terça-feira, 24 de abril de 2012

...E para que os "columbófilos" não fiquem roídinhos, azedos como costume, fica também a pagela d' «o maior».
Não tem que agradecer. É com todo o gosto. Preços? é ver lá acima.

Fica também A Raposa, 1903, uma das telas que Columbano reexpôs dessa vez. Sem meiguice no que pedia, e apesar de já ter a estola na naftalina há dezena e meia de anos. Ele é que a sabia!


Esta A Raposa sempre me fascinou, desde que a vi reproduzida, ainda a preto e branco. A gente olha e hesita entre “focinho” e olhar - qual mais vulpino? o da zorra, ou o da dona que nela se aconchega?


Hoje, chamam-lhe outro nome qualquer, está no Museu Grão Vasco, mede 40x32, e recomenda-se.




Publicado originalmente em Jan.2012. LBG

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Acerca do «Género» (parvo)


Na primeira nota que aqui escrevi, prometi que a este assunto voltaria.
Aproveito para deixar algumas fotos dos retratos dos amigos mais chegados que Malhoa pintou, numa clara evocação “RembrHalsista-Velasquista”, durante a primeira década do séc. XX, e que há dias enumerei.
A dúvida que então ficou era sobre o que seria «Retrato» - do bom, daquele “de ermesinde” – e o que seria «Género» - coisa que, a este propósito, se não sabe bem o que seja.
Se lermos um escrito recente que por aí anda, na tentativa de perceber tão magno problema, ficamos a saber que:


1. Isto é «Género»















2. Isto é «Retrato»











3.Isto volta a ser «Género»





























4. Isto também é «Género»
















5. Isto ainda é «Género»














6. Mas isto volta a ser «Retrato»














7. E, finalmente, isto é «Retrato»


Ficamos a saber, e ficamos em crer. Porque nos diz o autor, porque não o corrigiu quem devia, porque tal premiou a Academia – estas e outras preciosidades semelhantes.
Mas a gente olha, vê, remira, relê… e não percebe!? Não percebe o porquê, nem entende o critério. E pensa – como o Scolari – «e o burro sou eu?!»
Aparentemente, por mais que olhemos, não conseguimos encontrar substanciais diferenças estéticas, de postura, de estilo, psicológicas, um olhar, o que seja… Mas isso somos nós, simples mortais, gente inculta, de fraco grau. Deve haver razões só ao alcance de eleitos…

Insistimos. E olhamos de novo.
Não percebemos porque raio o Manuel Henrique Pinto vestido à séc.XVII é «Género» e o António Novais, em traje semelhante, é «Retrato» - talvez a gola farfalhuda do primeiro justifique… Não entendemos porque o mesmo Pinto continua a ser «Género» e o Lobo da Silveira (Alvito), nos mesmíssimos preparos, já é «Retrato» - estará a diferença do manto de Sant’Iago, na luva ou no título nobiliário? Ainda menos percebemos porque o Novais tanto é «Retrato» como é «Género» consoante se lhe chame Retrato do Fotógrafo Novais ou O Homem do Gorro – mesmo e quando o título aparece em francês, e tem honras de figurar no Salon?!


Ou será que…? Será?!
Será que, afinal, o tal critério é bem mais comezinho, primário, ligeirinho e condicionado pela simples ignorância?!
Quadro que se saiba quem é o retratado, é «Retrato»!
Quadro onde não se sabe bem quem é o “gajo”, em que mal se pôs a vista em cima ou só se conhece de ouvir falar, cujo título soe mais a “gentinha”, pimba! – é «Género»! e vais com sorte!
Só assim se compreende que o Novais “au capuchon” seja «Género» e «Retrato», num difícil exercício de ubiquidade, resultado afinal da mais pura ignorância.
- “Gajo” de gorro? mais um labrego de Figueiró! – pensaste, ou não pensaste?!

E, para dar um ar científico, de coisa estudada e grande pesquisa, nada melhor que uns graficozinhos, umas percentagens, um q.b. de matemática - ciência exacta!
Para levar a sério? Com tais premissas?
Antes para “épater le bourgeois”, aplauso de Catedráticos, prémio da Academia. O que também está certo!





















