sábado, 22 de dezembro de 2012

Malhoa e os "Salons" de Paris (I)

De 1897 a (quase) 1913.
Com oleiros, padeiros, barbeiros, cavaleiros, seareiros, adegueiros... (e alguns sapateiros)



No ano de 1897, Malhoa inaugura as suas participações nos Salons parisienses da Société des Artistes Français - desiderato final dos artistas ao tempo. Tais participações serão contínuas até 1912 - salvo o ano de 1910, em que O Fado perdeu o combóio [1] e ficou à espera mais dois anos. Depois, em 1913, sem remédio, desapontado, Malhoa, terá percebido que já não era o seu tempo e acabou com aquilo…

Nestas quinze participações quais foram, afinal, as obras que Malhoa criteriosamente escolheu para o representar nos mais importantes certames da época? Quais, afinal, os quadros aceites pelos exigentes júris de admissão – ou julgam que era mandar uma coisa qualquer e os franceses logo a penduravam na parede? Que pinturas foram essas?
A maior parte, sabê-las-emos de cor – Os oleiros (mas quais?), As papas, A volta da romaria, O barbeiro na aldeia, A procissão, As cócegas, Os bêbados e, claro, O Fado (o tal) - Ah!... e mais uns RetratosPois sim! Mas quais, e será que os sabemos todos? Não será que andam por aí algumas coisas trocadas, outras miseravelmente ignoradas ou esquecidas? Fazer a história das vinte e uma obras que Malhoa mostrou nos Salons, enumerá-las, mostrar-lhes a cara – na medida do possível – eis tarefa a que agora nos propomos. Essas, e mais umas que de algum modo as acompanharam, e as que bateram com o nariz na porta. Afinal, sempre deverão ser algumas das “mais significativas obras do Mestre” – como gostam de dizer.
Como calcularão, vai demorar algum tempo – «depressa e bem, não há quem». É coisa para se ir fazendo aos poucos. Como de costume: provocando e «…arranhando sempre». Fica o convite para irem acompanhando. Pode ser que haja algumas surpresas…


Comecemos pelo princípio.
Para a primeira meia dúzia de participações e para as primeiras onze obras, temos um auxiliar precioso - o artigo, já aqui citado, de The Studio, publicado em 1905 – o tal que, digo eu, toda a gente gosta de referir e, parece, ninguém leu… ou não se escreveria tanta asneira. Aqui fica, mais uma vez, agora o parágrafo completo que se refere ao presente assunto, na língua de Shakespeare, e com mais umas notas minhas. Curto e grosso. Tem lá tudinho. Sem muitos rodeios, à velha maneira britânica [2]. Façam, pois, a fineza.


«(...)   Since 1897 Malhôa has annually taken part in the exhibitions of the Société des Artistes Français. He made an excellent débût there with a woman’s portrait and The Potters [3]. The latter afterwards obtained the gold medal at the Exhibition of 1900 [4]. In 1898 he exhibited Gruel and In the Bakehouse [5]. The former is a group of old beggar women; the latter is in his own special genre – the “genre Malhôa,” as it is called in Portugal. We are shown peasant-women of Minho [6] in their motley garb, busy making bread. The Lecturer and The Priest of Constance [7] were exhibited in 1899, and The Portrait of the Countess of Mossamedes [8] in 1900. The Return from the Fête [9], honourably mentioned at the Salon of 1901, is remarkable for truth and character; those who know the strong effects of colouring in the land of sunshine will recognise that there is no exaggeration of its brilliancy. The Man in the Hood [10], also of 1901, is one of the most striking of the master’s works; to prevent its leaving the country it was acquired by a group of artists and amateurs, who presented it to the nation for the National Museum. The Village Barber and the Portrait of a Woman [11] (which had obtained a medal at Madrid) were exhibited in 1902. The former is another rural scene: the village Figaro, who visits the hamlets on Sunday morning, is shaving a peasant under the shade of a chestnut-tree, while the others who are waiting for their turn form a admirably group. The transparent blue of the sky is as noteworthy as is the rest of this fresh, robust, and wholesome painting. (...)»   
                                                                                    
R.S. in The Studio. London, Aug. 15, 1905, vol.35. nº149. p.246


         Logo iremos debruçar-nos sobre cada um destes certames. Até lá.


