quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O Coelho a ver passar o combóio...

Sobre a cachopada da Fonte do Cordeiro.



Aviso prévio ou declaração de interesses: Um – o título nada tem a ver com política ou outra coisa qualquer… mas podia. Dois – desta vez, fantasio um bocadinho e falo de cor… se toda a gente o faz, também eu posso. Três – à Débora e ao Eduardo Antônio, descendentes directos desta rapaziada… e a quem muito agradeço.


JMalhoa. Os curiosos, 1892. [2] [3]
         Numa carta, possivelmente de finais de Maio de 1891 ou 92 [1], Malhoa pede para Tomar, ao «Manel amigo», o envio de uma foto: «Manda-me assim que possas o cliché e uma photographia do amigo Antonio e da Preciosa que fizemos na fonte da fonte do Cordeiro, onde estão encostados ao muro, vistos de costas e olhando para baixo.» Mais à frente, entre os «assumptos para tratar», diz que tem em mente um trabalho que designa já por «Os curiosos».

Tal fotografia, que hoje nos é completamente desconhecida, terá servido, como é bom de ver pela descrição pormenorizada da cena, para a execução, precisamente, de Os curiosos, 1892. Quadro mostrado na 3ª Exposição do Grémio Artístico e, como vimos, comprado pelo conde de Proença a Velha [2]. Nele podemos encontrar, a crer em Malhoa, a Preciosa e o «amigo António», vistos de costas, a olhar para baixo, encostados ao muro da Fonte do Cordeiro, em Figueiró dos Vinhos [3].

JMalhoa. Noé e Preciosa, 1891. [4]
A Preciosa já era cachopa nossa conhecida. Dois anos antes havia sido apresentada aos frequentadores do Salão do Grémio, logo na 1ª Exposição, com outro dos irmãos, o Noé. Os dois, muito compenetrados, com um pedaço de pão na mão, haviam sido mostrados em Noé e Preciosa, 1891 [4].

Além disto, Malhoa também nos deixou outras notas, uma já aqui referida [5], de 31 de Maio de 1902, onde nos diz «… venda de dois quadros (…) um intitulado “Os ouriços” [6] outro “a ultima gota” [7], pintados em Figueiró dos Vinhos, na Fonte do Cordeiro, servindo de modelo para os dois quadros o filho do Eduardo [8], então rendeiro da Fonte do Cordeiro, propriedade da família Serra.»

JMalhoa. Os ouriços, c.1894. [6]
Por outro lado, sempre soubemos que pelo início dessa década de 90, a das Exposições do Grémio, era pela Fonte do Cordeiro e pelo vizinho Chão da Amoreira que muitos dos quadros de grande formato de JMalhoa e MHPinto foram pintados a par [9]: com os mesmos pastorinhos, ora Gritando ao rebanho, 1891, ora Adormecido, 1891 [10]; com os mesmos cachopos ruços, descalços e de calças «rachadas-ao-meio-atrás», muito atentos n’ A caça dos taralhões, c.1891, [11] n’ A caça aos grilos, 1891, [12] nos Preparativos para a caça, 1893, [13] ou À caça, 1895, [14] (aos pássaros, claro); a mesma rapaziada que ensaia na gaita de cana as Primeiras tentativas, 1891, [15]  que leva O almoço para o pai, 1891, [16] ou aguenta estoicamente Uma teima, 1894, [17] da cabra que não há meio de arredar.


JMalhoa. Gritando ao rebanho, 1891. MJM. [10]
MHPinto. Adormecido, 1891. [10]
MHPinto. A caça aos grilos, 1891. [12]

Nestes e noutros menos conhecidos, estudos e retratos avulso, é possível observar vários anos de trabalho em comum dos dois Artistas, e os mesmos miúdos e as mesmas vidas. Sempre «os filhos do Eduardo, o rendeiro da Fonte do Cordeiro» - é olhar para eles!

MHPinto. A caça dos taralhões, c.1891. [11]
MHPinto. Preparativos para a caça, 1893. [13]
JMalhoa. À caça, 1895. [14]

             O cenário, A Fonte do Cordeiro, c.1891, é mostrado por MHPinto logo na 1ª Exposição do Grémio. Os pequenos actores foram sendo apresentados, a par, ao longo das mostras seguintes, consoante as cenas e o enredo dum filme que nos descreve a sua própria vida.


MHPinto. A Fonte do Cordeiro, c.1891. 

