inédita fotografia para todos podermos ver pela primeira vez como seria, numa melhor aproximação à verdade, o retrato do Sr. Dr. José da Rocha Miranda de Figueiredo (1798-1898), médico, empedernido miguelista, senhor da Casa das Poldras, em Tendais, Cinfães. Afinal, o pai de Alexandre de Serpa Pinto (este, sim, visconde).

«Retrato do pai do explorador africano Serpa Pinto | pintado por José Malhôa | no seu solar de Sinfães» - anotou o Pintor no verso do cartão. Só não é clara a última frase, pois ficamos sem perceber se refere o local onde teria sido feita a pintura, ou o seu eventual paradeiro à data da nota… (nota que terá sido feita, recorde-se e a crer nas restantes, já duas décadas após as mortes de Serpa Pinto e de seu pai).


[Aqui atrasado, bem procurei saber novas deste retrato junto do museu de Cinfães, que leva o nome de Serpa Pinto  – mas é coisa ali completamente ignorada…]


Agora, em quiebro, deixemos para depois o Retrato do sr. Carlos Relvas e prossigamos com os restantes retratos, os outros da família Relvas.
[A propósito destes, não resisto recordar: «Durante o Verão desse ano [1887], Malhoa trabalha novamente para Carlos Relvas, na Golegã, ou já em Alpiarça, na Quinta dos Patudos, onde morava seu filho José Relvas, fazendo uma série de retratos» [15] - os sublinhados são meus, e só para dizer: “é ter vontade!?]


Retrato da sr.ª D. Margarida Relvas, 1887, será, a par do(s) desenho(s) que já vimos ao início, mas este em meio corpo e um óleo s/ tela, 144x110, mais um retrato de D. Margarida Amália de Azevedo Relvas, a mulher de Carlos Relvas, falecida a 22 Mar.1887, como também já visto. E, muito possivelmente, outro retrato póstumo e feito a partir de fotografia.


Sobre este, refere-se: «…Relvas efectuou o pagamento do retrato a 7 de Maio de 1888 no valor de 18$300 réis» [16]. Embora, enquanto pintura, esta pareça ser a mais fracota de todas as oito agora vistas, tal valor parece francamente baixo?! a não ser que tal corresponda a uma parcela final, ou se refira, antes, ao pagamento de um dos, ou do tal, outro(s) desenho(s)...?!


Retrato da sr.ª D. Margarida Relvas Navarro, 1887, é mais um óleo s/ tela, 45x37, em que Malhoa retrata um membro da família Relvas. Desta vez a filha mais nova, Margarida Augusta (1867-1930), casada no ano anterior [17] com o médico Alberto de Campos Navarro.


«Retrato da filha mais nova do Carlos Relvas, hoje viúva do dr Navarro» - assim assinalaria Malhoa, em  17 Mai.1921, no verso de mais uma das fotografias de Benarus. Foto que nos mostra, apesar dos 132 anos passados, toda a juventude do rosto, uma serena tristeza e o belo olhar de Margarida Augusta. Talvez melhor que em foto mais recente.




_________________________
[13]. Ver SALDANHA (2012). Op. cit. p.237.
[14]. Idem, ibidem. p.236.
[15]. Ver SALDANHA (2006). Op. cit. p.57.
[16]. Ver SALDANHA (2012). Op. cit. p.236.
[17]. Quanto às datas, quer do nascimento quer do casamento de Margarida Relvas Navarro, mais uma vez as fontes divergem: «1862» ou «1867», «1886» ou «1887». Seguiu-se FONSECA, Cátia Salvado. Uma Família de Fotógrafos: Carlos e Margarida Relvas. Casa-Estúdio Carlos Relvas. p.262. Aqui.
_________________________