22 Dez. 2012. LBG



[1] Veja-se o que escreve Matilde Tomaz do Couto in Malhoa e Bordalo…, p.21. (quando chegar a altura, logo aqui voltaremos)

[2] Claro que a “escola francesa” é sempre mais apelativa, brilhante mesmo! Mas, às vezes, o eloquente brilhantismo formal oculta alguma ligeireza de conteúdo, a erudição estonteante das ideias possibilita que alguns aspectos pouco criteriosos ou apenas plausíveis se transformem em factos verdadeiros, trocas e baldrocas diluem-se em magnífica prosa que gulosamente sorvemos. O problema só surge quando nos servem francesinhas já com pouco molho – aí, torna-se mais difícil engolir o escalope...

[3] Trata-se de Portrait de M.me L… / Retrato de M.me L (Dona Teresa Leal),1896, e Les potiers / Os oleiros, c.1897 (na versão maior, já desaparecida).

[4]  Refere-se à Exposição Universal de Paris, 1900, onde Os Oleiros (os mesmos e não outros) voltaram para a sua derradeira exibição, naufragando na viagem de regresso.

[5] Trata-se de La bouillie / As papas, 1898 (a versão grande, como é evidente), e de Au four; costumes du Minho (Portugal) / No forno, 1897.

[6]  … a crer na precisão geográfica do título. Embora, muito possivelmente, tenha sido tomado ali nas Bairradas, ao termo de Figueiró…

[7] Trata-se de Le cathédratique / O Catedrático e de Portrait de M. le curé de Coustanaix, Joô Alvès de Meira [sic – assim mesmo e não de outro modo qualquer – que até a transcrever há tendência em aldrabar…] / Retrato do Prior de Constância. Ambos, igualmente e nas mesmas circunstâncias, desaparecidos posteriormente no naufrágio do vapor Saint-André.
Tal como À passagem do combóio (na sua versão inicial), A corar a roupa (idem) e Os oleiros (o referido na nota 4). Perderam-se assim cinco das seis telas que JM enviou à Exposição Universal de Paris 1900.

[8] Trata-se do «retrato Cond.ª Mossamedes» (assim anotado por Malhoa no seu exemplar do catálogo do Salon de 1900) / Retrato da Ex.mª Sr.ª Condessa de Mossamedes, 1899.
Registe-se mais esta fonte que contraria um engano de 1983, transformado em asneira sucessivamente repetida, e que coloca no Salon de 1900, não se percebe bem porquê e de novo, As papas, como se servidas em dose requentada.
Nunca ninguém se interrogou como raio poderia um quadro ter uma representação em reprise no Salon parisiense? A resposta está e sempre aqui esteve, à vista de toda a gente… E confirma-a a referida anotação pessoal de Malhoa.

[9]  Trata-se de Le retour de la fête / A volta da romaria, 1901. E que valeu a JM a Menção Honrosa no Salon.

[10]  Trata-se de L’homme au capuchon / O homem do gorro / Retrato do fotógrafo António Novais, 1901.
Note-se a referência à movimentação de artistas e amadores para a sua oferta ao Museu Nacional – tal, mais uma vez e para quem queira ver, confirma que se trata de um só e do mesmo quadro… O catálogo de 1928 e as fotos da respectiva exposição dão-nos a prova dos nove. A real, é-nos dada pelo próprio Malhoa, em anotação pessoal já aqui citada…

[11] Trata-se de Le barbier du village / O barbeiro na aldeia, 1902, e de Portrait de Mme C… / Retrato da Ex.mª Sr.ª P. da C. (Dona Teresa Pereira da Costa), 1900 (?).

