quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Um retrato de Quaresma d’Oliveira

e mais umas quantas pinceladas


Manuel Quaresma d’Oliveira (1860-1902) morreu, fazem hoje, 13 de Dezembro, cento e dezasseis anos.
[Repito, por causa das dúvidas: Manuel, em vez de «José»; morreu em 1902, não em «1905».]

J.Malhoa. Retrato do Exm.º Sr. Manuel Quaresma de Oliveira, 1897.


O pequeno Manoel nasceu em Figueiró dos Vinhos, a 26 de Agosto de 1860, de Manoel Quaresma Valle do Rio e Vicencia Clara da Conceição, então moradores da Vila. Pelo baptismo, realizado logo a 9 de Setembro, na igreja paroquial de S. João Baptista, teve como padrinhos um importante negociante da cidade do Porto, Alexandre Casimiro de Vasconcellos, e sua mulher, Dona Filomena Maria d’Oliveira Vasconcellos. Ambos por procuração: passada a dele em Lamego, onde estaria ausente em negócios, e a dela no Porto.

Manuel Quaresma d’Oliveira irá, pela vida fora, adoptar os sobrenomes dos dois avôs: ao do paterno, José Quaresma casado com Maria Josefa, junta o do materno, Manoel Caetano d’Oliveira casado com Joaquina Bernarda. Deixa cair, assim, o toponímico de origem que fora acrescentado na geração anterior por seu pai Manoel e seu tio José [1] [2]. [Toponímico da origem destes e da avó Josefa, bem entendido, que o avô José era dos Quaresmas do Casal dos Ferreiros da Ribeira [3].]



O pai, Manuel Quaresma Val do Rio, negociante tal como o irmão, era já proprietário de apreciáveis meios de fortuna. Comprou a Cerca que fora das freiras, e tinha casas ao Cimo da Vila, à Cruz de Ferro, propriedades no Madrão, ao Chávelho, nos Mações… Morrerá a 26 Nov. 1889, na «edade de setenta annos», tinha o filho vinte e nove. 

Na década anterior, a pouco de completar os vinte anos, [curiosamente no mesmo dia mas hora e meia antes àquela em que o seu ainda desconhecido mas futuro amigo José Malhoa se casava em Lisboa] a 29 Jan. 1880, o jovem Manuel ver-se-á filho único [4]. Morre a irmã, Maria Justina Quaresma d’Oliveira, quatro anos mais velha pois havia nascido a 6 de Janeiro de 1856, ao dar à luz o seu segundo filho. Mª Justina era casada com José Quaresma Val do Rio Junior, seu primo direito, filho do tio José, e eram moradores na Vila [5].
Terá sido enorme o desgosto familiar. 
Mais tarde será mandado edificar um magnífico e comovente túmulo, fina obra de cantaria e escultura das oficinas lisboetas de Moreira Rato, obra merecedora da mais atenta observação no cemitério de Figueiró dos Vinhos.

Desconhece-se qual foi a formação do jovem Manuel. Mas, pelo que nos deixou escrito, sempre em cuidada caligrafia, exemplar ortografia e linguagem escorreita, percebe-se que terá estudado bem mais que o useiro para um jovem burguês de província. Deverá ter andado lá por Coimbra…
Mais certo é ter sido da Lusa Atenas que trouxe o grande amor da sua vida: a Srª Dona Albertina da Conceição. Com quem teve cinco filhos e nos braços da qual se finou. 
Nunca casaram. Vá-se lá saber das razões…
E talvez tenha sido este o seu pecado maior. Aquele que, na sociedade beata e fechada dos finais de XIX, e ainda mais genuflectória e hipócrita de umas décadas passadas, o levou ao esquecimento, quase o apagou da memória. Mesmo agora, em escritos mais ou menos recentes, aparece-nos como se fora actor secundário, referido en passant, quase por favor, pouco mais que nota de rodapé. Trocam-lhe o nome, baralham-lhe as datas, ignoram-lhe a importância e as acções, não lhe ligam pevide. Injusta e deploravelmente.

Contudo, um seu contemporâneo descrevia assim Quaresma d’Oliveira: «rico proprietario e não menos abastado capitalista; não obstante essa avultada fortuna, possuia, o que é raro, a maior coisa do mundo talvez: - Animo sufficiente para desprezar as grandezas!» «De genio independente, abstrahia de si tudo quanto fossem vaidades (…) honrado e generoso cidadão, prestavel a si, aos seus, à sociedade, e incansavel amigo da sua terra – Figueiró dos Vinhos».
E é assim que o vamos encontrar, discreto e sem grandezas, mas diligente, generoso e meticuloso, sempre presente em todas as grandes iniciativas da sua terra e do seu tempo.


Quaresma está na génese da Sociedade Recreativa Figueiroense (vulgo Clube Figueiroense). Ainda não completara os 27 anos de idade e, embora não seja um dos cinco denominados «iniciadores» da ideia, faz parte da restante meia dúzia que, com aqueles, promoveram e realizaram a «sessão preparatória para discussão e approvação dos estatutos» daquela Sociedade, e que teve lugar a 16 de Abril de 1887. É Quaresma quem redige a acta da reunião com os respectivos estatutos. E, numa das reuniões seguintes, será eleito para os primeiros corpos sociais do Clube. Um dos Sócios Fundadores, portanto.


Quaresma participa na fundação da Filarmónica Figueiroense. Também aqui, Manuel terá sido um dos Sócios Fundadores. A coroa de flores enviada ao seu funeral, «de rosas-chá, violetas, miosottis, e fitas brancas, com a dedicatoria: - “A Philarmonica Figueiroense ao seu socio fundador – M. Q. d’Oliveira”», parece confirmá-lo plenamente.


[Agora, o que já não parece lá muito bem confirmado é a fundação da Filarmónica ter “ocorrido” «em 1858» ou mesmo «em 1870»?! Pois em 1858 ainda este sócio fundador não era nascido, e em 1870 não parece que a tenha ido “fundar” vestido de bibe e calção… Mais um daqueles síndromes da pescada que volta e meia atacam por aí, como na fábrica do pão-de-ló ou nalguns clubes da bola: «que antes de o ser já o eram»...]


Quaresma é um dos mais activos membros da Comissão das obras de restauro da Igreja Matriz. Nomeada a 30 de Março de 1898, afim de por elles ser levada a effeito a referida obra, face às dificuldades e falta de recursos sentidos pela Junta da Paróquia.

As obras, que se prolongam de 1898 a 1903 [a Igreja é reinaugurada e retoma o culto neste último ano pelo S. João, recorde-se], são inicialmente dirigidas pelo arquitecto lisboeta Luiz Ernesto Reynaud. Depois do retorno deste à capital, bem antes do final de 1898, terá sido Quaresma d’Oliveira e a sua iniciativa a coordenar os trabalhos.
Quase nunca recordado, mas bem patente nos jornais da época, é o facto de, a determinada altura, conseguido algum contributo financeiro do Estado central, as obras terem andado num vai e não vem, entre o faz e o não faz, e nas vindas e idas de uns inspectores de Lisboa
Contudo, como facilmente se percebe por este escrito do próprio Quaresma, publicado em Julho de 1902, a seis meses do seu passamento e praticamente um ano antes do final das obras, os trabalhos estariam bem adiantados. O exterior praticamente acabado. E no interior do templo, pelo que se pode ler, estaria já pronto o altar do Senhor Jesus dos Aflitos, com o fresco de Malhoa já pintado e o Cruxificado de Simões encarnado, e ambos já secos, assim como o tecto da Capela-Mor. E até os «quadros sacros que existiam no mozeu em Lisboa» [os tais que um Doutor acha que vieram todos ali do convento do lado…] e que Simões d’Almeida obtivera do governo, também já estariam em Figueiró. Faltaria mesmo pouca coisa: os douramentos de uns altares e pouco mais.
Este artigo de Quaresma, resposta a umas parvoeiras publicadas no número anterior d’O Figueiroense, é exemplar. É dos que eu gosto. Só por isto, Manuel Quaresma d’Oliveira merece toda a minha consideração.
[As parvoeiras, já na altura e como está bom de perceber, são o encher de boca e… a(r)rota Malhoa. Como o tal brandy, é coisa que «já vem de longe»…]
E ainda hoje, se o escrito de Quaresma fosse mais bem lido e relido, muito ajudaria a que se não dissessem banalidades menos acertadas quanto à história das obras da Igreja. Está lá tudo escarrapachado.

[É este texto, além do mais, fonte primeira. Não se percebe, portanto, porque se insiste em ir buscar transcrições de uma década depois e que baralham até a sequência da polémica, quando se tem bem à mão o original?! Vontade de complicar…]


Quaresma tudo deu na tentativa de erguer a Empresa da Fábrica de Cerâmica de Figueiró dos Vinhos. De vida efémera, entre meados de Agosto e o início de Novembro de 1898 aconteceu quase tudo, e ter-se-á arrastado apenas por mais um ano…

Luiz Reynaud, António Lopes Serra, Manuel de Vasconcellos, Quaresma d’Oliveira, pe. Diogo de Vasconcellos, 
Simões d’Almeida, Henrique Pinto, e José Malhoa. Em Figueiró, Agosto/Setembro de 1898.

A 18 de Agosto de 1898, oito figuras constituíram a sociedade destinada a tal propósito. 
Manuel de Vasconcellos presidiu e ficou de tratar da escritura e legalização da sociedade [não se sabe se alguma vez tal foi feito]; o padre Diogo de Vasconcellos vice-presidiu [o que também foi bom]; Lopes Serra secretariou e venderia à sociedade uns terrenos para instalar a fábrica [desconhece-se o destino posterior de tais terrenos]; e Quaresma tesoureirou, fez contas, organizou, tratou de comprar os barreiros para extrair os barros [em seu nome, que a sociedade formal ainda o não era] e acabou mesmo por ter de atar todas as pontas. Era esta a «Direcção Administrativa da empreza», eleita por aclamação.
Quanto aos outros: Reynaud foi nomeado director technico, mas logo nos finais de Setembro oficiou a sua saída de sócio, embora continuasse como gerente technico [um mês e tal depois acabou mesmo por abalar, deixando tudo e as quotas realizadas por pagar]. Pinto, na volta às suas aulas nabantinas, levou amostras do barreiro do Forno do Telheiro para testar na fábrica de Tomar; vieram de lá «uma bacia, uma pucara, ou panella pequena e dois vazos para flores» e a informação sobre o barro «que não serve para louça de bocal estreito por ser fraco e não se auguentar»; então, pelos que em Figueiró ficaram, «resolveu-se que se mandem (…) amostras de todos os barros para elle obter (…) mais provas» [ignora-se se novo veredicto houve]. Simões deu sábios conselhos e tratou de substituir Reynaud quando este borregou, redigiu o regulamento da fábrica, planeou mudanças de telheiros, novos barracões e várias remodelações [e logo precisou da ajuda de mais um director de serviço - Quaresma, quem mais?!]. Malhoa não se sabe bem o que fez [mas tê-lo-á feito bem com certeza].