Para dar importância a quem a tem, ficam os quadros e os artistas a pintá-los.
Repare-se, nestas fotos datadas de 1901, no atelier de Campo de Ourique. Malhoa trabalha o Cavaleiro de Santiago e já lá tem o Baptismo de Cristo para a Igreja de Figueiró quase pronto – ambos só dali sairão em 1904 – que a coisa não era “atar e pôr o fumeiro”… demorava, pois “depressa e bem...”
O discípulo, muito provavelmente Mattoso da Fonseca, retrata “não sei quem”.
Dos convivas, um será o Barão do Alvito, António Lobo da Silveira – diz Malhoa que é o do manto de Sant’Iago… Mas quem será a Senhora e aquele que não sabemos?

Ficam também as legendas dos retratos lá de cima:

1. Cabeça de Velho (provavelmente Francisco Jorge Pinto), 1895, osm 40x32, CMAG.
2 e 3. O Homem do Gorro / L’homme au capuchon ou Retrato do Fotógrafo António Novais, 1901, ost 58x50, MNAC-MC.
Exp. Paris 1901, SNBA 1902, SNBA 1928
4. Cabeça de Estudo (retrato de MHPinto), 1902, ost 45x38, c.p.
Exp. SNBA 1903
5. Provocando (retrato de MHPinto), 1905, p.d.
Exp. Rio de Janeiro 1906
6. Cavaleiro de Santiago / Chevalier de Sait-Jacques / Caballero de Calatrava (retrato de A. Lobo da Silveira), 1904, ost, MNBA, Santiago do Chile.
Exp. Paris 1904, Rio de Janeiro 1906 e 1908, Santiago 1910
7.Veríssimo ou Retrato de Veríssimo (retrato de Veríssimo José Baptista), 1910, p.d.
Exp. SNBA 1910, Paris 1911, Porto 1912, Madrid 1912, Lisboa 1918, SNBA 1928



Publicado originalmente em Jan. 2012. LBG.


* (Ah! e só para avisar alguma alma ainda crédula: no tal escrito, as listas do Rio estão trapalhonas, a de Santiago quase toda mal, e a de Buenos-Aires ficou pela metade. Será que na Academia também servem “meias-doses”?)



domingo, 22 de abril de 2012

Sobre o gato que fugiu da Varanda da Palmira


…«Num outro quadro, exposto em 1931, repetiu o cenário da sua decantada Varanda dos rouxinóis, que, como vimos, se encontra no Brasil, sob o mesmo tecto que alberga o Emigrante, o da elegante residência do Snr. José Augusto Prestes. À costureira dos rouxinóis, cosendo entre aprendizas e glicínias, e afago suave da vista que nele poisa, sucedeu a Varanda florida, pintada no mesmo sítio. Está no Casal de S. José, do Snr. Dr. Eurico Lisboa, na Parede. Uma rapariga ao cimo duns degraus, sentada de costas, a ver passar uma procissão no fundo da rua assoalhada. Outras figuras de mulher, um gato, muros alvejantes, uma lata velha florida, mais flores, muita luz.»…

Manuel de Sousa Pinto, Últimos anos de MalhoaConferência feita no Salão de Festas da Associação de Socorros Mútuos Rainha D. Leonor, das Caldas da Rainha, na noite de 28 de Abril de 1934. Caldas da Rainha, Tipografia Caldense, 1934. p.17


Em 1934, cerca de seis meses depois da morte de Malhoa, no dia do seu aniversário natalício, em que este, se ainda vivesse, completaria 79 anos, Manuel de Sousa Pinto proferiu, perante assistência atenta, veneranda e obrigada, como timbre da altura, num Salão das Caldas, sob a batuta de António Montez, incansável dinamizador do Museu, uma palestra sobre os Últimos anos de Malhoa, logo publicada em livro - tão logo, que quatro dias depois já assinava o exemplar destinado a D. Mª. José, a irmã sobreviva de Malhoa.
Às tantas, Sousa Pinto descreve-nos a Varanda Florida, 1930. Fala das figuras femininas, da rua, do sol, dos muros caiados, das flores que dão nome à coisa, da luz que inunda o quadro e de um gato.

Hoje, passadas oito décadas, ao olharmos para o quadro [1], vemos lá tudo isso… menos o gato!?
Sousa Pinto tresleu? Abusou do Gaeiras antes de ir para a conferência? Precisava de consultar Anastácio Gonçalves? - Não parece - se até viu uma procissão junto à Cruz de Ferro, no começo da ladeira que desce para a Vila!