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A Liquidadora do Libório

“By Appointment to Malhoa, since 1904”


Corria o ano de 1904, o mês era Março.
Malhoa andava atarefado com as obras da nova casa na Av. António Maria d’Avelar. Dias antes havia anotado, no seu livro pessoal de «Receita e Despeza», o pagamento à Câmara Municipal de Lisboa do «resto da importância porque me vendeu o terreno da rua Pinheiro Chagas», mais os selos e emolumentos da praxe – uma quantia calada.



No primaveril dia 21, Malhoa assenta o seguinte:
«Comprei na Liquidadora (Liborio):
1 Sofá e 12 Cadeiras em pau santo – 300$000
1 Commoda antiga com ferragens – 170$000
1 Contador – 50$000
1 Mobilia de quarto de Cama e toillete – 280$000
Comprei na Liquidadora um busto João de Deus – 1$100
2 Quadros com desenhos – 2$800
1 Sofá estofado (genero persa) - 10$000
1 Cadeira antiga (de braços) – 6$000
2 Almofadões (genero persa) – 1$600
1 bufete – 18$500»



Trata-se, sem qualquer dúvida, de coisas destinadas à casa nova que em breve iria estrear.
Alguns destes objectos são ainda hoje possíveis de identificar com razoável certeza: O contador e o bufete, muito provavelmente este e mais este [1],  farão parte do espólio do Museu José Malhoa nas Caldas da Raínha.

         
  A cadeira de braços, D. João V ou D. José, acabará registada num dos seus quadros – em O Descanso do Modelo, c.1913, pintado já no novo atelier, lá a podemos encontrar – Malhoa retratou-a para a posteridade.






          O busto de João de Deus, em terracota, da autoria de Costa Motta e datado de 1895, tal como os almofadões, são outros dos objectos comprados na Liquidadora que José Malhoa conservará consigo até ao fim da vida.


A Empreza Liquidadora, de José dos Santos Libório, dará origem à Leiria & Nascimento, e esta tem actualmente continuidade na World Legend. Uma história longa e simpática ligada aos leilões e ao mercado da arte.

Fica a nota, assinalando os cento e trinta anos de vida da WL [2], e algumas das peças que Malhoa ali comprou no longínquo ano de 1904.

11 Dez. 2012. LBG



[1]  Há um outro bufete que também era de Malhoa. Mas, pelo preço e pela similitude com o contador, o então comprado na Liquidadora deverá ser aquele.
Trata-se, por certo, de mobiliário proveniente do atelier de Lisboa e não, como referido no historial da matriznet, «provenientes do atelier do Mestre Malhoa em Figueiró dos Vinhos». Logo, pelo seu carácter claramente mais citadino em oposição ao mobiliário mais ligeiro existente no «Casulo» - veja-se, aqui e aqui, a mesa da casa de jantar, mandada executar por Malhoa ao carpinteiro Joaquim Granada aquando das obras de ampliação do «Casulo» (1898-1901) e que até há alguns anos havia miraculosamente sobrevivido in loco. Depois, porque posso garantir que o Senhor Luiz Pinto, talvez ao contrário de outros, não tinha por hábito doar o que lhe não pertenceria… e o que Luiz Pinto doou para o museu foram coisas do atelier de Lisboa (as que doou e as que outros por ele doaram).
[2]  World Legend que, entretanto, fechou portas. É por isso que o link deixou também de funcionar (18 Fev.2019)








quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Parabéns à prima!


Acabo de fazer para cima de quatrocentos quilómetros. Por razões de consciência. E para o ver.
Vi-o. Soberbo. E a soberba dele. Um dos grandes retratos que Malhoa pintou. Sem dúvida alguma.
Conversámos. A princípio a medo – sempre é um antepassado e não o via vai para meio século – e o respeitinho é de bom tom. Depois, tu cá tu lá, que pela escrita conhecemo-nos de ginjeira.
 