            O grand finale, esse, talvez tenha sido o quadro de Malhoa À passagem do combóio, 1896 [18]. Sem combóio - que era coisa ali nunca vista - muito bem sugerido à visão do espectador. E com a troupe completa, ou quase, despedindo-se de nós, encerrando uma bela actuação em sessões contínuas de meia dúzia de temporadas. E de tal sorte, que esta última cena terá direito a derradeira reprise em Paris, e a nova edição remasterizada embora de menor qualidade para o mercado brasileiro.

MHPinto. Uma teima, 1894. MJM. [17]


Posto isto, uma palavrinha aos protagonistas.
Tal palavra surge pelo curso paciente do lápis do «amigo António». Ele mesmo!


Explico: há uns meses, andava eu de volta da cartinha citada ao início, quando a Biblioteca Simões d’Almeida (tio) disponibilizou on-line um interessante manuscrito de António Dias Coelho, intitulado Ka-lumba(1º volume). Por mera curiosidade fui dar uma vista de olhos - Eh lá! Mas este é o «amigo António»!? – exclamei para comigo. Ficou à espera…
Mas não é coisa para se ignorar, e vem agora muito a propósito.



«Seu» Coelho, o «amigo António»,
na  varanda da casa da rua Bernardino,
em Santos. Julho de 1970.
António Dias Coelho (Fig.º dos Vinhos, 26 Jul. 1887 – Santos-SP, 12 Fev. 1971), filho de Tereza da Silva e Eduardo Dias Coelho, «então rendeiro da Fonte do Cordeiro, propriedade da família Serra», foi um homem de três continentes e múltiplas aventuras.
    Nascido na quinta da Fonte do Cordeiro, por ali, entre o Chão da Amoreira, a Senhora dos Remédios e o Cimo da Vila, passou a infância - brincou e aprendeu a vida, andou aos pássaros e aos grilos, foi pastor e guardou cabras, e foi o «amigo António» de Malhoa e Henrique Pinto. 



MHPinto. Cabeça de rapaz, c.1892.
Um estudo que é, talvez,
 o retrato do «amigo António»...
          Foi à escola e fez o exame do «segundo e honroso grau de instrução primária» (p.118). Depois, abalou. Andou por Torres Novas e Lisboa - criado de visconde e moço de taberna. Foi às sortes e assentou praça na Armada. Comeu «o pão que o diabo amassou às chifradas», no seu próprio dizer.

       O desespero ou a esperança levaram-no a África (1910). Parece que correu Angola, por lá tomou mulher pelos ritos gentios, e tomou novo nome: «Ka-lumba» – afinal não tão novo assim, quererá dizer «Coelho» em língua nativa - e deixou descendência africana.

    Atravessa o Atlântico e aporta a terras de Vera Cruz. Na Santos paulista - a do café e a do Pelé - casa de novo (1915) e assenta vida e família. Retorna por coisa de um ano a Portugal, em 1925, e logo volta. O Brasil é a sua definitiva casa.

Frente aos pilares da Fonte do Cordeiro,
provavelmente durante a viagem
a Figueiró, em 1952.
     Em 1952 fará nova viagem, agora de matar saudade, à sua Figueiró natal e a outros locais da vida antiga. Alguns anos depois escreverá «Ka-lumba» - dizem que em seis volumes, este o primeiro – onde nos conta toda a ventura e aventura da vida de um Coelho, orgulhoso e de corpo inteiro.


O livro do «amigo António» é um mimo. Escrito a lápis, em letrinha miúda, e capitulares por maiúsculas. Ilustrado com belas fotos, pacientemente coladas às páginas, muitas delas, talvez, tiradas aquando da viagem de 1952. Numa linguagem própria, misturando o linguajar figueiroense que lhe veio do berço ao brasileirar adquirido. Às vezes de poética forçada e algum arremedo de erudição, solta-se quando escreve à vontade sobre si e os seus. É então saboroso. E revela toda uma Cultura de vida, da experiência e do saber, de quem sempre quis entender mais, perguntando sempre e escutando todas as respostas – como o próprio nos diz.
Nem tudo o que escreve corresponderá a verdade, pelo menos como a sabemos hoje. Grande parte dos lapsos nem serão culpa sua – percebe-se que procurou documentar-se e ler do que tinha à mão – e, por essa altura, muito do que se escreveu ainda hoje engana. De outras vezes terá sido atraiçoado por memória menos fresca ou visão já desfocada do passado – veja-se a referência às «duas irmãs de Malhoa» (p.57) que, por essa altura, seriam na realidade a mulher Júlia e a irmã Rita (ou então a Mª da Conceição d’Almeida Pinto); ou quando nos dá uma data certa «1891» (p.106) para o episódio delicioso do «crime do merino empanzinado» (p.86) - não é de todo crível que por tudo aquilo tenha passado apenas com quatro aninhos… a dureza da vida cedo começava, mas não vale exagerar [19]. Lapsos de somenos, contudo, e nada que desmereça a leitura.