No entretanto, naqueles dois meses e meio, fizeram-se onze reuniões e redigiram-se outras tantas actas. Determinaram-se quotas e sucessivos suprimentos de capital; contrataram-se três oleiros e um guarda de serviço noturno e estabeleceram-se os seus salários [mês e meio depois já se falava em reduzir pessoal]; deliberou-se sobre os preços de venda do tijolo grosso, tipo burro - «dez mil reis o milheiro» - e também do delgado, talvez lambaz, [não se sabendo, portanto, se alguma vez ali se cozeu telha]; em meados de Outubro discutia-se «se convinha ou não que continuassem os serviços no inverno», deliberou-se que sim. Como Reynaud já não contava, Pinto para as aulas de Tomar já fora, Simões para as mesmas em Lisboa, e Malhoa também logo para lá voltaria, o Padre as missas tinha a dizer, o Serra a Câmara e a botica para aviar, e o dr. Vasconcellos já idade ou jeito para tal não tinha, foi Quaresma, o director de serviço, que com tudo teve de arcar [com a promessa, embora vã, de ser revezado por outros de mês a mês]. Estávamos a 1 Nov. 1898.

A acta seguinte, a última que se conhece, data quase de um ano depois [está assinada por seis dos sócios iniciais – Reynaud, como vimos, já o não era; «faltando o socio Manoel Henriques Pinto, por estar auzente», nas suas actividades lectivas evidentemente]. Em 30 de Setembro de 1899 «o sócio Manuel Quaresma d’Oliveira apresentou as contas de receita e despesa feita durante a sua gerencia como Director, e disse que não podia continuar a assumir aquelle encargo, declarando que nas contas não estava incluida a despesa da compra d’um barreiro que fez em seu nome e que punha ao dispor da sociedade para exploração do barro». «Todos os socios se deram por satisfeitos com a direcção d’aquelle socio e approvam as contas por unanimidade…». E, desta vez, «foi deliberado que durante a estação do inverno paralisassemos trabalhos para principiarem no principio da primavera…» e mais um relambório de futuras e boas intenções. 
[Pelo que se depreende, salvo se outra notícia houver, a hibernação ter-se-á prolongado até hoje…]

E foi assim, apesar de todo o esforço, do capital e suprimentos, dos cuidados e ilusões, que, para a História, tudo não terá passado muito além do papel : o daquela dúzia de actas e o destas duas fotografias.
 
José Malhoa, Manuel Carlos Pereira Baetta e Vasconcellos, Luiz Ernesto Reynaud, José Simões d’Almeida Jr., pe. Diogo Pereira Baetta e Vasconcellos; e sentados: Manuel Quaresma d’Oliveira, António d’Azevedo Lopes Serra e Manuel Henrique Pinto.
Todos confiantes no bom êxito da empresa. Figueiró, Agosto/Setembro de 1898.


E sem Reynaud e Malhoa, que ficam de fora neste reenquadramento da fotografia lá de cima, para podermos ver melhor a figura de Quaresma, os mesmos: Serra, Manuel de Vasconcellos, Quaresma d’Oliveira (circunstancialmente aos pés do padre),
 o pe. Diogo, Simões d’Almeida e Henrique Pinto.


Quaresma foi Presidente da Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos. Sobre isto pouco se sabe: um Edital avulso com, talvez, algumas das primeiras preocupações sobre higiene, ordenamento e licenciamento urbano na Vila, e pouco mais. 
Nem se sabe ao certo quando iniciou o mandato. Finda-o com a sua morte. 

O Figueiroense, 26 Jul.1902, p.4


















Apenas outras raras notícias de jornal se referem ao facto. A que nos dá conta, em finais de Novembro, do seu estado de saúde: «O sr. Manoel Quaresma d’Oliveira, digno presidente da camara municipal d’este concelho, tem passado incomodado de saude | Desejamos as suas rápidas melhoras». E, quinze dias depois, a do seu funeral, que dá ainda nota da coroa que a Câmara Municipal depositou junto ao caixão «de saudades, goivos, violetas e fitas roxas, com a dedicatoria: - “Ao seu inolvidavel presidente e sempre chorado amigo – A Camara”».

E não deveremos andar muito longe da verdade se dissermos que terá sido da sua vereação a deliberação da Câmara, de «21 de Junho de 1901», sobre a cedência e protecção ad aeternum, pela «Camara ou quem lhe suceder», do «Carvalho do sr. Malhoa» - um belo exemplar arbóreo que coexistiu anos a fio com o «Casulo» do outro lado da quelha dos Pelomes, que foi abatido em 2007 sem dó nem piedade e, pelo visto, ao arrepio de disposições centenárias. Este outro Edital bem posterior, já de 1920, dá conta daquela deliberação e explicita o seu articulado.



Está visto: o «inolvidável presidente» foi sendo esquecido; o «sempre chorado amigo» viu cedo secarem-lhes as lágrimas em volta; e até as deliberações da sua «Câmara ou quem lhe suceder» foram parar ao caixote do lixo da história.



Em 1897, Malhoa, seu particular amigo, já lhe pintara o retrato.

J.Malhoa. Retrato do Exm.º Sr. Manuel Quaresma de Oliveira, 1897.
Aqui numa foto a cores que me foi enviada, faz largo tempo, pelo meu caro Amigo F.Pires
















Trata-se de um quadro assinado e datado [«1897», por via das dúvidas] que nos mostra Manuel Quaresma d’Oliveira, aos 37 anos, sério mas de olhar fino e vivo, num discreto casaco e colete escuros, onde apenas sobressaem a gravata de seda branca e o alfinete que a pontua. Um belo retrato.
É um óleo que Malhoa levará, na Primavera do ano seguinte, à 8ª Exposição do Grémio Artístico. Sob o nº 97, o catálogo intitula-o «Retrato do Exmº Sr. Manuel Quaresma de Oliveira» e indica-lhe as dimensões «43x52».
Não era qualquer pintura que Malhoa decidia expor no Grémio. Nesse ano, acompanharam o retrato de Quaresma, o «Retrato do Exmº Sr. Conde de Proença-a-Velha» e o «Retrato de madame L» (o de Dona Tereza Leal que Malhoa levara no ano anterior ao Salon de Paris). E ainda, entre alguns mais, «Os Oleiros» (a versão grande, também presente no Salon de 1897), «As padeiras (Mercado em Figueiró)», «As papas» (mas a versão pequena), «A picota» ou «Gosando os rendimentos». Boa pintura, já se vê.
Como se percebe, o Sr. Quaresma foi apresentado aos lisboetas em muito boa companhia.


Há uma lenda figueiroense, chamemos-lhe assim, acerca do «Casulo», que faz de Malhoa um dos irmãos do «porquinho Prático» e de Quaresma uma das «Fadas Madrinha» [a outra será, obviamente, o Serra da farmácia].


Muitas vezes repetida, com diversas variantes, tal lenda diz mais ou menos o seguinte: «…Malhoa encantou-se tanto por Figueiró, que os seus amigos o convenceram a construir aqui uma casa. Azevedo Serra deu-lhe um amplo terreno à entrada da vila, e Quaresma d’Oliveira ofereceu-lhe todas as madeiras necessárias à sua construção…». Nas versões mais “eruditas” e “científicas” acrescentam-se uns conceitos e palavras caras [tipo «fortuna memorial», «valor paisagístico», «vivência cultural», ou assim…] e uma data bem precisa: «1895». Já quem “sabe mesmo”, mas “mesmo” do assunto, não dispensa um precioso “rectificativo”: «pedreiro: Júlio Soares Pinto, marceneiro: Manuel Granada» [acrescem, assim, dois laboriosos «anõezinhos da Branca de Neve» para o quadro da fantasia ficar mesmo completo: - «Eu vou, eu vou… pará tchim pum! pará tchim pum! Eu vou…»]. 


Então vamos lá. E vamos por partes.
Quanto ao terreno, António Serra “deu” coisíssima nenhuma! Malhoa comprou-o! E «pelo preço e quantia de duzentos mil reis» [e mais 19$253 em impostos, selos e alcavalas], a «João Mendes e sua mulher Pulchueria Augusta Pimenta Serra», conforme se pode ler na escritura lavrada a «25 de setembro de 1893» [em quatro folhinhas, quatro e não duas, que se podem hoje ver reproduzidas numa das paredes do «Casulo»]. Azevedo Serra, tal como António Vasconcellos (o do pão-de-ló), limitaram-se a ser testemunhas do acto notarial.
Depois, se Quaresma deu, ou não deu, as madeiras, talvez nunca o saibamos… [que Malhoa pagou algumas, há registo; que o «Casulo» nunca foi um bungalow ou cabana de pau-a-pique, também é certo]. Quaresma terá, isso sim, um outro e bem mais importante papel na ampliação do «Casulo», como mais adiante se verá.
Sobre aquela data “precisa”: «1895». Sabe-se muito pouco acerca da construção do edifício inicial, o tal que «de tão pequenino que aquilo era, [Malhoa] o baptisou com o nome de “Casulo”». Mas sabe-se bem como era: quatro paredes de alvenaria de pedra e cal, uma porta e duas janelas, telhado de duas águas e uma só divisória interior – tudo em perto de 38m2 brutos. Não é, pois, crível que tenha demorado muito a pôr em pé [nem por licenciamento terá esperado…] e, se o não foi logo no Outono de 1893, tê-lo-á sido, muito provavelmente, na Primavera seguinte…
Sabe-se também [se é que com isto se relaciona…] que, em 8 Out. 1895, Malhoa e Quaresma [designado aquele «mestre de pintura», este como «Amannuense da Camara deste Concelho»] apadrinham o casamento de Júlio Soares Pinto com Mª Rosa. [Curiosamente, os registos paroquiais dão-nos Júlio, em 1895, aquando do casamento, aos 25 anos, como «official da Admenistração deste Concelho»; e só o irão referir como «canteiro» já em 2 Jan. 1898, pelo baptismo da filha Julieta realizado ainda na Igreja Matriz antes de ali se iniciarem as obras de restauro, obras em que Júlio seria, e aí efectivamente, um dos artífices]. Se, com isto, se pode afirmar que Júlio Soares Pinto “foi” o «pedreiro» do «Casulo» [mesmo que apenas da construção inicial, e na tal data] … parece pouco, muito pouco.
[Porque, depois, nas obras de ampliação iniciadas por Reynaud em 1898, sabe-se que o mestre encarregado foi um outro: um tal José Ignacio Pereira. Embora o Júlio também por lá tenha feito um ou outro trabalho, pintado um quarto, e tratado do jardim e da horta…]
Por fim, o dito «Manuel Granada». Fica-se sem saber se este Manel será pai, filho ou apenas o espírito de um outro a quem Malhoa chama repetidamente Joaquim... Ao «Joaquim Granada», ao «Joaq.im Carpinteiro», fez Malhoa pagamentos e até lhe comprou um «alfinete» [tal como, na mesma data, um outro para o José Inácio] em reconhecimento dos bons serviços prestados… Prestados pelo Joaquim Granada, evidentemente.