Se olharmos, agora, para o Estudo deste mesmo quadro [2], verificamos que a atitude das raparigas é já a de dar atenção curiosa ao que se aproxima ao fundo do largo, mas o que seja ainda se não vê, e a Cruz de Ferro ficou esquecida.
Apercebemo-nos também de uma maior preocupação com o estudo das arquitecturas envolventes, nas casas do lado do Luiz da Laurentina – mestre pedreiro e músico da Filarmónica – ou na da Comadre Aurélia, do lado oposto, com o registo das antigas escadas exteriores. Damos facilmente conta da ausência da terceira cachopa, dos lenços garridos nas cabeças ou das flores que hão-de crescer na panela de ferro, pormenores que animarão, pontuando de cor, a versão final. Mas, bichano, nem vê-lo! Ou será que, antes, está ali, meio escondido, ao colo da moça de chapéu de palha?!

Voltando ao quadro definitivo, o que primeiro nos surpreende é a luz. «Muita luz», nas palavras de Sousa Pinto.
A Malhoa não bastou a melhoria da meteorologia, registada num céu mais limpo e luminoso. Com mestria, abre o campo de visão do observador. Mais que o ligeiro recuo do enquadramento, altera a “objectiva” com que fixa a cena – serve-se aí de uma 35mm, ou mesmo de uma 28mm, diríamos hoje. Os planos caiados próximos aumentam, reflectindo ainda mais luz. As fachadas sobre o largo de S. Sebastião, menos definidas, só os panos, acompanham o desvario lumínico – de tal sorte que um pouco de almagre junta à calda de caiação de uma das casas. É uma primeira nota de cor, que se espalha ainda mais forte no grande tecido que a rapariga parou de costurar, e que agora vemos já na sua plenitude. Com tanta luz, a cor pode saltitar livremente. Os vermelhos, nos seus diversos matizes, do pano aos lenços, do pote das sardinheiras e dos cravos à ferrugem da lata velha, vão pulando por ali. Os azuis, do cesto passam à camisa da cachopa, ao lenço, à rama do craveiro e esparramam-se no céu. “Uma pouca” de amarelo, e os verdes, mais contidos, acompanham a sinfonia de cor. Para descanso dos olhos, só o soalho da varanda e a sombra fresca que se adivinha.
Mas, e o gato? Nem esta sombra aproveita?
Aproveitar, aproveitava! Mas correram com o desgraçado!
Sousa Pinto não nos enganou. Ele bem deve ter visto o gato, ronronando, de olhos semi-cerrados, indiferente ao “barulho” da luz, no único sítio onde podia estar sossegado e à fresca… Viu, mas já não vemos.


O dito bichano, até é nosso conhecido. (Mais certo um seu antepassado, pois a cena seguinte passa-se quinze anos antes). Recuemos no tempo. Nesta mesma varanda, então dos Rouxinóis. Não pelos pássaros nas gaiolas – que deviam ser uns míseros pintassilgos… e rouxinol não é bicho de gaiola, esclareçamos – mas pelas costureiras, elas mesmas, que de tão boas cantadeiras mereciam de Malhoa o elogio de soarem como o dito rouxinol.

Se dermos uma olhadela rápida e sem grandes considerações  (que não vêm agora ao caso, unicamente felídeo) pelas Varandas dos Rouxinóis - quer sobre a versão maior [3] que tudo indica seja a que Malhoa enviou a S. Francisco da Califórnia [4], quer sobre a versão mais conhecida e maneirinha [5] - lá está o nosso amigo gato (melhor, um seu progenitor)! Não à sombra, mas ao sol - que no tempo das glicínias um calorzinho é coisa bem-vinda.

E o gato vai aparecendo mais vezes. Tem honras de estudos a solo. Este [6], de orelhas arrebitadas a ouvir o chilreio das costureiras, em 1915. Um outro, escarrapachado à sombra, já não sei bem onde… (fugiu, por ser o tal).
Voltando à Varanda Florida.
O catálogo da 28ª Exposição da SNBA, 1931, onde o quadro foi mostrado pela primeira vez, esclarece pouco. Malhoa apresenta quatro óleos (a que junta dois pasteis na secção respectiva) são eles: Varanda florida, Sessão ao ar livre, A caça, Retrato do Ex. Sr. Dr. Vicente Monteiro. E, quanto a ilustrações, preferiu as costas da discípula M. L. Mello e Castro pintando, às da costureira costurando. Por outro lado, ficamos a saber que os quatro óleos já teriam destino – nenhum consta do preçário. Sinal que, ainda no atelier, mal o verniz secava logo aparecia dono.
Assim, natural é que Eurico Lisboa fosse já o feliz proprietário da florida Varanda.

