quinta-feira, 19 de abril de 2012

Provocando, 1905

Provocando, 1905, é um quadro de José Malhoa, um retrato de Manuel Henrique Pinto.

É um quadro muito curioso, envolto nalgum mistério. Tal como o retratado, anda perdido, meio esquecido, e quando se escreve sobre ele normalmente sai asneira. Bom, pois, para começar estas notas.

Assinado e datado de 1905, não consta ter sido alguma vez exposto em Portugal. Contudo, por essa altura, algumas referências e reproduções suas aparecem na imprensa, mormente em artigos relacionados com a grande exposição que Malhoa se preparava para levar ao Rio de Janeiro no ano seguinte. Acontecimento único que merece visitas Reais, nas vésperas do embarque, aos quadros ainda no atelier do Pintor, e prosa solene de Ramalho Ortigão, outro dos que também ali vão patrocinar a nova viagem cabralina a Terras de Vera-Cruz.

Entre as cento e doze obras que constam do Catálogo da Exposição do Rio de Janeiro, 1906, Provocando é o nº 30 e abre a série de dezassete fotos que ali são reproduzidas.

O rol tem ordem estabelecida e é encimado, como manda o figurino, pelo Retrato de Sua Majestade El-Rei D. Carlos I e pelo Retrato de Sua Majestade a Rainha Senhora D. Amélia, seguem-se as Cócegas (Salon Paris 1905), O sonho do Infante – (O Infante D. Henrique no promontório de Sagres) e por aí fora… Hoje em dia, parece que já não há respeito e tal lista aparece numa bagunça - depois, enganam-se e enganam-nos…

Nada sabemos sobre as dimensões ou o suporte de Provocando. Algumas crónicas de 1906 falam de um quadro pequeno, «um quadrinho de palmo», tal faz supor que assim seja e se trate de uma pequena tábua.

A última notícia credível que dele se tem data de 1906, na tal exposição individual no Rio. Pelo seu próprio punho, Malhoa deixou a seguinte nota manuscrita: «Junho 29 – Exposição no Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro – Preço porque vendi os quadros em moeda brazileira – (…) 30 - Provocando (£ 200) Eduardo P. Guinle 2.844$700», mais à frente refere que ao mesmo Guinle vendeu o «27 - Viúvo! por 1.000$000».

E de S. Paulo directo para aqui, uma nota amiga que não resisto a transcrever:
«...os Guinle são uma família abastada do Rio de Janeiro, já foram muitíssimo ricos, elite famosa por suas festas e boa vida. Eduardo Pallasim Guinle foi o patriarca da família, que era concessionária do comércio do café no Porto de Santos, isto quer dizer que eram donos do monopólio do produto mais importante da virada do século no Brasil. Receberam a concessão da Princesa Isabel, provavelmente pelas relações com o Conde d'Eu. No século vinte, nos anos 40 e 50, foram conhecidos por serem donos do glamuroso Copacabana Palace, o hotel mais refinado do Rio de Janeiro. Viraram uma dessas famílias decadentes, mas ainda com prestígio e cultuadas nos meios da high society carioca. Tiveram um pintor na família, Jorge Guinle, morreu jovem nos anos 1980, ceifado pela praga da Aids infelizmente - muito bom artista. Não confundir com o playboy Jorginho Guinle, cujos feitos contam ter conquistado inúmeras atrizes como Rita Hayworth, Marilyn Monroe, Ava Gardner, Marlene Dietrich (o que duvido muito...)»

 
Provocando faz parte de uma série de retratos (ou serão “género” ?! – sobre tal assunto, e respectivos critérios “científicos”, lá iremos em próxima oportunidade…) série de retratos, dizia, que Malhoa pinta durante a primeira década do séc. XX, tomando como modelos alguns dos seus amigos mais chegados, e ao jeito dos clássicos que mais admirava. Chamemos-lhes antes um divertimento "RembrHalsista-Velazquista" (pois já se percebeu que a novel e renomada teoria Tenebrismo vs. Luminismo “vareia” consoante uma tela acaba de ser limpa ou a sua reprodução aparece com as cores mais avivadas …), diversão esta levada a sério, donde resultam belos retratos que Malhoa não hesita a levar aos principais salões internacionais.
L’Homme au Capuchon / O Homem do Gorro (Retrato do fotógrafo A. Novais), 1901, Cabeça de Estudo (Retrato de M. Henrique Pinto), 1902, Chevalier de Saint-Jacques / Cavaleiro de Sant’Iago (Retrato de A. Lobo da Silveira), 1904, Provocando (de novo um Retrato de M. Henrique Pinto), 1905 e, finalmente, o Retrato de Veríssimo José Baptista, 1910, são as pinturas mais significativas desta série de gorros, chapéus e golas seicentistas, iniciada talvez, ainda em 1895, com a dramática Cabeça de Velho (actualmente na CMAG) – muito provavelmente o Retrato de Francisco Jorge Pinto, o pai do inseparável Manel Henrique, aquando da sua morte.
Resta acrescentar, a esta história, o seguinte: todas as notícias posteriores a 1906, serão de muito duvidosa credibilidade.
Referências à participação deste quadro na Exposição Panamá-Pacífico de 1915, em S. Francisco da Califórnia; ou na Exposição de Homenagem a Malhoa de 1928, na SNBA em Lisboa; umas notas pomposas que lhe atribuem umas alegadas medidas de 80x70... etc., não passam de pura fantasia.