IV. Ao âmago da coisa, a ferros curtos...

Retrato do sr. Carlos Relvas, 1887. Assim, sencillo, sem mais atavios.
Assim lhe chamou Malhoa quando o apresentou. Não precisou de explicar tudo tim-tim-por-tim-tim: Carlos Relvas montando o Salero numa Praça de Touros. Sequer baralhar: Tourada com Carlos Relvas Montando o “Salero” […sem toiro! – apetece acrescentar]. Mas pronto, percebo, retratos do Sr. Carlos Relvas passaram a haver mais… e sempre se dá o devido protagonismo ao belíssimo cavalo.
Trata-se de um óleo s/ tela, circular, com o diâmetro de 1 metro e 24.
Quinze dias depois de aberta da exposição, o retrato tinha já charge de Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro publicada no Pontos nos ii. E, que me recorde, nenhuma outra referência nos relatos da época, todos mais interessados na Pensativa


É, todavia, o Retrato do sr. Carlos Relvas um outro belíssimo quadro.
Sobre ele também quase tudo foi dito: que é um retrato equestre, que ao gosto de Velásquez, que associa tal temática à pintura de género e à pintura animalista, que Salero se apresenta bem empinado sobre os quadris, ricamente arreado, tal como o Sr. Relvas em sua fina casaca bordada, que montada e cavaleiro saúdam sonora ovação do público, ao fim de rija lide ou após sorte de bom recorte e fino remate… e outras tantas óbvias observações.
Depois, há o que se diz, rediz e torna a dizer, e mais valia se não dissesse.
Deixemos de lado uma esdrúxula teoria das sombras que, para isso, era preciso estar aqui a explicar geometria descritiva e ninguém me paga para tal. Vamos, antes, à síndrome do chôc’ frit’. Que é, pelo visto, doença que se pega. Mas compreende-se: se a coisa é longamente repetida - primeiro em 2006, ipsis verbis em 2010, quase igual em 2012, com variantes em 2008 [18] - qualquer um crê que possa ser mesmo assim. E não custa repetir, embora, à cautela e muito bem, ressalvando a probabilidade: «…possivelmente na praça de touros de Setúbal, que tem o seu nome». [Fosse eu mais crédulo, faria igual.]
Vamos, então, até à bela cidade do Sado [berço do nosso bom João Vaz (1859-1931)] onde, todos nos dizem, a praça de toiros de Setúbal, hoje - sim Senhor! - «Praça Carlos Relvas», mas antes chamada de «D. Carlos», foi inaugurada – helas! – apenas em 1889, o ano da aclamação do novo monarca. E disso restam, aliás, testemunhos na grelha de ferro forjado na sobreporta da porta grande do recinto.


Aparentemente e por conseguinte, estaremos perante um paradoxo espácio-temporal: a toirada aos reis católicos, certamente por milagre, ter-se-ia realizado num lugar inexistente, e Malhoa, em premonição, pintaria um cenário só materializado dois anos depois!? Coisa de ficção científica, só pode.

Já que estamos à foz do Sado, contornemos toda a costa até à beira da do Guadiana. Só para recordar, na pombalina Vila Real, uma quadra do filho da terra, o poeta popular António Aleixo (1899-1949): «P'ra mentira ser segura | e atingir profundidade | tem que trazer à mistura | qualquer coisa de verdade».
Se assim for, se a estória dos toiros com chôc’ frit’ é aldrabice, talvez a dos toiros à espanhola o não seja. Vamos lá ver…

E, efectivamente, não o é. Na verdade, por ocasião da visita a Portugal de D. Maria Cristina e Afonso XII, a convite do rei D. Luiz para a inauguração da Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental Portugueza e Hespanhola, realizou-se, a 15 Jan.1882, em honra dos soberanos espanhóis, uma tourada por amadores. Promovida e oferecida por Alfredo Anjos (1860-1927), futuro conde de Fontalva (1890), grande aficionado e cavaleiro amador, que para o efeito não terá olhado a despesas. A crer na entusiasmada crónica d’O Occidente de 1 Fev., «a corrida, mesmo debaixo do ponto de vista technico, [terá sido] uma das mais notaveis que se tem feito em Portugal». Como cavaleiro, entre outros mais e além do próprio Alfredo Anjos, lidou toiros Carlos Relvas.