Venâncio,
Aida, Preciosa, o pai Eduardo Dias Coelho,
e a mãe Tereza da Silva.
Ficamos a saber, pelo que nos diz o «amigo António», [20] que os filhos de Eduardo e Tereza foram nove. Por ordem cronológica: o Saúl (c.1879-1907), a Aida (1880-1965), o Maximino (?-1911), o Noé (1883-1955), a Preciosa (?-1918), o António (1887-1971), o Venâncio (c.1890-1962) e, já depois de 1892, o Adelino, «de vida efémera», e o José (?-1936).
Quase todos de vida errante pelas Áfricas ou os «Brasis», que a vida não era (como volta a não ser) para brincadeiras…





 

Saúl, o irmão mais velho.
O Saúl, o mais velho, veio a casar com a Augusta [21], a do «ti Francisco mouco» e da tia Vicência, teve dois filhos – o Manoel e a Madalena [22]. Morreu de «febres», a 7 Setembro de 1907, na Roça Esperança, na Ilha do Príncipe (p.72,73).
          «O teu irmão Saúl vai com destino à Ilha do Príncipe, contratado para dirigir negros no cultivo dos cacauzais da Roça Esperança, administrada pelo nosso conterrâneo Manuel dos Santos Abreu [23]» - conta-nos António, citando uma carta que a Mãe lhe mandou em 1904. (p.187).






Julieta Pinto. Na Roça Esperança.
óleo pintado durante a estada 
na Ilha do  Príncipe. (foto antiga)
Pela mesma carta, sabemos que o Maximino também partiu para África, voluntário numa companhia militar com destino a Angola. Três anos depois, já no Príncipe, Maximino assiste a morte de Saúl e retorna doente. Depois, agora com António, volta a rumar a Angola, onde morrerá, no Bié, em 1911.



Venâncio, Maximino (de uniforme) e Noé.
O Noé também terá andado pelo mundo – Espanha e França, com algumas estadas no Brasil. «Morreu pobre mas sempre honesto» (p.117). É dos poucos que morre onde nasceu, tal como o pequeno Adelino, a Preciosa, vítima da pneumónica, e o Venâncio, este possivelmente depois de muitas outras voltas… O José, de quem pouco se sabe, morre na guerra de Espanha. 
Aida e o António morrerão em Santos, cidade que acolherá quase toda a geração seguinte dos muitos filhos de Tereza e Eduardo Dias Coelho «então rendeiro da Fonte do Cordeiro»…


Chega de conversa. E a palavra ao «amigo António», naquilo que agora nos interessa.


Sobre a amizade: «… não ficar indiferente à presença nesta terra dessa figura inconfundível que por aqui apareceu na oitava década do século XIX (…) José Malhoa – o artista consagrado que, além das raras virtudes que o credenciavam, era um homem do povo, e amigo dos amigos…» (p.4)

Simões d'Almeida (tio), MHPinto, JMalhoa,
 com as «botifarras de caçador»,
em Figº dos Vinhos. c.1897/8. 
Da figura, das botifarras e do labor: «Malhoa, quando a esta terra aportou, de chapelinho redondo, gravata listada, botifarras de caçador e uma caixa de pintor a tiracolo, além de alguns tostões no bolso, que seriam todos os seus haveres; percorria de manhã cedo e ao cair da tarde as imediações do burgo estremenho em cata de termos para os seus milhares de quadros.» (p.5)

 
JMalhoa. Primeiras tentativas, 1891. [15]

Sobre o dia-a-dia de cachopo: 
«… os meus maiores atractivos eram os advertidos [sic] e simpáticos grilos, cantarem de dia e à noite ao luar. Era a prestimosa passarada, voar de árvore em árvore, e de galho em galho, catando as parasitas daninhas aos campos. Eram os prados e os bosques. Eram os ninhos. Eram os ovos acomodados no seu bojo, artisticamente forrados de felpo macio. Eram os silvados agrestimos [sic], aonde a brava coelhada, já refeita do estômago, se alapardava e dormia a sesta (…) Para mim, era tudo isto, e mais alguma coisa, o que para as crianças é, quando a vida começa, abre, expande, canta e sorri, tendo à sua frente toda a natureza em festa…» (p.48)

