1899 – O Prior
e O
Catedrático foram os dois
passear… o cura montado no jumento.
Antes do mais, isto. O bocadinho do Catalogue illustré du Salon de 1899
referente a Malhoa [1].
Para se perceber que até na nobre arte do copianço, digo transcrição, há
mãozinhas que dificilmente lá vão…[2]
Nesta sua terceira participação no Salon, Malhoa manda, como até aqui, dois quadros a Paris. E anota: «Março
de 1899 | Despeza | 30 – Despeza com a ida dos dois retratos ao “Salon”
despezas de viagem – 10$540».
Recordando, as obras que Malhoa enviou ao Salon de 1899 e
respectivos números de catálogo, foram:
1306 – Le cathédratique.
1307 - Portrait de M. le curé de Coustanaix, Joô
Alvès de Meira.
Ou
seja, traduzindo e rectificando os erros originais, os quadros:
O Catedrático,
c.1898.
Retrato do Prior de
Constância (João Alves de Meira), 1899.
Destas duas obras pouco se sabe. Nunca expostas em
Portugal, fazem parte do lote das que voltam a Paris no ano seguinte, para a
Exposição Universal de 1900, e naufragam no regresso. As referências
descritivas são escassas e imagens, que se conheçam, inexistentes.
Assim, só aqui podemos deixar um cheirinho.
Dando primazia ao clero, vejamos o que Malhoa nos deixa
sobre o Retrato do Prior de Constância:
«1899
| Despeza | Fevereiro | Estada nos Cazaes dos Pintainhos durante 14 dias em que
fui pintar a Constância o retrato (gratuito) do padre João Alves de Meira
destinado a sêr exposto no “Salon” de 1899 – 39.500».
Por esta altura, Malhoa tinha entre mãos a decoração do
tecto da Igreja Matriz de Constância. Em 18 de Novembro de 1898 havia recebido
a «1ª
prestação de 600$000 p/c da decoração a fazer para a igreja de Constancia» e
em 14 de Abril de 1899, receberia mais 200$000 pela 2ª prestação. No dia
seguinte, anota: «Paguei ao Manuel João 100$000
por conta de 400$000 quantia por que tratou comigo de fazer a decoração
(pintura e douradura) do tecto da igreja parochial de Constancia». Recordemos
que, em Dezembro de 1898, Malhoa havia vendido As papas, 1898, por 500$000, ao Dr. Francisco Falcão, ao que
parece, um dos mecenas das obras de restauro da Igreja de N.ª S.ª dos Mártires.
E, por fim, assinalemos que dos Casais dos Pintaínhos era a sua fiel criada – a
«Maria dos Pintaínhos» - que o acompanharia até ao fim da vida.
Não sabemos como todos estes factos se interligam; que
papéis têm a criada, o doutor e o prior; mas dá para perceber que o Retrato do Prior de Constância, 1899, surge
neste contexto e nestas circunstâncias, por terras de encontro do Zêzere com o
Tejo.[3]
E deve ter sido um belo retrato… para ter ido até Paris.
Mais, só em Abril de 1901, quando Malhoa recebe o
dinheiro do seguro pela perda dos quadros naufragados. Aí ficamos a saber o seu
valor «…
“O Cathedrático” 1.500 francos [4],
retrato do prior de Constancia 300$000». E, pela ausência da
indicação de proprietário, referida noutros dois que tinham dono, supõe-se que
estes aguardassem ainda a sua apresentação em Lisboa para serem vendidos.
Quanto a O
Catedrático, c.1898, quase todos os autores [5] nos dizem que se tratava
de um «simples burro».
Ora, aqui há uns anos surgiu no
mercado, num leilão da Leiria & Nascimento, um pequeno óleo sobre cartão,
33,5x40, assinado e datado de 1898, com a cabeça de um simpático jerico lãzudo.
É bem capaz de se tratar de um estudo para O
Catedrático [6]. Ficamos, pois, a conhecer as fuças de tão ilustre personagem.
J.Malhoa. Estudo para O Catedrático (?), 1898. osc, 33,5x40 |
Não é que o não conhecêssemos… dezassete
anos antes, na 1ª Exposição de Quadros Modernos (Grupo do Leão), o António
Ramalho, outro pândego, já nos tinha mostrado o dito, então recém bacharelado.
Num tempo muito longe de Bolonha, natural é que a vida académica demorasse… cumprindo-se
no entanto o ditado: «um burro carregado de livros é um doutor».
![]() |
António Ramalho Júnior. O Bacharel, c.1881, óleo, 54x46. [7] |
Em 1898, este antigo Bacharel, mais lanudo, chegou finalmente a Doutor e assumiu a cátedra.
9
Jan. 2013. LBG
[1] A quase totalidade dos primeiros catálogos, até 1907, encontram-nos disponíveis aqui.
[2] «e bem prega frei Tomás…» que também
me enganei! (mas já emendei).
[4] Os francos foram pagos a 250 reis.
Malhoa, então, queixou-se que o câmbio estava em $259.