Se a crónica nada nos diz sobre a montada, sequer sobre um eventual ou particular triunfo de Relvas, uma outra, que reporta todos os eventos da ocasião, publicada dez dias antes e assinada por Gervásio Lobato (1850-1895), confirma-nos que foi «Domingo, 15» e «às duas horas» [cá está: sol quase no zénite, a dar cabo da teoria das sombras…], lamenta os «toiros que eram magros e fracos, o que não admira neste tempo» [estávamos no Inverno, recorde-se], e remata num só parágrafo: «Entre todos os cavalleiros, tornou-se notavel pela sua suprema arte, elegancia e serenidade o sr. Carlos Relvas».
Uma outra crónica, esta do Diario Illustrado e publicada logo dois dias após a corrida (ver pág.3), adianta outros pormenores: que Relvas lidou dois toiros, o 1º e o 8º da tarde; no primeiro, «depois de offerecer a primeira sorte a el-rei D. Affonso, enfeitou o touro com um ferro a sesgo, 3 á meia volta, e dois ferros curtos com toda a mestria», no final da lide o «sr. Relvas foi chamado e brindado por suas majestades com um bouquet de fitas encarnadas e outro com fitas escarlates, charutos e saccos de rebuçados»; já após a lide do outro toiro, também o «sr. Carlos Relvas foi chamado e recebeu um bonito ramo e muitos outros brindes». Diz, por fim, que «as cortezias finaes (…) foram feitas nos mesmos soberbos cavallos ricamente ajaeiados, com que tinham feito os cumprimentos do começo»; e informa-nos - «O sr. Carlos Relvas vestia casaca de veludo preto e branco». Notável.
Afinal, a estória, apesar de mal contada, sempre pode ter o tal fundo de verdade! – dou a mão à palmatória.

Pois, mas e aonde, se não foi em Setúbal? – perguntará o leitor, que na notícia nada leu. Não diz a notícia, mas disse Lobato e o Illustrado. E diz a legenda duma magnífica gravura de António Ramalho Jr. (1859-1916) que regista o acontecimento: na velhinha praça do Campo de Sant’Anna – só podia! [Ali mesmo, onde depois foi construída a Escola Médica, para onde Malhoa também pintará umas coisas, entre as quais um Retrato de D. Carlos, 1905, o rei que inaugurará a nova faculdade.]
A praça de toiros do Campo de Sant’Ana, ao que dizem de arena exígua, quase toda construída em madeira, vinha já do miguelismo (1831) e terá sido demolida em 1889 ou 1891 [nisto, também as fontes divergem]. 
Mas vejamos a gravura do amigo Ramalho.  


O que logo salta à vista é a barreira pintada a três faixas (ou, para ser preciso, três faixas e rodapé). Bem diferente destoutra fotografia que não deverá ser muito distante no tempo, onde tais faixas parecem não existir, apenas um remate mais claro no topo. [Hoje em dia, normalmente, as barreiras são totalmente encarnadas, quando muito debruadas a branco]. Será, o que nos mostra Ramalho, mais um dos preparativos especiais do Sr. Alfredo Anjos em honra dos reis espanhóis? terá mandado pintar a barreira a rojo y amarillo, as cores da monarquia espanhola? ou era coisa comum ao tempo? 
Porque é isso que também vemos pintado por Malhoa no Retrato do sr. Carlos Relvas, 1887.



Quanto ao resto da arquitectura da praça - que se percebe de bancada meio coberta pelas duas ordens superiores de galerias que se elevam no mesmo plano do alçado - dificilmente se podem fazer comparações entre o desenho de Ramalho e a pintura de Malhoa. O primeiro parece mostrar a tribuna real e, talvez, a porta dos curros. Na pintura de Malhoa apenas vemos dois pequenos trechos da bancada ladeando o que parece ser, por de trás de Relvas, a porta dos cavaleiros, o páteo de quadrilhas; e sobre o vão da passagem adivinha-se uma pequena tribuna, mas com guardas de tipologia bem diversa das desenhadas por Ramalho… Entre aquela visão geral e este pormenor tão particular, não dá mesmo para comparar.
Ficamos, assim, sem certezas quanto ao que Malhoa pretendeu pintar. Se foi mesmo Relvas e Salero no dito evento em honra de Suas Magestades Catholicas na Praça de Sant’Anna… Se apenas tal evoca, com uma ou outra referência, como nas cores da barreira, ou no bouquet, dois «charutos» (?) e «saccos de rebuçados», e com liberdade cromática quanto à casaca de Relvas... Ou se foi outra coisa qualquer…