J.Malhoa. Cabeça d’estudo [retrato de M.H.Pinto], 1902.
a. d. | óleo s/ madeira | 44x37 | c.p.
3ª Exposição da SNBA, 1903. nºcat. 99.
Foto: Pedro Aboim Borges
 
Mirei-o, virei-o do avesso. Como desconfiava, é uma tábua. E das boas. Daquelas com rebaixo e tudo para não mais empenarem, com um grande carimbo do «Paul Denis, Succ.r». Parece nova, importada de França há cento e dez anos. A moldura, mais afanada, ainda tem o selo do Manuel João, o dourador…
Contei-lhe a estória do «Sr.P-da-não-sei-quantas». Sem desmanchar a pose arrogante, piscou-me o olho, encolheu os ombros e terá murmurado – Deixá-lo…
Lá o deixei. E com a certeza que daquela coisa safa-se a foto. Por isso, aqui fica de novo.

Ah! E manda beijinhos!

 

6 Dez. 2012. LBG.

 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O «Crepúsculo» da Dona Amélia (c.1892)

... e a teoria da batata.

 
Prometido é devido. Disse há dias que aqui traria o quadro de JMalhoa, Crepúsculo, c.1892, comprado pela Rainha Dona Amélia na 2ª Exposição do Grémio Artístico. Trata-se de um quadro quase desconhecido. Tem-se dele notícia pelos jornais da época, pelo catálogo da mostra e pouco mais. Que se saiba, nunca ninguém no nosso tempo lhe terá visto a cara… quando dele se fala é por ouvir dizer – lendo, claro está.
Pois aqui vai. Em foto antiga, a preto e branco – sépia, para ser mais preciso - que não deverá haver outra. Dá para ver a assinatura: «José Malhôa» - ainda aquela, a dessa altura – e não se lhe descortina data – ou porque não datado, o mais natural, ou porque a foto a cortou.


E, já agora, vai também a foto [1] do mesmo quadro dependurado nos aposentos de Sua Majestade a Rainha, numa câmara do Palácio das Necessidades,  meia dúzia de anos depois de adquirido. Lá está ele, por detrás da chaise-longue da Dona Amélia, junto ao friso do tecto, nos seus dois metros de largo.



Este é um daqueles quadros das colecções reais a que se perdeu o rasto - tal como A caça dos taralhões, c.1891, de MHPinto, comprado no ano anterior pelo Rei. Que se saiba, não está inventariado em qualquer colecção nacional. E, ou saiu do país, ou se perdeu definitivamente, ou jaz esquecido nalgum buraco de um ministério ou repartição. Pode ser que algum velho contínuo lhe conheça o paradeiro…
De palpável, hoje em dia, somente um estudo – esta pequena tábua, 12x22,5, da antiga colecção AC – Borralheira, c.1890. Sem muitas dúvidas, um belo estudo preparatório para este mesmo quadro.



Sobre o quadro, toda a crítica de então, mais preocupada com O último interrogatório do marquês de Pombal, é parca em descrições e comentários. Dele, João Sincero [2] limita-se a uma pequenina referência: «… a Rega dos alfobres, também de aspecto muito agradavel, assim como o Crepusculo, tira o seu effeito do contraste da luz e da sombra, muito predilecto do artista...». E Fialho d’Almeida [3] presenteia-o com o já anteriormente citado «… e quanto ao Crepusculo, é um pot-pourri do Angelus de Millet, com menos uncção religiosa, e mais batatas».
E, só por isto, vale bem a pena mostrar aqui também o quadro de Jean-François Millet (1814-1875), Angelus, c.1857/59 – os camponeses não tocam viola, mas colhem batatas…  


Voltando à crítica da época. Ribeiro Artur [4], na sua crónica que parece em grande parte decalcada da do Fialho, dá a este quadro algum destaque e esclarece-nos melhor: «É explendido o seu – Crepusculo -. Desce o véu da noite, a penumbra esfuma os objectos. Á direita uns clarões afogueados do occaso, á esquerda um pequeno arbusto torcido quebra a monotonia do horisonte. Dois aldeões no primeiro plano apanham as ultimas batatas. N’um carreiro tortuoso uma figurita, ao longe, tambem curvada sobre o solo. São justos os tons, e a melancolia da hora espalha uma uncção tocante; esquece se a gente a ver os pennachos de fumo esbranquiçado que sobem de umas fogueirinhas e são brandamente levados pela aragem». 
Não haja dúvida alguma que falamos da mesmíssima coisa! 