E pronto. Como em todas as lendas, a coisa até tem fundo de verdade. É assim a modos as cautelas da lotaria: nunca acertam na taluda, mas ficamos todos contentes quando têm a terminação.


Voltando a coisas sérias. Ao nosso amigo Quaresma, ao «augmento» do «Casulo» de Malhoa, ao papel daquele nas obras, e à profunda amizade entre ambos.
No ano de 1898, Malhoa chega a Figueiró nos princípios de Junho já com tais obras em mente. Num postal enviado a MHPinto, datado de 16, apresenta-nos pela primeira vez a «Maria dos pintainhos» - a fiel criada Maria Ferreira que o irá acompanhar por toda a vida - escrevendo [os sublinhados são de Malhoa]: «…não foi ficar a tua casa por ter tido trabalho nas obras até ao último dia» [tal «trabalho» seria, bem entendido, o desfazer e o arrumar de toda a tralha existente no «Casulo» para se poderem iniciar as ansiadas obras de ampliação]. Depois, segundo tradição na família Quaresma [e as tradições familiares valem o que valem – sei-o por experiência própria], será em casa de Manuel Quaresma que Malhoa, e os seus, se irão alojar enquanto duram as obras no «Casulo» - tal parece bem plausível [convém, no entanto, não abusar e não tentar alargar o alvará de hospedagem ao período anterior à inicial e pequenina casa de veraneio de Malhoa…].
Poucos dias depois, também Reynaud chega a Figueiró para dar início às obras da Igreja Matriz. E, muito provavelmente, já apalavrado para proceder ao «augmento» da casinha do seu antigo condiscípulo na Academia das Belas Artes. Um dos desenhos originais de Reynaud já o pudemos ver aqui (numa das notas destoutro artigo): o alçado lateral nordeste, assinado e datado de «1898» [infelizmente, sem indicar dia ou mês]. 

Os trabalhos de construção civil terão o seu início aí pelo mês de Julho. Na Igreja e logo no «Casulo». Reynaud risca, dirige ambos os estaleiros, encomenda materiais, contacta fornecedores - amiúde os mesmos para as duas obras [6]. Malhoa permanecerá em Figueiró até aos inícios de Novembro [já vimos que a 1 Nov. 1898 ainda assina a acta da Fábrica de Cerâmica]. Chegado a Lisboa, regista de uma assentada no seu livro «Receita/Despeza»: «Junho, Julho, Agosto, Setembro, Outubro» | «Custo do augmento do “Cazulo” até 3 Nº 98 – 1:289$320» | «Estada em Figueiró despeza de casa – 250$000».

Encomenda de cantarias para o «Casulo» em 19 Set. 1898. 
Conforme o copiador de cartas do arq. Luiz E. Reynaud, 
in DIAS, Jorge A. Ferreira. O Casulo ou Chalé de Malhoa. DA/ESBAL, 1984 (policopiado).

Depois [como também vimos antes, e sem se perceber bem porquê] Reynaud dá por terminado o seu trabalho em Figueiró e sai de cena.

Se Quaresma teve de assumir a coordenação das obras da Igreja, também o fará com as do «Casulo» [para além daquela outra história da Fábrica de Cerâmica, recordemos… e tudo isso pelo mesmo tempo!].
Os registos de Malhoa confirmam: «Novembro» | «Ida a Figueiró, contas pagas ao Teixeira – 38$000» | «Paguei ao Quaresma em 28 Nº, contas das folhas d’este mez nas obras do “Cazulo”, fornecimento de canterias, saibro e pedras – 227$170». E durante o ano de 1899 repetem-se os assentos de pagamentos «ao Quaresma por despesas já feitas e a fazer no “Cazulo”» ou por «importancia que elle adeantou…»: em Janeiro 440$000, em Março 300$000, em Junho 538$275, e em Dezembro 251$000. Somas significativas, já se vê, e que demonstram grande confiança entre dois bons amigos.
Durante este ano, Malhoa irá a Figueiró em Janeiro e Março para ver do andamento da obra e fazer contas com Quaresma, e faz estada prolongada de 20 de Junho ao fim de Outubro [assenta então semanalmente os pagamentos das «folhas de ferias» feitos por si próprio aos operários].
Mesmo a finalizar o ano, deixa-nos este significativo apontamento.

Do livro «Receita/Despeza» de Malhoa, últimas linhas do ano de 1899.







E foi assim, por tudo isto, como o Amigo da máxima confiança, como o que realmente coordenou e dirigiu os trabalhos por mais de um ano, que Quaresma d’Oliveira deixa o seu nome definitivamente ligado ao edifício do «Casulo». Não fora ele e talvez a coisa tivesse empancado… Foi por isto. Não por uma qualquer palete de tábuas de solho.

[No ano seguinte, 1900, ainda haverá registo de mais dois pagamentos a Quaresma. Um, a 4 Fev., de 79$000, e um outro no início de Maio: «Dinheiro que mandei para o Quaresma, importância de folhas de salarios do Joaq.im Carpinteiro na execução da mesa de Casa de jantar e armario assim como de miudezas apresentadas pelo Julio e conta do Teixeira – 33$845».
E a fechar o “deve e haver” com Quaresma, ainda em Maio mas a 20, mais dois assentos: «Broche pª a Conceição do Quaresma d’Oliveira – 19$000», e logo um outro que diz às tantas «(…) e brindes pª as pequenas do Quaresma (…)».]

[Depois, tal como Malhoa antecipa na nota do final de ano, os trabalhos da mina e da canalização de água irão ocupar os anos de 1900 e 1901. Mas essa é já uma outra história que, então sim, mete o Serra, dono do terreno onde se situava a nascente, e não é, por ora, p’ráqui chamada.]


No entretanto, a 6 de Dezembro de 1898, nasce o primeiro filho varão do casal Albertina e Manuel Quaresma d’Oliveira. Irá tomar o nome do padrinho, o amigo Malhoa, e os competentes apelidos de família. Terá, para isso, de esperar pela vinda com estadia prolongada de Malhoa e sua família a Figueiró. Isso, só a 20 de Junho do ano seguinte, como já vimos. E logo no dia 26, na «Egreja da Mesericordia» [a do Convento, bem entendido, que a Matriz estava em obras], se realiza o baptismo do pequeno «José Quaresma d’Oliveira» [assim mesmo registado, de nome completo e por extenso, por causa de quaisquer dúvidas…]. Foram padrinhos José Malhoa e a sua mulher Júlia [assinando o registo e nele nomeada como «Julia Augusta de Carvalho Malhôa», em modo imperial portanto, à causa de outras dúvidas].


O assento de baptismo deste primeiro filho varão é, curiosa e sintomaticamente, o primeiro em que, para além da mãe Albertina da Conceição, também Manuel Quaresma d’Oliveira [ambos «solteiros», como vimos ao início] aparece nomeado, quer como pai, quer perfilhando «para todos os effeitos legais» a criança [que, apesar disto, não se livra do estigma «filho natural»…]

Nos baptismos anteriores, no da filha mais velha Aldara (31 Jan.1890 - Nov.1917), no da Hedmea (30 Ago.1892 - c.1929), e no da Maria (16 Dez.1894 - 17 Mai.1976), apenas é nomeada a mãe, Albertina da Conceição, que todas declara «para todos os effeitos legais sua[s] legitima[s] filha[s]». O pai está sempre omisso. Curioso é também o facto da pequena «Aldara da Conceição» [assim e apenas], mesmo de tenra idade, ser das duas irmãs sequentes madrinha.
Contudo, em 7 Jun.1898, a pequena Aldara, já com oito aninhos e a saber ler e escrever, apadrinhará, juntamente com o pai Manuel, um tal Annibal. É então que tem direito ao seu nome completo e, como tal, orgulhosamente o assina.




Ainda sobre o direito ao nome, uma outra nota. Em 1 Nov. 1897, a mulher de Quaresma foi madrinha de um qualquer Alberto. O padre faz o assento, nomeando-a como soía «Albertina da Conceição (…) solteira»; então, nas barbas do padre Diogo, a Srª Dona Albertina, senhora do seu nariz, assina como achou que já era altura: «Albertina Quaresma»! [E o padre lá teve de assinar por baixo…]



Depois do José (6 Dez.1898 - 1 Nov.1975), o casal Quaresma d’Oliveira terá ainda um outro rapaz, a quem foi posto o nome do pai e do avô. Manuel, o mais novo dos cinco irmãos, nasceu a 20 Mai.1902. [Fará a sua vida adulta em Alcobaça, e ignora-se quando morreu.]
 
O Figueiroense, nº258, 16 Ago.1902.


Quando tudo parecia, finalmente, estar a correr bem, com toda uma vida pela frente, Quaresma morre aos 42 anos de idade, repentinamente. Entre a pequenina notícia, de 29 Nov., que refere quase despreocupadamente «tem passado incomodado de saúde», e a sua morte passam menos de quinze dias. A 13 de Dezembro de 1902, Figueiró dos Vinhos e os seus amigos vêem desaparecer um dos seus mais ilustres.
Manuel Quaresma d’Oliveira morre, de morte sofrida, em Coimbra. Deixando a sua companheira de sempre, Albertina da Conceição, e cinco filhos, todos menores, «por quem era immensamente extremoso».

Mais que contar ou relevar este ou aquele pormenor, o melhor é ler o que na altura se escreveu. Um belo artigo, e parece sincero, que dá conta de toda a tragédia.






E, pelo trigésimo dia, duas missa(s) por sua alma.

O Figueiroense, nº279, 10 Jan.1903, p.3




13 Dez. 2018.
revisto e aumentado em 4 Fev. 2019.
anotado a 2 Mar. 2019. LBG

______________________

As NOTAS sequentes (à excepção da última) são já posteriores à feitura do artigo. Servirão, fundamentalmente e de futuro, a quem queira aprofundar o estudo da Família Quaresma e das relações entre os diversos personagens desta incontornável família da história figueiroense. 
Agradeço aos meus caros amigos Débora Passos e Luís Quaresma Ferreira o auxílio, os alvitres para pôr a descoberto e no lugar certo muita desta gente. 

[1]. De José Quaresma e Maria Josefa, casados a 23 Out.1811, nasceram, para além de José e de Manuel (o pai de Manuel Quaresma d’Oliveira), pelo menos mais uma irmã: Maria (5 Abr.1814 - ?).