[Recordemos, já agora, que Relvas terá mandado construir na Golegã uma praça de toiros, dizem que inaugurada com uma corrida em benefício do hospital da vila. Pouco mais se sabendo sobre o assunto. Não parece é que tal praça tivesse tanta capacidade de espectadores como o pormenor pintado por Malhoa nos mostra.]

Mas esperem, que há mais isto.
Uma pequena tábua (15,5x21,7) com um ligeiro apontamento a óleo (tão ligeiro que grandes partes da superfície apresentam ainda a camada de aparelho), que regista, exactamente, a parte da praça de toiros (seja ela qual fosse…) representada por Malhoa no Retrato do sr. Carlos Relvas.


Numa outra perspectiva, evidentemente. Mas a mesma barreira (com as faixas vermelhas e amarela, acima do rodapé), a mesma contra-barreira interior (em côr próxima à do Retrato), as mesmas bancadas (uma nua, outra com apontamento de púbico), a mesma tribuna sobre a passagem para o que parece ser o páteo de quadrilhas (com as tais guardas metálicas encarnadas), um recorte semelhante (igualmente castanho) nos topos das portas interiores (embora, neste estudo, pareçam mais baixas) e, também divergindo do quadro, uns apontamentos de sombras que dão para adivinhar um alçado de considerável altura. Esta é uma outra tomada de vista - mais de cima e da direita. Que a do Retrato do sr. Carlos Relvas é bem de frente e ao nível da arena - como se o cavalete estivesse assente na arena junto às tábuas ou, mesmo, nos cornos do boi…

[É esta, aliás, a característica mais interessante do Retrato do sr. Carlos Relvas, 1887. Malhoa não nos mostra o toiro porque se põe no lugar do toiro. Pôs-se a ele e põe-nos a nós. Que observamos o triunfo do Sr. Relvas pelos olhos do toiro, castigados, refugiados às tábuas. É isto que é sublime: Malhoa não nos mostra a festa, Malhoa faz-nos fazer parte da festa.]

Tosca pintura, fraco desenho – dir-me-ão, sobre a tabuínha. Talvez… todavia, como diria o outro, il disegno è una cosa mentale. E, nesse sentido, este aparentemente pobre apontamento bem pode ter sido o auxiliar precioso para a feitura do quadro final. Tem tudo lá! - para quem saiba ver e raciocinar, é claro.

[Agora, se me perguntam se é obra da mão do Malhoa ou de outrem, se é um estudo anterior ou um d’après qualquer, muito sinceramente direi - não faço a mínima ideia! É uma daquelas coisas que, volta e meia, lá saltam do caixote dos bem-aventurados, uma espécie de roda da Santa Casa onde convivem os enjeitados, os que ficaram pela metade, os aleijadinhos, os filhos de pai incógnito (que se julgam de um e, vai-se a ver, afinal são doutro, ou dum sobrinho, ou dum filho, ou dum qualquer, ou precisamente ao contrário). Este sofria de todos os males em simultâneo. Mas, sem qualquer marca ou anotação e no estado em que se vê, apresenta-se numa bela tábua, uma rica tábua mesmo, excelente madeira de generoso calibre, com todo o ar de ter vindo da estranja…. E um tipo interroga-se – Que raio é isto? como é que este mono sobreviveu? não houve alma que se lembrasse de aproveitar uma bela tábua para (re)pintar coisa mais interessante? quando, volta e meia, usaram tabuínhas miseráveis, cartões ranhosos, agora empenadas ou meio desfeitos, para coisas bem mais decentes? porque carga d’água esta treta foi guardada? foi promessa? – E é assim.]