Júlia Malhoa, MHPinto e Mª da Conceição,
o filho Luiz, e Alfredo (o do chapéu),
frente «à casa da eira».c.1891/3. [21] [24]

Do assumir o protagonismo: «Ao recordar-me deste artista insuplantável, e desse meu passado distante, no cimo da vila, por ali perto da capela do mártir São Sebastião, à sombra das cerejeiras floridas em meio das oliveiras e dos clássicos e despreocupados castanheiros, que ainda lá estão [24], a emoldurar as paisagens maravilhosas da recta da estrada para a Castanheira, os seus quadros falam de tudo isso e de alguém. E hoje é assim - aqueles além, são fulano e fulano. [25]» (p.47)

JMalhoa. O almoço para o pai, 1891. [16] [26]
O próprio, enquanto modelo: «Como eu era o mais nutrido e corado da turma, passei a ser pelo mestre Malhoa apelidado de “Lua Cheia” [26]; e por ele também o mais visado para servir de palhaço, digo de modelo, ao seu génio de artista consagrado no manejo do pincel. Meses a fio, em dias alternados, trilhei o caminho do seu atelier ao ar livre, a fim de dar o relevo, que tanto o precisava com a minha presença, aos muitos dos seus quadros primorosos. E quantas e quantas não foram essas vezes? e quantas não foram elas? e quantas?? Umas vezes vestido de tanga. E outras vezes vestido de despido... [27] [28]» (p.46)

JMalhoa. A última gota, 1891. [7] [27] [28]

            E um mistério para resolver: «À sombra reconfortante da sua frondosa ramaria, pintou o imortal Malhôa alguns dos seus primorosos quadros do meu tempo de criança; entre os quais, para mim de indelével recordação, figura o da minha extremosa mãe, com todos os filhos em forma, quando entre as oito e as nove horas da manhã lhes ministrava o repasto do almoço. » (p.46)

Este quadro, assim descrito, ou é coisa completamente desconhecida ou, entre tudo o que hoje sabemos, só poderá ser À passagem do combóio, 1896. O que é muito provável, se olharmos bem para o que dele resta [29].

Charles Baude, d'aprés Malhoa.
En voyant passer le train À passagem do combóio ,1900.
Casa Museu dos Patudos.  [29] 
A assim ser, estaríamos apenas perante uma parte dos irmãos e não «todos os filhos em forma» - o que se afigura perfeitamente natural. Por essa data, 1895/6, os três mais velhos, Saúl, Aida e Maximino – que, aliás, quase nunca aparecem nesta saga familiar a tinta d’óleo [30] – teriam todos mais de quatorze anos e, por essa altura e naquela vida, era idade onde já se não andava na gandaia… a labuta à séria ocupá-los-ia.

Deste modo, o retrato da «extremosa mãe, com todos os filhos em forma, quando entre as oito e as nove (…) lhes ministrava o repasto do almoço» resumir-se-á, provavelmente, aos mais novitos, aos que já com algumas obrigações familiares – cuidar dos animais e da criação, levar e trazer o gado do pasto, ir às pinhas ou aos gravetos… - ainda tinham vida livre de garotada. O cenário não é estranho na obra figueiroense de Malhoa – já o havíamos divisado em Os ouriços, 1894, e podemos vê-lo n’ A Sesta (a dos ceifeiros), 1895, e n’ As Cócegas, a de 1894 e nas de1904, por exemplo.

JMalhoa. À passagem do combóio, 1896. (desaparecido). [18] [29] [31]


              O «amigo António», com oito ou nove anos, esparramado sobre o varal da vedação; o Noé, já com doze ou treze, de barrete e calças rotas nos joelhos; o Venâncio, agora com seis anitos, empoleirado na trave, «ainda não acabou a esfuziada de gritos e risos»; a Preciosa, com nove ou dez anos enfezados, subiu à pedra para ganhar altura e segura uma das cestas do almoço já tragado - certamente veio com a Mãe trazer a bucha aos catraios que andavam com as ovelhas no restolho deixado da ceifa – a mãe Tereza trouxe, além da outra cesta, o mais pequenito ao colo (não sabemos se o Adelino ou o Zé…).

Esta é uma narração perfeitamente possível deste quadro. E, a acreditar no que nos conta António, bem provável de ser real. A outra, a frenética de Ribeiro Arthur [31], também – basta a sugestão dos paus de fio e imaginar o cavalete de Malhoa dentro duma carruagem em movimento… o título, bem engendrado por Malhoa, inspirado nas muitas viagens entre Lisboa e o Paialvo, faz o resto.