[2]. Toponímico que será continuado por quase toda a descendência do tio.
José Quaresma Val do Rio (25 Set.1812 – 4 Mai.1896) casou com Maria Godinha, do Bairrão, e ali nascerão os seguintes filhos:
. Luiz Quaresma Val do Rio (1 Set.1841 – 22 Jun.1912), importante comerciante de Lisboa e grande benemérito de Figº dos Vinhos. Sobre as suas virtudes pode-se ler aqui ou ali (conforme se goste ou não do Afonso Costa…).
. Maria de São José Quaresma Paiva (22 Jul.1846 – 16 Abr.1915) que virá a casar, a 19 Ago.1876, com João Lopes de Paiva (e Silva) (c.1850 - 2 Abr.1919).
. Manoel Quaresma Val do Rio (23 Mai.1949 – 7 Nov.1906), tal como seu irmão Luiz, ligado à casa comercial lisboeta «Val do Rio», fundada pelo pai, foi também um generoso benemérito figueiroense. A apreciação contemporânea do personagem (mais monárquica ou já republicana) pode ser feita aqui (2 artigos na p.2) ou além.
. José Quaresma Val do Rio Júnior (3 Jan.1852 - ?) que viria a casar com sua prima Maria Justina Quaresma d’Oliveira.
. e, por fim, António (27 Set.1855 - ?), de quem pouco ou nada se sabe.

[3]. O avô José Quaresma era, tal como a avó Maria Josefa, originário do Casal dos Ferreiros da Ribeira. Era filho de um Manuel Quaresma e de uma outra Maria Josefa, também dali naturais. Tudo indica, portanto, que a família Quaresma tem a sua origem naquele lugar junto ao Bairrão.
O avô José Quaresma terá tido, pelo menos, um irmão: Francisco Quaresma.
Este Francisco Quaresma casará com Maria Dias (ou Maria Godinha), da Aldeia da Cruz, e ali se irá estabelecer e gerar descendência. Dando origem aos Quaresmas da Aldeia da Cruz. Há notícia de três filhos de Francisco Quaresma: Maria (n. 21 Set.1814), Joaquina Quaresma e José Quaresma.
Joaquina Quaresma, com Inácio Dias, da Vila, em 18 Abr.1852 será mãe de uma Justina.
E José Quaresma ir-se-á estabelecer na Ervideira, onde, com Francisca Godinha, do Bairrão, dá origem aos Quaresmas da Ervideira. Em 30 Nov.1859, por exemplo, ali nasce outra Maria de São José
(E assim se vão repetindo os nomes dos e das Quaresmas, para dificilmente percebermos quem é quem…)

[4]. Entre o nascimento de Maria Justina e o de Manuel Quaresma d’Oliveira, há notícia de um outro irmão, José (31 Jan.1859 – 16 Jul.1859), que morreu de tenra idade.

[5]. Do casamento da irmã Maria Justina Quaresma d’Oliveira com o primo José Quaresma Vale do Rio Júnior nasceram dois filhos:
. Aurélia Quaresma Val do Rio (26 Nov.1878 – 15 Fev.1950) que morrerá em Lisboa, em S. Sebastião da Pedreira.
. e José Quaresma Val do Rio (29 Jan.1880 – ?), o filho nascido aquando da morte da mãe e que sobreviverá até à idade adulta, embora se não saiba quando falece.

[6]. Tal como, neste particular, bem refere Miguel Portela in: «A Igreja Matriz de Figueiró dos Vinhos: Um verdadeiro tesouro de Arte. As obras de restauro [1898–1904]». Cadernos de Estudos Leirienses-1. Textiverso, Leiria, 2014. (Pág. 26).


quinta-feira, 22 de novembro de 2018

As “gralhas” e o meu Amigo Raposo

Algumas notas sobre a data
do nascimento de Manuel Henrique Pinto (1853-1912)

A data do nascimento do pintor MHPinto, de vez em quando, é objecto de umas alegadas “controvérsias”. Década e meia depois, parece que o assunto vem de novo à baila.
Recapitulemos.

José Abrantes Raposo, na sua meritória obra de 2002, Manuel Henrique Pinto. Vida e Obra. Ensaio Bio-Iconográfico, refere-se a «algumas discrepâncias», então por si encontradas, «no que concerne à data do seu nascimento».
Resumidamente, diz-nos Raposo [1]:
«… a Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira, obra base de consulta e de cultura, afirma, erradamente, que (…) foi a 15-II-1835 (com o mês em romano)…»
«… Romeu Correia, no seu livro Homens e Mulheres Vinculados às Terras de Almada, servindo-se [daquela] fonte (…), confundiu os algarismos do mês, trocando os romanos por árabes e, escreveu Novembro em vez de Fevereiro (…) Alexandre M. Flores, na obra Almada Antiga e Moderna – Roteiro Iconográfico, II Freguesia de Cacilhas, usou a referência de Romeu Correia e apontou, igualmente, a mesma data.»
Mas, logo de seguida, Raposo também refere:
«O catálogo da Sociedade Nacional de Belas Artes, comemorativo da exposição do Grupo do Leão, em 1941, dá-nos, contrariando as datas anteriores, a data de 15 de Março de 1853
E prossegue: «Na mesma linha de orientação, o Dicionário de Pintura Portuguesa, da responsabilidade de José-Augusto França, e o Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses ou que Trabalharam em Portugal, de Fernando de Pamplona, dão-nos só os anos de 1853-1912. O mesmo acontece com o catálogo do Museu José Malhoa (1981), comemorativo do centenário do Grupo do Leão e, no capítulo O Naturalismo na Pintura, na História da Arte em Portugal (Publicações Alfa, 1986), de Maria Margarida L. C. Marques Matias.» (Os sublinhados são meus.)

Não diz Raposo, mas digo eu: Se olharmos com atenção para a manifestamente errada data da Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira, «15-II-1835», logo percebemos que ali deve haver pelo menos uma “gralha”. Qualquer mediano estudioso da história da Arte portuguesa desconfiaria que Pinto, membro do Grupo do Leão e retratado por Columbano no quadro com o mesmo nome, nunca poderia ter nascido em «1835»!? Pois, se assim fosse, teria mais vinte anos que o seu dilecto amigo Malhoa?! mais quinze que Silva Porto?! uns nove que Bordalo?! seria ainda mais velho que os mais velhos do Grupo – Girão e Cipriano?! e teria mesmo boa idade para ser pai de todos os outros retratados no quadro?! A ter nascido em tal data, seria quase da idade dos velhos Mestres da Academia, Prieto e Lupi?! - Poderia lá ser!?
Torna-se, pois, evidente que ali caiu “gralha”. E que os dois últimos algarismos do ano («3» e «5») estarão com a ordem trocada. A estarem na sequência devida, teríamos o ano certo do nascimento de Pinto - 1853.
Depois, já agora, talvez falte um «I» no número romano do mês. Que, a lá estar, indicar-nos-ia com exactidão o mês de Março. E temos uma segunda “gralha”.
O dia está certo.  

Não houvera “gralhas” e não haveria controvérsia nenhuma!
Porque essa data seria coincidente, e muito bem, com a data indicada no catálogo da SNBA de 1941 – 15 de Março de 1853. E também com as datas referidas pelos citados autores, incontornáveis na História da Arte em Portugal, como J-A. França, F. Pamplona e Margarida M. Matias – (1853-1912). E com a data que todos os estudos posteriores e mais actuais sobre o Pintor vêm repetindo: 15 de Março de 1853.
E, repare-se, não havendo tais “gralhas”, os dois autores Almadenses, muito criteriosos, sabedores e experimentados (talvez não tanto nestas coisas das artes), não teriam sido levados ao engano. E Raposo não teria encontrado «discrepância» alguma.


Como encontrou, e na salutar procura em deslindar as «discrepâncias» que entendeu incompreensíveis, Abrantes Raposo, no entretanto e na mesma obra, criou uma nova. E bem mais difícil de resolver.
Apresenta-nos o que chamou «a Certidão de Nascimento do pintor». Na verdade, e como é evidente, trata-se de um assento de baptismo. Em tal documento, o Prior da freguesia de Sant’Iago (Cacilhas), em 24 Jun. 1852, regista o baptizado de um «Manoel», nascido a 2 de Abril do mesmo ano, filho de Francisco Jorge Pinto e Sebastiana Rosa. E, munido de tal documento, Raposo estabelece um novo paradigma: Manuel Henrique Pinto «nasceu a 2 de Abril de 1852».
(Pinto seria, a ser assim, quase um ano mais velho, e todos os autores teriam andado anos a laborar no erro!?)

É, há muito, sabido que M. Henrique Pinto era natural de Cacilhas e que seus pais foram os já referidos Francisco Jorge Pinto e Sebastiana Rosa. Outros documentos o comprovam. Mas será este, revelado por Raposo em 2002, o definitivo quanto à data de nascimento do Pintor? Por que razão, até então e depois disso, todos [2] os outros autores afirmam aqueloutra data, a de 15 de Março de 1853?
(Já vimos que a da Grande Enciclopédia pode ser apenas “gralha”, e que os autores Almadenses foram por esta levados ao engano.)

Ora, outras fontes documentais (de uma outra natureza, é certo, mas igualmente a ter em conta em qualquer investigação histórica) dizem-nos o contrário da conclusão de Raposo:
Desde logo, vários artigos de jornal (O Distrito de Portalegre ou A Verdade, de Tomar) que, por algumas das vésperas dos 15 de Março que Pinto passou por aquelas terras (entre 1884 e 1888, ou de 1888 a 1911, respectivamente), publicaram os «Parabéns» da praxe, ao «amigo e sr. Pinto», pelo seu aniversário.
Ou um ou outro postal (dos poucos que até hoje nos chegaram), com igual propósito aniversariante, subscrito pelo seu íntimo amigo J. Malhoa e pelos seus. (Alguns destes já há muito aqui mostrados).
Ou, ainda, um pequeno carnet da viúva, Maria da Conceição d’Almeida Pinto, onde se pode ler, na parte dos aniversários: «Papá - 15 de Março».
Finalmente, a inscrição, gravada na pedra e para a eternidade, no fuste que suporta o busto de M.H.Pinto (moldado por Josef Fuller em 1892 e fundido em bronze em 1914) que encima a sepultura do Pintor no cemitério de Figº dos Vinhos - «Manoel Henrique(s) Pinto | Nasceu 15 Março 1853 | Faleceu 26 Setembro 1912».


E estas são, queira-se ou não, fontes tão importantes quanto o velho registo do prior de Cacilhas.

Quer isto dizer que o padre faltou à verdade? que o registo de baptismo não é fiável? Longe disso: parece evidente que na igreja de Cacilhas, pelo S. João de 1852, foi baptizado um «Manoel», filho de Sebastiana e Francisco Pinto.
Agora, e resta saber, é se esse «Manoel» era mesmo o Pintor ou um seu irmão. Um possível irmão mais velho que, entretanto e como não era raro à altura, tivesse falecido ainda no berço, e o filho seguinte de igual sexo (o futuro Pintor) tomasse, como também era uso, o mesmo nome de baptismo… Repare-se: entre 2 Abr. 1952 e 15 Mar. 1953, medeiam cerca de onze meses e meio, tempo mais que suficiente para uma nova e feliz gestação de Sebastiana Rosa.
(Esta hipótese, que não passa disto mesmo - de uma hipótese, discuti-a já, de viva voz e em tempo devido, com o meu estimado amigo José Abrantes Raposo. Nem ele ficou totalmente convencido, nem antes pelo contrário.)
Ah! e o assento de baptismo do “segundo” Manuel? – perguntarão. Pois não se encontra. Nem esse, nem o de uma sua irmã mais nova, a Margarida, que pelo menos por fotografias se sabe bem que existiu… A falta dos assentos também não prova o contrário.