Acontece que em 1913 Malhoa pintará uma outra tela, actualmente no Museu Abade de Baçal em Bragança - A Provocante. Este novo quadro, que retrata uma jovem senhora, como o nome indica, em atitude provocante, cativou sobremaneira Cruz Magalhães, então grande amigo do Pintor.

Ora, Cruz Magalhães, além de ficar proprietário d' A Provocante, publica na Illustração Portugueza, logo em 1913, uns versinhos pífios sobre tal quadro intitulados «Provocando» - os versos, bem entendido!. 

Como é bom de ver, rapidamente A Provocante passou a «Provocando» - ademais com o outro, o original, "exilado" e perdido do lado de lá do Atlântico.
E, daí para cá, a confusão tem sido constante, levando ao engano os mais insuspeitos autores. Muito provavelmente o quadro que vai a S. Francisco já é o da rapariga, e o que estará presente em 1928 no salão da SNBA, na Exposição de Homenagem a José Malhoa - o tal com 80x70 - é, de certezinha, o da serigaita… há fotos (pode ver aqui) que o atestam.
Ainda hoje chamam «Provocando» a A Provocante,1914. Como se o outro – este que aqui recordamos - nunca tivesse existido.

Publicado originalmente em Dez. 2011. LBG.

A propósito de A Provocante: 1913 ou 1914 ?
duas notas e uma rectificação.

Vai para quatro anos, deixei aqui umas notas que hoje considero um bocadinho parvas. O tempo tem destas coisas, quanto mais não seja a gente vai aprendendo e, sabendo mais qualquer coisa, mudamos de opinião. Ficam portanto as notas, mas revistas e rectificadas.

A primeira nota baseava-se no facto de a Illustração Portugueza de 2 de Junho de 1913, a que no interior reproduz os versinhos de Cruz Magalhães, publicar na capa a foto de A Provocante.
Ora, se em meados de 1913 já fora fotografada para a revista, aparentemente prontinha e tão inspiradora da verve poética do Magalhães, tal quereria dizer que a pintura seria datável desse ano e não de 1914, como surge muitas vezes e sempre associada ao tal título abastardado. Acresce que, em várias publicações, tal quadro é dado como assinado mas «não datado»… Parecia-me assim óbvio que não só o título mas também a data seriam merecedores de contestação.
Acontece que recentemente voltei a ver o quadro com tempo e olhos de ver - está por estes dias no Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos. E para meu espanto, ou porque a iluminação é melhor ou porque o quadro foi objecto de uma limpeza, estes meus olhinhos viram, sob a assinatura de José Malhoa e distintamente, a data de «1914».
Pode, e será certo, que o quadro é obra de 1913, mas Malhoa assinou-o e datou-o de «1914».
E nisto, quando o Malhoa “fala”, eu abaixo as orelhas!
Seja pois A Provocante, 1914 – e não se fala mais nisso! Mas A Provocante, se fazem o favor!

A segunda nota era sobre a foto onde Malhoa desce as escadas, «de braços abertos, ao encontro do seu dedicado amigo Magalhães».
Levantava eu algumas dúvidas sobre esta fotografia, se seria ou não bastante anterior à data da referida publicação, e afirmava que, contrariamente ao escrito algures, aquilo não é «no Casulo»…

Sobre a data, hoje, vistas melhor as coisas, o mais natural é que seja próxima da publicação. Anterior, como é óbvio, mas nada indicia que não seja dessa época em que Magalhães mais se insinuou junto de Malhoa.
Agora, quanto aquilo ser «no Casulo», santa paciência! - quem tal escreve ou percebe pouco disto ou anda muito distraído…
As escadas fotografadas são as das traseiras da Av. António Maria de Avelar, hoje 5 de Outubro, e que já não existem. São as escadas que davam directamente para a Sala de Jantar, as que, viradas a Sul, tinham melhor luz para fotografar…
Dizer que são «as do Casulo» é, no mínimo, ligeireza.


Dez. 2015. LBG



2 comentários:

  1. Para uso numa fugaz curiosidade, informo-o que as suas palavras adornadas de uma paixão pela ARTE e o conhecimento tão vasto destas personagens esquecidas da nossa História da Arte obrigaram-me a permanecer no seu blogue horas infinitas! Cheguei até aqui porque procurava a data do retrato que Marques de Oliveira fez de Soares dos Reis...levo muito mais do que isso, muito obrigada! Também sou uma admiradora de José Malhoa, mas no nível dos iniciados.

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    1. Ainda bem que servi para alguma coisa! Obrigado pelas amáveis palavras. Volte sempre...

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