Depois disto as referências são esparsas, imprecisas e pouco mais adiantam que alguma confusão entre género e paisagem, que falam de ouvir falar. É pois coisa que pouco interessa.


Aqui fica também a folhinha do Catalogo Illustrado da Exposição de Bellas Artes promovida pelo Gremio Artistico em 1892, com as quatorze obras que JMalhoa ali levou. Com o texto de Pinheiro Chagas inspirador do quadro do Marquês, e os nºs de catálogo, títulos, medidas e preços do Crepusculo e dos outros quadros todos.




Por outro lado, consultando o Annuario do Gremio Artistico relativo a 1893-94 [5], confirmamos a compra Real: «Malhôa (J.) - Crepusculo – 200x140 – 500$000 réis. A Sua Magestade a Rainha». Ficamos também a saber que, nesse mesmo ano de 1892, Malhoa, dos 14 quadros expostos, apenas vendeu mais dois - Pensando no caso e As aboboras - a G. Gerosch e G. R. respectivamente, e pelos valores de catálogo.
E, já que estamos com a mão na massa, vasculhemos o resto e verifiquemos os outros resultados comerciais. Na 1ª Exposição, a do ano anterior, a venda limitou-se a Noé e Preciosa, comprado por António Cambiaso, por 180$000 reis [6], afinal o único que tinha para vender. Na 3ª Exposição, em 1893, Malhoa despacha os três quadros vendáveis: Ao toque das Trindades, por 300$000, ao Conde do Alto Mearim; Á missa das seis, que custou mais 200$000 à Rainha; e Os curiosos, pelo qual o Conde de Proença-a-Velha deu 135$000. E, finalmente quanto ao que neste Anuário é possível saber, em 1894, na 4ª Exposição, as vendas na mostra reduzem-se a um simples Pastel, Estudo, que rendeu 67$500 pagos de novo pelo Conde do Alto Mearim. Nessa mostra os dois Nús eram caríssimos  - e um deles foi directo à Academia - e, para vender, sobraram Os Ouriços que no Brasil haviam de ter destino...
 Claro que haveria mais as vendas em atelier, os Retratos e alguns outros quadros que às Exposições iam já com dono, os trabalhos de decoração em edifícios públicos e privados… e O último interrogatório do Marquês de Pombal que, depois da desilusão, Malhoa irá pôr as discípulas todas a pagar – mas isso é uma outra história, e para vermos mais tarde.


5 Dez. 2012. LBG.



...Mais umas quantas batatas...

            A vida tem destas coisas: volta e meia aparece-nos diante dos olhos o que antes não viramos e devíamos ter visto. Estava agora mesmo a dar uma vista de olhos a um catálogo praticamente esquecido, um daqueles a que ninguém liga, um que nunca é referido, e surpreendo-me! Não quis deixar de partilhar aqui.

Trata-se do catálogo da Exposição Nacional do Centenário de José Malhoa (1955), exposição que teve lugar, a crer no que ali está escrito, entre 15 de Maio e 15 de Setembro de 1955, no então «Museu Provincial de José Malhoa», nas Caldas da Raínha. É um livrinho que vale sobretudo pela meia dúzia de magníficas reproduções, a preto e branco, de pormenores de outros tantos dos mais conhecidos quadros de JMalhoa – e a gente perde-se a olhar para elas e esquece o resto. Ora o resto, lido bem lido, evitaria alguns “erros e omissões” que infelizmente persistem por aí. Não cabe agora tratar disso, fiquemos pelas “batatas da D. Amélia [7] ”.

