Corria o ano de 1904, o mês
era Março.
Malhoa andava atarefado com
as obras da nova casa na Av. António Maria d’Avelar. Dias antes havia anotado,
no seu livro pessoal de «Receita e Despeza», o pagamento à Câmara Municipal de
Lisboa do «resto da importância porque me vendeu o terreno da rua Pinheiro
Chagas», mais os selos e emolumentos da praxe – uma quantia calada.
No primaveril dia 21, Malhoa
assenta o seguinte:
«Comprei
na Liquidadora (Liborio):
1
Sofá e 12 Cadeiras em pau santo – 300$000
1
Commoda antiga com ferragens – 170$000
1
Contador – 50$000
1
Mobilia de quarto de Cama e toillete – 280$000
Comprei
na Liquidadora um busto João de Deus – 1$100
2
Quadros com desenhos – 2$800
1
Sofá estofado (genero persa) - 10$000
1
Cadeira antiga (de braços) – 6$000
2
Almofadões (genero persa) – 1$600
1
bufete – 18$500»
Alguns destes objectos são
ainda hoje possíveis de identificar com razoável certeza: O contador e o bufete,
muito provavelmente este e mais este [1], farão parte do espólio do
Museu José Malhoa nas Caldas da Raínha.

A cadeira de braços, D. João V ou D. José, acabará registada num dos seus quadros – em O Descanso do Modelo, c.1913, pintado já no novo atelier, lá a podemos encontrar – Malhoa retratou-a para a posteridade.
A Empreza Liquidadora, de
José dos Santos Libório, dará origem à Leiria & Nascimento, e esta tem
actualmente continuidade na World Legend. Uma história longa e simpática ligada aos leilões
e ao mercado da arte.
Fica a nota, assinalando os cento e trinta anos de vida da WL [2], e algumas das peças que Malhoa ali comprou no longínquo ano de 1904.
11 Dez. 2012. LBG
[1] Há
um outro bufete que também era de Malhoa. Mas, pelo preço e pela similitude com o contador, o então comprado na Liquidadora deverá ser
aquele.
Trata-se,
por certo, de mobiliário proveniente do atelier de Lisboa e não, como referido
no historial da matriznet, «provenientes
do atelier do Mestre Malhoa em Figueiró dos Vinhos». Logo, pelo seu carácter
claramente mais citadino em oposição ao mobiliário mais ligeiro existente no
«Casulo» - veja-se, aqui e aqui, a mesa da casa de jantar, mandada executar por
Malhoa ao carpinteiro Joaquim Granada aquando das obras de ampliação do «Casulo»
(1898-1901) e que até há alguns anos havia miraculosamente sobrevivido in loco. Depois, porque posso garantir que o Senhor Luiz Pinto,
talvez ao contrário de outros, não tinha por hábito doar o que lhe não
pertenceria… e o que Luiz Pinto doou para o museu foram coisas do atelier de
Lisboa (as que doou e as que outros por ele doaram).
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ResponderEliminarExmº Senhor (Deduzo eu, apenas pelo duplo uso do masculino na sua missiva. Não que faça qualquer descriminação de género. Mas, para responder ao que me pergunta, como julgo que pretende, convenhamos, é pouco, muito pouco…)
EliminarDiz-me que está fazendo um «doutorado comparativo» no Brasil onde aborda a obra de Malhoa. Ainda bem. E desejo-lhe os maiores sucessos. (Mas, compreenda, «doutorados» desses, ao que vou sabendo, entre cá e lá, será o enésimo. E o Brasil, onde tenho bons amigos, alguns em diferentes universidades, é um país tão grande… Não estará à espera que eu, apenas com isso, fique deslumbrado. Continua a ser pouco…)
Diz também que andou por diversos arquivos, «de Alpiarça a Figueiró, do Porto a Lisboa». (Aqui, francamente, interrogo-me sobre que misterioso «arquivo» terá conseguido consultar em Figueiró dos Vinhos!? Mas, enfim…)
E às Caldas da Rainha, foi? Não foi ao museu que tem o nome de José Malhoa, ele mesmo?! (Pois é ali que está grande parte do espólio do Artista – da pintura ao desenho; dos caderninhos de esboços e apontamentos, aos livros de “coupures” com os recortes das notícias de imprensa que Malhoa meticulosamente guardou; fotografias e diversos papéis; a paleta e o cavalete do atelier lisboeta; e até, como refiro acima, peças da mobília de casa… E é lá, nas Caldas, que também encontra boa parte da correspondência de Malhoa, designadamente com Augusto Gama ou Alberto Rego. Além de uma biblioteca temática.) Pretende ajuda, quer um conselho? Se não foi, e antes de qualquer outra coisa, é ali que terá de ir.
Agora, sobre a questão, sobre o tal livro. Como já deve ter percebido, também pouco lhe posso adiantar: que faz parte dum espólio privado e que não é acessível. É isto.
LBG.
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