Mas, com gato ou sem gato? – Com gato, pois então!
Não esclarece o catálogo, mas tira a dúvida esta foto, do arquivo pessoal de Malhoa, preterida então pelas costas da Mello e Castro.
Quadro pronto, assinado e tudo! E com gato! Dono e senhor do pedaço, refastelado à sombra, sem cesto de costura que o incomode. Todo contentinho.
Eis pois a Varanda florida que Sousa Pinto viu, tal como pintada por Malhoa, na SNBA em 1931, ou ainda e talvez em casa de Eurico Lisboa na Parede, e que nos descreve três anos depois.
Esclarecido este primeiro mistério, outros surgem, agora de mais difícil resposta: Quem enxotou o gato? Quando ali poisaram o cesto da costura? Porquê incomodar o bichinho?
Contudo, antes, pode surgir uma grande dúvida: É o mesmo quadro? Estamos perante duas versões da mesma obra, como outras a que Malhoa nos habituou? Será a Varanda conhecida uma cópia? Ou a fotografia uma montagem? – Nada disso!
O quadro é o mesmo, só que sem gato! Basta uma observação atenta aos pormenores, da assinatura ao desenho das tábuas do soalho, da sombra projectada a qualquer outro recorte, para se perceber que nenhum “artista” os poderia reproduzir, nem o próprio! E quanto à foto, é legítima, do arquivo pessoal de Malhoa, bem guardada há várias décadas, e confirmada pelas palavras de Sousa Pinto. Ele, que viu o gato!
(E se repararmos bem, por detrás do cesto, ainda lá vemos o "fantasma" do gato a assombrar-nos a vista... )

Enxotaram, pois, o gato ao prantar no seu lugar o cesto da costura. Não haverá a menor dúvida! Mas quem? Ainda Malhoa ou alguém depois dele? Porque razão?
(E, a partir daqui, aviso já, entramos no reino da fantasia, da conjectura. Nenhum documento conhecido sustenta as teorias que se seguem. Mas, na escrita sobre Malhoa, tal já não é novidade… Allons!)

As razões poderão ser muitas. Algum acidente que tenha acontecido à tela, alguma embirrância ou alergia ao bichano… que, reconheçamos, não parece lá muito famoso em termos de desenho. E, concordemos também, o cesto com os trapos azuis introduz uma nova e bem mais interessante marcação no baile das cores que vimos atrás. Fazia falta e vem a calhar! Função que o gato pardacento não cumpria. Foi esta a razão?
Resta ainda saber se o autor da proeza foi o próprio Malhoa - se, já depois da sua morte, Sousa Pinto ainda nos fala do gato?
Tal não quer dizer nada! Natural é que Sousa Pinto tenha visto e registado mentalmente o quadro aquando da sua apresentação ou já na casa da Parede, logo nos primeiros tempos, ou ter-se socorrido de uma foto igual a esta para preparar a conferência. E, no entretanto, a tela fora alterada sem ele saber. E era o que faltava que Malhoa ou Lisboa tivessem que dar satisfações ao Sr. Sousa Pinto!
Olhando para o quadro (o que convém quando sobre algum se escreve), a pintura do cesto não destoa do resto e nada indica que não seja da mão de Malhoa. Podemos ficar, para já, descansados.
Acresce, por fim, que uma das últimas fotografias de Malhoa, tirada sob uma parreira em Figueiró, poucos dias antes da sua morte, pode vir a dar alguma ajuda. A foto é conhecida, «cliché Artur Santos», várias vezes reproduzida em quase todos os livros que se têm publicado sobre Malhoa. Só que truncada! E, ao que parece, pelo próprio autor que da chapa fez dois enquadramentos. O integral – este que agora vemos [7] - mostra Malhoa acompanhado pelo casal Lisboa. No reenquadramento conhecido, a Eurico Lisboa aconteceu o mesmo que ao gato – foi corrido!
Quer tal foto dizer que foi nessa altura que os Lisboa receberam de volta a Varanda florida, mais garrida e já sem gato? Não! Não quer. Nem diz. Mas podia…
(…E a ver vamos se daqui a mais uns aninhos, sem darmos por ela, não virá a dizer?!... Basta alguma “distracção” de nova pena erudita…)

Mai.2011. Publicado originalmente em Jan.2012. LBG.