Ora, surpreendentemente, podemos ali ler: «168 – Colhendo Batatas ao Entardecer – José Malhoa | Alt. 1400 x Larg. 2000 T. [tela] | Pertence a Sua Alteza Real a Infanta D. Luísa d’Orleans depositado no Museu Provincial de Belas Artes de Sevilha».
Não devem ficar muitas dúvidas de que se trata da mesma tela – renomeada como soía, com as mesmas dimensões e na posse de uma familiar da inicial compradora. Ficamos assim a saber que o Crepúsculo, c.1892, voltou por uns meses a Portugal nesse ano de 1955.

Se está ou não ainda em Sevilha, não sabemos. Por coincidência, faz pouco mais de um mês, estive no dito Museu – à vista não está, e como só agora soube, também não perguntei por ele. 


9 Jun. 2014. LBG


...ainda umas batatas (agora mais requentadas)

           Passou-me agora pela vista mais um registo que tem a ver com esta nossa velha conversa. Trata-se de mais uma fotografia do «Gabinete particular de S.M. a Rainha» no Palácio das Necessidades, desta vez publicada em 1904 [8]. E cá temos ainda o "nosso" Crepúsculo, c.1892, a espreitar por de trás do reposteiro. 


           A sala é a mesma, vista agora de um outro ângulo, mas quase imutável. Contudo, cinco anos passados, notam-se pequenas diferenças (deixo esse exercício para entretém dos leitores). O Crepúsculo, esse, baixou uns dois palmos... 

10 Jan. 2017. LBG




[1]  In Brasil-Portugal, nº13, 1 Agosto 1899, p.13.
[2]  (Emigdio de Brito Monteiro) in Occidente, nº482, 11 Maio 1892, p.107.
[3]  In Os Gatos, vol.V, folhetim de 14 Março 1892.
[4]  In Arte e Artistas Contemporaneos. Livraria Ferin, Lisboa, 1896, p.196, 197 – A segunda exposição do Gremio Artistico.
No mesmo livro, no artigo sobre José Malhoa, a p.130, Bartholomeu Sezinando Ribeiro Arthur refere o Crepusculo como exposto em 1893. Como é obvio, enganou-se. E leva outros ao engano…
[5]  Annuario do Gremio Artistico relativo a 1893-94. Typographia Franco-Portugueza. Lisboa, 1895. p.47.
[6] «18$000 réis» segundo o Anuário, p.42, o que deve ser engano, pois o preço de catálogo eram os 180$000.
[7] D. Amélia, evidentemente. 
Porque, dá-se o caso, noutros quadros de JMalhoa com a indicação coeva de «adquirido por S.M. a Rainha», tal ser trapalhadamente “traduzido” por «Historial: Raínha D. Amélia (1885)» - sem cuidar de perceber que em tal data a dita Senhora nem era Raínha, nem havia sequer chegado à Pampilhosa a fim de ser recebida pelas autoridades portuguesas antes do casamento com o então Príncipe D. Carlos... 
A Raínha (que também comprava quadros de Malhoa) era então a Senhora D. Maria Pia de Sabóia… Vem nos livros.
[8]  In Illustração Portugueza, nº48, 3 Outubro 1904.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Uma viagem por Tomar

Dois postais e uma estória…



             Em 10 de Abril de 1892, José Malhoa faz mais uma das suas habituais viagens até Figueiró dos Vinhos. Desta, como de mais algumas outras, deixou-nos o registo do itinerário. Em dois cartões de viagem, 205x125mm, quase em banda desenhada. Estes foram resgatados há muito pouco tempo. Seremos os primeiros a vê-los, ao fim de muitos anos.
 
            Sigamos pois a estória. Que tem título e tudo:

«Viagem a Figueiró dos Vinhos (de Lisbôa a Payalvo) 10 Abril 92»

Apanhado o combóio a vapor na novíssima Estação do Rocio, inaugurada havia menos de um ano, talvez, ou então na mais antiga de Santa Apolónia, a viagem começou.