Eis como, sete anos antes de o ver e apanhar pela primeira vez no Paialvo (p.128), o «amigo António», o «seu» Coelho, viu passar o combóio - …por da’baixo, naquilo qu’era dos Serras, ao em’direito d’aldeia d’Ana’viz… [32] .



24 Jan. 2013. LBG


Notas de leitura:
a. A indicação do tipo (p.123) remete para as páginas originais de Ka-lumbadisponível aqui.
b. Optou-se por emendar alguns lapsos ortográficos e de pontuação nas citações de António Dias Coelho aqui transcritas.
c. Sugestão: como o artigo é grande e as notas de rodapé extensas, abra de novo o texto noutro separador, alterne entre a leitura do texto e a das notas, vai ver que se cansa menos. (E com as desculpas de não saber mais para pôr esta coisa a funcionar de outra forma)
d. Como usual, clicando sobre as fotos pode vê-las em tamanho maior, o mesmo sobre as palavras escritas a laranja que são normalmente ligações a outras páginas ou sítios da rede.
e. Não se percebe porquê, mas isto agora só funciona bem com acesso pelo Google Crome... através do Google anterior ou Internet Explorer algumas coisas, por mais cuidados que tenha, podem aparecer desconfiguradas...



[1] Carta de JMalhoa para MHPinto, não datada, sublinhado do próprio, e publicada na íntegra in A Duas Mãos | Desenhos inéditos: Manuel Henrique Pinto (1853-1912) e José Malhoa (1855-1933): Pelo Centenário da morte de Manuel Henrique Pinto. Figº dos Vinhos: Clube Figueiroense – Casa da Cultura, Município de Figueiró dos Vinhos. 2012.

[2] O quadro foi apresentado na 3ª Exposição do Grémio, 1893, mas está datado, como se pode ver nas fotos, de 1892. 
(Agora, reproduzindo-se tal como a ameba, parece que já haverá dois –  um pró conde, outro prá condessa, um ao alto, outro atravessado! francamente…)

[3] Não esquecer que a pintura poderá ter sido feita com o auxílio de uma fotografia tirada antes daquela data. Então, o «amigo António» teria três ou quatro anos e a Preciosa cinco ou seis…
Sobre isto, a "maldade" de Manuel Gustavo (em baixo, ao meio) pede esmolas.

[4] Neste quadro, que deverá ter sido pintado no ano anterior ao da mostra, vemos o Noé com cerca de sete anos e a Preciosa com quatro ou cinco.

[5] Pode ler aqui na íntegra.

[6] Apresentado em 1894, na 4ª Exposição do Grémio, deverá ter sido pintado no Outono anterior. Pela tradição, retrata o pequenito Venâncio – confere – teria então três aninhos.


[7] Datado de 1891, apresentado no ano seguinte na 2ª Exposição do Grémio, muito provavelmente retrata o António, então com quatro anos de idade. (sobre este quadro ver também as notas 27 e 28)

[8] Malhoa deveria querer dizer «os filhos» - pelas datas e fisionomias diferentes não é crível que se trate do mesmo cachopo. (ver notas 6 e 7)

[9] «A par» quer dizer «a par» - como aqui se entenderá e já foi referido noutras ocasiões.
As velhas apreciações do tipo «quadro [de Malhoa] inspirado no do sr. Pinto» ou «pintado [por Pinto] um tanto á maneira de Malhoa» ainda se aceitam, quando escritas em 1892, pela surpresa do público ou desconhecimento da crítica - «Por isso o publico, que o anno passado soltou um brado unanime de admiração perante a Caça aos taralhões, este anno ficou bastante frio deante dos quadros enviados pelo sr. Pinto, - e também dos dois do sr. Malhoa. É que são variações de mais do mesmo thema. Ainda se fossem do mesmo artista, mas de dois! O caso fez-lhe espécie…» (João Sincero in Occidente, 11.5.1892)
Papaguear, cento e tal anos depois, a mesma ladainha a propósito de tudo o que mexe com isto, é não perceber o que já devia estar percebido há muito (e se é para passar a mão pelo pêlo… – não, obrigado!). «Inspirado» - inspirado foi o mesmo ar sadio do Cabeço do Peão, inspirado ao mesmo tempo, pelo Malhoa, pelo Pinto e pelos filhos do Eduardo.