[1] JMalhoa, Varanda Florida, 1930, óleo s/tela, 47x56, c.p. http://www.flickr.com/photos/bmfigueirodosvinhos/3653232825/in/set-72157620370345088/
[2] JMalhoa, Estudo para Varanda Florida, 1930, óleo s/tela, 30x32, c.p. http://www.flickr.com/photos/bmfigueirodosvinhos/3653232817/in/set-72157620370345088/
[3] JMalhoa, Varanda dos Rouxinóis, 1914 óleo s/tela, 126x147, c.p.
[4] A tabela, que só pode ser a da“Exposição Panamá-Pacífico”, 1915. Pelas suas dimensões generosas (6x21), tal parece confirmar que assim seja.










[5] JMalhoa, Varanda dos Rouxinóis, 1915 óleo s/tela, 45x42, c.p.
[6] in Catálogo do Cinquentenário da Morte de José Malhoa, MC-IPPC, 1983. p.93,
nºc.96
[7] José Malhoa e o casal Eurico Lisboa, no quintal do Casulo, Set./Out. de 1933. Cliché Artur Santos.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

… e hoje é o aniversário!



Pois é. Cinco dias depois da data da sua morte, comemora-se hoje, 7 de Janeiro, a data de nascimento da Júlia Malhoa.

Janeiro é um mês fatídico na sua vida – a 29 calhará ainda a data do casamento de Júlia com José.

Por hoje, só esta notinha a assinalar este facto – isto a crer no registo de baptismo, realizado a 6 de Julho de 1853, na Igreja de Santo André e Santa Marinha, em Lisboa, onde teve por padrinhos o sacristão da paróquia e Nª Sª das Dores – lá reza que fora nascida a 7 de Janeiro desse mesmo ano. Perfazem hoje 159 anos.

(Enganaram-se, portanto, nas contas ao fazer o registo do óbito – contaria ao morrer já 65 anos, praticamente 66. Pormenores…)





Ficam também os quadrinhos de que falámos há dias (para fruição de uns, ou irritação de outros…). A Juliana Júlia de Carvalho e a Mª da Conceição Simões de Almeida, a bordar no Cabeço do Peão, sobranceiro a Figueiró dos Vinhos, retratadas pelos respectivos maridos…

Ou será vice-versa? É escolher!


Publicado originalmente em 7 Jan. 2012. LBG




A propósito de Júlia Malhoa



Hoje faz anos que morreu Júlia Malhoa. Hoje, 2 de Janeiro. E não noutro dia qualquer…

«…às nove horas e zero minutos do dia dois do mez de janeiro do ano de mil novecentos e desanove, numa casa da Avenida cinco de Outubro, seis, da freguesia de São Sebastião da Pedreira, desta cidade, faleceu de embolia, um indivíduo do sexo feminino de nome Juliana Júlia de Carvalho Malhoa, de sessenta e quatro anos de idade...» reza o assento de óbito, a fls 1 vº e Nº3 do L14 da 3ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa relativo ao ano de 1919.

Quer isto dizer que, mais uma vez, alguém perdeu uma bela ocasião para estar calado, quando, após mais uma leitura apressada de um postalinho, vem corrigir o que não tem correcção e põe em causa o que Matilde Tomaz do Couto escreveu em 2005, e pelo visto bem, quando nos refere «o falecimento da esposa, nos primeiros dias de 1919…»

“Quem, com ar doutoral, corrige o que está certo, ou é tolo ou pouco esperto…” - não diz o povo, mas bem podia dizer.


Juliana Júlia de Carvalho Malhoa (1853-1919) foi a companheira dedicada de José Malhoa durante praticamente 39 anos. O amor de toda uma vida.

Que se saiba e agora me recorde, Malhoa pintará apenas quatro retratos de Júlia.

Este, que agora vemos, datado de 1883. Retrato que Malhoa sempre manteve no lugar de honra de sua casa, deixando disposições testamentárias no mesmo sentido.

Um outro, existente no MJM, possivelmente anterior, ainda de fraca mão, com uma Júlia “hespanholada” de leque, mantilha e olé!
E que pode ver aqui.