Para trás Malhoa deixava os quatorze quadros expostos no segundo salão do Grémio, entre os quais os 16,5 m2 de O último interrogatório do marquês de Pombal, o tal, sobre o qual já Fialho havia escrito [1] «atirou-lhe pr’a cima uma prodigiosa quantidade de tintas, de côres varias...» e desancado até ao fim, não por falta de arte «…ha nesse quadro uma riqueza de seiva que faz honra a Malhôa, e nos demonstra estar elle completamente senhor do métier», mas por grande incómodo e incompreensão da cena. Uma visão jacobina da crítica contra a alegada «beatice» de um Malhoa «jesuíta», então a levar por tabela, convém lembrar.
E ainda faltava o João Sincero, que havia de verborrear pela mesma medida, dali a dez dias, no Occidente
Malhoa já sabia, ou já adivinhava – com todas aquelas tretas, vão mas é dar a medalha à Barca do Porto… se ainda fosse ao estudo, mas àquele cartaz litográfico?!… e tanto trabalhinho me deu, o raio do Marquez… - devia estar a pensar. Malhoa estava chateado, claro que estava chateado.
Ir para Figueiró pintar, seria um bálsamo. E estava no início a Primavera…

Para passar o tempo, na longa jornada até Tomar – a primeira etapa da viagem -, nada melhor que puxar do lápis e do carnet.

Logo à saída de Lisboa, na junção da linha de cintura com a de Stº Apolónia, o Poço do Bispo tem direito ao primeiro apontamento – um regador de lata. Nos Olivais é um tronco de árvore retorcido, alguma oliveira talvez, o que mereceu atenção. Segue-se Sacavém, onde o lápis rabisca uns zingarelhos ferroviários à beira da linha. Dois tipos de barrete e longas suíças são apanhados na estação da Póvoa. Em Alverca o registo é impreciso. E na Alhandra, novo personagem de barrete é rapidamente apontado.
 
Para aumentar, pressionar sobre a imagem.

Malhoa deve ter acalmado ou passado pelas brasas. Só em Santana («Stª Anna» na grafia da época), perto do Cartaxo e Vila Chã d’Ourique, é que o lápis risca de novo. Mercadorias junto ao cais, um edifício e o que parecem ser mastros de umas fragatas… Ali? longe do Tejo, já em plena lezíria? – interrogamo-nos hoje - talvez que, há cento e vinte anos, por ali ainda houvesse alguma vala navegável... Isso, ou troca na legenda. Adiante. Dali a Santarém é um pulinho. Um vagão carregado de palha começa a ser esboçado… mas o “nosso” apitou e lá abalou. Segue-se Vale de Figueira – com mais um barrete, este bem ribatejano – e Mato Miranda, já perto do Paúl do Boquílobo, onde um barco ribeirinho adorna em terra, junto a uma cancela.

Ainda falta um bom bocado para Paialvo. Mas, agora, são longas as rectas até Riachos, Entroncamento e Lamarosa. E, ou o novo cartão se perdeu, ou já ficou desenhado tudo o que era para desenhar.

Chegado a Paialvo, algum «carro do Campião» o terá levado até Tomar. Então os solavancos do trote das cavalgaduras pela estrada esburacada é que rabiscos no papel impediram.

Por certo em Tomar haveria de ficar essa noite. Em casa do Pinto, ora bem. No dia seguinte, ou noutro qualquer, logo teria diligência que o levasse, serra acima, até Figueiró… Abraços ao «Manel», cumprimentos à mulher, beijinhos aos pequenos. Muita conversa e todas as novidades.
 

           Ainda nesse mesmo dia, talvez enquanto esperava que M.H.Pinto desse umas quantas lições, mais um desenhito junto à Ponte Velha - «Margens do Nabão, Thomar. 10 Abil 92». Os salgueiros, os choupos, os chorões deviam estar lindos, todos a rebentar... E mais um lampião, uma chaminé e outra coisa qualquer…

Figueiró podia esperar.

 
1 Dez. 2012. LBG



[1] Disto falaremos para a próxima… com as batatas de Sua Majestade.