Assim, entre o registo do cura cacilhense que nos parece dizer uma coisa; e (mesmo se toda a vida enganados) aquilo que parece ser a verdade vivida pelo próprio MHPinto, pela sua família, os seus amigos (com Malhoa à cabeça), pelos jornais das terras onde foi considerada figura, e ainda por Pamplona, e França, e Matias, e todos os demais autores (ante ou após a revelação do tal assento), não parece a coisa merecer mais rodeios.

Por tudo isto, decididamente: Manuel Henrique Pinto (Cacilhas, 15 Março 1853 – Figueiró dos Vinhos, 26 Setembro 1912).


22 Nov. 2018. LBG

___________________________

[1]. Por via das dúvidas, nas citações ou referências que se seguem, houve o cuidado de confrontar a versão final impressa com o caderno original manuscrito por Raposo (e quando digo «manuscrito» é mesmo manuscrito - caderninho A4 escrito a esferográfica azul, algumas partes a lápis, emendas a encarnado - prévio, portanto, a alguém o ter "batido à máquina", talvez já a computador, antes da composição dos fotolitos tipográficos). Manuscrito que o Autor fez questão de me oferecer vai para uma década, e que guardo com o maior desvelo e amizade.

[2]. Todos, todos não! Que Saldanha, em José Malhoa: Tradição e Modernidade, 2010, afina pelo diapasão de Raposo: embora lhe desdenhe o livro, copia-lhe a data. Ao mesmo tempo que troca o nome ao Padre Ventura Pinho… (ver nota 529).


Ilustração: montagem sobre um fotograma da animação Der Rabe Und Der Fuchs que pode ver aqui.
adenda: Em Jun.2026, acrescentei as características do Manuscrito que me foi oferecido por José Abrantes Raposo, à nota [1], por via das dúvidas.

sábado, 15 de setembro de 2018

A montanha e o rato (ou vice-versa)

e, já agora, um punhado de trigo-roxo


Vou avisando: este é assunto que pouco ou nada interessa. É peanuts! – como diria o mister. Portanto, se o caro leitor tiver coisa mais útil a fazer, passe adiante e não perca tempo. Agora, se quiser saber com quantos paus se faz uma bateira, se não se importa de se irritar um pedacinho, se gosta das vãs glórias d’o saber, no fundo, no fundo, de quadrilhice mas armada ao pingarelho, venha daí… Não diga é que não o avisei.


Acompanhado de algum alarido – pelo menos na região oeste tão falado quanto a pêra rocha – foi, há tempos, anunciada a 8ª maravilha do mundo no que aos estudos malhoescos diz respeito. E como se a coisa não bastasse, ainda nos ameaçam com mais quatro. Esperam-nos, portanto, da nona à décima-segunda maravilha. Será obra!
O obreiro que esta obrou e, presume-se, as sequentes obrará, foi etiquetado, putativamente e nem mais nem menos, como «o maior investigador atual sobre o homem e o artista» [1]. É também obra!

Passemos adiante sobre o setenário programa das festas que deveriam abrilhantar o lançamento da novidade. E que, à panóplia dos eventos propalados, juntava também um colóquio/visita guiada já antes e por outrem programado (não terá sido por isso, pela apropriação disparatada, que o outro borregou?). Também geograficamente previsto para os três cantos da vasta extremadura malhoesca, e ainda para a derradeira morada, acabou por se ficar pelas cavacas. Acontece.

Vamos lá, então, à sustância da coisa.
O novel é um livrinho com 103 páginas, de simples mas muito agradável apresentação (valha a verdade). O verso do frontispício não esquece a habitual nota sobre a reserva dos direitos e proíbe a reprodução «por todos e quaisquer meios» (pois bem prega Frei Tomás…). Completíssimo quanto às partes: tem «Dedicatória», «Comentário» (do Dantas), «Antelóquio», «Prefácio», e mais um outro pequeno texto (do Coelho Netto); depois o texto propriamente dito dividido em três capítulos (lá iremos); e, por fim, a «Bibliografia Consultada», «Periódicos Consultados», «Arquivos e Bibliotecas Consultados», e «Alguns Dados Sobre o Autor», e finda com o Índice, mas com outro nome. Falta nada.

Nos finais de cada capítulo, e entre os «consultados» e os dados sobre o autor, três conjuntos de seis e um de quatro folhas, num total de 44 páginas, são preenchidas por fotografias ou gravuras, bem impressas a preto e branco, e quase todas reproduzindo registos de Malhoa ou com este relacionados. Muitas já bem conhecidas e muitas vezes publicadas, outras tantas mais próximas do que se poderia considerar «Inédito» - afinal o chamariz que dá epíteto ao livrinho. 

Algumas das imagens inéditas daqui teletransportadas. 
E, já que se copia, é copiar como deve ser, legendas e tal, e não "inventar" umas datas disparatadas...







E é aqui que a porca começa a torcer o rabo. Ou, melhor, que o rabo começa a expelir porcaria e a feder. 
Na verdade, quase todas estas inéditas imagens agora dadas à estampa, não se encontram publicadas em mais lado nenhum… a não ser aqui. Isso mesmo: aqui, precisamente aqui (ou, quando muito, aqui do lado, no anexo do quintal), acompanhando os artiguinhos que ao longo destes anos, com ou sem regularidade, aqui em Provocando se vão publicando. 
Se, ao amigo leitor, ninguém algo disse sobre copiar e republicar tais imagens, pois fique sabendo que a nós também não! E se ainda mantém a ténue esperança de, por entre tantas páginas com a bibliografia, os periódicos, os arquivos, as bibliotecas, e o diabo-a-sete, alegada e arduamente consultados para o excelente resultado da investigação e o bom êxito do livrinho, lá no meio de tanta coisa, que haja uma linha, uma linhazinha que seja, onde se refira a fonte das fotos, estas ou outras, o melhor é esquecer: Nicles! Apenas quanto à origem da imagem usada na capa – um Diário Illustrado de 1895 (não vá o J. M. Baptista de Carvalho levantar-se da tumba e zangar-se à séria…).
Ou seja, como facilmente se percebe, algum rato ratoneiro andou por aqui a ratar e, de rato em punho, lá foi clicando, ora aqui ora acolá, e catrapiscou uma boa quantidade de imagens. Depois, ainda de rato na mão, com algum jeitinho para o photoshop ou coisa que o valha, lá ratou as letrinhas das marcas de água (não tão bem que não tenha deixado uns rabinhos de fora – seja de rato ou de gato) e pronto. Et voilà! Cá temos uns belos inéditos a ilustrar devidamente o «Inédito»!
Mas deve ser embirrança minha. Deve estar tudo certo, deve ser assim que as coisas agora se fazem. Pois se me dizem que o putativo investigador/autor/editor (3-em-1 e o mais que seja), tão recta-pronúncia e cioso dos seus direitos (como atrás vimos e logo iremos ver), é permanentemente e de perto muito bem assessorado por «investigadora em Direitos Humanos, mais especificamente em Direitos Culturais», é porque é assim mesmo. E isto da internet deve ser mais ou menos como o da Joana
Mas que é feio, é muito feio. Acho. E registado fica.

Já que estamos por aqui, pelas fontes, vamos lá à «Bibliografia Consultada». É sempre um bom indicador.
Noventa e sete itens, noventa e sete! Entre livros, catálogos, folhetos e demais publicações (e, atenção, que os periódicos estão noutra lista à parte). Claro que só o Dicionário do Pamplona, como é em cinco volumes, preenche logo cinco itens (sinal que não bastou ir ao IV volume ver do Malhoa, mas que a completa e complexa investigação deve ter começado no Basoeki ABDULLAH e terminado no Miguel ZITTOZ – só pode!). E que pena A Arte em Portugal no século XIX, do França, ser apenas em dois volumes…!? (fossem outros cinco e a lista chegaria à centena - número bem mais redondinho).
Mas a lista é surpreendente. Alguns dos incontornáveis, como os já citados e mais uns tantos, mas muita tralha e algum ranço. Fora uma ou outra reedição, um Guia do Museu Malhoa e uns dois títulos mais, parece que o rol acaba mesmo no século passado.
Não está lá o …Tradição e modernidade, do Saldanha (2010); nem o Raisonné, idem (2012); tão pouco o José Malhoa, com um belo artigo de fundo da Sandra, editado pela ARTing (2008); nada de Amar o Outro Mar…, da Lucília Verdelho (2003) e que até é meio brasileiro…; sequer os “da casa”: Como nasce um Museu, da Dóris e da Matilde (2013) - pois pudera! – e ainda menos Malhoa & Bordallo: confluências…, com aquele excelente texto da Matilde (2005) – t’arrenego! Todos incontornáveis. Com alguns defeitos mas muitas virtudes, alguns dos estudos mais recentes e completos ou que contêm artigos fundamentais para uma investigação séria sobre Malhoa. E um ou outro até lá têm respostas a questões que neste livro agora se levantam (se é que no fim disto ainda as vai haver…).
Não se percebe!? Não se percebe se a omissão é por ignorância, se por desleixo, ou propositada pela soberba de se achar, afinal, «o maior investigador atual sobre o homem e o artista», e todos os outros não passarem de umas pobres bestas quadradas. Deve ser isso. E estamos conversados.

Tempo, agora, de ir mais ao cerne da questão.
Os capítulos 2 e 3 são uma chatice. Conversa de amanuense. Ou, num ou noutro aspecto, de quem está a preparar um daqueles cadernos de encargos para o concurso no qual se sabe já quem deve preencher o lugar… Quiçá?! Têm por títulos: «Centro de Documentação José Malhoa», este com um sub-capítulo chamado «Centro de Documentação José Malhoa | Esboço do Regulamento», e «Documentação Inédita e Esparsa». Apelativo, não há dúvida. A sua leitura não o é menos.
São doutas e abundantes as explicações sobre «Documentação Primária, Secundária e Terciária»; sobre «Documentos Ostensivos e Sigilosos» (cá está: mesmo ao arrepio da vontade expressa do próprio, passa tudo num ápice a ser como o da Joana); sobre «Higienização, Conservação e Restauro» e o uso obrigatório de «luvas», «máscara» e «bata»; sobre um súbito milagre que ocorrerá: «todas as pessoas que possuírem Documentos Primários, Secundários ou Terciários, relacionados ao Pintor de Portugal, sentirão confiança, para os deixar sob proteção deste Organismo» [p.46]; e, entre muitas outras boas intenções e teorias sobre «repositório», «catalogação, analógica e digital» e por aí fora, anuncia-se «o cuidado de pesquisar e adquirir toda a documentação - Primária, Secundária e Terciária acerca do Patrono deste museu – que vier a ser encontrada» [p.40] (os sublinhados são meus). Só não se diz é como.
No fim disto tudo, um tipo pensa logo: cá temos um novo Montez, do século XXI, mas o novo Montez! sem a Legião à ilharga, um novíssimo Montez!
E confia. E vai dormir bem mais descansado.