Mas há mais. Mais umas fotografias de Carlos Relvas | Phot. Amateur | Gollegã Portugal.
Junto às fotos de Malhoa tiradas por Relvas, as que já vimos antes [uma ou outra em mais de um exemplar, que eram para ir oferecendo…], junto a elas estão mais quatro que sempre fizeram confusão - quem serão as criaturas, que fazem aqui, porque guardou Malhoa tais fotos?



São quatro fotografias que retratam homens dos toiros, em pose e bem ataviados. Um cavaleiro sentado, botas de montar, casaca de veludo, luva de pelica na mão, um livro na outra [a propósito: no quadro do Retrato, Relvas parece ter a mão esquerda, a das rédeas, enluvada e a direita, a dos ferros, nua… talvez fosse uso então?]. E mais dois toureiros apeados [aparentemente, o de enormes suíças, ora de montera na cabeça, ora com ela na mão, parece ser o mesmo], ambos em trajes de luzes e capotes de passeio, prontos a cortesias.



Todos me são completamente desconhecidos. Naturalmente. Que pouco ou nada sei do mundo taurino de XIX. Mas é natural que alguém os possa um dia identificar… Quem sabe se algum destes, ou mesmo os três, não farão parte das listas dos participantes na tal corrida de 1882?! Ou se os bandarilheiros [assim eram designados todos os toureiros a pé – julgo que, à época, não haveria os chamados matadores em Portugal, embora alguns daqueles, volta e meia, também usassem a muleta... e até o estoque] se tais bandarilheiros, dizia, não seriam a quadrilha de Relvas, os seus auxiliares de confiança que durante a lide lhe fariam a brega?
[Qualquer das fotos apresenta marcas de furos de pequenos pregos ou punaises, sinal que terão estado dependuradas em algum lado – no atelier de Malhoa? e a que propósito?]

Mais certo parece ser o das fartas suíças figurar no Retrato do sr. Carlos Relvas. Além, à nossa direita, junto às tábuas, no papel de bandarilheiro, capinha ou peão de brega, conforme queiram chamar, sobraçando o capote magenta e amarelo da brega, só pode ser ele. Os adornos pilosos não enganam!



Quanto aos outros, não faço ideia…! Mais além, entre-barreirasna trincheira, vemos mais alguns figurantes – um cavaleiro de tricórnio, um ou dois de montera, e talvez o moço da porta – quem sabe se alguns destes não serão aqueles?! Mas pretensão a adivinho é coisa que não me assiste.

_________________________
[18]. «Embora datado de 1887, a sua encomenda deve recuar-se para data bastante anterior à da execução do cavalo Solero, que aqui se encontra representado, dado que este retrato se reporta a um evento de 1882 – a tourada oferecida aos reis de Espanha na praça de Touros de Setúbal, onde Carlos Relvas fez grande sucesso, montado no seu cavalo lusitano preferido» - SALDANHA (2006). Op. cit. pp.398, 399 (e ver também p.57). Idem - SALDANHA (2010). Op. cit. p.242. Ou ainda: «Retrato de uma tourada oferecida aos réis de Espanha na Praça de Touros de Setúbal em 1882, onde Carlos Relvas fez sensação com o seu cavalo Salero» - SALDANHA (2012). Op. cit. p.236. E por fim: «Em 1887, entre os 7 [sic] retratos que o pintor apresenta no salão do Grupo do Leão, encontrava-se uma tela oval [a geometria…], representando Carlos Relvas toureando a cavalo, na praça de touros de Setúbal (que posteriormente seria baptizada com o nome daquele cavaleiro)» - SALDANHA (2008). Luminismo e Tenebrismo – Malhoa e o Retrato. in Revista de História da Arte, IHA - FCSH, UNL, nº5, 2008. p.174.
_________________________

V. Em remate, um só de palmo.

Despachados todos os retratos [seis, considerando também a Pensativa] e a paisagem que também vimos, vamos lá ao último dos oito quadros apresentados por Malhoa na exposição do Leão de 1887. O tal quarto pertencente à Casa Relvas.