Outro mais, de poucos anos depois, onde Júlia é retratada, de corpo inteiro, sentada a bordar ‘en plein air’ no Cabeço do Peão, em Figueiró dos Vinhos – pequena tábua exposta em 2002 e que faz ‘pendent’ com uma outra em que MHPinto retrata Mª da Conceição, sua mulher, nos mesmos propósitos.

E, finalmente, o magnífico Retrato de Minha Mulher, 1914, do MNAC-MC, outra tábua que nos mostra o perfil de Júlia, meio de escorço, recortado sobre um fundo de flores impressivo. Quadro que Malhoa fez questão de doar ao Museu logo após o falecimento da sua querida Júlia.


Debrucemo-nos, por agora, sobre o Retrato de D. Júlia Malhoa, 1883, quadro apresentado pela primeira vez nesse mesmo ano, na 3ª Exposição de Quadros Modernos do Grupo do Leão.

Não sendo nenhuma obra-prima, tem a importância que tem.

Trata-se, que me recorde, de um dos primeiros retratos formais que Malhoa executa e mostra em público [1] - com pincelada aplicada, apresenta-se, agora e também, como Pintor de Retrato. Inaugurando assim a extensa galeria de burgueses e aristocratas, suas mulheres e filhas, que lhe farão «bicha à porta do atelier». Ao mesmo tempo, apresenta-nos, três anos após o casamento, a sua própria mulher como Senhora de Sociedade - formal, forçadamente de gorro e estola de peles, e bouquet de rosas finas, como nunca mais a veremos. Quem sabe se numa tentativa de exorcizar de vez [2] uma mácula de concepção?!

Sobre este Retrato de D. Júlia Malhoa convém lembrar que, contrariamente à generalidade das críticas que sempre a seu propósito são recordadas [3], Ramalho Ortigão também se lhe refere.

Se, no ano anterior, já havia elogiosamente escrito «Malhoa, que em outras exposições nos mostrava interessantes documentos da sua viva e corajosa aptidão, aparece-nos agora como um luminista extraordinário à Cláudio Loreno» - antecipando em mais de um século teorias que se querem novas -, em 1883, o grande Ramalho Ortigão dirá sobre este quadro «O retrato nº 53, de Malhoa, é o único acabado nesta exposição. Esta qualidade, junta à de uma semelhança perfeita [4], torna-mo extremamente simpático, e fez-me esquecer, para aplaudir o autor, de uma certa anemia de empaste e de uma dominante de acorde em cor-de-rosa, que prejudica a intensidade nervosa da expressão na figura».

Para Malhoa, está visto, mais valeu um Ramalho na mão que dois Monteiros a voar… E as «bichas à porta do atelier» não demoraram a formar-se…



Publicado originalmente em 2 Jan. 2012. LBG.


[1] Que a estória do Retrato de Joaquim Malhoa ser obra anterior, é treta e já antiga, de outra ‘pena brilhante’ - a de Montez… Mas, basta olhar e ver…
[2] De vez, ou, pelo menos, nos 127 anos seguintes - até um pobre palerma resolver que a História d’Arte se faz com conversa de soalheiro…

[3] Refiro-me, entre outras, às críticas demolidoras então publicadas por Monteiro Ramalho ou Emídio de Brito Monteiro, e que sempre vêm à baila quando disto se fala... A de Ortigão, sabe-se lá porquê, tem ficado no limbo.


[4] Pode ver aqui, em fotografia da época, Júlia Malhoa com o mesmo gorro e a mesma gola de rendas, mas sem a estola ou casaco de pele.
Adenda
Porque parece que ainda há dúvidas, ou há quem não queira ver... 
Diz uma recente e douta nota a propósito deste quadro: «Primeiro retrato exposto por Malhoa, se concordarmos com a data atribuída por alguns autores...» e logo a seguir vem mais parvoíce.
Ora, não temos de concordar ou deixar de concordar, e os autores não são alguns - é o próprio Malhoa, que assina e data a tela: «Malhoa 1883». Como se pode ver ampliando esta mesma foto (no canto inferior esquerdo).



Fica percebido?! O resto, diz-nos Ramalho Ortigão. E as parecenças ou «semelhança perfeita» com fotos e retratos de Júlia.
Dúvidas, se as houver, será sobre quem seja a retratada num desenho a carvão, talvez do mesmo ano (?), alegadamente, e não se sabe bem porquê, que se diz representar Júlia Malhoa (?) ...
Será que não temos olhos na cara?
10 Nov. 2012. LBG