E ao âmago, a la pièce de résistance.
O primeiro capítulo, «Genealogia», seria o mais interessante do livro. Nele se dá a conhecer o tal facto inédito, alegadamente fruto de uma aturada investigação «efetuada enquanto Pesquisa Primaria Documental, ou seja, em fontes fiáveis, existentes na Torre do Tombo» [p.24]: a descoberta de um irmão de Malhoa até agora desconhecido, de seu nome João. 
O “agora” será força de expressão. Mas compreende-se: como o texto do livro corresponde à comunicação feita pelo autor num colóquio realizado no Museu Malhoa em 26 Abr. 2015, tal facto e os correlacionados já são conhecidos vai para três anos. E, disso, aqui demos conta em devido tempo. Como se pode ver na nota de rodapé deste artigo de 2012, (datada a nota de Jun. 2015, e posteriormente rectificada e adendada em Abr. 2016. E que vou ter de rectificar uma vez mais, já, já a seguir...). Mas dando o seu a seu dono, obviamente, pois não me esqueci de referir, de forma clara, qual o autor da dita revelação. (Pelo visto, deve ser um defeito meu…).

Antes de voltarmos ao assunto central – a genealogia de Malhoa - que, no livro e na verdade, é tratado apenas nas últimas quatro páginas das doze que ocupa todo este primeiro capítulo, vejamos resumidamente mais uma lição de sapiência com que nos brinda o autor preenchendo as outras oito.
Diz-nos: «Sobre a biografia de Malhoa temos, até hoje, abreviadas páginas, fraca documentação e praticamente nenhum dado que seja, realmente novo e importante, apesar de existirem inúmeras publicações que abordam o tema» [p.15]. Fala-nos depois de Plutarco e Tácito, de Xenofonte e Platão. E de mais uma série de biógrafos, nacionais e estrangeiros, de quinhentos a novecentos, e das suas principais obras. Já para o séc. XXI, propõe «a necessidade da pesquisa da Biodata», lamenta a dificuldade em «conseguir um levantamento genealógico genético de José Malhoa», e discorre sobre «biotecnologia» e «ADN autossómico». E logo determina as boas prácticas: «Em qualquer levantamento genealógico, deveria o estudioso, referenciar, de todas as Gerações, os seguintes campos: nome completo, data, hora e local de nascimento, casamento, cine-fotografias e data, hora e local de falecimento». Lamentando-se logo de seguida: «No caso de José Malhoa não será possível efetuar o preenchimento de todos esses campos, pois não existe um documento primário que cite, por exemplo, a sua hora de nascimento» [p.23].
Aqui, o leitor, tal como eu, maldirá da Ana Clemência por não ter ao lado, enquanto paria, um Roskopf mais um papel e um lápis, a fim de assentar devidamente a boa hora. Não lhe bastaria ter (se é que teve) panos limpos e água quente. Deveria imperativamente estar munida dum relógio (que, a bem da verdade, neste modelo mais democrático, só seria comercializado uns bons anos depois de ela ter dado à luz). Pois, agora, falho de tão precioso dado, fica o putativo estudioso impedido de traçar o imprescindível mapa astral do biografado… Ora bolas! Que maçada!

Deixemos isto. Vamos às origens familiares de JMalhoa.
Fruto, como vimos, duma aturada investigação que o putativo investigador nos dá a entender por mais de uma vez, com aquele ar sério e sofrido de quem carrega aos ombros todo o peso d’o saber, terá sido «efetuada (…) em fontes fiáveis, existentes na Torre do Tombo» [pp.24 e 26], o autor chega às seguintes conclusões sobre os membros próximos da família de Malhoa:

. Avós paternos: João Francisco Malhoa e Bernarda (?) Maria 
(embora admita em nota de rodapé «Também referenciada/conhecida como: Bernardina»).
. Avós maternos: João Moreira Branco e Maria Clemência.
. Pai e Mãe: Joaquim Malhoa e Ana Clemência Branco.
. Irmãos:
1. Joaquim António Branco Malhoa (n. 5 Set.1845)
2. João Branco Malhoa (n. 7 Abr.1848)
3. Maria Rita Branco Malhoa (n. 24 Jan.1851)
4. Maria José Branco Malhoa (n. 13 Jan.1853)
e, por fim, o nosso pintor,
5. José Vital Branco Malhoa (n. 28 Abr.1855)                       [pp.23 e 25]

Até aqui tudo certo. Só não se percebe porque carga de águas se assinala tão assertivamente o suposto nome de «Bernarda»?!
Em todos os registos consultados, e foram oito (os 5 de baptismo destes netos, o do casamento deste filho, como iremos ver, e ainda o de baptismo de um outro neto e o de casamento de um outro filho, em 8 registos portanto) em todos, a senhora Avó paterna do pintor aparece sempre designada como «Bernardina Maria»!
Será, porventura, a tal Bernarda algum mistério escondido na Torre do Tombo e só acessível aos eleitos e aos imensamente estudiosos?! Ou asneira, como já se vai percebendo…

Depois, sobre o local do nascimento dos irmãos de Malhoa, lemos esta afirmativa conclusão:
«O que existe, editado, a respeito aponta-nos, portanto, a existência do Joaquim, da Maria José, da Maria Rita e do José Malhoa, como originários da freguesia de Nossa Senhora do Pópulo, em Caldas da Rainha. Porém, a investigação, até aqui, levou-nos também para a freguesia do Coto e, apoiado, na Pesquisa Primária Documental, ou seja, nas mesmas fontes fiáveis, consultadas na Torre do Tombo, afirmamos que: O Joaquim, a Maria Rita, a Maria José e o recém-descoberto João, nasceram na freguesia do Coto e somente José Malhôa, o nosso querido pintor, nasceu na freguesia de Nossa Senhora do Pópulo[pp.25,26] (nesta, como nas outras transcrições, respeita-se a pontuação original).

Ora bem. Se, por mera hipótese, tal fosse verdade, aqui estaria uma novidade importante sobre a família Malhoa, pelo menos em termos sociológicos. Quereria isto dizer que apenas pouco antes do nascimento do futuro pintor, a família se mudara da freguesia mais rural do Coto (de onde os Malhoas serão originários) para a vizinha e mais urbana da Srª do Pópulo (estamos a falar, obviamente, ao tempo, em meados de XIX). E as mudanças do campo para a cidade (vila ainda, no caso) podem ser significativas em termos sociais, das vivências e etc. e tal… (Mas, como a hipótese não passará de mais uma fantasia, não vale a pena perder mais tempo com teorias que nada adiantam.)

Não faço ideia, palavra de honra, do que possa haver na Torre do Tombo, ou lá onde se diz que se foi… Mas aqui, sem levantar o rabinho da cadeira, podendo beber o meu whisky e fumar um cigarrinho, com a ajuda do rato (um outro rato, este), em meia dúzia de horas, pude encontrar isto que partilho alegremente com o leitor: os registos de casamento e baptismo desta gentinha toda. Estarão no lugar onde devem estar, que é o Arquivo Distrital de Leiria, nos muitos livros referentes à freguesia de Nª Srª do Pópulo. E, como se pode ver, serão os registos feitos pelos sucessivos priores da freguesia na altura dos Sacramentos. Documentos Primários e fontes fiáveis, portanto e tanto quanto é possível. E, a haver outros, só poderiam ser cópias destes.

Ora, lendo com olhos de ler o que lá está escrito, não se lê nada daquilo que o putativo investigador diz que investigou. E, ou não leu o que agora todos podemos ler, ou não saberá ler…

Comecemos pelo Casamento dos Pais de JMalhoa.

(Não transcrevendo tudo e simplificando a linguagem). Em 23 Dez.1844, na Igreja Paroquial de Nª Srª do Pópulo, da Vila Caldas da Rainha, «se receberão por marido e mulher» (casaram) Joaquim Malhoa, filho de João Francisco Malhoa e de Bernardina Maria (e cá está a «Bernardina»…), natural e baptizado (o Joaquim, evidentemente) na freguesia «de Santa Maria» (normalmente designada como de Nª Sª dos Anjos) «do Lugar do Couto», e Ana Maria filha legítima de João Moreira (aqui, como por vezes acontece, falta o «Branco») e de Maria Clemência, natural e baptizada (a Ana) «nesta freguesia» (a do Pópulo, portanto).
Foram testemunhas José Francisco Malhoa e Ricardo da Silva Ribas (o José Francisco Malhoa seria provavelmente um tio do noivo e, do Ricardo, a gente só topa que é Ricardo pela assinatura…). Assina o registo o Vigário Joaquim das Dores e Sá.

Recapitulando (a ver se não ficam dúvidas): Joaquim Malhoa casou com Ana Maria, em 23 Dez. 1844, na Igreja do Pópulo, nas Caldas. Ele era natural do Coto, e ela natural da freguesia do Pópulo. Ele era filho de João Francisco Malhoa e Bernardina Maria, e ela era filha de João Moreira (Branco) e de Maria Clemência. Claro como água.

E, agora,  os filhos destes, começando pelo princípio.
(Para que fique também claro: este registo e os seguintes constam do Livro «Registos de batismo da freguesia de Caldas da Raínha: 1832-1855»; código de referência: PT/ADLRA/PRQ/PCLD03/001/0005; localização: IV/31/A/80; do Arquivo Distrital de Leiria.)

Primeiro, evidentemente, o «mano» Joaquim.

Em 18 Set.1845, foi baptizado o Joaquim, que nasceu a cinco do mesmo mês (5 Set.1845), filho legítimo de Joaquim Malhoa e Ana Maria «recebidos nesta freguesia» (isto quer dizer que ali, no Pópulo evidentemente, haviam casado e da dita freguesia seriam «fregueses», ou seja, ali morariam); neto paterno de João Francisco Malhoa e de Bernardina Maria (de novo «Bernardina»); e materno de João Branco (agora falta o «Moreira») e de Maria Clemência.
Foram padrinhos Agostinho José Malhoa e Maria da Conceição. E assina o registo o mesmo Vigário que casou os pais.


Segue-se cronologicamente o João.