Decoração, 1887, assinado e datado (como se poderá ver) era, presumivelmente, mais um óleo s/ tela, também de formato circular, e de desconhecidas dimensões [19].
Mais uma vez em heresia, desdizendo o breviário, não vou repetir que se tratava de uma composição decorativa onde putti alados cirandavam alegremente por entre frutos e vegetais, ou que era estudo de um tecto [20], nada disso! Direi, isso sim, que era «coisa rara e pouco vista» e bem mais interessante.
Tinha putti alados, tinha - mas dos rijos, como devem ser os anjinhos ribatejanos, dos que encaram com destemor todo e qualquer cornúpeto. [Talvez, armado ao sério, pudesse agora acrescentar que associava a temática decorativa de gosto setecentista, à pintura de género e à pintura animalista, e assim, e coisa e tal… mas nada acrescento, seria só parvo.]
Vamos então ao que interessa. Pela primeira vez em muitos anos, a partir de foto inédita, aqui podemos ver (tanto quanto é possível) essa desconhecida Decoração.


Dois putti alados, dois anjinhos se assim quisermos, concentram-se na lide de um bravo cornúpeto gastrópode, imponente em seu peso e trapio. O almalho, jabonero na côr, apresenta-se gravito mas bem armado, boa presença em praça. É terminado o tércio de bandarilhas. Ao cimo da composição, o pequeno bandarilheiro ergue ainda o braço direito, exultante pelo último par que acaba de deixar bem no morrilho do contendor. O cornúpeto, enfeitado com dois pares de bandarilhas, vira ainda a atenção ao que o acabou de desfeitear, mas já o outro diestro, flanela escarlate nas mãos, o cita com firmeza. Está prestes a iniciar o último tércio, muleta em punho, pronto para a faena
E, como podem ver, foi isto. Um misto de ternura puttiana e chiste tauromáquico, meio a brincar, foi o que Malhoa pintou para o seu amigo Carlos Relvas. O que mostrou na 7ª do Leão.

Muito provavelmente destinava-se a um dos dois medalhões de topo do estúdio fotográfico da Golegã. É conhecida uma fotografia de Relvas que mostra um desses topos - infelizmente o outro. [A foto dizem-na «cerca de 1876», o que deve ser engano…] Nela consegue-se perceber o possível par deste - com outros putti, e dedicados a outra arte…



Malogradamente, fossem ou não da mesma fornada, os dois medalhões são desaparecidos faz muito tempo. Posso até estar enganado, e esta tela ter tido outro destino que não aquele… Mas era de Relvas, sem dúvidas. Pelo assunto e confirma-o Malhoa, em mais uma anotação no verso de mais uma fotografia de Benarus - «Decoração pª casa do falecido Carlos Relvas, na Golegã».



Uma vez mais agradeçamos a Arthur Benarus a possibilidade de hoje, cento e muitos anos depois, podermos ainda apreciar esta emocionante faena entre dois putti e a caracoleta. Brindemo-lo em espírito, talvez com flores, charutos e rebuçados

Por mim, é tudo.
Pode o Inteligente mandar tocar – Á unha! Á unha! – e que entrem os moços de forcados.
Logo mais já virão as mertolengas

7 Ago.2019. LBG.

_________________________
[19]. Como, também presumivelmente, todos perceberemos para onde se destinava, é uma questão de lá ir tirar medidas…
[20]. «Consistia ela [a pintura do tecto do Palácio Burnay] numa simples composição com meninos alados e frutos, à maneira dos plafonds setecentistas, e cujo estudo apresentaria no ano seguinte, na 7.ª exposição do Grupo do Leão.» - SALDANHA (2006). Op. cit. p.360. Ou, do mesmo modo -  SALDANHA (2010). Op. cit. p.220. (o sublinhado é meu).