[10] Apresentados ambos na 2ª Exposição do Grémio, 1892, ambos tomados no mesmo local, muito provavelmente com o Noé, aos oito anos, em ambos (ou, se assim quisermos, o Maximino mais o Noé). Este, enquanto Adormecido, valeu a Pinto uma 3ª medalha nessa exposição - malgré tout :  A barca do Silva Porto, O Marquês do Malhoa, ou a douta opinião do sr. João Sincero.
E, Gritando..., tem direito a boneco pelo Manuel Gustavo (à esquerda, ao meio).

[11] Este foi o primeiro da série! - mostrado na 1ª Exposição do Grémio Artístico, 1891, mas por certo pintado em 90, mostra-nos o mesmo Noé com sete anos (ou talvez o Maximino com oito ou nove).

[12] Da mesma leva do Adormecido, aqui caçadores são dois - o mais velhito a ensinar ao pequeno como se faz…. podemos imaginar o António, aos quatro anos, aprendendo com o Noé, de oito, como se tira o grilo da toca.

[13] Tela presente na 4ª Exposição do Grémio, 1894, pintada em 1893 - já com sapatos cardados nos pés, talvez ainda o Noé… Armando a costela.
Gustavo embirrou c'os sapatos (à direita, a meio)

[14] Este poderia ser o António, então com sete anos, e já de lição aprendida, se a tela fosse de 1894, para ser mostrada, como o foi, na 5ª do Grémio em 1895… (mas tenho para mim que o quadro já vinha de uns anos antes, e com algum percalço pelo meio… mas não é agora a hora dessa conversa). Aposto ainda no Noé…
Ou a Infância do Senhor dos Passos, para M. Gustavo Bordalo Pinheiro (à esquerda, em baixo). E também para o A. Ramalho, mas este em postal privado.

[15] Aqui temos, sem dúvida, a Preciosa, com seis anitos e a mesma fatiota de Os Curiosos, a escutar, talvez, o Maximino, o que tinha o cabelo menos ruço, então com nove ou dez anos. Mas isto é só um palpite.
A propósito. Sobre estas Primeiras tentativas, 1891, e À caça, 1895, dois quadros que andaram sumidos durante largo tempo, bom seria recordar a sua, ao que julgo, primeira mostra pública fora do circuito leiloeiro dos últimos cem anos. Aconteceu em Figueiró dos Vinhos, em Outubro de 2008, numa interessante exposição organizada por José Ant.º Proença. No respectivo catálogo - José Malhoa, 1855-1933: A Exaltação da Luz. Figueiró dos Vinhos; Município de Fig.º dos Vinhos, 2008 – surge anexa uma folhinha de errata, para a qual modestamente contribuí, onde, finalmente e de novo, se dão os nomes às coisas. Outro tanto aconteceu, mas por outra via, com A última gota, 1891, publicada nesse mesmo ano in José Malhoa. Bologna; Lisboa: Franco Maria Ricci; Arting Editores, 2008 – também crismada com um outro nome qualquer, que trazia havia 25 anos.
Ou seja: palpites, sempre houve muitos!

[16] Como o anterior e muitos dos outros, esteve na 2ª Exposição do Grémio. Talvez seja o António, aos quatro anos. A caricatura deste quadro, publicada n’ O António Maria, pode ter valido ao «amigo António» a nova alcunha de «Lua-cheia»… (ver a nota 26).
Imagem reproduzida a partir de: Saldanha, Nuno – José Malhoa: 1855-1933: catálogo raisonné. Lisboa: Scribe, 2012.

[17] Mostrada na 5ª Exposição do Grémio, 1895. O «amigo António» aos sete anos, ou ainda o Noé, então com onze?
Mais outra vez em que esta rapaziada passa pela pena de M.Gustavo Bordalo Pinheiro.

[18] Já aqui referido em artigo anterior. E, ainda, no final do presente texto.

[19] …além de não bater certo com outra data que antes refere, «1892», como a da mudança da família para a Srª dos Remédios (p.59), onde localiza agora o desfecho desta cena.

[20] Corrigido e completado por outras fontes familiares. Designadamente na troca da ordem de idades entre António e Preciosa, na existência de José, e nas datas de nascimento e morte que são possíveis de saber.

[21] Muito provavelmente a irmã mais nova deste Alfredo Simões d’Almeida, aqui fotografado, talvez com Malhoa do lado de cá da objectiva, junto à «casa da eira», com Júlia Malhoa, Manuel Henrique Pinto e a mulher, Mª da Conceição Simões d’Almeida, e o filho Luiz. A foto deverá ser deste período – cerca de 1891/3. O primo Alfredo é o do chapéu.