«Aos dois dias do mez de Maio de mil oito centos quarenta e oito nesta Igreja de Nossa Senhora de Populo da Villa de Caldas da Rainha, deste Patriarchado de Lisboa, baptisei e pus os Santos Oleos a João, que nasceo a sete de Abril (7 Abr.1848), filho legitim[o] de Joaquim Malhoa da Freguesia do Couto, e de Anna Clemencia (note-se aqui a primeira vez que Ana Maria toma o nome da Mãe) [des]ta Freguesia, aonde forão recebidos; neto paterno de João Malhoa (faltará o «Francisco»), e B[er]nardina Maria (mais uma vez «Bernardina»); e materno de João Moreira Branco, e de Maria [Cle]mencia. Forão padrinhos José Thiago, e Nossa Senhora, tocando co[m] as suas contas Joaquim Ricardo. Do que fis este assento. | O Par.º Encomend.º Francisco José Ferr.ª (?)»

Como é evidente, é isto o que lá está escrito! (e não outra coisa, a modos que parecida...) 
A página, como se vê, está cortada na margem direita e faltam letras em algumas palavras – veja-se o início dos nomes de ambas as Avós, por exemplo. Contudo a pontuação do manuscrito, colocada com algum critério, ajuda a reconstituir o sentido da escrita. Tal como olhar com atenção para os outros registos feitos pelo mesmo padre pela mesma altura (ordem e tipo de informações que vai registando, estilo repetitivo dos mesmos e a caligrafia usada). E facilmente se chega ao que o padre realmente escreveu. Que foi isto. Optou-se, por estas razões, por transcrever integralmente o texto manuscrito, assinalando as letras reconstituídas.
E o resultado é bem diferente da transcrição apresentada no livro. A relação difícil com as vírgulas, às vezes, dá mau resultado...



O putativo investigador ou não percebeu, ou não quis perceber, ou quis perceber coisa diferente, e apresenta-nos a transcrição que convém à tal teoria estapafúrdia de os quatro primeiros irmãos serem “naturais“ do Coto… Trabalho sério. Só pode ser isso.


Depois aparece a Maria Rita.


Diz que, a 4 Mar. 1851, na Igreja do Pópulo, o Rev.º P.e António Correia de Mesquita (a quem o prior que assina o assento deu licença) baptizou a Maria, nascida a 24 Jan.1851, filha «de Joaquim Malhoa, e Anna Maria desta Villa, aonde forão recebidos»; neta paterna de João Malhoa (sem «Francisco») e Bernardina Maria (sempre «Bernardina»); e materna de João Moreira Branco e Maria Clemência.
«Forão padrinhos José Joaquim de Salles Henriques e Rita de Jesus Ferreira Salgueiro Sobral da Cidade de Lisboa, tocando com procuração Roza Maria Branco, tia do baptizado». Assina o registo o pároco Francisco José Ferreira (?), o mesmo do anterior.

Como se percebe, esta primeira «Maria» tomará posteriormente para si, como segundo nome, o da madrinha Rita – Senhora de vários apelidos e que não esteve presente fisicamente na cerimónia.


E, quase dois anos depois, a Maria José.


A 30 Jan. 1853, na Igreja da freguesia (a do Pópulo, evidentemente), baptizou a Maria, «que nasceo atrese» (13 Jan.1853), «filha de Joaquim Malhoa da Freguesia do Cotto, e de Anna Clemencia do Populo desta Freguesia, aonde se receberão» (mais uma vez, e abusando da repetição, quer isto dizer que era filha do Joaquim Malhoa e da Ana Clemência, que aquele era do Coto, e esta do Pópulo, e que aqui se receberam – haviam casado); neta paterna de João Malhoa (sem o «Francisco») e Bernardina Maria (e ainda não foi desta que veio a «Bernarda»…); e materna de João Moreira Branco e Maria Clemência.
Foram padrinhos João da Costa Passos(?) de («Alcasser») Alcácer do Sal(?), representado por Agostinho de Mello («Salasar») Salazar, e Nossa Senhora, «tocando com as suas contas» (representando-a) José Henrique Salles. E assina o assento ainda o mesmo Ferreira, o pároco dos dois anteriores registos.

Esta segunda «Maria» terá tomado como segundo nome, o do “padrinho por procuração de Nª Senhora” José Henrique Salles…


Finalmente, o registo do mais novo, o José Malhoa.


«Aos quinse de Maio de mil oitocentos cincoenta e cinco anos baptizei a José, que nasceo a vinte e oito de Abril, proximo passado filho legitimo de Joaquim Malhoa, e de Anna Clemencia, esta desta Freguezia aonde se receberão e aquelle do Couto; neto paterno de João Francisco Malhoa e de Bernardina Maria; e materno de João Moreira Branco, e de Maria Clemencia: forão padrinhos o Ill.mo Snr. Jose Salles Henrique, e Nossa Senhora tocando com as contas de Nossa Senhora Maria Rita monina do Baptizado. Doque fiz este assento dia mez ano ut supra. | O P.co Francisco José de Souza Alvares de Aguiar»

Portanto, em 15 Mai. 1855, ficou registado que o pequeno José, nasceu a 28 Abr. 1855. E, embora se não refira expressamente, nem a igreja nem a freguesia onde o baptismo se realizou, toda a gente fica a saber que é a do Pópulo, porque é no Livro já referido que o assento foi feito. Que o José é filho de Joaquim Malhoa e Ana Clemência, esta do Pópulo e aquele do Coto, e que no Pópulo se haviam casado. Que os avós paternos e maternos são os já várias vezes referidos (e continuamos sem encontrar a dita «Bernarda»…). Que o padrinho foi José Salles Henrique [restando saber se é o mesmo «José Joaquim de Salles Henriques» que fora padrinho da Maria Rita (?), e/ou se é o mesmo «José Henrique Salles» que “representou” Nª Srª no baptismo da Maria José (?)…]. Que, como madrinha, temos mais uma vez Nª Srª do Pópulo, agora por via da mana Maria Rita. E que o padre, em 1855, era já outro - ainda Francisco José de nome próprio, mas com outros apelidos (e convém não andar a confundir os padres…).


Lidos e relidos esta meia dúzia de assentos, não se encontra uma só palavra, umazinha, que possa levar alguém de bom senso a concluir, menos a afirmar alto e bom som, que «O Joaquim, a Maria Rita, a Maria José e o recém-descoberto João, nasceram na freguesia do Coto e somente José Malhôa, o nosso querido pintor, nasceu na freguesia de Nossa Senhora do Pópulo». Antes bem pelo contrário.
E por muita boa vontade que se tenha, mesmo considerando a aparente grande devoção do casal Ana e Joaquim Malhoa por Nª Srª do Pópulo, não se está a ver, de cada vez que um filho lhes nascia, lá abalassem todos por ali abaixo, recém-nascido ao colo, do lugar do Coto até ao centro da vila das Caldas, para baptizar a criança… Até porque o uso à época era de o fazer onde fossem «fregueses». E não restarão grandes dúvidas que, desde o seu casamento em 23 Dez. 1844, Ana e Joaquim eram «fregueses» da freguesia da Srª do Pópulo…
A não ser que algum Documento Primário ou fonte fiável milagrosa, algures escondido entre os múltiplos Arquivos que se dizem consultados ou aparecido graças à publicamente agradecida «presteza e dedicação» dos respectivos funcionários, surja mesmo à luz do dia a contradizer tudo o que os padres caldenses deixaram bem assente. Pois, por enquanto, não é a transcrição asnática do registo de baptismo do Joãzinho Malhoa (feita à medida do que se deseja e não do que lá está) que pode refutar os vários clérigos.

Vejamos agora como o estar vivo é o contrário de estar morto (ou vice-versa) dependendo, sobretudo, de se ser ou não cadáver.

(Para acompanhar, talvez um pouco de música. E esta parece-me adequada. Não sei se pelo tema, uma bela canção tradicional da Beira-Baixa em versão rock progressivo, se pelo nome da banda, um interessante agrupamento dos finais de 60’s, originário do Entroncamento e Tomar. Clique aqui e oiça  enquanto continua a leitura.)

Vimos, até agora, como a revelação da existência de um quinto filho, o segundo pela ordem de nascimento, do casal Ana Clemência e Joaquim Malhoa, de seu nome João, foi a única coisa acertada que o putativo «maior investigador atual sobre o homem e o artista» nos conseguiu transmitir. Esse mérito ninguém lho tira. E tirámos-lhe há muito o chapéu, naquela nota atrás referida [2].

Contudo, a saga do Joãozinho não se fica por aqui. Do alto da «tal investigação cuidada», não contente em o ter trazido à luz do dia (e muito bem!), logo trata de o matar. E de papel passado e tudo: com mais um documento primário, outra fonte fiável, para esmagar a ignorância do comum dos mortais, et épater le bourgeois.
Diz o putativo. «Repito: Aquando do nascimento de José Malhôa, o pequeno João estava com 7 anos de idade. | Porquê nunca se soube da existência deste irmão de José Malhôa? A resposta é simples: faleceu em tenra idade, mais exatamente aos 11 anos, como consta do seu Assento de Óbito que reza o seguinte: »  [pp.24,25] 
(e espeta-nos diante dos olhos com esta erudita e rigorosa transcrição)



Mais à frente termina o capítulo [3] com um apelo à CM das Caldas da Rainha: «Como referi, a minha investigação trouxe à luz da atualidade um irmão de José Malhôa, completamente desconhecido do público e dos genealogistas/historiadores. Este rapaz, de nome João Branco Malhôa, nasceu, morreu e foi sepultado na freguesia do Coto, no adro da Igreja de Nossa Senhora dos Anjos e, como indicam as fontes, toda a ascendência do Pintor de Portugal foi ali também inumada. A minha solicitação é simples: que a edilidade coloque uma placa naquele local (no adro da Igreja de Nossa Senhora dos Anjos), com a seguinte inscrição: | “Aqui, estão sepultados os restos mortais de João Branco Malhôa – irmão do Pintor José Malhôa – bem como, de inúmeros dos seus ascendentes”.» [p.26]
Bonito. Comovente. Um gesto simples, com muito significado – dir-me-ão.

Talvez… Não fora tudo uma fantasia delirante: o João Branco Malhoa não nasceu no Coto, muito provavelmente ali não morreu, e muito dificilmente lá terá sido sepultado. 
E espero bem que a Câmara ou a Junta não vão na cantiga…

É evidente que no adro da Igreja do Coto deverão estar sepultados muitos dos ancestrais de JMalhoa. Se, como vimos e tudo leva a crer, os Malhoas (o lado paterno, portanto) serão dali originários. Esses e possivelmente muitos outros Malhoas.
Contudo, é muito pouco provável que o pai do pintor, Joaquim Malhoa, freguês do Pópulo, ali esteja enterrado. E muito difícil será que o mano João, também do Pópulo freguês [4], ali esteja também. E, entre outras razões, porque pura e simplesmente este «João», que o putativo investigador agora mata, não pode ser o tal irmão de JMalhoa (como já iremos ver).
Mais uma vez, por desleixo ou por ignorância, por não saber ler ou por não o querer, «o maior investigador atual sobre o homem e o artista» transcreve o assento como muito bem lhe apetece e chega às conclusões que a sua imaginação fabula.