[5] Todos, não! Há pelo menos duas
crónicas, a propósito da Exposição Universal de Paris 1900 onde O Catedrático voltou, em que a
apreciação foi esta: «Dois retratos de Malhoa eram bastante caracteristicos…»
e, mais adiante, «Os seus retratos do “Cathedratico” e do “Prior de Constancia”
(…) sobre terem caracter, eram, como tudo o mais que este artista expunha,
largamente pintados», e o outro vai pelo mesmo. Nem uma palavrinha sobre um dos quadros retratar o asno?! Falavam a sério ou com subtil ironia? Ou, a fazer escola, falavam do que para nem
sequer olharam?
[6] em adenda, 13 Jul 2014 - Dizemos «É bem capaz...» porque nisto não há certezas. Não fora o catálogo da L&N nos dizer que o óleo está datado de «1898» (e, sem ver o quadro ao vivo, nada temos que nos faça duvidar de tal leitura...), atendendo apenas ao tamanho da pintura e ao que a imagem nos mostra, a primeira ideia seria considerar este jerico como o protagonista do quadro apresentado na 2ª Exposição do Grémio Artístico, 1892, intitulado Pensando no caso. Pois, de acordo com o respectivo catálogo, tal quadro está assim referenciado: «101 - Pensando no caso - 40x32 - 36$000». De imediato nos chama a atenção o facto de as dimensões serem praticamente as mesmas!? E, procurando um pouco mais sobre isto, lendo o que nos diz quem o terá visto, encontramos na crónica de «João Sincero», n'O Occidente de 11 Maio 1892, esta descrição: «uma cabeça de burrico lanzudo, Pensando no caso philosophicamente» - frase que bem podia ser aplicada o quadro que agora vemos. Ora, apenas a data, posterior a isto tudo, e mais de acordo com a apresentação no Salon de 1899, nos leva a supor que se trate de um estudo para O Catedrático. «Estudo» evidentemente, porque é suposto, como vimos, que o quadro que foi a Paris se tenha afundado.
Pode, no entanto, ser Pensando no caso e o estudo para O Catedrático ao mesmo tempo. Em tal hipótese, não seria a vez única que Malhoa faria marosca para levar a Paris quadros em reprise - o Salon exigia obras nunca antes vistas em lado algum, recordemos. E como veremos mais tarde, para levar a Paris (1902) o retrato da D. Teresa Pereira da Costa, já depois de apresentado com enorme êxito em Madrid (1901), o bom do Malhoa dirá «...que refiz quase por completo...» - vá lá a gente saber?! Pode por isso, neste caso, ter usado o quadro mostrado em 1892 como base para a nova pintura e só então o ter datado, e ao novo dado o doutoramento...
Eis pois as razões de ser apenas «bem capaz».
Mas esteja o bicho Pensando no caso, c.1892, ou seja o estudo para O Catedrático, c.1898, ou ambos ao mesmo tempo, dúvidas não há que estamos perante um verdadeiro intelectual!
[6] em adenda, 13 Jul 2014 - Dizemos «É bem capaz...» porque nisto não há certezas. Não fora o catálogo da L&N nos dizer que o óleo está datado de «1898» (e, sem ver o quadro ao vivo, nada temos que nos faça duvidar de tal leitura...), atendendo apenas ao tamanho da pintura e ao que a imagem nos mostra, a primeira ideia seria considerar este jerico como o protagonista do quadro apresentado na 2ª Exposição do Grémio Artístico, 1892, intitulado Pensando no caso. Pois, de acordo com o respectivo catálogo, tal quadro está assim referenciado: «101 - Pensando no caso - 40x32 - 36$000». De imediato nos chama a atenção o facto de as dimensões serem praticamente as mesmas!? E, procurando um pouco mais sobre isto, lendo o que nos diz quem o terá visto, encontramos na crónica de «João Sincero», n'O Occidente de 11 Maio 1892, esta descrição: «uma cabeça de burrico lanzudo, Pensando no caso philosophicamente» - frase que bem podia ser aplicada o quadro que agora vemos. Ora, apenas a data, posterior a isto tudo, e mais de acordo com a apresentação no Salon de 1899, nos leva a supor que se trate de um estudo para O Catedrático. «Estudo» evidentemente, porque é suposto, como vimos, que o quadro que foi a Paris se tenha afundado.
Pode, no entanto, ser Pensando no caso e o estudo para O Catedrático ao mesmo tempo. Em tal hipótese, não seria a vez única que Malhoa faria marosca para levar a Paris quadros em reprise - o Salon exigia obras nunca antes vistas em lado algum, recordemos. E como veremos mais tarde, para levar a Paris (1902) o retrato da D. Teresa Pereira da Costa, já depois de apresentado com enorme êxito em Madrid (1901), o bom do Malhoa dirá «...que refiz quase por completo...» - vá lá a gente saber?! Pode por isso, neste caso, ter usado o quadro mostrado em 1892 como base para a nova pintura e só então o ter datado, e ao novo dado o doutoramento...
Eis pois as razões de ser apenas «bem capaz».
Mas esteja o bicho Pensando no caso, c.1892, ou seja o estudo para O Catedrático, c.1898, ou ambos ao mesmo tempo, dúvidas não há que estamos perante um verdadeiro intelectual!
[7] Reprodução da gravura constante de Exposição de Quadros Modernos | Catalogo
Illustrado | Publicado por: | Alberto
d’Oliveira | Lisboa | 1881. Exemplar nº17, em papel velino, [1ª edição].
Por isto esta gravura poderá parecer diferente do habitual. É - não tem a legenda nem o defeito no focinho da alimária.
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