[22] Esta virá a ser, com alguma certeza, uma das «aprendizas» de costura na(s) Varanda(s) dos rouxinóis, 1914/15. Ainda a conheci - chorosa pela morte do marido e a ausência dos filhos no outro lado do Mar – chegou a fazer-me uns calções...

[23] Uns dois anos depois, parte também para a Roça da Esperança a filha de Henrique Pinto, a Julieta, entretanto casada com o Zé Abreu, irmão do Manoel. Por lá nascerá e morrerá, ao fim de poucos anos de vida, o primeiro neto de Pinto, o Alberto – o único que Malhoa não apadrinha.

[24] Note-se, nesta descrição, a localização do poiso de Malhoa, no período anterior à edificação do «Casulo», correspondendo à «casa da eira» da tia de Simões d’Almeida.

[25] O que tentamos agora fazer… Infelizmente tarde demais para «seu Coelho» que, parece, muito queria ter visto alguns destes quadros.

[26] Alcunha que poderá indiciar ser o «Lua Cheia» a figura de O almoço para o pai, 1891, então com quatro anos de idade (ver nota 16).

[27] «Despido», que se conheça, só poderá ter sido em A última gota, 1891, com os mesmos quatro anos de idade.

[28] Sobre tal quadro, e sobre muito do aqui dito, vejamos o que escreve Ribeiro Arthur, in Arte e Artistas Contemporaneos, (1ª serie). Lisboa: Livraria Ferin, 1896. p.195,196 – A segunda exposição do Gremio Artistico:
«Expõe Malhôa tambem uns quadros de genero, simples pastoraes, que parecem ter sido feitas de collaboração com o seu collega Henrique Pinto, tanto a factura d’elles se assemelha á d’este artista. Houve quem chamasse áquella serie Escola de Figueiró dos Vinhos. Em toda ella se distinguem as mesmas qualidades, e avultam os mesmos defeitos. Excluiremos d’este numero o seu quadro – A ultima gota -, que é de uma execução larga e bella. Um garotinho nu, sentado n’um interior de cabana, emborca a malga para lhe escorropichar a ultima gota de caldo. Uma panella de ferro está na trempe, sob a qual ardem uns troços; o lume crepita e uns pequenos acessorios, taes como uns grandes sóccos, dão áquelle meio rustico uma pitoresca realidade. É uma formosa téla digna do nome do artista.»
Apesar disto, claro como a água da fonte com que se fez o caldo, houve quem lhe fugisse o pé prá taberna…

[29] Refiro-me à foto publicada nos catálogos antigos e à xilogravura «segundo original de José Malhoa», existente no acervo dos Patudos, «realizada por Charles Baude, em 1900, para a revista Le Monde Illustré, e de que o pintor ofereceu uma “prova de artista”, impressa sobre papel de esquisso, a José Relvas.», publicada por José António Falcão in Os Corpos e as Almas: Obras de José Malhoa na Colecção da Casa dos Patudos. Alpiarça; Fig.º dos Vinhos: Casa dos Patudos; Clube Figueiroense, 2006.
Como é evidente, a xilogravura, embora hoje mais nítida, não será tão fiel como a fotogravura no que toca à fisionomia dos modelos registada por Malhoa. Idem para a segunda versão da pintura, feita c.1905, certamente de cor e a partir das anteriores.

[30] Poderão aparecer noutras obras da mesma época, a ceifar, a sachar ou a regar… mas incógnitos. E o melhor é não ir por aí…

[31] Ver no artigo anterior - B. Sesinando Ribeiro Arthur, in Arte e Artistas Contemporaneos, 2ª serie. Lisboa: Livraria Ferin, 1898. p.252, 253 – A setima exposição do Gremio Artistico.

[32] E agora percebo, finalmente, a origem da «referência simbólica à era industrial sugerida no contraste dos fumos fabris na distância» que a minha boa amiga Matilde Tomaz do Couto descortinou num breve mas belo comentário a A rega dos alfobres, 1891, in Malhoa e Bordalo: confluências duma geração. Caldas da Raínha: IMC-MJM, 2005. p.16. Está explicado: são os fumos da locomotiva deste tgv do Caparito.