(Quanto à dita placa, talvez se, em vez do Joãozinho, a edilidade lhe acrescentar também os ascendentes do outro José, o d’as vinte e quatro rosas, mais da outra Ana, a ex-turbinada, e da Índia, que também parece muito boa moça… Então, sim, já deverá estar certo. E continua a ser bonito.)

Agora, como professos de S. Tomé, não acreditando na primeira patranha que nos enfiam pelos olhos adentro, vamos lá fazer os trabalhinhos de casa.
Eis, retirado do Livro «Registos de óbito da freguesia de Coto: 1834-1859» [código de referência: PT/ADLRA/PRQ/PCLD05/003/0002; localização: IV/31/D/121] e do sítio do costume, o fac-simile do assento (o lá atrás transcrito meio à vontade do freguês):


Como se vê, a reprodução não é famosa. É difícil de ler.
Além do mais, o padre Sobral era moinante e limitava-se a registar o nome do defunto e o estado civil (sim, o estado civil, como perceberá quem olhar com atenção para os restantes assentos que acompanham este…). Nada de idade, nada de filiação, aquelas coisas básicas que identificam um cidadão. E apenas o nome do conjugue, no caso de viúvas. Avaro, o padre Sobral.
Como não tenho a mania que tudo sei, face a dúvidas que me levantou a leitura de duas palavrinhas, resolvi perguntar a quem está mais habituado a ler estes registos oitocentistas. Não a um, mas a dois bons amigos (melhor, a um amigo e a uma querida amiga); cuidando de nada lhes dizer previamente sobre o que eu ou outrem acharia do que lá estava escrito, para não influenciar o veredicto… As respostas foram unânimes e coincidentes com a minha leitura inicial. 3 a 0, portanto, e sem espinhas.

«No dia dose de Novembro de mil oito centos cincoenta e nove nesta Freguesia de Nossa Senhora dos Anjos, e lugar do Cotto faleceu com todos os Sacramentos João Malhoa casado, foi sepultado no Adro da Igreja Matriz, e não fez disposição alguma testamentaria, e para constar fiz este acento, que assigno. Cotto dia mez e anno ut supra O Parocho | Manoel Lour.º Sobral»

Cá tem o leitor o que realmente escreveu o padre.
E faça o favor de comparar com o arremedo de transcrição acima reproduzida (umas vezes arremedando a grafia oitocentista, outras não – vareia – nem respeitando maiúsculas, acentos ou pontuação originais). Depois, é o que se vê…
Ao caso e agora, pouco interessa que a data seja «nove» ou seja «dose» (doze). Mas interessa, e muito, que o «casado,» (como é evidente que lá está) se transforme por artes mágicas em «cadáver», e se lhe suprima a vírgula, e se lhe anteceda um artigo definido convenientemente inventado!?

Mais claro que as águas das Termas da Dona Leonor não pode ser: este «João Malhoa casado,» por muitas voltas que se dê à Torre do Tombo ou lá onde for, nunca poderá ser o cadáver do Joãozinho Branco Malhoa, um infante de onze aninhos!? Ou não dá para entender?!

Mas quem será este defunto? – perguntarão. Sei lá! nem me interessa. Até pode ser o avô João Francisco, o marido da Bernardina… Ou pode ser um outro qualquer. Malhoas, no Coto, havia muitos… Mas não é, seguramente, o Joãozinho!
E então, o Joãozinho, cadê? – Também não faço a menor ideia! nem irei perder muito tempo com tão magno problema. Que morreu, é fatal como o destino! Agora, quando? Vá lá a gente saber… Pode bem ter-se finado ainda inocente, como folheando os livros de óbitos da altura encontramos a cada página, talvez o mais natural. Se aos tais «onze anos», se mais velhito, ou antes bem mais novo e sem ter conhecido alguns dos seus irmãos… sabemos lá! (E, pelo visto, não sei eu, nem quem julga e diz saber). Curiosos? é ir passar a pente fino os Livros de registos de óbito (mas, atenção, os da freguesia do Pópulo, começando logo pelo de 1809 a 1860 e a partir de Abril de 1848, evidentemente, e no Arquivo de Leiria, pois claro) pode ser que encontrem alguma coisinha... Mas o Joãozinho também pode ter sido João, ter crescido, casado, e ter uma ranchada de filhos, netos e bisnetos…
É coisa que, francamente, para o estudo sério sobre a obra de JMalhoa, interessa mesmo muito pouco.


Portanto e resumido. 
Fora a revelação da existência deste quinto irmão (e, sim senhor, muito bem!), ao longo de todo o livrinho o putativo «maior investigador atual sobre o homem e o artista» não acerta uma! Do alto da sua pesporrência, por ignorância, inépcia ou má-fé, debita-nos um chorrilho de inverdades disparatadas. E não acerta uma.
Coitado do Malhoa, não merece... não merece este tipo de gentinha ainda de volta dele. 


E pronto. É isto, caro leitor. Uma mão cheia de quase nada.
Desculpar-me-á o longo relambório e mais qualquer coisinha. Mas eu avisei logo ao começo.
E pode ir à sua vida, dizendo tal como a outra: 
«Ó Arnestina, vamos embora qu’isto foi tudo uma grande aldravice!»


15 Set.2018. LBG
____________________________

[1] A classificação, obviamente, não é minha. É retirada da Acção Socialista Digital, de 23 Abr. 2018, dirigida pela Drª Edite Estrela (e não deveria ser «Ação», Senhora Drª?) que não terá culpa alguma. Pois, tudo indica, trata-se de mais um texto onanístico (como o nome indica: de mão própria e para própria satisfação) onde o putativo investigador aproveita para mostrar a sua erudição malhoesca. E lá vem aviando algumas das banalidades do costume, aproveitando para debitar, entre outras coisas, um sound bite ouvido de boca umas semanas antes e que lhe deve ter soado maravilhosamente sobre as exposições de Malhoa: «das quais ficou célebre a do Rio de Janeiro, no ano de 1906, onde todas as telas expostas encontraram comprador». Como, neste particular e na verdade, confrontadas as várias fontes e as continhas feitas como devem ser, as vendas se cifraram em 50 ou 51% das obras expostas… ficamos logo a desconfiar do carácter duma criatura que, ao mesmo tempo que acriticamente repete asneira, facilmente se insurge contra «todos, sem exceção, [que] abusaram do copianço, tão mau para quem está a teorizar sobre uma personalidade da grandeza de José Malhôa» [p.24]. Cada um sabe de si…

[2] Na adenda a essa nota, está, vai para mais de dois anos, um comentário sobre o que já então se percebera acerca da estória estapafúrdia (e que eu sonhara ter ouvido de viva voz na tal comunicação de 26 Abr.2015…) sobre a putativa diferença de naturalidade entre os quatro irmão mais velhos e o mais novo. E se, quando o tal rato andou por aqui a ratar as fotos que ratonou, tivesse aproveitado para ler o que lá está escrito (uma das fotos ratadas está precisamente na tal página) teria tido o ensejo de emendar a mão e não dizer tanta asneira… Não ligou. Não lê. Veio apenas à babugem das imagens. Paciência.

[3] Termina, não sem antes nos deixar uma interrogação e uma promessa: «A história pode não ser bem assim, pois tudo indica que José Malhôa possui um sobrinho legítimo, nascido no ano de 1873, na freguesia do Sacramento, em Lisboa, filho de Joaquim António Branco Malhoa e de sua esposa a Sra. D. Maria Amélia Gomes de Oliveira. Por enquanto não posso adiantar muito mais, porém, naturalmente, a investigação continua e, espero, em breve, poder esclarecer-vos a esse respeito.» [p.26]
Embora isto aqui não seja propriamente o Flash Vidas e esta seja conversa que pouco ou nada interessa, em antes que lá venha mais trapalhada, fica esclarecido já:

Em 1930, três anos antes da sua morte, JMalhoa deixa escrito que o seu «sobrinho David Vicente de Oliveira Malhoa (assinado também David Malhoa)» era já falecido, que fora casado com «Madeline Zirn Malhoa [então já] casada em segundas núpcias com Henri Herr», residentes na Alsácia. 
JMalhoa refere ainda os seus três «segundos sobrinhos, Maria Luiza, Joaquim e José», filhos legítimos do David, e que viviam também em França com a mãe e o padrasto.
Fala-nos também JMalhoa de uma outra sobrinha, Celeste Malhoa, residente então no Porto. Desta, não sab[ía]mos a filiação. [3b]

Voltando ao David. Nasceu em 22 Jan.1873 e foi baptizado a 16 Março. Teve por padrinhos os tios paternos: José Malhoa, então jovem estudante quase a fazer os 18 anos, e a Maria José, ambos ainda solteiros. O seu registo de baptismo, completíssimo e feito à maneira por padre da capital, até tem, finalmente!, a hora do nascimento: cinco da manhã – bem bom! Mas, helás!, o Prior também insistiu em escrever que Joaquim Malhoa, o pai do neófito, era «natural e baptisado na freguesia de Nossa Senhora do Populo das Caldas da Rainha» - só para contrariar, o sacaninha do padre!
(Ah! E o registo, este sim, é da Torre do Tombo. Mas online... ou julgavam que, por isto, ia levantar o rabinho da cadeira?!)


E a quadrilhice fica por aqui. De vez. 

[3b] (Em tempo). Dizia que a quadrilhice acabava ali, mas o melhor é nunca dizer nunca…
Falemos, pois, sobre a Celeste, a outra sobrinha de JMalhoa. Para ficar tudo esclarecido.
Nascida a 23 Nov.1877, filha ainda do irmão Joaquim António e da mulher, Mª Amélia Gomes d’Oliveira Malhoa, foi baptizada a 2 Fev.1878. Celeste foi apadrinhada pelo irmãozinho, então com apenas cinco anos, David Vicente d’Oliveira Malhoa, e pela tia Mª Rita da Paz Branco Malhoa (na primeira e única vez que vemos a Maria Rita usar um terceiro nome próprio: «da Paz»!?).
O assento de baptismo é também interessante por ser a primeira vez que Joaquim Malhoa e, no caso, também a mulher, são referidos como «logistas». Até então, nos registos anteriores, como no do baptismo de David, Joaquim Malhoa só aparece como «caixeiro». Sinal que, mais ou menos por essa altura, finalmente, terá passado a ser dono de loja…
(28 Jun.2020. LBG)


[4] Vamos lá tentar ser sérios. Mesmo se, por mera hipótese, por absurdo, admitíssemos como boa a tese estapafúrdia dos quatro primeiros irmão serem naturais do Coto (imaginemos isso por um momento), logo de seguida o autor diz-nos que o José nasceu no Pópulo. E, das duas, três: ou algum tempo antes do nascimento de JMalhoa toda a família se havia mudado para o Pópulo e desta freguesia passaram a ser todos fregueses; ou quer-nos fazer crer que o JMalhoa era só filho da mãe, e que o resto da família teria permanecido no Coto; ou acha que nós, leitores do livrinho, somos todos uma cambada de atrasados mentais. Haja paciência.