3 comentários:

  1. Fantástico! Para mim que neto e afilhado sou, encontrar estas preciosidades. Quando ouço Fado Malhoa, pela Amália, não raras vezes lembro de meu avô e pai. Com certeza as feições retratadas por Malhoa, são dos irmãos de Antônio.
    Gratificante

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  2. Eu, Luiz Antonio, como um dos três netos de Antonio Dias Coelho, emocionei-me ao ver o texto de meu querido "lua cheia" enlaçado às imagens malhoenses e, por tal possibilidade, agradeço a Luiz B. Gomes, autor do blog PROVOCANDO. Sabia eu das histórias de meu avô em Figueiró e dos retratos de Malhoa, mas nunca vira as imagens assim juntas e das relações do texto de meu avô com as imagens costuradas pelo autor do blog. Senhor de palavra fácil, muitos chistes, além de charadas que sempre nos propunha, o "amigo Antônio" ficou para mim associado à sua biografia (Ka-lunga)e à figura de um escritor, pois sempre que o visitávamos em sua casa, na Rua Espírito Santo, 117, bairro do Campo Grande, em Santos, a imagem que me vem à mente era dele sentado em sua cama com uma mesa ao lado, ora apontando um lápis, ora colando recortes e fotos nas páginas de seu livro e, claro, escrevendo. Este era meu avô da infância. Nessa mesma época também conheci a tia-avó Aida, que morava com seu esposo, Sr. Palhinha e seus familiares, em uma casa em rua próxima à nossa casa, na Rua São Paulo, 120, creio que no mesmo bairro de Campo Grande.
    Bem mais tarde, eu já adulto e morando no Rio de Janeiro, tive mais contato com o vô Coelho, que, àquela altura, morava com meus pais na Avenida Bernardino de Campos, 557, bairro do Gonzaga, em Santos. Meu pai, o médico Eduardo Dias Coelho, mesmo nome de seu avô paterno, o levara a morar consigo após um AVC de meu avô. Como eu ia frequentemente a Santos, tive a oportunidade de conviver com meu avô mais amiúde. Muitos foram os episódios memoráveis com ele, pela graça, pela maneira de ver as coisas; mas, sobretudo, pela inteligência e rapidez mental. Lembro que meu avô recebia e lia com frequência um jornal de Figueiró dos Vinhos, A REGENERAÇÃO, e mantinha-se ligado às raízes através do periódico. Talvez este elo o tenha estimulado a memória. Já idoso, porém (a foto em que aparece de boina e um rádio ao colo é tirada na varanda dos fundos da casa da Bernardino de Campos), falava de suas origens, de sua aldeia e deleitava-nos com as aventuras em Portugal e África, tal uma Sherazade que emendava um relato a outro, como uma história sem fim. Meu imaginário sobre Portugal era idílico, de campos floridos e de frutas que pendiam das árvores ao alcance das mãos. Cresci com essas imagens e agora vejo como as palavras de me avô casam tão perfeitamente com as imagens da “coelhada” nas telas de Malhoa.
    E como é bom repensar a relação da fotografia com a pintura e do pintor com o fotógrafo a partir dos relatos do blog. Sabemos que no período do pictorialismo a fotografia buscou imitar a pintura, e que, após o advento da fotografia, muitos pintores, talvez pela dificuldade de ter modelos irrequietos a posar pacientemente, como os pequenos “coelhos”, optaram por ter à frente os “instantâneos” em vez dos modelos vivos. Esse momento da segunda metade do século XIX parece ter forjado para sempre um caminho de mão dupla entre essas duas mídias.

    Luiz Antonio Luzio Coelho
    Rio de Janeiro, 27 de fevereiro de 2016

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  3. Caro Luiz Antônio,
    Muito agradeço as suas palavras. É sempre bom "encontrar" descendentes desta rapaziada que há mais de um século partilhou vidas, estórias e se fez retratar pelo Malhoa e pelo meu Bisavô, Manuel Henrique Pinto, nas andanças de ambos com as tintas e os pincéis.
    Eu, agora e por aqui, vou-me limitando a "desencaixotar" alguns desses episódios mais ou menos esquecidos ou ainda mal contados...
    Deliciei-me a ler as estórias que acima conta sobre o seu Avô, o «amigo António». Completam algumas das coisas que o seu Irmão, e meu bom Amigo (embora à distância), Eduardo Antônio me havia contado antes, e que muito ajudaram na feitura do artigo.
    Parte desta rapaziada era minha velha conhecida - não todos, mas um ou outro, toda a minha infância, ao deitar e ao levantar, foram sempre os primeiros que eu via a olhar para mim... Contar-lhes a história foi um passo e um prazer.

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